terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Tales From Topographic Oceans


Final dos anos 1990. Eu editava o jornal Metamúsica faziam cinco anos. Exigente comigo mesmo que sou, buscava sempre abordar temas cada vez mais complexos relativos à música.
Neste caminho achei que seria uma ótima ideia escrever sobre um dos discos mais intricados da história, seja pela temática seja pela construção musical.
Escrevi a resenha. Reli e não gostei. Me surpreendi com a minha incapacidade de retratar o que deveria ser retratado.
Percebi que precisava de ajuda. Mas quem poderia me auxiliar?
Coincidência (ou não?) nesta época eu já conhecia o Prof. Wagner Borges, fundador do IPPB, Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas, de São Paulo.
Sabia que era amante de boa música e fã da banda em questão.
Em um contato que tivemos na época ele abordou exatamente esse disco! Contei-lhe do meu "beco sem saída" relativo à obra. Ele apenas me disse: "meu querido amigo, fique tranquilo, me dê um tempo que eu escrevo pra você"!
O resultado foi brilhante. Era o que eu queria retratar, sobretudo no que se refere aos temas espiritualistas criados pelo genial cantor John Anderson. Aliás, essa é uma banda formada exclusivamente por gênios. Falo do Yes e do disco "Tales From Topographic Oceans".
Reproduzo na íntegra o artigo, não sem antes fazer duas recomendações para os estimados leitores do blog:
 - Mesmo que não sejam ligados em música ou nesse estilo musical, leiam estas explicações do Prof. Wagner Borges. Acho que vale a pena e vão entender porque.
- Caso não conheçam o Yes e ficaram curiosos para conhecer sua obra, recomendo que não comecem por esse disco. Optem por "Close To The Edge" ou "Fragile".
P.S.: A maioria das capas dos discos do grupo inglês Yes foram realizadas pelo pintor Roger Dean.



Tales From Topographic Oceans
Estamos no ano de 1973. O rock progressivo está em seu auge.
Bandas como Pink Floyd, Yes, Emerson, Lake and Palmer, Moody Blues, King Krinsom, Jethro Tull e outros estão na crista da onda.

É uma época de grandes realizações musicais dentro da corrente progressiva.

Muitos clássicos do gênero foram gestados nesse período, tais como: "The Dark Side of The Moon" (Floyd), "Selling England By The Pound" (Genesis), "Tales From Topografic Oceans" (Yes) e tantos outros.

É sobre esse último que comentarei. Inclusive, porque essa obra maravilhosa do Yes ainda não é bem compreendida até os dias de hoje. Conheço admiradores do grupo que simplesmente abominam esse disco. No entanto, há muitos que consideram esse trabalho no mesmo nível de "Close To The Edge".

Outro dia, conversando sobre rock progressivo e temas espirituais com o Marcos, editor do "Metamúsica", contei-lhe a história de como Jon Anderson escreveu as letras desses "Contos Para Oceanos Topográficos" e quais foram os motivos que levaram-no a escrever esse épico sonoro que remete o ouvinte atento à uma verdadeira "viagem espiritual progressiva" pelos caminhos da música e dos sonhos luminosos.

Desse nosso papo, surgiu a idéia de escrever um texto elucidativo sobre a produção desse disco, detalhes sobre a banda na época, seus vôos sonoros e as viagens pelo terreno das aspirações espirituais.

Ao longo dos anos, tenho explicado a vários alunos um pouco da alma de "Tales..." e suas repercussões dentro da própria banda. Por isso, de maneira a facilitar minha exposição sobre o tema, alinhavei o assunto em perguntas e respostas, de maneira bem simples e objetiva.

Antes disso, vamos a uma pequena introdução:

- Em 1973, o Yes estava em turnê internacional. Na esteira do sucesso de "Yes Album" (1971), "Fragile" (de onde surgiu o hit "Roundabount"; 1971) e "Close To The Edge" (sua obra mais fantástica; 1972) o grupo viajou bastante e fez muitos shows (dessa turnê surgiu o disco triplo ao vivo "Yessongs").

Durante essa turnê, enquanto estavam no Japão para alguns shows, Jon Anderson leu o livro "Autobiografia de Um Iogue", do mestre hindu Paramahansa Yogananda, e simplesmente viajou nos belos ensinamentos ali contidos. Inspirou-se e começou a escrever alguns temas baseados naquilo que lia. O livro contava as experiências espirituais de Yogananda em contato com diversos mestres da Índia. Falava daquela viagem espiritual na busca da paz, de Deus, do encontro consigo mesmo e da expansão da consciência na luz.

Anderson nunca escondeu suas tendências espiritualistas, tendo, inclusive, colocado no disco "Time And World" (1970) uma música que narrava uma viagem astral (experiência fora do corpo, projeção da consciência, onde a pessoa percebe-se fora do próprio corpo, manifestando-se nas dimensões espirituais). Essa música chama-se "Astral Traveller" ("Viajante Astral"). Ela aparece também na coletânea "Yesterday" (1975).

Em seus discos solos, essa tendência fica mais transparente ainda, principalmente em "Olias of Sunhilow" (1976) e "Song of Seven" (1980).

Posteriormente, no disco "Anderson, Bruford, Wakeman e Howe" (1989), em que houve uma discussão com Chris Squire (baixista e co-líder da banda, pedra fundamental da existência e manutenção dessa entidade musical chamada Yes) pelo uso do nome do conjunto, Anderson deu altos vôos espirituais nas letras das músicas, mas, dessa feita, de maneira bem menos ostensiva (como exemplo disso, a música "Big Dream").

Já na década de 1990, ocorreram várias discussões entre ele, que cada vez mais queria falar de temas etéreos nas letras, e Squire e Trevor Rabin (guitarrista, compositor e produtor do Yes entre 1983 e 1995), que queriam mais peso e pé no chão nos movimentos musicais da banda.

Quando esteve no Brasil em sua turnê solo em 1993, mais especificamente em São Paulo, ele deu uma entrevista para uma revista falando de suas inclinações espirituais.

Pois foi influenciado por sua busca espiritual, que Anderson escreveu "Tales..."

Quando o disco saiu, vendeu muito nos primeiros dias e alcançou um bom posto nas paradas inglesas. Contudo, boa parte dos fãs decepcionaram-se. Na verdade, não entenderam o conceito do álbum e não sacaram o pano de fundo das letras. Além disso, o disco (duplo) continha apenas quatro músicas imensas, o que dificultava sua execução nas rádios. Acredito que se fosse um disco simples e com músicas mais curtas, teria sido um grande sucesso de público.

Para o ouvinte mais atento, independentemente do teor das letras, "Tales..." contém algumas passagens instrumentais memoráveis, principalmente nas seções a cargo de Rick Wakeman, principal responsável pelo clima etéreo de vários trechos da obra. Muito embora ele não concordasse muito com uma obra desse gênero, ele trabalhou corretamente e fez sua parte a altura do seu talento.

Aliás, diga-se de passagem, em matéria de talento, o Yes sempre foi privilegiado. Seu principal guitarrista, Steve Howe, sempre foi considerado um dos maiores guitarristas do rock. Rick Wakeman, virtuose dos teclados, simplesmente um dos maiores tecladistas do planeta. Jon Anderson e sua voz maravilhosa, capaz de fazer inveja aos anjos da música. E Chris Squire, um dos baixistas mais dignos da história do rock (seu único disco solo, "Fish Our The Waters" (1975) é um clássico). A conjunção desses virtuosos elementos em uma banda (lembrando ainda dos dois bateristas do grupo, o irriquieto e criativo Bill Bruford - 1968 a 1973, e o fiel e correto Alan White - de 1973 em diante), gerou sonoridades que até hoje encantam e emocionam as gerações mais novas.

Bom, antes que o nosso amigo editor reclame do tamanho desse texto, vamos as perguntas e respostas sobre "Tales From Topographic Oceans".

É verdade que foi por causa de "Tales from Topographic Ocean" que Rick Wakeman saiu do Yes pela primeira vez?
Em parte, sim. Wakeman não concordou com a temática do disco. Quando Jon Anderson (bastante empolgado e absolutamente encantado com as idéias hindus inseridas nas composições) e Steve Howe (bem menos empolgado que Anderson, mas influenciado fortemente por ele) apresentaram o esquema das letras e das melodias aos outros componentes do grupo e aos empresários da gravadora, Wakeman simplesmente saiu da sala extremamente aborrecido. Também Squire e White ficaram impactados com a proposta do disco. Estando a cargo dos dois a parte rítmica (baixo e bateria), ou seja, a cozinha sonora, base e força que daria a sustentabilidade e o contraponto ao tapete sonoro dos teclados e aos rifs de guitarra, eles não compreendiam bem o motivo daquelas letras falando de temas etéreos. Mas, Anderson persuadiu os dois a embarcarem em sua aventura espiritual-sonora.

Wakeman participou desse disco a contragosto. Segundo suas declarações à época, havia muita "encheção de linguiça" nas músicas. Ou seja, muitas seções foram ampliadas exageradamente, o que tornou o disco repetitivo e maçante, mesmo para os fãs do grupo. Na verdade, sua crítica tinha procedência. Se o grupo houvesse trabalhado as músicas de maneira mais simples e com duração menor nas mesmas, o disco teria sido um estrondoso sucesso.

Além desses fatores, o primeiro disco solo de Wakeman, o maravilhoso "The Six Wives of Henry Vlll" ("As Seis Esposas de Henry Vlll"; 1973), tornara-se um sucesso de crítica. Isso motivou-o a tentar uma obra mais ambiciosa ainda: "Journey To The Centre of The Earth" ("Viagem Ao Centro da Terra";1974), seu maior sucesso até hoje. Como ele estava descontente com o rumo que a música do Yes estava tomando e seus trabalhos solos estavam tendo boa aceitação, ele planejou sua saída da banda. Mas, esse descontentamento não empanou o brilho nas seções de teclados a seu cargo no disco. Acima de tudo, muito embora Steve Howe dissesse à época que ele não era sério, seu lado de músico profissional prevaleceu e seu trabalho nesse disco é fantástico.

O comentário ferino de Howe tinha um motivo: por essa época, Wakeman levava uma vida desbragada demais. Bebia muito e era extravagante. Tanto que dois anos depois, em plena turne solo, sofreu sérios problemas cardíacos. E teve que mudar vários hábitos para sobreviver. Há outro fato que convém considerar: com exceção de Wakeman, o resto do grupo era vegetariano. Inclusive, certa revista de rock estampou em suas páginas a foto de Wakeman comendo um hambúrger. Tudo isso foi gerando um grande mal-estar que acabou levando-o a desligar-se da banda logo no início de 1974, pouco depois do disco ter sido lançado.

Por que o disco só tem quatro músicas apenas? Sendo um álbum duplo eles não poderiam ter feito algo mesclado, unindo o conceito principal do disco com temas mais simples?
Na concepção de Jon Anderson não dava para fazer dessa maneira. Ele queria subdividir o tema em quatro seções básicas, de modo que o ouvinte mais atento pudesse perceber uma mensagem espiritual inserida nas palavras.

Em seu livro "Yes, But What Does It Means?", Thomas J. Mosbo comenta isso da seguinte forma: "Não surpreende que "Tales From Topographic Ocean, talvez a única sinfonia de rock verdadeira, tenha permanecido mal entendida, mal apreciada, freqüentemente caluniada e em geral não escutada, exceto pelos fanáticos fãs do Yes, desde sua criação em 1973.

Porém, as sinfonias não estão isentas de que exista um tema determinado que lhes haja inspirado um conceito básico. Isso é o que Anderson encontrou nas escrituras hindus, ainda que seu desenvolvimento não implica na relação de uma história com personagens, uma trama e um desfecho convencional. Também não se pode dizer que suas letras não contenham uma mensagem ao ouvinte. Porém, não está elaborado de forma operística, não narra acontecimentos e nem sagas, e isso se deve a que o conceito, basicamente religioso, que a inspirou e condicionou sua música é estático. Mais do que eventos ou acontecimentos dinâmicos, evoca imagens e climas criados para produzir impressões e estados de ânimo.

Além de qualquer significado real nas letras, a combinação de sons nas palavras contribuem com o efeito auditivo da música, mesmo na condição de que se alguém não entende certa linguagem, como pode acontecer ao escutar a música "The Ancient" ("Os Antigos"), os sons cantados poderão levá-lo a uma percepção da intencionalidade determinada ali inserida."

Você pode explicar em detalhes as quatro músicas?
A primeira parte (antigo lado 1 do disco de vinil duplo) é "The Revealing Science of God - Dance of the Dawn" ("A Ciência Reveladora de Deus - Dança da Aurora"). Essa parte é descrita por Jon Anderson assim:

Primeiro Movimento: SHRUTIS (do sânscrito: "Textos Sagrados"; "Revelações Sagradas")."

"A Ciência reveladora de Deus pode ser vista como uma flor permanentemente aberta, da qual emergem as verdades simples, registrando as complexidades e a magia do passado, e fazendo-nos ver que não deveríamos esquecer nunca a canção que nos foi dada escutar. O conhecimento de Deus é uma indagação objetiva e constante."

Essa primeira música tem tudo de bom do Yes clássico: uma letra inspirada ("Amanhecer da luz", "Amanhecer do pensamento", "Amanhecer de nosso poder" e "Amanhecer do amor"), bons momentos de teclado e guitarra e a voz de Anderson em momento muito inspirado. Para muitos, essa é a melhor música do disco. Em minha opinião, Steve Howe e Rick Wakeman estão fantásticos nessa seção. Novamente, volto a pensar: se essa música fosse mais curta teria sido um grande sucesso da banda.

A segunda parte (lado 2 do disco de vinil duplo) é "The Remembering - High the Memory" ("Os Que Recordam a Memória Elevada").

Descrição de Jon Anderson:

Segundo Movimento: SURITIS (do sânscrito "Smritis": "Memórias de epopéias inspiradas").

"Todos os nossos pensamentos, impressões, conhecimentos e temores têm se desenvolvido no transcurso de milhões de anos. Podemos, através de nós mesmos, referirmo-nos somente sobre nosso próprio passado, vida e história. Aqui é o teclado de Rick que projeta vívidos fluxos e refluxos de olho de nossas mentes: o oceano topográfico.

Por sorte, notamos que certos aspectos ocorridos ao longo do tempo não são tão significativos como a natureza do que está impresso em nossa mente, e o modo como isso está registrado e é utilizado."

Essa segunda música fala da possibilidade do olho da mente viajar nas águas do tempo através do oceano da eternidade (um oceano topográfico espiritual) e vislumbrar outras realidades somente perceptíveis pelas vias da imaginação, da intuição e da viagem espiritual. Nesse ponto, Anderson estava bastante adiantado para a época. A chamada regressão de memória (tecnicamente o nome parapsicológico é "retrocognição"), que hoje é estudada por muitos pesquisadores como ferramenta terapêutica para o desbloqueio de vários traumas psíquicos, é abordada de maneira bem sutil ao longo da música. Ele fala de "viajar longe nos sonhos" e explorar as experiências passadas. Fala de "viajar pelo tempo e pelas histórias e mitos" que formaram a alma da humanidade. Ou seja, é uma busca espiritual nas luzes do passado, um doce canto inspirado na viagem da alma pelo rio espiritual do tempo, uma doce viagem da caravela humana pelo oceano da sabedoria antiga (aqui fica bem evidente a influência dos Vedas, as escrituras mais sagradas dos hindus, sobre Anderson).

Apenas mais um detalhe adicional: a percepção supranormal de eventos externos passados é chamada tecnicamente de "psicometria" (do grego: "psiquê": "alma"; e "metria", oriundo de "metron": "medida"). Ou seja, a percepção da alma das coisas, o mergulho nos registros do tempo (conhecidos esotericamente com o nome de "registros akáshicos").

Como observa-se, não é uma temática fácil de ser assimilada pelos leigos, quanto mais musicada e direcionada a um público genérico e acostumado a outros piques progressivos. Isso equivale a tentar musicar os épicos da Bíblia para os orientais. Esse é mais um dado para demonstrar porque esse disco foi tão mal compreendido.

Muitos fãs do grupo não gostam dessa segunda música, talvez pela complexidade do tema. Entretanto, a parte instrumental está excelente. Rick Wakeman brilhou muito nesse segundo movimento. Seus teclados dão um clima etéreo ao tema. Em minha opinião, as seções a seu cargo são a verdadeira alma dos oceanos topográficos. Por várias vezes, extraí apenas suas partes de teclado dessa música e coloquei-as isoladamente para grupos de alunos em práticas de relaxamente e expansão da consciência. O resultado foi ótimo e eles perguntavam que som era aquele que fazia "viajar espiritualmente". Muitos achavam que era um som new age. Porém, quando eu dizia que eram trechos de teclado de Wakeman selecionados de "Oceanos Topográficos", eles ficavam surpresos.

A terceira parte (lado 3 do disco de vinil duplo) é "The Ancient - Giants Under The Sun" ("Os Antigos - Gigantes Sob o Sol").

Descrição de Jon Anderson: Terceiro Movimento: PURANAS (do sânscrito: "Lendas ou narrações de tempos antigos").

"A antiguidade indaga ainda mais profundamente no passado, mais além do ponto de recordação. Aqui a guitarra de Steve é o pivô para a aguda reflexão sobre as belezas e os tesouros das civilizações perdidas: Índia, China, América Central e Atlântida.

Estes e outros povos deixaram um imenso tesouro de conhecimentos."

Essa terceira música é talvez a parte mais complicada da obra. Anderson quis descrever sonoramente a união que os povos antigos tinham com a Mãe Terra. Para isso, usou de muita percussão com o intuito de criar um clima animista bem forte na primeira parte. Tecnicamente, o trabalho de Howe nas guitarras foi excelente, mas o som da percussão é tão forte (aqui brilhou bastante o talento de Alan White na bateria) que empanou seu brilho. Além disso, dá para perceber nitidamente aquela encheção de linguiça a que Wakeman referia-se. Em alguns pontos, a música torna-se irritante, mais parecendo que a banda estava perdida a essa altura, sem saber direito como desenvolver bem a linda idéia de Anderson sobre a sabedoria dos povos antigos.

Outro detalhe: acho que muitos não gostaram dessa música devido ao excesso da percussão. Quem gosta de rock progressivo está mais acostumado ao virtuosismo dos teclados e guitarras no comando do som. Eis aí mais um detalhe para explicar a aversão do fãs a esse disco.

Porém, chamo a atenção para dois pontos nessa terceira música:

Passado o verdadeiro massacre percussivo da parte inicial (infelizmente extenso demais), a última parte é belíssima. Howe brilha muito no violão e a voz de Anderson evoca aquele sentimento cristalino da ascensão à luz.

Além do tema falar da sabedoria e ligação dos antigos com a Terra, também fala de sua devoção ao Sol. Se o ouvinte observar o disco inteiro com cuidado e paciência, notará que ele é a grande referência de toda a obra. Isso deixa mais clara ainda a influência da espiritualidade hindu sobre Anderson. Para os hindus, um de seus mantras mais importantes é o "Gayatri", em homenagem ao Sol (em sânscrito: "Surya"), expressão da vida. E Brahman (do sânscrito: "O Todo"; "O Absoluto"; "Deus") é o Sol de todos!

A quarta parte (lado 4 do disco de vinil duplo) é "Nous Sommes Du Soleil" (do francês: "Nós Somos do Sol").

Descrição de Jon Anderson: Quarto Movimento: TANTRAS (do sânscrito: "Rituais"; "Regras"; Também são chamados de Tantras aqueles tratados esotéricos que tratam do lado invisível do homem e da natureza, além dos meios pelos quais pode-se fazer descobertas espirituais).

"O Ritual. Os sete pontos da sabedoria para aprender e conhecer o ritual da existência. A vida é uma luta entre as forças perniciosas e o amor puro. Alan e Chris apresentam e transmitem a luta da qual sai vencedora a causa positiva. Nous sommes du soleil. Nós somos do sol. Nós todos podemos ver."

Nessa quarta música, depois de viajar pelas águas do tempo, o viajante espiritual emerge dos oceanos topográficos cheio de vida e luz. Sua alma está vitalizada pela luz da paz. O sol do amor despontou em seus horizontes internos. Ele está resplandecente de sabedoria. Houve uma expansão de sua consciência para outras realidades. Ele aprendeu com o passado e uniu-se a Deus (aqui representado pelo Sol) e está pleno no presente, livre das trevas da ignorância. Um portal de luz em seu coração trouxe-lhe a graça e a alegria para trilhar o caminho de novas auroras cheias de esperança. Isso está claro no seguinte trecho: "... Como o amor é verdadeiro, nos ajudará a cruzar a noite... Se diz que os sonhos fazem florescer a coragem."

A viagem espiritual de que Anderson fala é a viagem sutil da própria humanidade. É a sua luta por novas luzes, é a sua saga de vida entre sonhos e dificuldades, é a sua viagem rumo a Deus, o Sol de todos. "Nós somos do sol" é a expressão espiritual de que a alma humana é filha da luz e tem potencial para vencer as trevas de seus medos e ilusões.

Nessa última música, a parte instrumental e vocal está maravilhosa. Anderson está cheio da luz que dá vida ao tema. Chris Squire finalmente aparece mais no disco e dá um show no baixo. O trabalho de Howe e White está na medida certa. Apenas Wakeman ficou meio apagado nessa seção, mas sem comprometer o resultado final.

Para muitos, essa música rivaliza com a primeira como a melhor do disco. Novamentre penso: Ah, se fosse mais curta...

Detalhe adicional sobre essa música: ela aparece no disco ao vivo "Yeshows" (1981 - coletânea de músicas ao vivo). Mas, quem toca os teclados não é Rick Wakeman, é Patrick Moraz. Na época dessa gravação ao vivo, 1976, era o tecladista suiço quem pilotava os teclados da banda. Inclusive, alguns gostam mais dessa versão ao vivo.

O desenho da capa do disco é do Roger Dean?
Sim. É uma das capas mais bonitas que ele fez para a banda. Quem vê a ilustração reduzida na capa do cd não tem idéia de como ela era bonita na capa grande do disco de vinil duplo, uma capa dupla, que só dá a noção completa do belo desenho quando aberta completamente.

Na sua opinião esse disco foi injustiçado?
Sim, sem dúvida alguma. Hoje, 26 anos depois, dá para fazer uma releitura salutar em cima dessa obra. Há muitos jovens que gostam do Yes e apreciam esse disco. Quem tem mais ojeriza a ele é o pessoal antigo, muitos deles entalados na década de 1970 e cheios de ranços estúpidos. Quem sabe agora esse pessoal olhe com mais atenção essa obra maravilhosa?

Em sua opinião quais são os melhores discos do Yes?
"Close To The Edge" (1972), "Tales From Topographic Oceans" (1973), "Relayer" (1974), "Fragile" (1971), "Yes Album" (1971) e "Going For The One" (1977). Além disso, gosto muito de "Keys To Ascension" (1996; os segundos discos, onde estão as músicas de estúdio) e de "Anderson, Bruford, Wakeman e Howe" (1989; esse disco não tem o nome do Yes).

7. Sintetize o que representa "Tales From Topographic Oceans" para você.

É simples. Posso sintetizar o disco com o título da última música:

"Nous Sommes Du Soleil" - "Nós Somos da Luz".

É uma viagem espiritual sintetizada assim:

Surge a luz da aurora em nosso coração, a luz de Deus.
Relembramos nossa essência espiritual no oceano do tempo, somos eternos.
Aprendemos com os sábios antigos a arte espiritual da união com a Terra e a reverência ao Sol, a arte da expansão da consciência.
Voltamos ao presente cheios de esperança e amor para lutarmos pelos nossos sonhos e seguirmos em frente, pois "NÓS SOMOS DA LUZ!"
A todos os leitores de Metamúsica, PAZ E LUZ!

- Wagner D. Borges -
(Pesquisador, conferencista, autor da série de livros "Viagem Espiritual" (sobre experiências fora do corpo e temas espirituais), instrutor de cursos de Projeciologia, Bioenergia, Taoísmo, Hinduísmo e temas espirituais, 37 anos, botafoguense e amante de rock progressivo e new age.)
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* Bibliografia:
- "Seventh Heaven Vol. 3" (revista argentina; há uma matéria especial sobre "Tales From topographic Oceans" nas págs. 1-20). Essa revista fundiu-se com a revista "Mellotron", uma das melhores publicações de rock progressivo do mundo.
- Livro: "Yes, But What Does It Means"; Thomas J. Mosbo.
- Livro: "Yes, Uma Rara Música de Quinteto"; Décio Estigarribia; Editora Muiraquitã; Niterói, Rio de Janeiro.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O Copacabana Palace, os Guinle e eu


Nunca me hospedei no belo Copacabana Palace. Mas bem que gostaria. Quem sabe ainda chego lá. Mas não ao final, como o Jorginho. Logo entenderão o que acabo de dizer.
Acho que a diária mais barata deve estar na faixa dos três mil (no Anexo). Já a mais cara por volta dos 25 (mil Reais): suíte presidencial de cara pro gol, ou seja, Avenida Atlântica. Fora das minhas parcas possibilidades no momento.
O tombamento pelo Iphan nos anos 70 mais uma injeção de 50 milhões de dólares de um americano garantiram a sobrevivência desse monumento artístico e histórico no coração da Zona Sul.
Outro interesse meu é relativo à história do único legítimo Playboy brasileiro: Jorginho Guinle. Torrou em vida bem vivida a herança, conquistando Hollywood e belezuras como Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Kim Novak, Ginger Rogers, Gina Lollobrigida, etc etc. Além de ter se tornado amigo de atores e dos maiores jazzistas dos anos 50 (conta-se que foi ele que aconselhou Miles Davis a inserir John Coltrane em sua banda!!!).
Mas o que une essas duas citações? É que o Copacabana Palace foi erguido pelo pai do Jorginho, na década de 1920. Era um dos componentes do clã Guinle.
Descobri isso lendo o livro "Os Guinle - A história de uma Dinastia" (250 páginas, Editora Intrínseca) do historiador Clóvis Bulcão.
Delicioso, o livro mostra a importância da família para a economia e para o desenvolvimento das artes no Brasil da primeira metade do século XX. 
Alguns exemplos de atuação: estruturação do futebol com a construção do estádio do Fluminense nas Laranjeiras e apoio na criação das sedes do Flamengo e Botafogo; construção do Hipódromo da Gávea; construção do Palácio Laranjeiras (atual sede do governo estadual); criação do Hospital Gaffreé-Guinle; criação e administração do Porto de Santos; construção da Rio-Petrópolis; fundação do Banco Boavista; apoio benemerente a Pixinguinha, Villa-Lobos e Orquestra Sinfônica Brasileira; criação do Banco da Providência, etc etc.
Vai além o livro, quando mostra detalhes inusitados e surpreendentes.
A fortuna da família começa quando dois amigos de infância do Rio Grande do Sul, Eduardo Palassim Guinle e Cândido Gaffreé, ambos de ascendência francesa, montam sociedade no Rio, século XIX, em um modesto armarinho. Essa sociedade nunca se desfez mas a dinastia que entrou na história foi a dos Guinle uma vez que Cândido nunca se casou nem teve filhos. Quer dizer, mais ou menos. Eduardo se casou com Guilhermina e tiveram sete filhos. Historiadores dão conta que a sociedade entre ambos ia mais além. Guilhermina também era amiga de infância dos dois e, ao que parece, pelo menos três dos sete Guinle eram filhos na verdade de Gaffreé, que dava como seu endereço o mesmo do palacete de Eduardo... Turma bem moderna pra época, não acham?
O livro tem muitas outras "fofocas" históricas que eu adoro, confesso. Mas a pesquisa do autor é ampla, mostrando os diferentes caminhos trilhados por cada um dos sete membros originais do clã (cinco homens, duas mulheres), bem como de seus herdeiros. A ascensão bilionária ao longo de 50 anos e a queda após o golpe militar, uma derrocada tão grande (com algumas exceções) cuja principal referência é o milionário playboy Jorginho Guinle pedindo dinheiro emprestado no fim da vida. Não para comprar diamantes, champagne e caviar, mas sim para pagar o mercado e a farmácia. Consertar as roupas puídas enquanto se tratava em hospitais públicos.
Por sorte, ao final, lhe ofereceram uma suíte no Copacabana Palace para passar seus últimos dias, pois ele dizia que "não queria morrer e ir para o céu, e sim morrer no céu".
Assim é a vida. Pelo menos dos Guinle.
Eu, enquanto isso, apenas passo em frente ao hotel e fico imaginando quantas histórias aquelas paredes guardam dentro de si.


domingo, 10 de dezembro de 2017

A Nostalgia e a Morte de Luiz Carlos Maciel

Já passa de 1 h da manhã. O domingo avança pela madrugada. A TV está ligada no canal Arte 1, o volume está baixo mas dá pra ouvir o piano que toca no documentário contando a biografia de Frédéric Chopin.
Todos dormem e meus olhos já ardem de sono. Uma última olhada no celular e vejo a notícia da morte de Luiz Carlos Maciel. Um aperto no peito, sentimento de perda, nostalgia: um dos caras que mais admirei nas minhas leituras de juventude. Tempo, tempo, tempo... Ele estava com 79 anos.
Me lembrei que havia escrito algo sobre ele no Blog do Felipe Muniz. Demorei mas encontrei.
Sem mais comentários sentimentais reproduzo a seguir.
Boa viagem LCM.

Nostalgia, segundo o Luiz Carlos Maciel (originalmente publicado no verão de 2011 no Blog do Felipe Muniz)

O domingo amanheceu ensolarado. Belo dia.
Para quem gostar e tiver oportunidade, um bom dia para tomar um banho de mar (ou “banho de bar”). Desde que a praia não esteja tão lotada nem poluída. Piscina pode ser também uma boa opção.
Quem sabe dormir até mais tarde, fugir do calor, ler o jornal dominical, descansar... Para os religiosos, também dia de ir à Igreja.
Dei uma passada rápida aqui no blog porque precisava passar um mail. Não estava nos planos colocar post hoje. Aliás, verão, fim de semana, a assiduidade por parte dos leitores cai naturalmente, certo? Não! Me surpreendi ao verificar que 410 pessoas olharam o blog ontem. Eu e o Luiz Felipe agradecemos a atenção.
Mas - antes mesmo de tomar o café da manhã e depois dar uma passada na praia - o que devo colocar aqui no blog neste domingo?
Pois, não sei como e porque, me lembrei de uma pessoa, um cara muito especial. É em homenagem a ele este post dominical.

O gaúcho Luiz Carlos Maciel (nasceu em 1938 e em alguns de seus livros o Luiz aparece com s) é escritor, filósofo, jornalista (foi um dos fundadores do jornal “O Pasquim”), diretor, escritor, roteirista, crítico musical, etc.
Era chamado nos anos 1970 de “Papa da Contracultura” (ou “Cultura Underground”). Um grande Intelectual. Com I maiúsculo.
Faz tempo que não vejo ele nos jornais, TV, revistas, etc. Só sei que ele mora no Leblon. Mas sempre me lembro de alguns ensaios de sua autoria que li há muito tempo.
Com a Internet ficou mais fácil achar alguns de seus escritos (acho que todos os seus livros estão fora de catálogo) como este sobre ‘nostalgia’ que reproduzo abaixo.
Não sei se esse tipo de assunto interessa mais, neste dias corridos, sem muito tempo para pensar sobre a vida.
É de 1977, mas vai ser atual sempre (independente do interesse despertado). Só gostaria de saber se hoje em dia (com mais de 70 anos) ele mudaria alguma coisa.
É claro que poderíamos atualizar algumas frases, tipo: O que os Beatles, Tina Turner e Pink Floyd tem que o Justin Bieber, Lady Gaga e Restart não tem?

NOSTALGIA
Luiz Carlos Maciel (do livro “A Morte Organizada”)
"Dizem que há um clima geral de nostalgia em todo o mundo. De repente, como se tivéssemos ficado cansados das novidades incessantes dos últimos anos, estaríamos parando para lembrar. São numerosos os jornais e revistas, os articulistas e repórteres, que parecem estar tentando nos convencer de que a memória, afinal de contas, é bem mais excitante e divertida que a vida atual. O que tem Humphrey Bogart e Marilyn Monroe que Mick Jagger e Alice Cooper, a julgar por eles, não têm? É difícil saber, considerados apenas os chamados dados objetivos desses nomes e dos fenômenos mais amplos que eles representam. As coisas passam e o mundo muda — isto é tudo. Se, de alguma forma, nos prendemos ao que passou ou pretendemos, periodicamente, retornar a ele, isso deve ser naturalmente atribuído a uma poderosa força psicológica sobre a qual não parecemos ter, ainda, muita clareza. Por que o passado — e não o passado distante, mítico e incognoscível, mais aberto portanto à imaginação, mas um passado que vivemos — nos parece, de súbito, tão atraente e envolto em encanto?
A nostalgia, como fenômeno social, é o produto direto de um certo sentimento do mundo, que se pretende afirmar como dominante, típico de pessoas que ultrapassaram a metade provável de suas vidas. Vivemos sempre no passado ou no futuro; a desatenção nos desvia no momento presente para essas fantasias, sempre imprecisas mas exigentes, sugeridas pela memória e pela imaginação. Os jovens, por exemplo, em sua circunstância biológica, costumam viver o futuro: são, inteiramente, projeto e antecipação. Gostam de previsões, profecias e, mesmo, planos a longo alcance. A imaginação doentia, então, se projeta para diante. Na medida em que a vida passa, porém, o futuro se fecha, as fantasias se desmentem e a imaginação — cada vez mais doentia, pois em geral tentamos curar nossas doenças ingerindo doses cada vez mais altas dos venenos que as provocaram — procura pasto na memória. Frustradas as suas antecipações, o ego sente que está perdido e abandonado à insegurança fundamental da liberdade — que, aliás, só é angustiante em sua ótica deformada, sendo para o homem desperto, ao contrário, fonte de paz e equilíbrio psicológico. Volta-se, então para essas imagens obscuras da memória como se elas fornecessem um atestado da existência objetiva de algum paraíso e seguro que ele, o ego, pudesse dominar. As imagens obscuras, porém, são apenas imagens obscuras, não correspondendo a nenhuma realidade efetiva, e o sentimento que brota então é uma coisa morna e passiva, doce mas triste, aparentemente tranquilizadora mas mortal a que chamamos nostalgia.
A verificação prática é fácil. Todos os objetos da pretensa onda de nostalgia que, segundo certa imprensa, é uma moda atual, são lembranças dos anos cinqüenta, justamente a época em que as pessoas que, agora, estão na metade provável da vida, eram jovens curiosos e abertos ao futuro. O aparecimento de um sentimento nostálgico no mundo, nessa gente, indica, antes de mais nada, que estamos vivendo o momento histórico em que elas viram desmentidas as suas antecipações, frustrados os seus projetos e desmanchado o futuro fictício que elaboraram longamente nas cavernas secretas da imaginação. Por que a nostalgia não se satisfaz com um passado mais recente? Por que não ousa recuar a um passado mais remoto? Não: as explosões nostálgicas fixam-se num recuo de cerca de vinte anos, mais ou menos, ou seja, justamente o período intermediário entre a infância e a adolescência dos que estão nos trinta, nos quarenta, e suas atuais decepções. “Já temos um passado, meu amor”, diz Caetano Veloso em Saudosismo. Essa verificação existencial é o ponto inicial do processo: o passado reaparece a partir do esvaziamento do futuro. Os anos cinqüenta aparecem, imaginariamente, como a perspectiva perdida de um controle ingênuo da realidade, típico da infância e da adolescência — uma ilusão evanescente, é verdade, mas nossa primeira reação ao desamparo é o apego a ilusões — dolorosas ou agradáveis, não importa. Naturalmente, o que se introduz aqui, na vida de um indivíduo, é a própria velhice e a própria morte, disfarçadas nas cores suaves da memória. “Recordar é viver”, dizem as pessoas mais velhas, morrendo sempre mais um pouco — sabendo ou não —, na medida em que se fortalece o apego ao que passou. A nostalgia é uma espécie de nó psicológico. Ela obstrui a atenção ao momento presente, invertendo o sentido original de velhas aspirações — políticas, afetivas, existenciais, etc. Pode ser definida como o momento traiçoeiro de descoberta do passado, uma reversão psicológica de conseqüências mortais para a vida espiritual de qualquer indivíduo ou coletividade. Por isso, as épocas nostálgicas são sempre épocas de poucas perspectivas para o futuro. Quando a sombra das desilusões caem sobre ele, nossa sede insana por segurança e conforto, nossa moleza espiritual e nossa covardia procuram refúgio no passado. Esse sentimento do mundo aparece sempre quando a geração intermediária — sempre influente nos caminhos das coisas — se defronta, afinal, com uma perplexidade insuperável. Norman O. Brown já estudou o fenômeno da regressão psicanalítica em termos de uma nostalgia de uma Idade de Ouro perdida junto com a infância. Resta verificar a medida em que essa nostalgia serve a interesses ideológicos específicos de estagnação da vida que deveríamos permitir que se renovasse sempre. A nostalgia, de que tanto falam os jornais e revistas, não passa de um poderoso instrumento psicológico da Morte Organizada."

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Meus 15 minutos de fama

Houve um tempo, mais ou menos distante, em que fui famoso. Mas não fiz fortuna. Acreditem.
Nem era fama instantânea, como agora, em tempos de Internet.
E nada parecido com Brad Pitt, Paulo Coelho ou Kim Jong-un. Ok, isso é uma piada.
Até porque meus possíveis fãs se restringiam aos adeptos de um estilo musical que provavelmente 110% dos meus 17 leitores desconhecem solenemente: Rock Progressivo. Não se sintam menos importantes por isso. Se não conhecem é porque estão dentro da normalidade.
O fato é que - mesmo não sendo da área - editei uma publicação ao longo de cinco anos, cujo ênfase era a análise e divulgação desses sons criados por músicos geniais.
Resumidamente, Rock Progressivo é rock com elementos de Música Clássica, Jazz, Folk, etc. O auge do movimento foram os anos 70 mas ainda hoje (e sempre) existe uma farta produção independente em todos os cantos do mundo. Para isso exige-se do músico "pouca coisa": capacidade técnica, criatividade, emoção, dedicação... Nada a ver com o Funk, Sertanejo ou Pagode, portanto.
Minha publicação - uma das poucas editadas em português até hoje e uma das raras em todo o mundo - chamava-se Metamúsica, formato tabloide e que chegou a ter 98 páginas, quase tudo escrito por mim, que até hoje não sei como consegui.
Com uma média de 1500 exemplares, distribuído em diversos pontos do Brasil e enviado para os cinco continentes (mesmo sendo em português), tornou-se referência no estilo: as centenas de cartas  e discos que recebia para resenha acabavam por abarrotar minha caixa postal (era caixa postal mesmo, nos correios, não a caixa de entrada de e-mails nem as de mensagens do Whatsapp).
Durante esse período colecionei histórias muito interessantes, algumas bem estranhas, como a mensagem que recebi da Espanha, avisando para eu "ter cuidado com o que escrevia", em referência a uma matéria sobre a música do País Basco (na época a organização E.T.A. estava a pleno vapor;  essa é uma longa narrativa que qualquer dia conto aqui).
Mas voltemos ao tema principal, a possível fama efêmera de que fui vítima. É que ontem resolvi montar minha Árvore de Natal e ela estava guardada em uma meia-água que tenho nos fundos do quintal. Ali é o quarto de despejo, cheio de coisas que ainda pretendo organizar e usufruir mas que não faço isso nunca. Ou seja, uma bagunça. Inadvertidamente abri uma estante onde guardo milhares de itens referentes à publicação. Remexi rapidamente e por sorte achei dois jornais com matéria sobre o Metamúsica. No Globo foi só citação dentro de artigo sobre fanzines semi-profissionais. Já o texto maior é, curiosamente, em jornal de minha cidade onde definitivamente o Metamúsica nunca circulou (a não ser entre colecionadores que frequentavam a Caiana Discos, histórico point dos discófilos da região).
A matéria de página inteira foi publicada em outubro de 2000. Reencontrar essa raridade, já meio amassada e amarelada e da qual nem me lembrava, provocou uma certa nostalgia e essa brincadeira da (pseudo) fama efêmera: a bem da verdade muitos artistas tem isso em suas histórias de vida. Fizeram grande sucesso e depois sumiram na poeira do tempo.
Atualmente, com a Internet, tal característica do nossa época tornou ainda mais precisa aquela antiga previsão: "no futuro (que já deve ter chegado) todos terão direito (ou o azar) de ter seus 15 minutos de fama". Ainda bem que eu já tive os meus. Ou não.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A garota do Banco e a minha suposta velhice ou: "Muito velho para o Rock and Roll, muito jovem para morrer"!


Hoje pela manhã precisei ir à agência bancária.
Meu filho foi comigo. Passamos antes no barbeiro e de lá seguimos. Ele precisava também atualizar o número do seu Smartphone para poder movimentar sua Conta Universitário.
Na entrada do banco, antes de passarmos por aquela roleta detectora de metal, há uma máquina emissora de senhas de atendimento. Ali fica uma atendente operando a tal maquininha.
Imagino que deve existir pessoas com dificuldade no "relacionamento digital" (não falo aqui de sentimentos expostos via internet), pois a máquina é amigável, de operação fácil. É introduzir (com cuidado) o cartão e escolher as opções que vão aparecendo.
Mas, já que a moça estava lá, então não vou fazer desfeita e responder as perguntas dela.
- "Bom dia! Introduza na abertura por favor!", disse-me a simpática funcionária, referindo-se obviamente ao cartão do banco.
Fiz o que ela mandou e aguardei ansioso novas instruções que seguiria sem pestanejar.
- "O que o senhor está querendo?", inquiriu ela, com um sorriso de manhã de segunda-feira.
- Como assim?
- "O que o senhor veio fazer aqui?". Olhei para o lado, era comigo mesmo.
- Bem, necessito pensar pra te responder, mas adianto que preciso emitir um TED e conversar com o gerente de minha conta. Ou seja, atendimento no caixa e negocial.
- "Huummm... Então são duas senhas... Deixa eu ver o que faço...". Não tenha pressa em decidir, tenho o dia todo e está agradável esse tumulto aqui. Isso eu pensei mas não falei. Não deve ser fácil ficar ali atendendo o pessoal o dia todo. Devem aparecer muitos impertinentes. Permaneci portanto em "silencio obsequioso".
- "Vou tirar duas senhas, quem sabe dá a sorte de não ser chamado ao mesmo tempo nos dois locais". Era o que eu imaginava ser a melhor opção, parabéns pela sábia decisão! Também não falei isso. Permaneci santificadamente calado, murmurando apenas um "OK" e emitindo leve sorriso.
Ela imprimiu a primeira senha e pediu para introduzir outra vez (o cartão) na abertura indicada, para imprimir a segunda. No entanto, antes dessa complexa operação, ela me fez uma pergunta fatídica:
- "Atendimento preferencial?" Hein?! Esbocei um olhar de incredulidade, mas ela me olhava desafiadoramente, aguardando a resposta.
- "Atendimento prioritário senhor?" Será que ela se referia ao meu tipo de conta corrente? Sabe como é, os bancos atendem com mais atenção quem é detentor de contas mais importante$. Mas isso é detectado automaticamente pelo cartão, que contem todas as informações necessárias. Não era isso. Então só podia estar se referindo à legislação em vigor.
Nos milésimos de segundos que demorei para responder fui buscar no HD o que eram as tais prioridades, pois já tinha lido sobre elas: pessoas portadoras de deficiência, idosos com idade igual ou superior a 60 anos, gestantes, lactantes e às pessoas acompanhadas por crianças de colo. Até onde pude perceber, na quase totalidade dessas situações eu visivelmente não me enquadrava. Bem, uso óculos de grau elevado mas, para esses casos, a "deficiência visual" não se enquadra. Conclusão óbvia: ela queria saber se eu tinha mais de 60 (ou já estava achando que tinha).
Como assim, não perguntei eu. Estaria tão evidente uma idade avançada? Fale comigo moça! Por favor. Só tenho 58 anos, faltam dois séculos para chegar aos 60!
Só respondi "não" e agradeci. Também pelo fato dela não me chamar de tio, ou pior, vovô.
Já aguardando o atendimento, a primeira fila de cadeiras era reservada para os prioritários. Me sentei na segunda. Um bonito casal de velhinhos (ok, idosos), que pareciam estar acima dos 80, sentou-se na minha frente. Virei para meu filho: "Viu?! A atendente já estava querendo me colocar ali". Com um sorriso ele respondeu: "que nada, deve ser uma pergunta protocolar". Tá certo... Muito generoso esse filho.
É fato que não estou tão distante assim do que antes era chamado de terceira idade (nunca entendi esse termo, talvez sexagésima terceira seria mais adequado), e nem me preocupo muito com isso, mas é bom eu me acostumar com a ideia que não dá mais pra competir com a rapaziada da academia. Nossa geração determinou o fim do conceito de "velho" e dizem que a próxima vai chegar bem aos 120, no entanto não dá para ser infinitamente jovem: embora queiramos isso, tem sempre uma atendente de banco no meio do caminho... por mais que eu continue gostando de ouvir rock'n roll, como diria o pessoal da banda inglesa Jethro Tull!

Música: Jethro Tull - "Too Old To Rock'n'Roll Too Young To Die" - Legendado

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Em tempos de crise, música que acalma e traz saúde

Provavelmente devido à "características de DNA", sou extremamente ligado à música. Esteja trabalhando, no carro, fazendo alguma tarefa em casa, lendo, escrevendo, é fato que - se for possível - haverá sons melódicos e harmônicos ao meu redor.

Nem todos são assim, óbvio. Há também quem não goste de ler, assistir filmes, ver o por do sol, admirar plantas, cuidar de animais, tirar fotografias (não estou falando de selfies com o celular). Enfim a gama de gostos e desgotos é à la carte: cada cliente da vida tem seu próprio ranqueamento de interesses, de como usar seu tempo livre e seu tempo "preso", de acordo com as oportunidades.

Assim, se abordo aqui músicas de diversos gêneros - Jazz, Blues, Rock, MPB, Pop, Erudito - tal tema vai interessar apenas a uma parte dos prováveis leitores. O mesmo se for comentar sobre os outros itens que citei (livros, filmes, fotografia, etc).
Pensando nisso, refleti se seria possível falar de música de uma forma que despertasse a curiosidade de qualquer pessoa.

Resolvi dar uma olhada em uma das minhas estantes repletas de CDs e LPs (os antigos discos de vinil) e minha visão foi direcionada para uma antiga caixa com quatro discos que eu não mexia nem ouvia há muitos anos. Estava ali o que eu procurava! Para interessar a todos, um assunto que é universalmente importante: a nossa saúde.

A abordagem pode ser diversificada, afinal música é momento e, para cada instante, uma trilha sonora adequada.
Fazer um saudável exercício aeróbico na academia exige uma música mais agitada. Para correr na praia basta o som das ondas, que também é relaxante.
Mas haveria uma música mais "calma" especificamente para ajudar na saúde?

Me lembrei que nos anos 90 havia feito um artigo para o jornal Metamúsica exatamente sobre essa temática e a referência era essa mesma musical box.
No citado artigo tentei desvendar as possibilidades oferecidas pela música como elemento de auxílio à preservação ou recuperação da saúde.
Não foi um artigo sobre musicoterapia e sim sobre sons que facilitam o fluir das informações de auto-cura que cada um traz dentro de si.
O título era “O Poder da Música – Muito Além dos Sons”.
Trabalhos de Jim Oliver, Dr. Jeffrey Thompson, Deuter e Steven Halpern (Ph.D.) compõe a coleção.

Não pretendo reproduzir o artigo aqui, que é longo, mas mostrar algumas composições e alguns comentários dos autores, pesquisadores e músicos.
Está dentro da idéia de “Medicina Quântica”: as exigências atuais costumam nos jogar em inesperadas ondas de estresse. A mente, a alma e o corpo respondem a isso, criando doenças físicas, psíquicas e espirituais.
A busca de uma melhor atitude mental deve ser contínua e traz benefícios individuais, familiares, comunitários, planetários e cósmicos. Não se trata de ‘esoterismo’, mas da realidade que – do micro ao macro – somos um único organismo vivo.

A melhor forma de fazer um resumo do tema é lermos o que opinam os autores/músicos presentes nesta seleção. Cada um deles tem uma forma de trabalhar nas suas construções musicais que buscam oferecer saúde (em todos os níveis) aos ouvintes interessados.

Seguem alguns trechos dos depoimentos que selecionei. Acho que se identificarão com alguns dos comentários - até porque, nesta época tão complexa, tão difícil, o que precisamos é de momentos de paz:

“Nós geralmente nos vemos presos a arrependimentos quanto ao passado e temos grande ansiedade sobre o futuro. A música pode nos ajudar a curar a separação que isso cria e nos permitir viver de fato no presente.” (Jim Oliver)

“Tudo vibra na natureza. Pensando em doença eu argumentei que doença é ‘des-harmonia’, ‘des-tempero’, ‘dis-torção’, ‘dis-sonância’, ‘des-ilusão’ e ‘des-conexão’ (fragmentação da psique). Eles são sinônimos da mesma coisa – não ser um todo, conectado e integrado”. (J.O.)

“Os sons específicos remetem-se às áreas específicas, mas a combinação dos sons em ‘música’ é o que envolve as emoções. Sem cura no nível das emoções e da alma não pode haver uma cura completa no corpo físico”. (J.O.)

“Usando o som, é possível fazer mudanças profundas nos padrões de ondas cerebrais e estados de consciência, observáveis em equipamentos de mapeamento de ondas cerebrais (eletroencefalograma), bem como mudanças positivas no corpo, mensuráveis através de testes de sangue, equipamento de biofeedback e outros procedimentos sofisticados”. (Dr. Jeffrey Thompson)

“Em minhas gravações costumo utilizar três classes de sons: ‘sons primordiais’ (nossa primeira experiência sensorial, ainda como feto, que tem semelhanças com sons captados pela nave Voyager), ‘transferência de ondas cerebrais’ (utilização de ondas alfa e theta; certos arranjos podem criar uma atmosfera de paz, mistério, maravilha e abertura) e ‘música mística em múltiplas camadas’ (com efeitos em 3D, sendo melhor ouvir com fones de ouvido).” (Dr. J.T.)

“Todo desconforto e estresse, toda doença e mal-estar tem a tensão como uma das suas causas principais. Um profundo e total relaxamento, portanto, formará a base de qualquer cura verdadeira e duradoura” (Deuter)

“Nós vivemos em uma sociedade que chama nossa atenção para o exterior, onde todas as energias, todos os objetivos e esforços são direcionados para fora. Portanto, encontramo-nos em desequilíbrio pouco saudável, que nos fará sentir vazios. A música e os sons e a proximidade com a natureza (mar, florestas) podem ser um caminho para nosso interior, para nosso bem estar” (Deuter).

“A base da minha abordagem de curar através da música é empregar a sabedoria própria de corpo/mente e a habilidade geneticamente programada de curar-se, ao apresentá-las com as vibrações apropriadas. Minha intenção sempre foi usar a música e o som para ajudar o corpo a entrar em seu estado natural de equilíbrio e harmonia. Sabemos como equilibrar e curar a nós mesmos, se nos for dada a oportunidade e o encorajamento para tal. Fazemo-lo automática e efecientemente quando estamos em total relaxamento.” (Steven Halpern, Ph.D.)

“Autoridades médicas tem documentado os efeitos benéficos da música através de exames específicos, de maneira que não se trata apenas de crença ou gosto musical. Além das mudanças físicas eu acredito que há um efeito no nível da alma, e que há de fato uma ressonância celular acontecendo no ouvinte, ressonância esta que auxilia o corpo, a mente e o espírito a restabelecerem sua conexão com o Criador, a Fonte (ou qualquer outro nome mais apropriado para você).” (S.H.)

A seguir dois videos, dentro do tema abordado: momentos de introspecção para auxiliar a alcançar, através de sons, o controle do estresse (causador de problemas de saúde). Só para relaxar...



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O dia comum e o grupo no WhatsApp


Todo dia pela manhã abro o WhatsApp (aquela rede social) daquele grupo e tem vários "Bom Dia". Alguns com mensagens com votos de felicidade e dicas do bem viver.
Hoje nem abri. É a mesma coisa dita de forma diferente, repetida.
Deixo o celular de lado, vou levantar pra tomar café com leite, aipim, batata doce e queijo branco. Tenho me esforçado para abandonar meu caso de amor eterno com o pão francês. Farinha branca, meu pirão por último. Coisas de saúde versus idade. Quase sempre encontro com velhos amigos - não amigos velhos - reclamando de índices glicêmicos, taxas de colesterol e triglicerídeos, balanças desreguladas... Melhor fazer logo um sacrifício e entrar no arroz integral e assemelhados. Dizem que depois a gente acostuma. Tem que acostumar. Minha genética tem me ajudado até aqui, mas desconfio que ela já chegou no seu limite, preciso agora fazer a minha parte.
Mas e aquele grupo? Nem olhei.
O joelho nesta manhã dá leves sinais de reclamação, desconfio que ontem na Academia quis acompanhar aqueles rapazes tatuados e aquelas jovens de belos leggings grudados. Fiz mal negócio. Melhor ir devagar pegando ritmo, caso contrário a "Idade do Com_dor" vai se tornar uma realidade para este não tão garoto como pensa aparentar.
O celular está lá, esquecido. Nem vi o Facebook nem o Instagram. Nem aquele grupo.
Por volta das 11 horas fui com meu filho cortar o cabelo. Pensei em ir em uma barbearia que abriu aqui perto de casa. Nem tem nome de barbearia. É Barbershop (ou Barber Shop, não sei bem como se escreve). Lá os jovens profissionais usam barba. E tem música legal. E tem sinuca. E tem cerveja. Decoração e ambiente modernos. Grandes portas de vidro, pé direito alto. Fazem do cortar o cabelo quase uma experiência sensorial. Mas lá não tem o meu barbeiro Ricardo com suas histórias e hilárias considerações, com um certo mau humor irônico. Nem os antigos clientes que repetem os mesmos 'causos' que se passaram em suas vidas. Hoje o tema foi um valão que tem ali perto. Estão limpando. Dizem que desta vez vão dar a solução definitiva. Os ipês roxos e amarelos que ali habitam agradecerão.
E teve um falatório sem fim de um senhor que tenta há 20 anos retomar seu posto nos Correios, demitido numa dessas reduções de mão de obra. Segundo ele o caso já está nas mãos do Ministro Barroso do STF há quatro anos, engavetado. Segundo ele... Definitivamente não vou trocar a pequena barbearia do Ricardo perto do valão com ipês por aquela Barbershop chic. E olha que o preço é praticamente o mesmo.
E deu meio-dia. Hora de desejar "boa tarde", mas eu nem entrei naquele grupo hoje...
No retorno pra casa muito sol, vento seco. Não sei bem porque, resolvi lavar o carro. Não sou adepto de tal prática, embora goste que o veículo esteja sempre limpo. Desconfio que queria fazer uma atividade física ao som de uma boa música alta. Coloquei Deep Purple, Led Zeppelin e The Who. Nada mal. O carro ficou um brinco e eu nem percebi o tempo passar, ouvindo "Machine Head", "Phisical Graffiti" e "Who's Next"! Já lavaram o carro ao som de Hard Rock? É uma terapia física e mental. Mesmo que você odeie limpar automóvel. Bem, tem gosto pra tudo.
Mas faltava algo naquela tarde... o que seria? Claro! O livro do Ruy Castro que contém crônicas sobre música, principalmente Jazz, que havia começado a ler na véspera. Chama-se "Tempestade de Ritmos" e ótimo de ler tendo como trilha-sonora qualquer CD do genial Miles Davis.
Mas, eis que repentinamente no meio da leitura, algo me salta de forma clara à mente: o fato de não ter olhado e respondido aqueles "bom dia!" do Whatsapp está me perseguindo! Sobretudo aquela turma. Literalmente turma.
Não os via há 37 anos, desde a formatura em 1978 na Escola Técnica. Depois de um longo percurso nos reencontramos em 2015 e foi como não existisse essa tão grande lacuna. É uma história longa e comovente.
O tempo passou para todos - inexorável que é - caminhos diferentes foram tomados. Mas depois que que nos reencontramos algo mudou: conseguimos trazer de volta aqueles momentos jovens, felizes sem pressões. De pureza da alma, de ser amigo apenas para desfrutar o prazer de ser amigo. Juntos voltamos aos 18 anos, um presente que não esperávamos.
Nos encontramos pessoalmente regularmente mas é no Whatsapp que temos os contatos diários. Neste dia em que tantas atividades foram feitas e estive com pessoas que nem conhecia bem, percebi que sempre precisamos do outro. É nosso espelho, nossa referência existencial: me percebem, logo existo. Mas se esse outro são aqueles amigos e amigas de um período tão áureo de nossa vida, a coisa atinge um ponto muito mais alto, diferenciado.
Nos "Bom Dia", nas mensagens, nas piadas, nos videos e músicas, nos bate-papos, nas fotografias daquele grupo da Escola Técnica eu posso estar com eles todos os dias, como foram aqueles tempos maravilhosos de 1976, 1977 e 1978. Não é nostalgia. Ou, não é apenas. É vivenciar hoje o bem estar de outrora.
E, no final desta tarde, depois de barbeiros, histórias intermináveis, ipês roxos, carros, rock, jazz, livros, cálculos financeiros que nem sempre fecham, peguei o celular, abri o Whatsapp e olhei o grupo "Edificações 76*78": 77 mensagens não lidas! Digitei "Boa tarde turma, obrigado por existirem! Abraços a todos!"

sábado, 19 de agosto de 2017

Impressões sobre a música e seus poderes

Nunca entendi porque algumas pessoas gostam tanto de música e outros não dão a mínima. Ok, é apenas mais um item da singularidade entre os seres humanos.
Acredito que na natureza (fora a humana) existe um consenso maior. 
No mundo animal (irracional ou nem tanto), por exemplo, a música - ou sons organizados em uma forma - é unanimidade por um motivo simples: sexo! Qualquer tipo de acasalamento que já ouvi falar leva em consideração a arte da conquista, ainda que instintivamente. Neste caso, além de sinais visuais são emitidos cantos, muitas vezes complementados por danças ou movimentos bem específicos. Sem dúvida um ótimo motivo para os animais criarem sua própria forma musical, de acordo com a espécie.
E com o mundo vegetal? Experiências tem sido feitas com viníferas submetidas à música de alto nível para se conseguir colheitas de caráter superior, gerando vinhos soberbos. Coincidência que o vinho seja considerado a mais sensual das bebidas.
Nesse aspecto, também no universo humano a música tem forte respaldo, seja através de letras apaixonadas (ainda que de "sofrência" ou de "corno") ou de ritmos e melodias que conduzem ao apelo das artes amorosas. É de se concluir que, ao longo dos séculos - até pela sobrevivência da espécie - o encontro sexual tenha se mantido como fato propulsor da humanidade. Seguindo essa linha de raciocínio a música pegou carona em tal fato e tem sobrevivido e se expandido como necessidade e prazer.
Paradoxalmente, que gênero musical (em suas diversas formatações) tem atravessado os tempos? A música religiosa! Incluindo cânticos e ritmos tribais, para não ficarmos somente nas matrizes europeias e asiáticas. Bem, alguns músicos místicos ao longo da história tem afirmado que a distância entre esses dois extremos (sexualidade e espiritualidade) não é tão grande assim. Muito menos excludentes.
Dogmas cristãos à parte (sobretudo da Idade Media), vemos isso em algumas vertentes hinduístas, como o Tantra, só para citar um exemplo.
O fato é que, se sobrevive e se amplia no universo humano, a música gera então uma infinidade de oportunidades, afinidades, interconexões, etc.
A beleza e o prazer de ouvir e criar música se estabelece como ponto de partida para iniciativas que transcendem seu universo inicial já citado aqui.
São inúmeros os exemplos a atravessar a história, mas podemos vivenciar isso em nosso ambiente, agora.
Na ultima sexta-feira fui assistir a uma apresentação da sempre adorável Leila Pinheiro, acompanhada de uma Orquestra Sinfônica. 
Se a Leila dispensa maiores comentários sobre as emoções que seu canto desperta, algumas palavras sobre essa orquestra se fazem necessárias.
Ela é formada por jovens que em sua maioria foram resgatados de uma história de vida que provavelmente não teria final feliz. A ONG "Orquestrando a Vida" (lindo título) faz um trabalho com jovens carentes que nunca tiveram contato com a música e os transforma em músicos profissionais. Mas vai além disso: os constrói como cidadãos plenos e com sua humanidade aflorada, através da Cultura Musical. Existe algo mais nobre e belo do que isso? Fruto do trabalho de pessoas que amam e vivem dentro da música.
São esses alguns dos poderes mágicos dessa forma de linguagem tão difícil de definir da mesma forma que o tempo.
Falando nele, é sempre tempo de ouvir boa música, ter prazer com ela e através dela realizar ações para fazer deste um mundo melhor para todos.
Sem esquecer o sexo, é claro! O que me faz lembrar de uma frase símbolo da Contracultura do final dos anos 1960 e início da década de 70: "Faça amor, não faça a guerra". Lembrando que a Contracultura nasceu da música e sempre foi movida por ela. Um bom lembrete para os dias nebulosos de hoje.




domingo, 6 de agosto de 2017

O Edifício Soturno e a Nossa Vida


Faz muito tempo.
Quando criança, caminhava pelas ruas simples do meu bairro do subúrbio. Neste caminhar gostava de olhar com curiosidade para as casas e seus quintais.
Nos tempos adultos tal hábito se perdeu e nem sei mais porque tinha aquela curiosidade.
Preso em escritório no dia a dia de labuta e me deslocando quase exclusivamente de carro não existe inocente costume juvenil que sobreviva.
Observando detalhes nas ruas
Com a recente aposentadoria, começo a perceber que fatos, emoções, hábitos até então soterrados por compromissos, preocupações, pressões diárias, começam a voltar à tona. Existindo a propriedade do próprio tempo - ainda que parcialmente - descobre-se que andamos nos últimos anos e décadas sendo apenas parte de uma engrenagem, pouco exercendo a grata satisfação de apenas "ser".
Tais divagações são apenas tentativas de explicar um fato aparentemente corriqueiro.
Estava no Rio passando uns dias. De manhã, após o café, resolvi dar uma volta nas imediações. O Aterro ficava a cinco minutos e eu segui em direção ao mesmo. Era domingo, quando a maioria das velozes pistas ficam fechadas para que as famílias aproveitem com mais liberdade o complexo de lazer que tem o magnífico projeto paisagístico de Burle Marx.
Perdido nos meus pensamentos paro na esquina da Rua Ferreira Viana com a pista principal esperando o momento de atravessar. Eis que olho à minha esquerda e levo um susto! Que prédio era aquele? Como não o tinha percebido antes?
Parecia ter mais de 10 andares. Belo, imponente e... assustador! Era escuro, quase negro e lembrava arquitetura gótica, embora - nos meus parcos conhecimentos - vislumbrei que era de referências ecléticas. Me lembrei que estava com o celular no bolso da bermuda e, quase no automático, tirei uma foto, sem me preocupar com ângulo, foco, zoom, etc.
Atravessei as largas avenidas e continuei com o meu passeio.
A vivacidade do Aterro em contraste com o prédio em frente
O verde do Aterro, a paisagem deslumbrante da Baía, do Pão de Açúcar, das famílias em piquenique dominical nos gramados, os atletas de fim de semana jogando futebol e vôlei... Percebi que, apesar da minha ligação com aquele momento, uma coisa estava me martelando a mente: quem morava naquele prédio? Ele era tão cinzento e meio tenebroso por dentro como era por fora? Porque, apesar de assustador eu o achava belo? Como explicar o contraste de seu projeto com o exuberante verde que fica ali em frente? Mas acima de tudo gostaria de saber sobre a vida de seus moradores. Uma curiosidade existencial de minha parte? Foi ali que me lembrei de meu hábito de infância, nesta mesma cidade, mas no distante subúrbio, em tempos mais distantes ainda.
Retornei pelo mesmo caminho e parei alguns minutos em frente ao objeto que havia se tornado um foco extraordinário de minhas atenções. As portas de frente e laterais estavam fechadas, pareciam seladas. O brilhante sol da manhã outonal incidia sobre os andares superiores e, visto de baixo para cima, o céu azul e as nuvens brancas realçavam ainda mais as impressões emocionais que a construção me proporcionava. Bati mais umas fotos e continuei meu caminho.
Percebi então que reparava mais nas coisas ao meu redor. Na moça que havia saído de seu apartamento com os dois cachorrinhos que festejam a rua, na fachada de um café instalado em uma pequena casa com varanda, na portão de ferro todo trabalhado de outro antigo edifício, no vendedor de rua que espalhava na calçada sua rara mercadoria: velhos livros e discos de vinil que parei para conferir.
Filme: questões existenciais
Descobri que aquela criança curiosa que observava as casas do bairro ainda estava ali, havia agora retornado (depois de décadas de indiferença com o que estava ao seu redor) e mais: que o importava para ela não eram as coisas mas as pessoas e suas vidas. Na impossibilidade de conhecer e entender as diferenças de vida e de forma de viver de cada um, a lente observadora se dirige para o que é tangível: prédios, lojas, ruas, calçadas, automóveis, placas de aviso e propaganda, etc.
Ontem revi o complexo filme "A Viagem" (no original, "Cloud Atlas" dos irmãos Wachowski) e umas das personagens (a clone coreana Sonmi-451 vivida pela bela Donna Bae) diz que do "nascimento ao túmulo, todos estamos - direta ou indiretamente - interligados". E, mesmo depois disso, a ligação continua pois "a morte é apenas uma porta; quando uma se fecha, outra se abre."
Me lembrei dessa minha curiosidade, sobre as diferentes experiencias do que é a vida para cada um, as milhões de almas que habitam e habitaram esta terra.
Longe da complexidade do citado filme (que conta seis histórias de vidas interligadas em épocas diferentes, inclusive futuro), resta-me apenas voltar a observar casas, prédios e jardins em uma tênue tentativa de entender pessoas e existências. Enfim, o que é a vida.
O edifício de um outro ângulo (foto da Internet)
Em tempo: pesquisei um pouco sobre o citado prédio.
Chama-se Seabra, construído em 1931 por um banqueiro e industrial.
Projetado por um arquiteto italiano, grande parte de seus componentes interiores vieram da Europa. É que este bem sucedido empresário era casado com uma italiana, que queria algo parecido com a Primeira Renascença, uma vez que ela era descendente de nobres, parente do príncipe Rainier, de Mônaco.
Ao que parece o interior é luxuoso e belíssimo. Existe um livro contando a história do prédio e da família (mas eu não consegui ainda).
Muitos o apelidaram de o "Edifício Dakota Carioca", o lúgubre prédio novaiorquino em frente ao qual John Lennon foi assassinado (ele morava ali) e onde foi rodado o filme de terror "O Bebê de Rosemary".
Visão parcial do interior do Edifício Seabra (foto conseguida na Internet)
Visão parcial do interior do Edifício Seabra (foto conseguida na Internet)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Sobre orgasmos (sim, é esse o título)

Não é privilégio meu: todos andam reclamando da "velocidade do tempo". Duas medidas diferentes em uma só. Que, afinal, sempre andaram juntas.
Fato: não temos tempo de fazer tudo que precisamos ou gostaríamos.
Das obrigações ao prazer as coisas andam com os dias - ou os minutos - contados, cronometrados.
Quem aí não poderia enumerar uma série de demandas que aguardam na fila para serem concluídas?
Um leve exemplo: ler e escrever estão entre as minhas prioridades não realizadas à contento. Fica então aquela série de volumes (ainda não aderi ao Kindle) na estante, aguardando pacientemente sua hora. Pior são as idéias para um texto: surgem prontas na minha mente e desaparecem com a mesma facilidade porque naquele momento não dava para escrever. Um pseudo escritor de ideias não realizadas, eis aqui quem vos fala neste momento.
Existem umas estratégias que ando aprendendo no caso da leitura e da criação: apostar em textos curtos, sintéticos. Não como opção literária, mas como saída para amestrar o tempo. Meu e dos possíveis leitores.
E, já que citei essa palavra - amestrar - comento de passagem um desses livros não volumosos, de textos pequenos e leitura rápida. Mas que eu ainda não li todo...
Trata-se do curioso, bem-humorado e delicioso (com duplo sentido) "Amestrando Orgasmos" (Editora Objetiva, 200 páginas) do sempre ótimo Ruy Castro.
Nessas crônicas Ruy foi buscar em revistas científicas, reportagens policiais e curiosidades de pé de página, material verdadeiro para desenvolver suas observações irônicas sobre o nosso (pelo menos meu e dele, mas acho que de todos) interesse pelo tema.
Me lembro de uma personagem criada pelo Chico Anísio cujo jargão era "você só pensa naquilo...". Podemos até não pensar nisso o tempo todo mas enquanto tivermos interesse pelo tema com certeza as obrigações e o tempo não terão nos engolido por completo.
As histórias que conta são ótimas, bem humoradas quase um tratado sócio-psicológico sobre o assunto. Não "orgasmo" propriamente dito, mas a curiosidade sobre ele e os assuntos que o circundam languidamente. Afinal, sexo é vida, diria uma propaganda do Viagra. Muito sexo, mais vida ainda. E saber da vida dos outros sobre sexo é o que delicia não só a plebe rude mas qualquer categoria social e faixas etárias (mesmo depois dos 70, atualmente talvez até mais!).
Na crônica título, por exemplo, ele conta a história da escocesa de 54 anos que tinha orgasmos espontâneos e deu matéria na revista científica The Lancet: "Uma amiga minha, que me confidenciou ter tido apenas um orgasmo nos últimos oito anos, leu a respeito e ficou morta de inveja". A partir daí explora, as diferenças: "Como se explica que as mulheres possam ter orgasmos múltiplos, e o homens, não? O homem, quando foi, já era. E mulher continua tendo orgasmos, um depois do outro, enquanto o homem já está pensando na morte da bezerra. Isso demonstra que, mesmo que não haja diferença anatômica - na origem - entre os dois órgãos, alguma parte do cérebro deve funcionar de um jeito para um e de outro para o outro. E, pelo visto,  o da mulher funciona melhor. Além disso, como se explica que a mulher esteja pronta para o sexo 30 segundos depois de ter feito, enquanto o homem só pode dar bis depois de sabe-se lá quanto tempo?".
Já viram o tom do livro né?! Excelente!
Os títulos das crônicas vão entregando o que está lá dentro (epa!), uma saborosa (epa!) análise de fatos inusitados e observações ferinas com comentários sarcásticos: "Orgasmo Multilíngue", "Orgasmo em longa-metragem", "O clitóris", "O gosto secreto", "Prazeres da carne", "Banhos, inclusive de gato", etc.
A capa do livro é um primor minimalista, com o essencial: possui uma fenda losangular cujo abertura tem por baixo papel em cor vermelha...
Para não deixar vocês com muita água na boca, salivas em excesso (epa!) reproduzo a seguir uma das crônicas. Acho que o Ruy (e a editora) não vão ficar bravos comigo.
No máximo ele pode criar uma crônica me sacaneando, contando alguma derrota que definitivamente nunca aconteceu. Juro! Bem, se não veio a público não aconteceu!


MARIDOS FRIOS, MULHERES QUENTES
      "Uma senhora adentrou furibunda a sede do Procon, no Rio, brandindo um envelope. Depois de passar horas na fila, conseguiu chegar ao balcão para registrar queixa contra um produto que, segundo ela, não estava funcionando direito: seu marido.
      O Procon, como se sabe, é um órgão sério, dedicado a registrar reclamações de pessoas que compraram um produto acreditando no que a publicidade dizia e, ao usá-lo, sentiram-se tapeadas. Seus funcionários são gente habituada a todo tipo de queixa, principalmente a respeito de facas mágicas, implantações de silicone e loções para calvície. Tudo isso está previsto na bíblia do órgão, que é o Código de Defesa do Consumidor, mas, às vezes, aparece gente se queixando de algum produto que não consta do código. Certa vez, por exemplo, um homem reclamou que, ao ir a um motel com sua namorada, fora obrigado a ouvir, no quarto ao lado, os gemidos de uma mulher em pleno ato com um homem, e que ele identificou como sendo os gemidos da sua própria mulher. Note bem, o sujeito não estava se queixando do fato de ser traído, mas das paredes finas do motel, que não velavam pela privacidade dele.
      Os funcionários do Procon são treinados para não rir e reagir com toda paciência em casos como este. Mas a história da mulher do envelope era inédita.
      Pelo que eles puderam entender, a dita senhora se queixava de que, depois de 30 anos de casamento, seu marido já não a procurava havia mais de um ano. Não a procurava sexualmente, é claro - porque, para outros fins, até que a procurava o tempo todo: para lavar-lhe as cuecas, engomar lhe os colarinhos ou preparar-lhe uma carne-seca com aipim.
O envelope que ela trazia debaixo do braço era sua certidão de casamento, datada de 1970, com assinatura do juiz, tabelião e testemunhas. A mulher alegou que não tinha nada a reclamar dos primeiros 29 anos de união, mas que o desinteresse de seu marido no último ano era uma quebra das promessas que ele lhe fizera quando ainda estavam noivos - de que, a depender dele, teriam uma agitada vida sexual até que um dos dois morresse e, talvez, até depois. Donde ela se sentia vítima de publicidade enganosa e, por isso, achava que era um caso para o Procon.
      O funcionário do Procon anotou tudo em uma ficha. Foi aos arquivos investigar se havia um precedente de queixas parecidas e, como não havia, voltou ao balcão de mãos abanando.
Só lhe restava perguntar o que a mulher esperava que o Procon fizesse por ela. E ela, sem piscar: "Dá para trocar de marido?".
      Bem, maridos não são exatamente fornos microondas (outro item sobre o qual o Procon vive recebendo queixas), e o dela, muito menos. Aliás, se tivesse de ser comparado a um eletrodoméstico, o marido acusado de frigidez estaria mais para um freezer. Mas não se pode trocar um marido como se troca uma enceradeira, nem há um fabricante contra o qual se queixar. O funcionário do Procon sugeriu à senhora - extra-oficialmente - que ela aplicasse Viagra no cônjuge e observasse a reação dos corpos cavernosos. E, caso o Viagra não resolvesse, aí, sim, ela poderia voltar ao Procon e registrar queixa, não contra o marido, mas contra o medicamento.
      Pois, não olhe agora, mas algo de muito esquisito está se passando no universo masculino. Na mesma época em que a mulher foi ao Procon se queixar do marido frio, outra história incrível saiu nos jornais: um cidadão de Nova Iguaçu, RJ, foi à polícia para pedir proteção contra o assédio sexual que estaria sofrendo de uma vizinha. O homem (43 anos, casado, pai de três filhos e, francamente, longe de ser um galã de novela) declarou não aguentar mais ser o alvo de tantas investidas. A vizinha o bombardeava diariamente com flores, cartas, telefonemas, bilhetinhos, recados, e-mails e presentes, entre os quais camisas, relógios e agendas. O surpreendente foi que, ao ser procurada pela polícia, a mulher (36 anos, morena, bonita, perfeita para um dia de chuva) não apenas confirmou tudo, como garantiu que, apesar de também ser casada, não descansaria enquanto não levasse para a cama o tal homem, objeto de sua paixão.
      A divulgação da história provocou um tal malestar em todos os envolvidos (incluindo a mulher dele e o marido dela) que, poucos dias depois, a morena declarou ter desistido de seus imorais intentos e prometeu deixar em paz o gostosão. O que deve ter acontecido, porque o caso sumiu do noticiário.
      Os vários casais que protagonizaram essas histórias só se conhecem pelos jornais, mas um encontro entre eles poderia resolver todos os problemas. Suponhamos que a assediadora sexual desse em cima do marido frio - poderia ter sucesso, porque a frigidez daquele marido só devia acontecer com a mulher com quem ele era casado há 30 anos. Esta senhora, por sua vez, poderia se aventurar para o lado do marido assediado e, quem sabe, com ela, talvez ele se animasse. Já a mulher do assediado teria uma grande chance com o marido da assediadora, já que os dois estariam sobrando do mesmo jeito."