quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O dia comum e o grupo no WhatsApp


Todo dia pela manhã abro o WhatsApp (aquela rede social) daquele grupo e tem vários "Bom Dia". Alguns com mensagens com votos de felicidade e dicas do bem viver.
Hoje nem abri. É a mesma coisa dita de forma diferente, repetida.
Deixo o celular de lado, vou levantar pra tomar café com leite, aipim, batata doce e queijo branco. Tenho me esforçado para abandonar meu caso de amor eterno com o pão francês. Farinha branca, meu pirão por último. Coisas de saúde versus idade. Quase sempre encontro com velhos amigos - não amigos velhos - reclamando de índices glicêmicos, taxas de colesterol e triglicerídeos, balanças desreguladas... Melhor fazer logo um sacrifício e entrar no arroz integral e assemelhados. Dizem que depois a gente acostuma. Tem que acostumar. Minha genética tem me ajudado até aqui, mas desconfio que ela já chegou no seu limite, preciso agora fazer a minha parte.
Mas e aquele grupo? Nem olhei.
O joelho nesta manhã dá leves sinais de reclamação, desconfio que ontem na Academia quis acompanhar aqueles rapazes tatuados e aquelas jovens de belos leggings grudados. Fiz mal negócio. Melhor ir devagar pegando ritmo, caso contrário a "Idade do Com_dor" vai se tornar uma realidade para este não tão garoto como pensa aparentar.
O celular está lá, esquecido. Nem vi o Facebook nem o Instagram. Nem aquele grupo.
Por volta das 11 horas fui com meu filho cortar o cabelo. Pensei em ir em uma barbearia que abriu aqui perto de casa. Nem tem nome de barbearia. É Barbershop (ou Barber Shop, não sei bem como se escreve). Lá os jovens profissionais usam barba. E tem música legal. E tem sinuca. E tem cerveja. Decoração e ambiente modernos. Grandes portas de vidro, pé direito alto. Fazem do cortar o cabelo quase uma experiência sensorial. Mas lá não tem o meu barbeiro Ricardo com suas histórias e hilárias considerações, com um certo mau humor irônico. Nem os antigos clientes que repetem os mesmos 'causos' que se passaram em suas vidas. Hoje o tema foi um valão que tem ali perto. Estão limpando. Dizem que desta vez vão dar a solução definitiva. Os ipês roxos e amarelos que ali habitam agradecerão.
E teve um falatório sem fim de um senhor que tenta há 20 anos retomar seu posto nos Correios, demitido numa dessas reduções de mão de obra. Segundo ele o caso já está nas mãos do Ministro Barroso do STF há quatro anos, engavetado. Segundo ele... Definitivamente não vou trocar a pequena barbearia do Ricardo perto do valão com ipês por aquela Barbershop chic. E olha que o preço é praticamente o mesmo.
E deu meio-dia. Hora de desejar "boa tarde", mas eu nem entrei naquele grupo hoje...
No retorno pra casa muito sol, vento seco. Não sei bem porque, resolvi lavar o carro. Não sou adepto de tal prática, embora goste que o veículo esteja sempre limpo. Desconfio que queria fazer uma atividade física ao som de uma boa música alta. Coloquei Deep Purple, Led Zeppelin e The Who. Nada mal. O carro ficou um brinco e eu nem percebi o tempo passar, ouvindo "Machine Head", "Phisical Graffiti" e "Who's Next"! Já lavaram o carro ao som de Hard Rock? É uma terapia física e mental. Mesmo que você odeie limpar automóvel. Bem, tem gosto pra tudo.
Mas faltava algo naquela tarde... o que seria? Claro! O livro do Ruy Castro que contém crônicas sobre música, principalmente Jazz, que havia começado a ler na véspera. Chama-se "Tempestade de Ritmos" e ótimo de ler tendo como trilha-sonora qualquer CD do genial Miles Davis.
Mas, eis que repentinamente no meio da leitura, algo me salta de forma clara à mente: o fato de não ter olhado e respondido aqueles "bom dia!" do Whatsapp está me perseguindo! Sobretudo aquela turma. Literalmente turma.
Não os via há 37 anos, desde a formatura em 1978 na Escola Técnica. Depois de um longo percurso nos reencontramos em 2015 e foi como não existisse essa tão grande lacuna. É uma história longa e comovente.
O tempo passou para todos - inexorável que é - caminhos diferentes foram tomados. Mas depois que que nos reencontramos algo mudou: conseguimos trazer de volta aqueles momentos jovens, felizes sem pressões. De pureza da alma, de ser amigo apenas para desfrutar o prazer de ser amigo. Juntos voltamos aos 18 anos, um presente que não esperávamos.
Nos encontramos pessoalmente regularmente mas é no Whatsapp que temos os contatos diários. Neste dia em que tantas atividades foram feitas e estive com pessoas que nem conhecia bem, percebi que sempre precisamos do outro. É nosso espelho, nossa referência existencial: me percebem, logo existo. Mas se esse outro são aqueles amigos e amigas de um período tão áureo de nossa vida, a coisa atinge um ponto muito mais alto, diferenciado.
Nos "Bom Dia", nas mensagens, nas piadas, nos videos e músicas, nos bate-papos, nas fotografias daquele grupo da Escola Técnica eu posso estar com eles todos os dias, como foram aqueles tempos maravilhosos de 1976, 1977 e 1978. Não é nostalgia. Ou, não é apenas. É vivenciar hoje o bem estar de outrora.
E, no final desta tarde, depois de barbeiros, histórias intermináveis, ipês roxos, carros, rock, jazz, livros, cálculos financeiros que nem sempre fecham, peguei o celular, abri o Whatsapp e olhei o grupo "Edificações 76*78": 77 mensagens não lidas! Digitei "Boa tarde turma, obrigado por existirem! Abraços a todos!"

sábado, 19 de agosto de 2017

Impressões sobre a música e seus poderes

Nunca entendi porque algumas pessoas gostam tanto de música e outros não dão a mínima. Ok, é apenas mais um item da singularidade entre os seres humanos.
Acredito que na natureza (fora a humana) existe um consenso maior. 
No mundo animal (irracional ou nem tanto), por exemplo, a música - ou sons organizados em uma forma - é unanimidade por um motivo simples: sexo! Qualquer tipo de acasalamento que já ouvi falar leva em consideração a arte da conquista, ainda que instintivamente. Neste caso, além de sinais visuais são emitidos cantos, muitas vezes complementados por danças ou movimentos bem específicos. Sem dúvida um ótimo motivo para os animais criarem sua própria forma musical, de acordo com a espécie.
E com o mundo vegetal? Experiências tem sido feitas com viníferas submetidas à música de alto nível para se conseguir colheitas de caráter superior, gerando vinhos soberbos. Coincidência que o vinho seja considerado a mais sensual das bebidas.
Nesse aspecto, também no universo humano a música tem forte respaldo, seja através de letras apaixonadas (ainda que de "sofrência" ou de "corno") ou de ritmos e melodias que conduzem ao apelo das artes amorosas. É de se concluir que, ao longo dos séculos - até pela sobrevivência da espécie - o encontro sexual tenha se mantido como fato propulsor da humanidade. Seguindo essa linha de raciocínio a música pegou carona em tal fato e tem sobrevivido e se expandido como necessidade e prazer.
Paradoxalmente, que gênero musical (em suas diversas formatações) tem atravessado os tempos? A música religiosa! Incluindo cânticos e ritmos tribais, para não ficarmos somente nas matrizes europeias e asiáticas. Bem, alguns músicos místicos ao longo da história tem afirmado que a distância entre esses dois extremos (sexualidade e espiritualidade) não é tão grande assim. Muito menos excludentes.
Dogmas cristãos à parte (sobretudo da Idade Media), vemos isso em algumas vertentes hinduístas, como o Tantra, só para citar um exemplo.
O fato é que, se sobrevive e se amplia no universo humano, a música gera então uma infinidade de oportunidades, afinidades, interconexões, etc.
A beleza e o prazer de ouvir e criar música se estabelece como ponto de partida para iniciativas que transcendem seu universo inicial já citado aqui.
São inúmeros os exemplos a atravessar a história, mas podemos vivenciar isso em nosso ambiente, agora.
Na ultima sexta-feira fui assistir a uma apresentação da sempre adorável Leila Pinheiro, acompanhada de uma Orquestra Sinfônica. 
Se a Leila dispensa maiores comentários sobre as emoções que seu canto desperta, algumas palavras sobre essa orquestra se fazem necessárias.
Ela é formada por jovens que em sua maioria foram resgatados de uma história de vida que provavelmente não teria final feliz. A ONG "Orquestrando a Vida" (lindo título) faz um trabalho com jovens carentes que nunca tiveram contato com a música e os transforma em músicos profissionais. Mas vai além disso: os constrói como cidadãos plenos e com sua humanidade aflorada, através da Cultura Musical. Existe algo mais nobre e belo do que isso? Fruto do trabalho de pessoas que amam e vivem dentro da música.
São esses alguns dos poderes mágicos dessa forma de linguagem tão difícil de definir da mesma forma que o tempo.
Falando nele, é sempre tempo de ouvir boa música, ter prazer com ela e através dela realizar ações para fazer deste um mundo melhor para todos.
Sem esquecer o sexo, é claro! O que me faz lembrar de uma frase símbolo da Contracultura do final dos anos 1960 e início da década de 70: "Faça amor, não faça a guerra". Lembrando que a Contracultura nasceu da música e sempre foi movida por ela. Um bom lembrete para os dias nebulosos de hoje.




domingo, 6 de agosto de 2017

O Edifício Soturno e a Nossa Vida


Faz muito tempo.
Quando criança, caminhava pelas ruas simples do meu bairro do subúrbio. Neste caminhar gostava de olhar com curiosidade para as casas e seus quintais.
Nos tempos adultos tal hábito se perdeu e nem sei mais porque tinha aquela curiosidade.
Preso em escritório no dia a dia de labuta e me deslocando quase exclusivamente de carro não existe inocente costume juvenil que sobreviva.
Observando detalhes nas ruas
Com a recente aposentadoria, começo a perceber que fatos, emoções, hábitos até então soterrados por compromissos, preocupações, pressões diárias, começam a voltar à tona. Existindo a propriedade do próprio tempo - ainda que parcialmente - descobre-se que andamos nos últimos anos e décadas sendo apenas parte de uma engrenagem, pouco exercendo a grata satisfação de apenas "ser".
Tais divagações são apenas tentativas de explicar um fato aparentemente corriqueiro.
Estava no Rio passando uns dias. De manhã, após o café, resolvi dar uma volta nas imediações. O Aterro ficava a cinco minutos e eu segui em direção ao mesmo. Era domingo, quando a maioria das velozes pistas ficam fechadas para que as famílias aproveitem com mais liberdade o complexo de lazer que tem o magnífico projeto paisagístico de Burle Marx.
Perdido nos meus pensamentos paro na esquina da Rua Ferreira Viana com a pista principal esperando o momento de atravessar. Eis que olho à minha esquerda e levo um susto! Que prédio era aquele? Como não o tinha percebido antes?
Parecia ter mais de 10 andares. Belo, imponente e... assustador! Era escuro, quase negro e lembrava arquitetura gótica, embora - nos meus parcos conhecimentos - vislumbrei que era de referências ecléticas. Me lembrei que estava com o celular no bolso da bermuda e, quase no automático, tirei uma foto, sem me preocupar com ângulo, foco, zoom, etc.
Atravessei as largas avenidas e continuei com o meu passeio.
A vivacidade do Aterro em contraste com o prédio em frente
O verde do Aterro, a paisagem deslumbrante da Baía, do Pão de Açúcar, das famílias em piquenique dominical nos gramados, os atletas de fim de semana jogando futebol e vôlei... Percebi que, apesar da minha ligação com aquele momento, uma coisa estava me martelando a mente: quem morava naquele prédio? Ele era tão cinzento e meio tenebroso por dentro como era por fora? Porque, apesar de assustador eu o achava belo? Como explicar o contraste de seu projeto com o exuberante verde que fica ali em frente? Mas acima de tudo gostaria de saber sobre a vida de seus moradores. Uma curiosidade existencial de minha parte? Foi ali que me lembrei de meu hábito de infância, nesta mesma cidade, mas no distante subúrbio, em tempos mais distantes ainda.
Retornei pelo mesmo caminho e parei alguns minutos em frente ao objeto que havia se tornado um foco extraordinário de minhas atenções. As portas de frente e laterais estavam fechadas, pareciam seladas. O brilhante sol da manhã outonal incidia sobre os andares superiores e, visto de baixo para cima, o céu azul e as nuvens brancas realçavam ainda mais as impressões emocionais que a construção me proporcionava. Bati mais umas fotos e continuei meu caminho.
Percebi então que reparava mais nas coisas ao meu redor. Na moça que havia saído de seu apartamento com os dois cachorrinhos que festejam a rua, na fachada de um café instalado em uma pequena casa com varanda, na portão de ferro todo trabalhado de outro antigo edifício, no vendedor de rua que espalhava na calçada sua rara mercadoria: velhos livros e discos de vinil que parei para conferir.
Filme: questões existenciais
Descobri que aquela criança curiosa que observava as casas do bairro ainda estava ali, havia agora retornado (depois de décadas de indiferença com o que estava ao seu redor) e mais: que o importava para ela não eram as coisas mas as pessoas e suas vidas. Na impossibilidade de conhecer e entender as diferenças de vida e de forma de viver de cada um, a lente observadora se dirige para o que é tangível: prédios, lojas, ruas, calçadas, automóveis, placas de aviso e propaganda, etc.
Ontem revi o complexo filme "A Viagem" (no original, "Cloud Atlas" dos irmãos Wachowski) e umas das personagens (a clone coreana Sonmi-451 vivida pela bela Donna Bae) diz que do "nascimento ao túmulo, todos estamos - direta ou indiretamente - interligados". E, mesmo depois disso, a ligação continua pois "a morte é apenas uma porta; quando uma se fecha, outra se abre."
Me lembrei dessa minha curiosidade, sobre as diferentes experiencias do que é a vida para cada um, as milhões de almas que habitam e habitaram esta terra.
Longe da complexidade do citado filme (que conta seis histórias de vidas interligadas em épocas diferentes, inclusive futuro), resta-me apenas voltar a observar casas, prédios e jardins em uma tênue tentativa de entender pessoas e existências. Enfim, o que é a vida.
O edifício de um outro ângulo (foto da Internet)
Em tempo: pesquisei um pouco sobre o citado prédio.
Chama-se Seabra, construído em 1931 por um banqueiro e industrial.
Projetado por um arquiteto italiano, grande parte de seus componentes interiores vieram da Europa. É que este bem sucedido empresário era casado com uma italiana, que queria algo parecido com a Primeira Renascença, uma vez que ela era descendente de nobres, parente do príncipe Rainier, de Mônaco.
Ao que parece o interior é luxuoso e belíssimo. Existe um livro contando a história do prédio e da família (mas eu não consegui ainda).
Muitos o apelidaram de o "Edifício Dakota Carioca", o lúgubre prédio novaiorquino em frente ao qual John Lennon foi assassinado (ele morava ali) e onde foi rodado o filme de terror "O Bebê de Rosemary".
Visão parcial do interior do Edifício Seabra (foto conseguida na Internet)
Visão parcial do interior do Edifício Seabra (foto conseguida na Internet)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Sobre orgasmos (sim, é esse o título)

Não é privilégio meu: todos andam reclamando da "velocidade do tempo". Duas medidas diferentes em uma só. Que, afinal, sempre andaram juntas.
Fato: não temos tempo de fazer tudo que precisamos ou gostaríamos.
Das obrigações ao prazer as coisas andam com os dias - ou os minutos - contados, cronometrados.
Quem aí não poderia enumerar uma série de demandas que aguardam na fila para serem concluídas?
Um leve exemplo: ler e escrever estão entre as minhas prioridades não realizadas à contento. Fica então aquela série de volumes (ainda não aderi ao Kindle) na estante, aguardando pacientemente sua hora. Pior são as idéias para um texto: surgem prontas na minha mente e desaparecem com a mesma facilidade porque naquele momento não dava para escrever. Um pseudo escritor de ideias não realizadas, eis aqui quem vos fala neste momento.
Existem umas estratégias que ando aprendendo no caso da leitura e da criação: apostar em textos curtos, sintéticos. Não como opção literária, mas como saída para amestrar o tempo. Meu e dos possíveis leitores.
E, já que citei essa palavra - amestrar - comento de passagem um desses livros não volumosos, de textos pequenos e leitura rápida. Mas que eu ainda não li todo...
Trata-se do curioso, bem-humorado e delicioso (com duplo sentido) "Amestrando Orgasmos" (Editora Objetiva, 200 páginas) do sempre ótimo Ruy Castro.
Nessas crônicas Ruy foi buscar em revistas científicas, reportagens policiais e curiosidades de pé de página, material verdadeiro para desenvolver suas observações irônicas sobre o nosso (pelo menos meu e dele, mas acho que de todos) interesse pelo tema.
Me lembro de uma personagem criada pelo Chico Anísio cujo jargão era "você só pensa naquilo...". Podemos até não pensar nisso o tempo todo mas enquanto tivermos interesse pelo tema com certeza as obrigações e o tempo não terão nos engolido por completo.
As histórias que conta são ótimas, bem humoradas quase um tratado sócio-psicológico sobre o assunto. Não "orgasmo" propriamente dito, mas a curiosidade sobre ele e os assuntos que o circundam languidamente. Afinal, sexo é vida, diria uma propaganda do Viagra. Muito sexo, mais vida ainda. E saber da vida dos outros sobre sexo é o que delicia não só a plebe rude mas qualquer categoria social e faixas etárias (mesmo depois dos 70, atualmente talvez até mais!).
Na crônica título, por exemplo, ele conta a história da escocesa de 54 anos que tinha orgasmos espontâneos e deu matéria na revista científica The Lancet: "Uma amiga minha, que me confidenciou ter tido apenas um orgasmo nos últimos oito anos, leu a respeito e ficou morta de inveja". A partir daí explora, as diferenças: "Como se explica que as mulheres possam ter orgasmos múltiplos, e o homens, não? O homem, quando foi, já era. E mulher continua tendo orgasmos, um depois do outro, enquanto o homem já está pensando na morte da bezerra. Isso demonstra que, mesmo que não haja diferença anatômica - na origem - entre os dois órgãos, alguma parte do cérebro deve funcionar de um jeito para um e de outro para o outro. E, pelo visto,  o da mulher funciona melhor. Além disso, como se explica que a mulher esteja pronta para o sexo 30 segundos depois de ter feito, enquanto o homem só pode dar bis depois de sabe-se lá quanto tempo?".
Já viram o tom do livro né?! Excelente!
Os títulos das crônicas vão entregando o que está lá dentro (epa!), uma saborosa (epa!) análise de fatos inusitados e observações ferinas com comentários sarcásticos: "Orgasmo Multilíngue", "Orgasmo em longa-metragem", "O clitóris", "O gosto secreto", "Prazeres da carne", "Banhos, inclusive de gato", etc.
A capa do livro é um primor minimalista, com o essencial: possui uma fenda losangular cujo abertura tem por baixo papel em cor vermelha...
Para não deixar vocês com muita água na boca, salivas em excesso (epa!) reproduzo a seguir uma das crônicas. Acho que o Ruy (e a editora) não vão ficar bravos comigo.
No máximo ele pode criar uma crônica me sacaneando, contando alguma derrota que definitivamente nunca aconteceu. Juro! Bem, se não veio a público não aconteceu!


MARIDOS FRIOS, MULHERES QUENTES
      "Uma senhora adentrou furibunda a sede do Procon, no Rio, brandindo um envelope. Depois de passar horas na fila, conseguiu chegar ao balcão para registrar queixa contra um produto que, segundo ela, não estava funcionando direito: seu marido.
      O Procon, como se sabe, é um órgão sério, dedicado a registrar reclamações de pessoas que compraram um produto acreditando no que a publicidade dizia e, ao usá-lo, sentiram-se tapeadas. Seus funcionários são gente habituada a todo tipo de queixa, principalmente a respeito de facas mágicas, implantações de silicone e loções para calvície. Tudo isso está previsto na bíblia do órgão, que é o Código de Defesa do Consumidor, mas, às vezes, aparece gente se queixando de algum produto que não consta do código. Certa vez, por exemplo, um homem reclamou que, ao ir a um motel com sua namorada, fora obrigado a ouvir, no quarto ao lado, os gemidos de uma mulher em pleno ato com um homem, e que ele identificou como sendo os gemidos da sua própria mulher. Note bem, o sujeito não estava se queixando do fato de ser traído, mas das paredes finas do motel, que não velavam pela privacidade dele.
      Os funcionários do Procon são treinados para não rir e reagir com toda paciência em casos como este. Mas a história da mulher do envelope era inédita.
      Pelo que eles puderam entender, a dita senhora se queixava de que, depois de 30 anos de casamento, seu marido já não a procurava havia mais de um ano. Não a procurava sexualmente, é claro - porque, para outros fins, até que a procurava o tempo todo: para lavar-lhe as cuecas, engomar lhe os colarinhos ou preparar-lhe uma carne-seca com aipim.
O envelope que ela trazia debaixo do braço era sua certidão de casamento, datada de 1970, com assinatura do juiz, tabelião e testemunhas. A mulher alegou que não tinha nada a reclamar dos primeiros 29 anos de união, mas que o desinteresse de seu marido no último ano era uma quebra das promessas que ele lhe fizera quando ainda estavam noivos - de que, a depender dele, teriam uma agitada vida sexual até que um dos dois morresse e, talvez, até depois. Donde ela se sentia vítima de publicidade enganosa e, por isso, achava que era um caso para o Procon.
      O funcionário do Procon anotou tudo em uma ficha. Foi aos arquivos investigar se havia um precedente de queixas parecidas e, como não havia, voltou ao balcão de mãos abanando.
Só lhe restava perguntar o que a mulher esperava que o Procon fizesse por ela. E ela, sem piscar: "Dá para trocar de marido?".
      Bem, maridos não são exatamente fornos microondas (outro item sobre o qual o Procon vive recebendo queixas), e o dela, muito menos. Aliás, se tivesse de ser comparado a um eletrodoméstico, o marido acusado de frigidez estaria mais para um freezer. Mas não se pode trocar um marido como se troca uma enceradeira, nem há um fabricante contra o qual se queixar. O funcionário do Procon sugeriu à senhora - extra-oficialmente - que ela aplicasse Viagra no cônjuge e observasse a reação dos corpos cavernosos. E, caso o Viagra não resolvesse, aí, sim, ela poderia voltar ao Procon e registrar queixa, não contra o marido, mas contra o medicamento.
      Pois, não olhe agora, mas algo de muito esquisito está se passando no universo masculino. Na mesma época em que a mulher foi ao Procon se queixar do marido frio, outra história incrível saiu nos jornais: um cidadão de Nova Iguaçu, RJ, foi à polícia para pedir proteção contra o assédio sexual que estaria sofrendo de uma vizinha. O homem (43 anos, casado, pai de três filhos e, francamente, longe de ser um galã de novela) declarou não aguentar mais ser o alvo de tantas investidas. A vizinha o bombardeava diariamente com flores, cartas, telefonemas, bilhetinhos, recados, e-mails e presentes, entre os quais camisas, relógios e agendas. O surpreendente foi que, ao ser procurada pela polícia, a mulher (36 anos, morena, bonita, perfeita para um dia de chuva) não apenas confirmou tudo, como garantiu que, apesar de também ser casada, não descansaria enquanto não levasse para a cama o tal homem, objeto de sua paixão.
      A divulgação da história provocou um tal malestar em todos os envolvidos (incluindo a mulher dele e o marido dela) que, poucos dias depois, a morena declarou ter desistido de seus imorais intentos e prometeu deixar em paz o gostosão. O que deve ter acontecido, porque o caso sumiu do noticiário.
      Os vários casais que protagonizaram essas histórias só se conhecem pelos jornais, mas um encontro entre eles poderia resolver todos os problemas. Suponhamos que a assediadora sexual desse em cima do marido frio - poderia ter sucesso, porque a frigidez daquele marido só devia acontecer com a mulher com quem ele era casado há 30 anos. Esta senhora, por sua vez, poderia se aventurar para o lado do marido assediado e, quem sabe, com ela, talvez ele se animasse. Já a mulher do assediado teria uma grande chance com o marido da assediadora, já que os dois estariam sobrando do mesmo jeito."

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A feira da roça e outras amenidades

A feirinha da roça na cidade
Com o passar do tempo noto que alguns temas tem sido recorrentes nestes meus simples e simplificados escritos.
Um deles é o que iniciou este arremedo de crônica: o passar do tempo.
Mas não só este assunto.
Outro é uma certa briga interna entre um coração essencialmente urbano - de asfalto, prédios, multidões - e uma necessidade cada vez maior das areias de uma praia deserta ou de uma trilha por entre o verde, à sombra da mata.
Mar, árvores, céu azul, nuvens, silenciosa cantiga das ondas e dos pássaros.
Mas o coração urbano ainda canta suas belas canções, mesmo que para lembrar do interior e da velha infância. Ou de coisas e lugares que não conheci ou não me recordava.

Toda semana, não muito longe de minha casa (na cidade) ocorre, na calçada de uma praça, a "feirinha da roça". Na última terça-feira lá estive com a incumbência de comprar aipim e batata-doce. E o que mais achasse interessante.
Seria normal estar em uma praia deserta
 e lembrar do interior de Minas?
Mas o que chamou atenção eu não podia comprar: a própria feira que repentinamente me fez viajar no tempo e no espaço para aquele subúrbio da Estrada de Ferro Central do Brasil, anos 60. Apesar de ser a capital do antigo Estado da Guanabara, metrópole, o Rio tinha uma micro-região chamada Zona Rural, hoje integrada à Zona Oeste. Era ali que eu morava. Ou seja, quase roça, mesmo na cidade grande.
Não existiam hortifrutis, nem supermercados. Ou era a quitanda do português ou a feira que vendia de tudo um pouco, produtos produzidos ali mesmo, nos grandes quintais e sítios das casas simples.
Essas nostálgicas reminiscências de um tempo que já se foi, provocadas pela visão da feirinha da roça na região central de uma cidade grande, não foi a única sensação daquele momento.

Já perceberam alguma vez uma espécie de saudade de algo que não vivenciaram ou de um lugar que não conheceram?
Pois é. Foi isso também. Naquele momento senti falta de Minas Gerais. Detalhe, que talvez já tenham percebido, é que nunca - nunca - fui a Minas, mesmo estando tão perto.
Talvez não seja tão difícil explicar isso (a forma mais fácil seria constatar que estou ficando um tanto quanto louco, mas não é o caso, acho).
É fato que sempre me liguei na música feita em Minas e música sempre vem em primeiro lugar para mim.
As canções mineiras são do mundo mas ao mesmo tempo fincadas em uma tradição única, de suas terras, dos seus ritmos, do seu interior.
Essas ricas construções harmônicas e os seus cantadores - falando das pessoas simples, das serras e estradas, do sentimento de se viver plenamente a calma do momento - sempre me deram a sensação de estar em sintonia com um Brasil mágico, de pessoas boas que ainda não caíram na armadilha do corre-corre da cidade grande.

Mas porque não fui lá até hoje?
Aquela velha história de que "Minas não tem praia" talvez tenha contribuído ao longo do tempo para um certo desinteresse de minha parte, tão ligado que sou no mar.
Por outro lado sempre gostei daquelas igrejas coloniais, pisos de pedra, montanhas e trens.
Mas o fato é que a visão de imagens do interior, da roça - que parecem cada vez mais distantes neste coração urbano cheio de carros (não de bois), shoppings, ônibus, prédios, computadores - tem me sensibilizado cada vez mais.
Coisas da (c)idade?

Minas, apesar de ter suas grandes cidades, parece representar bem as sensações despertadas por um país simples, já distante. Tão distante quanto a minha infância lá da Zona Rural, daquela feira na praça do bairro.

Na feirinha da roça do centro da cidade esta semana, pude por uns momentos - apesar dos prédios e carros - estar por entre aquelas barraquinhas de 50 anos atrás, ao mesmo tempo que viajei mentalmente até algum lugar de Minas, onde a vida segue tranquila por vielas, trilhas e temas musicais.

Hoje, neste feriado de Corpus Christi, em frente ao mar, criei na imaginação uma cidade do interior mineiro em frente à praia. E ouvi aquelas velhas canções que retratam sensações e emoções que não temos tido tempo de vivenciar como gostaríamos...





terça-feira, 30 de maio de 2017

Devaneios e lembranças de um coração urbano musical (1)


Minha paixão por música é pública e notória.
Filmes e livros sempre me seduziram mas a música está em primeiro.
Não é à toa que costumo ler com um fundo musical e, nos filmes que assisto, presto atenção além do que deveria na trilha sonora, por mais minimalista que seja.
Se costumo emprestar livros e indicar filmes, na música fui além, buscando dividir a paixão: eu gravava fitas cassete para os amigos. Isso lá pelo início dos anos 1980. Nos anos 70 gravavam para mim.
Quando consegui comprar meu primeiro "3 em 1" (toca-discos, toca-fitas e rádio) não tinha dúvidas que deveria ter aquilo como missão. Eu selecionava as músicas e registrava naquelas fitinhas as melhores que tinha nos ainda poucos discos da coleção.
Havia uma estratégia: como não possuía tudo que desejava, ficava ligado nas melhores rádios FMs com as teclas Rec e Pause do gravador apertadas. Quando tocava a música que estava querendo soltava o Pause e aí conseguia capturar a música. Que alegria!
Assim, além de ir aumentando aos poucos a coleção de LPs também aumentava o número de pessoas que me pediam para gravar as tais fitas K7, para tocar no toca-fitas marca TKR do carro. Um luxo!
Em 1995 o inglês Nick Hornby lançou sua famosa obra "Alta Fidelidade" que narra a história de um apaixonado por listas de músicas, filmes e livros. O personagem trabalha em uma loja de discos e também grava as suas "melhores" em fitas para os amigos. Muita gente se viu - pelo menos parcialmente - retratada nessa história... Bem, o livro é ótimo e está na minha lista dos melhores.
E, foi exatamente nos anos 90 que aos poucos o CD foi fazendo sua ascensão e glória, deixando para trás as fitinhas. Não me dei por vencido. Precisava continuar presenteando a mim e aos amigos com as melhores músicas que não existiam reunidas em nenhum lugar oficialmente. Pesquisei e dei um salto de qualidade: passei a fazer compilações em CD.
Gravei dezenas deles com poucas cópias cada um. Era difícil encontrar as músicas que eu não tinha, mas sempre dava um jeito. O detalhe é que eu fazia também as capinhas. Criava um título e capturava alguma imagem legal na Internet. O encarte tinha o nome das músicas, o artista e o tempo de duração. Trabalho de "amante profissional" (lembrando aquela música de 1985 do grupo Herva Doce, que a maioria dos meus leitores não deve conhecer).
No entanto a evolução não parou e a Internet e o formato mp3 chegaram.
Não me dei por vencido: com a grande rede passou a ser mais fácil encontrar aquelas músicas perdidas dos anos 70 que nunca haviam sido reeditadas no formato CD. O problema para quem queria achar as canções era saber o nome delas e dos artistas. Quer dizer, para mim não era problema, eu sabia os títulos de todas que queria.
Das gravações em CD para o armazenamento de grande quantidade de músicas em pen-drivers foi o novo salto e posso garantir que felizes são aqueles que receberam muitos deles ainda nos anos 2000. Minhas seleções muitas vezes eram personalizadas, com a vantagem de poder colocar LPs inteiros naqueles pequenos objetos.
Hoje o formato persiste sobretudo para facilitar a audição no carro e nos Smartphones via micro-cartões de armazenamento.
No entanto, com o advento da música em Streaming, fazendo uma assinatura em que se paga menos de R$ 20,00 por mês, é possível acessar até 50 milhões de músicas! E dá para ouvir em casa ou no carro com ótima qualidade sonora.
Meus tempos de fitas-cassete, de CDRs se foram. Está chegando o momento em que os pen-drivers também serão obsoletos e acho que desta vez não arranjarei um substituto para gravar as seleções, pois não será mais necessário.
Nossa geração foi a única - até agora - a ver tantas mudanças de uma forma tão rápida.
Lembro-me dos anos 70, em que se conseguir ter um LP de seleção de músicas (como as trilhas-sonoras de novelas, por exemplo) era um feito a ser comemorado.
Rendo-me a tantos avanços que tornaram nossas vidas mais fáceis (ou não) mas, talvez por nostalgia ou para demarcar meu espaço na história da reprodução musical, há poucos anos comprei um novo aparelho "três em um" com design vintage. Quer dizer, quatro em um. Ou cinco em um, sei lá...
Definitivamente o meu prazer de gravar as seleções musicais estão com os dias contados. Acho que, como espécie de represália, tenho me recusado a ouvir os mp3 em casa. Cada dia ouço mais os CDs, LPs e até fitas! Ok, parece nostálgico mas, por sorte, vi esses dias uma reportagem mostrando que na Europa estão reaparecendo as lojas que, além dos CDs vendem uma quantidade cada vez maior de discos de vinil. Detalhe: os maiores compradores são os jovens. A relação de carinho com a música personificada em um objeto físico (o disco) volta a ser valorizada. Acho que por trás disso há uma reclamação acerca da vida multitarefa que temos hoje, o tempo todo.
Para ouvir um LP ou um CD você deve, preferencialmente, dar uma parada. Está tudo tão rápido que as pequenas coisas boas que tinham um grande valor, hoje passam despercebidas e são apenas detalhes, como o tamanho de uma canção comprimida em um arquivo digital.
Retomar um pouco do tempo para si mesmo, seja para ouvir música, ler um livro, ver um filme, gravar músicas para os amigos, estar com eles (fisicamente, não só virtualmente) ou simplesmente se sentir existindo é uma meta a ser buscada em um época que parece que não sentimos mais o tempo passar.
Como já dizia o Mario Quintana (ou algum monge budista), de repente já se passou a vida e nem percebemos.
Acho que vou ouvir "Dark Side Of The Moon" agora. E David Arkenstone. Mas vão ser em LP ou os CDs remasterizados com encarte especial...







sábado, 25 de março de 2017

Incidente na Praia da Joana

A experiência de fotografar pode gerar algumas surpresas, como de resto qualquer atividade humana.
Esta semana estávamos em uma praia semi-deserta, chamada Joana, registrando algumas imagens outonais de final de tarde.
Nesta época do ano a luminosidade vespertina mostra-se ideal, impondo imagens serenas, independente da ansiedade do que está ao redor ou de quem está fotografando.
Não era o caso daquele momento: a praia calma, o verde em frente ao mar (da Unidade de Proteção Ambiental) e a proximidade da hora do sol se esconder por trás das montanhas ao longe, proporcionavam apenas  isso, paz.
Eu não havia levado a minha velha Nikon, tampouco minha filha sua Canon, ela já uma profissional da imagem. Fomos olhar o mar e eventualmente registrar algumas visões com o celular mesmo.
Como apenas meu filho se animou a entrar na água, ficamos por ali, sentados, olhando as águas, sob uma provavelmente centenária amendoeira que se equilibrava - mostrando as raízes - em um desnível no terreno logo depois das areias de cor... areia.
Olhando em direção ao sol, percebi que ele começava a se aproximar de um morro próximo e resolvi tirar algumas fotos. Poderia ser que conseguisse, na sorte, algo bonito, mesmo com o Smartphone, pois o ambiente estava propício.
Era um daqueles momentos mágicos - era a hora mágica do dia - em que percebemos, meio que instintivamente, que parece existir algo além do que estamos enxergando.
Pensando nisso apontei o celular em direção ao sol e cliquei. Ofuscado e com a lente do celular não ajudando muito, apenas toquei na tela, sem ver o que registrava. Ao final, volto a falar desta foto.
Olhei as rochas na extremidade da praia e percebi que dali conseguiria um ângulo diferente do sol, pegando outras praias por trás do morro. Mas eu precisava ser rápido: caminhar pelas areias e fazer uma escalada atrás do que buscava, antes que o astro rei se fosse.
Estando em clima quase místico, fiz a pequena peregrinação em direção ao objetivo, chegando nas pedras em poucos minutos. Comecei a subida sem me preocupar onde estava pisando. A bela luz das 17 horas sobre o vegetação, a areia, as pedras e o mar era o que estava em minha mente e em meus olhos.
Repentinamente uma espécie de transe hipnótico aconteceu. Eu parecia ter perdido o peso, a força gravitacional não existia mais, eu estava flutuando no ar. O que estava acontecendo comigo? Então todas aquelas experiências esotéricas que eu havia ouvido falar eram verdade? Eu estava vivenciando o que já estava se prenunciando naquela tarde: a presença de algo que não se pode explicar, apenas sentir.
E eu senti - com intensidade - quando, chamado de volta à realidade, quase todo o meu lado direito se chocou violentamente com a pedra abaixo de mim. Senti dor.
O fato é que o mar havia lambido as rochas horas antes e ali deixado uma areia fina. Os pés deslizavam com uma facilidade ímpar e minha falta de atenção ajudou abundantemente. Eu escorreguei com imensa velocidade em uma inclinação e flutuei no ar por um segundo. Por sorte livrei a cabeça, graças ao antebraço que fez um movimento instintivo de proteção.
Mas o restante ficou com escoriações e por pouco não desmaiei de dor. Talvez por que precisasse salvar o celular que havia pulado de minha mão e caído na areia molhada mais abaixo. Ali o mar tinha se afastado por uns momentos mas já ia voltar e levar o aparelho. Não sei como consegui descer, pegar o celular e voltar para uma altura segura. Coisas de um cinquentenário fazendo artes.
Retornei caminhando com certa dificuldade. Já não havia aquele clima místico da tarde. A dor não permitia essas coisas transcendentais. Meus filhos não tinham visto nada.
Chegamos em casa e depois de contar a história em detalhes e verificar as marcas do tombo, minha esposa perguntou: "Lembrou de agradecer à Deus?". Ora, porque diabos (epa!) eu agradeceria? Pelo tombo feio? "Pelo livramento". Poderia ter batido com a cabeça, coluna, face (com óculos e tudo)... na pedra. E os resultados poderiam ser dramáticos.
Resolvi olhar o celular. A foto que havia batido, sem enxergar quase nada por ser contraluz, tinha resultado em uma imagem plácida com raios e reflexos incidentes sobre mim.
Resolvi agradecer depois de ver essa imagem. Havia ali uma presença Divina sim. Provavelmente me dizendo: você vai fazer besteira, mas estou aqui para protegê-lo.
Minha filha por sua vez me me mostrou uma foto que ela tirou quando eu estava indo em direção às pedras. Sem querer parecer dramático, aquela poderia ser uma foto de despedida.
De qualquer forma, evitarei daqui pra frente fazer algumas incursões mais radicais que fazia há algum tempo atrás. O tempo passa, até mesmo para teimosos que acham que são eternamente jovens...

segunda-feira, 20 de março de 2017

Mais um Outono: A Estação da Alma


Certa vez Carlos Drummond de Andrade "conversou" com uma amendoeira na manhã do primeiro dia de outono: "(...) Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza." Em "Fala, Amendoeira", 1957.
Nesta manhã eu não conversei com uma amendoeira  - e estou a milhares de anos-luz da capacidade de escrita do Drummond, seja ao descrever o início da estação ou sobre qualquer outro tema - mas foi uma das poucas vezes que senti de maneira forte a chegada do outono.
Segundo informações meteorológicas ele iniciaria às 07:29 h. Não sei como eles conseguem esse grau de precisão, mas acreditemos no fato.
Por volta das 07:20 h entrei no automóvel e percorri um caminho já rotineiro, por entre ruas arborizadas, um trecho de beira-mar e outro à beira-rio, depois de uma ponte.
Chovia levemente, depois das fortes águas da noite anterior e a temperatura se mantinha amena, como foi no final de semana.
Repentinamente a chuva diminuiu e o sol abriu. Não olhei as horas, mas desconfio que era por volta de 07:29.
Muitas nuvens no céu não impediam o atravessar dos raios, a vegetação molhada compunha o quadro ideal para aquele tipo de luminosidade que não ofusca. Parei o carro e tirei umas fotos com o celular. Acho que Drummond não faria isso.
Se o outono é mais estação da alma que da natureza, talvez eu tenha percebido essa beleza momentânea mais com os olhos da emoção.
Certa vez Gabriel Garcia Marquez disse que, dos livros que havia escrito, o que mais gostava era "O Outono do Patriarca". Acho belo esse título e me faz lembrar que "outono" é também usado para designar uma estação da vida: o da maturidade.
Estando eu "outonal", é possível que tenha exagerado ao reparar na beleza do dia. A alma pode ter falado mais alto. Mas são momentos como esses que nos fazem parar a correria e lembrarmos que estamos vivos, aqui, conectados com a natureza, pois somos parte dela.
E que tudo um dia termina, ao final do outono de cada um, independente de ser Drummond, Garcia Marquez ou um cronista desconhecido de um blog esquecido num canto da Internet.
Vivamos pois cada estação, conversando com amendoeiras, olhando o céu de vez em quando, colocando-nos no lugar do outro.
Quem sabe assim as cores de abril (mês outonal, conforme cantou Vinícius e Toquinho) venham povoar com mais frequência os tempos cinzentos que tem habitado muitas estações.
Para quem ficou curioso sobre o final da conversa de Drummond com a amendoeira (sobre sua idade outonal), segue o último diálogo:

"-Não me entristeças" (falou Drummond)

"- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho."


domingo, 12 de março de 2017

Dos livros de bolso de Estefania às leituras de verão

Estefânia é um bonito nome feminino, raro. Já Estefanía é um sobrenome espanhol. Com certeza poucos leitores conhecerão alguém assim batizado. Eu já, por causa do Marcial Lafuente Estafanía. Ficaram na mesma?
Pouco dinheiro na mão costuma ser a tônica dominante de ávidos leitores adolescentes dos subúrbios. Era o meu caso, lá pelos anos 70. Mas havia uma escapatória: os estabelecimentos que vendiam livros usados, conhecidos como "sebos". Sobretudo livros usados que já eram baratos quando novos, nas bancas de jornal. Era o caso dos "livros de bolso" (Pulp Fiction) de faroeste. Esses tinham um mestre: o escritor madrilenho citado acima, que publicava como M.L. Estefania. Escreveu quase três mil dessas histórias, até falecer em 1984, aos 81 anos.
Mas nem só de faroeste eu sobrevivia, pois havia séries de espionagem, policiais, ficção científica, romance e até eróticas e de terror (ou tudo isso junto...).
Um sucesso na época foi a série "Giselle Montfort, a espiã nua que abalou Paris" escrita - de forma não creditada - pelo jornalista brasileiro David Nasser no antigo jornal "Diário da Noite" (da empresa Diários Associados) de Assis Chauteaubriand, a partir de 1948 em forma de folhetim e depois publicada como série de bolso pela editora espanhola Monterey, nos anos 60, chegando até a década posterior.
Está aí, além dos gibis é claro (ou HQs de super-heróis que estão dando origem a tantos filmes de sucesso atualmente), a minha iniciação como ávido leitor que permanece até hoje, embora tenha me afastado dos livros por causa do incessante e cansativo trabalho.
Aos poucos volto às origens. Não falo dos livros de bolso mas do bom hábito da leitura que, segundo estudiosos, além do prazer das viagens proporcionadas pelos mesmos, o hábito previne até o Mal de Alzheimer.
Neste verão - que para mim vai se estender até o início de abril - tive como meta ler cinco livros na minha "estação de veraneio", com algumas restrições, como não levar publicações para as areias da praia (cumpri até agora, mas tenho dúvidas se foi uma boa ideia).
Um costume que adquiri foi o de ler sempre com um fundo musical: escolho antes os CDs, de acordo com o livro. Mergulho na leitura mas os agradáveis e suaves sons sempre presentes enriquecem o momento.
De forma não programada acabei optando por livros de não-ficção e a maioria relacionados à música, o que não chega ser uma surpresa. Ficaram então de fora livros do Arthur C. Clarke, que trouxe mas não coloquei a mão. Ou os olhos. E um outro documento que precisa de mais dedicação em sua leitura: "Os Bispos Católicos e a Ditadura Militar Brasileira: A Visão da Espionagem" do historiador Paulo César Gomes.
Das leituras realizadas me surpreendi com "50 fatos que mudaram a história do Rock" (edição ilustrada) de Paolo Hewitt. Não que concorde com ele nos itens selecionados, mas realmente alguns detalhes trágicos que descreve eu não sabia, como o assassinato do soul man Sam Cooke e os fatos que que levaram ao "massacre da atriz Sharon Tate" (então esposa do cineasta Roman Polanski) em 1969 e da relação disso com o seminal grupo de surf-music The Beach Boys. O massacre comandando pela "seita" de Charles Manson (até hoje preso) não foi bem por questões pseudo-religiosas: Manson tinha interesse em se tornar um superastro da música, daí... Leiam o livro pois é uma longa história.
Outro interessante que fez parte do verão foi "Blues" do francês Gérard Herzhafat. Nele um mergulho não só na música, mas no mundo difícil dos negros americanos no início do século XX, que geraram essa música-lamento bem como tudo que veio depois, influenciado pelo Blues: do Rock ao Pop, passando pelo Jazz.
O terceiro livro tem o mesmo nome do segundo, mas trata-se de reprodução de histórias em quadrinhos - criadas também dos anos 1970 - pelo genial (e marginalizado) Robert Crumb, onde ele conta a história de bluesmen dos anos 20 e 30, com uma forte carga dramática e social. Não era para ser diferente.
Restam dois que pretendo "devorar" até o final do mês, começando hoje.
O primeiro é "Os Guinle - A História de uma Dinastia", do historiador Clóvis Bulcão, um profundo mergulho nas raízes e desenvolvimento dessa família aristocrática carioca. Mais conhecida pela associação com o lendário hotel Copacabana Palace e com as conquistas amorosas de famosas atrizes de Hollywood feitas pelo playboy Jorginho Guinle, a família não é apenas isso. Segundo o autor, o glamouroso estilo de vida ofuscou o empreendedorismo visionário dos patriarcas e de seus sete filhos.
Por último, um livro de 2002 que só agora adquiri - em sua 9ª edição, de 2015.
Voltando aos temas musicais, trata-se do surpreendente "Eu Não Sou Cachorro, Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar", do jornalista e historiador Paulo César Araújo (o mesmo da biografia proibida de Roberto Carlos). Com certeza este livro vai merecer uma resenha à parte. Além de contar a história da música brega do período 1968 - 1978 o autor prova que "um importante capítulo da história do Brasil e da música popular vem sendo muito mal contada".
Independente do sucesso da polêmica empreitada, com certeza vou gostar do que for contado pois - vai aqui uma confissão -  além de Jazz, Blues, Rock e MPB mais "intelectual" (e nas diversas vertentes desses estilos), fui fã de nomes como Fernando Mendes, José Augusto, Odair José, Paulo Sérgio, etc. Isso enquanto lia os livros de bolso do Estefania. Mas não contem pra ninguém, ok?!

Trilha sonora enquanto escrevia estas mal traçadas linhas: Não foi ...aquela menina em sua "Cadeira de Rodas" de Fernando Mendes, mas o CD "Spark Of Life" do Marcin Wasilewski Trio w/ Joakim Milder, da ótima gravadora alemã ECM Recods,




terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

As peras e o tempo

Certa vez uma amigo me disse que não ligava para as memórias, para o passado. O que vale é o momento presente, segundo sua visão de mundo.
Não importava - para ele - se eram momentos bons ou ruins a serem deixados para trás. Eles tinham que ficar lá e nada mais.
Esse "nada mais" é o xis da questão.
Há filosofias, talvez a budista, que podem dizer algo semelhante. Não sei. E tem, talvez, os existencialistas. Fiquei sem esboçar reação diante daquela declaração.
Estaria ele correto? Serviria tal proceder uma matéria para reflexão a ser  aplicada em minha própria vida?
Faz tempo desde esta declaração, mas eu nunca esqueci. Ele provavelmente já. Aliás, como faz muito tempo que não o vejo, deve ter até esquecido de mim também.
Nunca me pareceu ser uma pessoa infeliz ou com algum problema psicológico, o que pode depor a favor de seu estilo de "esquecimento de tudo", sempre seguindo em frente.
Eventualmente me recordo disso quando lembranças afetivas me incorrem. O que não é raro. Aliás, ligado em imagens, sons, cheiros, histórias e emoções, concluo que não sobreviveria sem as memórias.
O filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", de 2004, explora um episódio do que poderia ser isso, nesse caso em uma terminada história de amor. Na verdade nunca acabada. A sinopse diz: "Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória os quais ela não participa." E mais não conto em respeito a quem não viu. Mas é na linha do raciocínio do amigo, neste caso em uma base de fantasia imaginativa.
Ao tocar neste tema me lembro exatamente agora de uma bela garota que sentava ao meu lado na escola primária, no distante subúrbio da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, no Rio.
Não lembro de quão bonita ela era, ou se era, eu tinha uns 12 anos, mas lembro que gostava dela. Não esqueci seu nome e confesso que, por uma curiosidade beirando o ridículo, andei procurando seu nome no Facebook. É claro que não encontrei. Ainda bem. Há 45 anos não tenho notícias.
As chamadas memórias afetivas são combustível que alimentam respostas que não temos. Sobre o significado da vida, por exemplo. Sobre o "ser".
Com elas multiplicamos nossa existência, da mesma forma como ao ler um livro que prende tanto a atenção que nos desligamos do agora. Ou quando ouvimos músicas que nos emocionam.
Ou seja nem sempre o agora é o que importa. Não o tempo todo.
Há situações do passado que nunca se repetirão. Ou acontecerão de forma diferente. Ou findarão por acontecer o que antes apenas se desenhou.
Tais divagações se apresentaram agora por um motivo inusitado: uma pera. Sim, a fruta. E acho que não é a que vocês conhecem como tal.
Neste carnaval estivemos em um distante distrito do município serrano de Trajano de Moraes, altitude de 700 metros. Local de difícil acesso mas com fácil possibilidade de se apaixonar por ele. Como é mais alto que a cidade a que pertence, imagino que o distrito deve estar próximo aos mil metros.
No agradável sítio dos gentis anfitrões uma penca de frutas que não vemos nos hortifrutis urbanos.
Não distante da entrada avistei uma árvore carregada. Seus frutos vergavam os galhos e formavam um tapete no chão das que vinham caindo constantemente, de maduras.
Ao ser informado que se tratava de um pé de pera me aproximei para conhecer tal raridade para mim. Quando cheguei perto, peguei uma daquelas frutas e imediatamente fui transportado para minha infância. Aquela não era uma das espécies que encontramos hoje facilmente.
Fazia décadas que não via uma daquelas, ainda mais tirada direto do pé.
Reminiscências me vieram pois a encontrávamos a preços baixos nas pequenas quitandas do longíquo bairro da já minha distante infância.
A chamávamos apenas de pera. Ao que parece é de uma espécie asiática, também conhecida como pera-dura ou Keiffer, de sabor levemente ácido.
Me surpreendi como uma simples fruta, com seu formato, cor, cheiro e sabor tem tal poder. Assim é com o picolé caseiro - feita naquelas formas de alumínio - de abacate, a manga que nos lambuzava, o tamarindo que nos dava água na boca, etc.
Nestes segundos emocionantes de viagem no tempo e espaço me veio a certeza da impossibilidade de aplicar a filosofia do amigo existencialista.
Ao lembrar da fruta, das meninas bonitas de minha infância e adolescência, dos amigos de todos os tempos, dos filmes, discos e livros que me emocionaram e emocionam, dos momentos vividos e dos não vividos por motivos vários, a certeza de que os segundos não nos fogem pelas mãos do tempo, como parece ser: estão conosco em cada momento presente e futuro, nos embalando e sustentando, mesmo que não nos demos conta disso.