quarta-feira, 30 de maio de 2018

Roberto Carlos em Ritmo de Vanguarda

Roberto Carlos: de um lado Chico Buarque e do outro Geraldo Vandré (que na época lembrava fisicamente um pouco o Jerry Adriani). Foto de 1966.
Em um dos grupos de WhatsApp que participo (hoje quase todos estão em grupos
de redes sociais, meio de comunicação marca desses tempos), sobre Artes & Histórias, houve uma discussão interessante sobre o Roberto Carlos.
Em época de tantas crises, discutir importância do "rei" parece ser coisa um tanto quanto fora de sincronia. Mas é justamente isso que nos faz conseguir atravessar esses dias caóticos e inseguros.
Como já disse Friedrich Nietzsche, "a arte existe para que a verdade (realidade) não nos destrua".
Então, como um pouco de abrigo da realidade lá fora mas não fugindo dela, eis-me aqui falando do Roberto.
Não participei da discussão citada. Fiquei só lendo os posts de três ou quatro amigos. Meu silêncio foi porque estava ocupado com outra coisa e porque minha opinião era de concordância com todos os pontos discordantes e seria bem complicado explicar isso naquele momento. E continua sendo agora.
Uma corrente falava da importância inquestionável do "rei" e de sua longa obra. A outra relativizava isso: apenas um artista protegido dos meios de comunicação.
Antes do sucesso Roberto Carlos estava antenado com o que acontecia lá fora através da "Turma da Tijuca" do qual faziam parte Jorge Ben, Tim Maia, Erasmo Carlos e Lafayette, via The Sputinicks. Eles tocavam Litlle Richards e Elvis Presley entre outros. Considerando as dificuldades de conseguir discos do exterior e o fato das emissoras de rádio só tocarem samba-canção aquilo era um feito, pois estamos falando de 1958!
Com a separação do grupo - e se isso não tivesse acontecido provavelmente teríamos tido no Brasil uma das primeiras bandas de Rock da história, fora dos EUA e da Inglaterra - Roberto se bandeou pro lado da sonoridade da Zona Sul carioca, lançando um álbum de Bossa Nova. Apesar de continuar conectado com a vanguarda (neste caso brasileira) essa não era a praia dele.
Sua praia seria descoberta com a turma de São Paulo que fazia umas versões de músicas Pop/Rock dos Beatles, já por volta de 1963.
Nascia ali a Jovem Guarda, versão tupiniquim da Geração Beat inglesa. O problema é que - enquanto os ingleses e posteriormente os norte-americanos, evoluíam para a Psicodelia que geraria o Hard Rock e o Rock Progressivo, além da conexão com os movimentos de Contracultura - os "jovemguardistas" pararam no tempo e no espaço. Pior, perderam o bonde da história ao não tentar conectar o pop/rock com ritmos brasileiros. Quem pegou esse bastão foi o Movimento Tropicalista de Gil, Caetano, Tom Zé, Júlio Medaglia e sobretudo Mutantes.
Dizer que a Ditadura atrapalhou tem sua razão de ser mas, até o AI-5 ser decretado, dava pra fazer alguma coisa, como fizeram os Tropicalistas.
Roberto vem a se destacar musicalmente com seus discos de transição de 1968 e 1969. Ali reconhece que a Jovem Guarda "já era" e aposta em aspectos mais Rock e sobretudo Soul e Funk, provavelmente influência do Tim Maia que havia voltado de sua temporada nos EUA. Em um dos seus filmes, "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", tal tendência também já se faz sentir na escolha da trilha sonora (menos Jovem Guarda nas canções).
Já a partir de 1970 começa a mergulhar na música romântica que seria sequencia da curta fase "psicanalítica" de músicas autobiográficas como "O Divã", "Traumas", etc.
Com tantas referências, a melhor fase criativa de Roberto Carlos pode ser localizada entre fins dos anos 60 e primeira metade dos anos 70. Situado em uma linha imaginária divisória entre a MPB sofisticada de Chico, Milton, Gil e Caetano e os chamados "Bregas" representados por nomes como Odair José, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e muitos outros.
Dessa época não há registros de canções de cunho político de Roberto, tirando a famosa "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", uma homenagem secreta ao amigo Caetano que estava exilado em Londres.
Curiosamente, ao contrário que muitos pensam, não só os "sofisticados" foram perseguidos pela Ditadura. Também os bregas, por outros motivos, o foram, como bem relata o excelente livro "Eu Não Sou Cachorro Não - Música Popular Cafona e Ditadura Militar" de Paulo César de Araújo.
Voltando ao Roberto Carlos a de se reconhecer a excelência de muitas composições, arranjos e produção. No entanto analisar a música do rei deve passar por outras variáveis.
É fato que ele foi adotado pelos meios de comunicação populares mas não só isso explica seu destaque. Muitos outros o foram e sumiram na areia do tempo.
Além de canções de qualidade (mesmo estando fora dos "sofisticados") daquela época - reconhecidas por nomes como Caetano - há um fator primordial na perenidade da "realeza" de Roberto Carlos: a memória afetiva. Gerações tiveram momentos de infância, adolescência e juventude em que a trilha sonora (vinda em sua maioria das emissoras de radio AM) eram as músicas do Roberto, ainda me referindo ao citado período. Daí a explicação da manutenção da audiência de seus especiais de fim de ano. O repertório desses shows é primordialmente composto de canções dos anos 60 e 70 e público em sua maioria de mais de 40 anos.
Assim, é complexa a análise da música e do sucesso do "Rei". Fora do "gosto" "não gosto", ou "bom" e "ruim" há muitas variáveis que fogem de questões binárias.
De qualquer forma consigo imaginar um cenário diferente onde a música brasileira do período (fins dos anos 60), para além da Bossa Nova, conseguiria se inserir no cenário internacional como uma das mais importantes do mundo:
- Não existiria o AI-5
- Os Tropicalistas não debandariam e se conectariam com a Psicodelia
- Roberto Carlos entraria no movimento (como chegou a sinalizar em algumas canções dos discos de 68 e 69)
- Mutantes + Tropicalistas + Roberto Carlos unidos entrariam no Mapa Mundi da vanguarda psicodélica internacional e seriam até hoje referência de uma música sem fronteiras mas com jeito brasileiro único.
Essa seria uma realidade paralela, bem ao estilo do escrito de Ficção Científica Phillip K. Dick.
Mas fiquemos com o que temos hoje. Mesmo com todas as limitações Os Mutantes são reconhecidos no exterior como um dos mais importantes grupos dos anos 60. Talvez um dia o Roberto chegue lá também.


"Não vou ficar", de 1969, de Tim Maia. Percebam o estilo Funk / Soul presente. Isso pode ser considerado influencia Tropicalista.

"2001" de Os Mutantes, lançada no mesmo ano da canção acima, 1969. Mistura genial de música caipira brasileira e Rock Psicodélico.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Despedidas

Na semana passada eu estava chegando em casa de carro quando passei pelo Seu Francisco. Ele me acenou, com um sorriso.
Figura simples e gentil.
Atencioso, sempre disposto a uma boa conversa, onde contava as longas histórias de sua vida, muito interessantes.
Estatura baixa, poucos cabelos brancos, voz pausada e suave, olhar intenso e casos curiosos pra contar. Era um avô que todos gostariam de ter.
Precisava bater um agradável papo com ele, eu me cobrava. Quase não tinha tempo antes mas agora, aposentado, não tinha desculpa. Dias, semanas, meses se passaram e eu só no adeusinho enquanto o automóvel seguia seu rumo e ele acompanhando a trajetória.
Abri o portão automático da garagem, entrei com o carro e aquele pensamento de ir falar com ele naquele instante se esmaeceu. Atendi o celular, subi a escada, atravessei a porta.
No dia seguinte chega a notícia: Seu Francisco morrera naquela noite. Um enfarte agudo o levou. Além do triste golpe, algo a mais a pesar sobre meus ombros: a longa conversa que não tive. Deveria ter simplesmente parado o carro em frente à ele. Muito simples. Porque não fiz isso?
Eventualmente a vida prepara essas pequenas piadas sem graça e nos deixa com jeito de arrependimento, uma espécie de sentimento de culpa ou apenas a sensação das oportunidades perdidas.
Na volta de seu enterro, demos carona a uma outra vizinha. Viemos falando sobre o marido dela, que havia feito uns exames, constatando que estava tudo bem. Como todo bom brasileiro, gostava de eventualmente tomar umas caninhas do alto de seus 76 anos. Ao deixá-la em casa pedi que desse um grande abraço naquele outro vizinho de longa data e também gente boníssima.
Menos de uma semana depois, a repetição do mesmo evento a que todos nós estamos sujeitos a qualquer momento, a única certeza que temos. Lá se foi ele com sua alegria e ótimas frases.
Voltei à pouco de sua despedida.
Esse não é um tema agradável para uma tentativa de crônica em um final de feriadão. Mas serve para nos lembrar do óbvio ululante, como diria o Nelson Rodrigues.
Que cada segundo vivos estejamos efetivamente vivendo, com gratidão e atentos às oportunidade que nos são oferecidas, seja uma bela música, um pássaro voando, as nuvens no céu, momentos com a família e amigos, um livro que conta histórias, um filme que nos faça refletir ou simplesmente viajar sem sair da poltrona, a visão do mar, a presença de um animal...
Enfim, daqui a pouco tudo passou. Como meus vizinhos que se foram mas que continuarão para sempre em minhas lembranças. Pelo menos enquanto eu estiver por aqui.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O reencontro da turma


1
Só depois vieram saber disso, mas todos receberam no mesmo dia e horário a mensagem pelo WhatsApp, com aquele aviso do aplicativo: "o remetente não faz parte de sua lista de contatos, deseja bloquea-lo?". Ninguém bloqueou pois a nota era clara: "Olá meu amigo(a), sou a Bia, da Enfermagem. Quanto tempo... Precisamos nos ver!"
Como esquecer de Bia, Beatriz, figura agregadora do curso superior de Enfermagem da UFRJ? A mais querida, aquela figura da turma que é unanimidade, que resolvia conflitos, organizava os eventos. Uma liderança natural, simpatia em pessoa, com um carisma que conquistava não só os colegas de classe como também o corpo docente e até os graus mais altos da Universidade.
Antes dela a turma de Enfermagem tinha pouca voz ativa no Campus, com ela tudo mudou. Mas não era daquele estilo UNE, de liderança política. Conseguia as coisas com seu olhar e suas palavras doces. Pequenina no porte físico mas grande em sua capacidade de alegrar o ambiente, tornando-se também uma espécie de ouvidora geral e conselheira. Um espírito evoluído, diriam alguns. Aspecto esse indispensável para a profissão que havia escolhido e era isso que ela frisava: o amor ao próximo, caso contrário não se vai saber cuidar nem comandar uma equipe de saúde.
Fato era que, depois do fim do curso e da festa da formatura, não mais haviam tido notícias uns dos outros. A universidade federal abrigava pessoas de diversas cidades e estados e não havia a facilidade das comunicações que se tem hoje.
Foram cuidar da própria vida, tentando se garantir na profissão, adquirindo famílias. A universidade e os amigos da turma ficaram na memória e se passaram 30 anos.
Por isso o susto ao receber aquela mensagem. 
- Onde ela estaria? Como descobriu meu telefone? 
Tinha descoberto o telefones de todos e, depois dessa primeira mensagem, Bia criou um grupo de bate-papo, onde acrescentou a turma toda: "Enfermagem UFRJ".
Foi aquele rebuliço que movimentou a rotina de todos.
- Como vai você?
- O que tem feito da vida?
- Tem filhos?
- Manda fotos!
- Por onde andam?
- Que surpresa agradável reencontrar vocês, não acredito!
Bia direcionou a energia do reencontro que estava sendo gerada e definiu: - Vamos nos reencontrar turma! E logo!
A querida amiga Lorena havia lhe pedido uma foto, pois a de perfil no WhatsApp estava desfocada.
- Parece foto antiga Bia, não consigo ver você direito.
Bia não mandou pois estava ligada em ver a turma toda junta. Depois de muitas conversas decidiu-se a cidade e o local do reencontro. Esse primeiro seria em um restaurante no Rio, que eles frequentavam na época da Faculdade e que ainda existia. Depois marcariam algo mais longo, um fim de semana juntos na serra ou na praia, quem sabe.
A curiosidade e a expectativa eram imensas e o grande dia chegou.
O coração de cada um batia aceleradamente à medida que chegavam e abraçavam os amigos da juventude. Todos colocaram adesivos com o nome e o apelido no peito para que não houvesse dúvidas, afinal 30 anos não são três meses. Até mesmo os três elementos masculinos do grupo, em uma turma predominante feminina, estavam lá: João Fernando, Nandinho; Hugo, o Galã e André Luiz, o Espírito, assim chamado por causa do nome e por ter umas visões, segundo ele.
Da classe de trinta e poucos, 23 apareceram. Nada mal.
É claro que Bia comandou as ações e um tema era recorrente nos comentários sobre ela: as saudades e a sua excelente forma física. Parecia ter 10 ou até mesmo 15 anos menos.
- Fez plástica Bia? Tomou formol?
- Não foi necessário amigos! Sorria ela, transbordando alegria.
Cada um falou dos caminhos percorridos da Faculdade até aquele momento. Trabalho, família, alegrias, perdas, sacrifícios. 
Selfies, troca de endereços, planos. Aquela tarde passou rápido. Entraram pela noite no restaurante, beliscando petiscos, bebendo umas cervejas, histórias ao pé do ouvido.
Apenas um detalhe diferente chamou atenção de André: um dos garçons, Carlinhos, era da época da turma, remanescente do período. Já tinham feito festa pra ele que ficou emocionado com a lembrança. No entanto André percebeu que eventualmente ele parava e ficava olhando para as conversas de alguns. Parecia admirado ou não estar entendendo bem. Coisas da idade, pensou André e seguiu aproveitando aqueles momentos mágicos. 
Depois de horas de confraternização e muitos projetos de não mais se afastarem, chegou a hora da despedida. Caberia à Bia fazer o discurso, da mesma forma que fizera a saudação de boas vindas.
Como nos velhos tempos suas palavras fluíam como música, embalando a todos com suas colocações otimistas e mensagens de carinho e profunda amizade por todos ali.
- Vocês não podem deixar que o tempo e a distância os separe. Cada um tem a sua história depois que terminamos a faculdade e elas são bem diferentes. Assim como somos diferentes e no entanto nos amávamos no curso. Esse amor voltou à tona agora e é uma experiência rica, uma oportunidade que não podemos desperdiçar. Trouxemos nossa juventude de volta, em uma idade madura. Que valorizemos isso, cada instante da vida, pois é isso que temos: o amor e o convívio com quem nos importa de verdade. 
E assim cada um seguiu para sua cidade, inebriados com os momentos felizes, quase não acreditando naquele reencontro.
Já no dia seguinte todos correram pro celular para comentar, festejar, postar fotos e dar os depoimentos acerca do encontro.
À medida que olhavam o Smartphone e abriam o grupo no aplicativo, uma surpresa chamou atenção de todos, um aviso postado automaticamente: "Bia saiu".


2
Laura se espantou.
- Deve ser problema no celular dela pessoal.
- Já tentei ligar pra Bia mas dá celular desligado ou fora de área, adiantou Nandinho.
- Vamos aguardar. Ele já reaparece. Enquanto isso vamos mandando as fotos galera, já foi agitando Julinha.
E assim se passaram os dias, os bate-papos sobre o reencontro, planos e nada de Bia.
- Gente, tem alguma coisa errada. Luísa ponteou. Todos tentam manter contato e ninguém consegue, ela mora onde mesmo?
- No interior do Rio. Bem, morava. Na época do curso eu fui lá uma vez, passei um final de semana. A mãe dela é maravilhosa, me chamava de Huguinho. Também se chama Beatriz.
- Será que ainda mora lá? No encontro ela falou para alguém onde estava morando ou trabalhando? Não consigo me lembrar do que ela disse no discurso dela.
Foi aqui que começou uma nova polêmica: todos haviam falado sobre os caminhos trilhados depois da Universidade, o que estavam fazendo atualmente, onde residiam. No entanto todos se lembravam das palavras de Bia, mas não havia ali nenhuma menção sobre ela, apenas sobre a importância da turma, da união.
- Muito mistério pro meu gosto, turma. No próximo final de semana vou lá. A cidade não é distante do Rio e acho que consigo acertar o bairro, apesar de passados tantos anos. Eu chego e vou perguntado. A cidade não é grande.
No sábado de manhã Hugo pegou a estrada no seu HB20 branco e em poucas horas estava na cidade que Bia residia nos velhos tempos.
Não foi mesmo difícil chegar ao bairro em que havia estado há 30 anos. A referência era uma antiga ponte de ferro que atravessava um rio sinuoso por entre a planície, com alguns morros ao longe.
Sabia que era uma daquelas ruas logo após a ponte. A atmosfera interiorana de receber bem as visitas o facilitaria na indicação do local correto.
Um bar é sempre uma referência, já era por volta de 13 horas de sábado, momento em que costumam aparecer os consumidores de cerveja e de bate-papos.
Hugo parou no primeiro que viu.
Em uma mesa quatro senhores estavam tirando o baralho da caixinha e dando os primeiros goles em uma Brahma bem gelada.
- Boa tarde amigos! Tudo bem? Poderiam me dar uma informação?
- Diga lá moço! Tá servido?
- Não obrigado. É que estou procurando a casa de uma amiga. Eu não venho aqui há muito tempo. O nome dela é Bia. Quer dizer, Beatriz. Uma baixinha, magra, morena, cabelos curtos lisos. É enfermeira. Eu fiz curso com ela.
- O moço deve estar procurando a mãe dela né? Olha, ela sai pouco de casa mas sempre morou no bairro. Dona Beatriz mora na primeira rua à direita. Ao lado da única mercearia que tem na rua. Aliás a mercearia é dela. Vive lá, atrás do balcão. O senhor vai encontrá-la. Ela estava meio doente mas já melhorou.
Bem, ótimo! Encontrando a mãe encontro a Bia. Hugo não se perdoava e ao mesmo tempo não entendia como, durante o encontro, ninguém pegou nenhuma informação sobre a pessoa mais importante da turma, a responsável por aquele mágico reencontro. Mas tudo bem, ele estava ali para resolver essa falha.
Entrou na rua indicada e logo estava em frente à pequena mercearia do bairro.
Logo viu a pequena senhora. Já idosa, cabelos brancos, serenamente olhando a TV que passava o noticiário vespertino. Não havia mais ninguém ali.
- Boa tarde! Dona Beatriz?
Ela lançou um olhar curioso para ele e em seguida um leve sorriso. Seu rosto tinha olhos de pálpebras levemente caídas e os sucos no rosto davam a dimensão não só da passagem do tempo, mas das lutas que havia passado. Difícil precisar sua idade mas mesmo nos tempos atuais, de velhos jovens, não havia ali mais nenhuma marca de uma distante juventude.
- Sim. Eu te conheço? Você não é do bairro. Deseja comprar alguma coisa?
- A senhora não deve se lembrar de mim. Me chamo Hugo e estive em sua casa há uns 30 anos. Amigo da escola de enfermagem da sua filha Bia.
Os olhos dela se abriram. E um sorriso triste apareceu nos lábios.
- Estou lembrando de você sim! Minha memória não anda muito bem para o que acontece hoje mas as coisas do passado eu lembro. Que surpresa te ver aqui.
- Pois é. Não anotamos o contato da Bia após o encontro e resolvi passar aqui.
- Não anotaram o contato há 30 anos? A juventude é assim mesmo, sorriu ela.
Ver ali um antigo amigo da filha a fez começar a falar dela, quase divagando, olhando para um ponto perdido na ar.
- Depois da formatura Bia seguiu o que era o sonho dela: ir trabalhar com os índios, lembra disso?
Sim, agora lembrava. Bia sempre falava disso. Tinha vontade de morar e prestar serviço aos povos das florestas, que ela amava.
- Nunca imaginei que ela acabaria seguindo esse caminho dona Beatriz, apesar de sempre falar isso.
- Assim que terminou o curso ela arrumou as malas. Já tinha feito contato com o pessoal da FUNAI de Mato Grosso. Foi pro Alto Xingu trabalhar com as nações indígenas.
- É mesmo? E ela se adaptou bem?
- Nossa! Era a vida dela. Apesar das dificuldades de comunicação, sempre nos falávamos por telefone. Ela ia até um posto da FUNAI e me ligava. Além das cartas é claro. Amava os índios e logo os índios passaram a amá-la também. Me falava das crianças, dos caciques, dos pajés. Teve um dia em que ela fez uma espécie de batismo. Se tornou uma pajé também, uma curadora.
- Que história. E ela nem falou disso no nosso encontro. Quando ela retornou de lá?
- Como assim retornou? Ela nunca voltou de lá!
- O quê? Bem, mais ela passa umas temporadas aqui não é? Senão não teria como encontrar o pessoal da turma.
- Não sei do que você está falando. Ela ficou lá durante 20 anos. Na única vez que esteve aqui falou muito de vocês, da saudade que tinha e dos planos de reencontrar a turma. Olhou fotos antigas de todos os amigos e amigas. Eu estive lá duas vezes. Na primeira conheci seu trabalho de "curandeira" como os índios a chamavam. Depois só retornei para acompanhar o seu final.
- Final? Como assim?
- Bia adquiriu uma doença na floresta. Até hoje não se sabe direito o que foi. Poderia ser malária, mas ela tinha se vacinado. Ficou um bom tempo com febre e foi definhando. Queríamos transferir ela para Cuiabá mas já era tarde.
A medida que ela ia contando Hugo foi ficando pálido e procurou um banco para se sentar.
- Está se sentindo mal moço? Não sabia disso?
- A senhora está dizendo que Bia morreu?
- Sim. Rezamos uma missa no sábado passado, dez anos de sua morte.
- Meu Deus, foi o dia do nosso reencontro. Bia estava lá!
- Como assim meu filho? Minha filha morreu há dez anos! Vocês se enganaram. Era outra pessoa.
Hugo pegou o celular, tocou no símbolo verde do WhatsApp e abriu o grupo.
- Pois veja a senhora mesmo essas fotos onde ela aparece, até estranhamos como ela parecia ter dez ou quinze anos a menos.
Dona Beatriz olhou as fotos, forçando a vista já cansada. Depois se voltou para Hugo que ainda não tinha recuperado a cor normal.
- Ela não está aí.
Hugo pegou o celular e ficou ainda mais assustado: ela realmente não aparecia em nenhuma foto. Apenas os demais amigos posando, sorrindo, conversando. Desapareceu também dos registros.
- Mas e esse número de celular que tenho anotado aqui? Ela falava conosco por esse número.
Mais uma vez Dona Beatriz olhou para Hugo estranhando aquela conversa toda. Achava que o rapaz não era bom da cabeça. Pegou o papel, desta vez colocou os óculos, e reconheceu aquele número.
- Eu tenho um daqueles celulares de idosos. O número era esse. Um dia a operadora desligou e me deu outro número, disse que aquele havia sido clonado, não sei como você conseguiu esse número.
Hugo baixou a cabeça e começou a chorar. Dona Beatriz o levou para o fundo da loja e ali ele contou toda a história para ela, que chorou junto com ele.
- Minha filha sonhava em reunir a turma. Ela veio de muito longe para rever vocês. Não tentemos entender, encontrar explicações ou duvidar. Vamos agradecer e rezar por ela e por todos vocês.
Ali mesmo eles se ajoelharam e se abraçaram, com saudades de Bia.


3
Outro encontro foi marcado. Hugo contou tudo e levou fotos de Bia no Xingu e até o seu atestado de óbito. Era difícil de acreditar naquilo tudo. Não tivessem vivenciado achariam tudo uma piada. Acataram o inexplicável com imensa emoção.
Hugo esteve naquele restaurante junto com André Luiz e conversou com o garçom Carlinhos: - Eu não entendia como vocês às vezes ficavam falando sozinhos. Eu olhava e não via ninguém!
O grupo no WhatsApp agora se chama "Amigos de Bia" e uma foto dela com um índio é o símbolo.
A turma está juntando dinheiro para fazer a primeira viagem juntos: vai ser pro Mato Grosso. Vão conhecer as tribos onde Bia trabalhou e o cemitério indígena onde ela foi enterrada.
Uma força maior os une agora, em um laço que consideram eterno.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Chico Buarque e o Dia da Mulher


Dois homens entram conversando no elevador.
"Não admito que minha mulher sequer pense em olhar para outro sujeito! Sou melhor que qualquer um!"
Para além do ciúme, um tanto quanto machista e controlador esse comentário, convenhamos.
O outro retruca: "Mas e se esse outro for o Chico Buarque?"
O olhar desanimador do primeiro já indica a sua derrota. "É... com o Chico não dá pra competir, né?"
Não dá não camarada.
Certa vez, em um café em Paris, próximo de seu apartamento (sim, além de tudo ele ainda tem apartamento em Paris), o repórter faz uma pergunta direta, no x da questão: "Chico, e o seu sucesso com as mulheres? Todos sabemos de sua fama de conquistador...".
Chico ri. Segundo ele, tudo isso é mito: "Sou um cara bem devagar nesse aspecto". Foi correto. Esse tipo de coisa não se comenta, é jogar contra. Quietude nessa hora.
Chico não entende a alma feminina. Nenhum homem entende. Mas ele tenta entender. É sim apaixonado pelo enigma feminino.
Quando faz as músicas como se fosse uma mulher cantando e contando sua história, tenta se colocar no lugar delas, assim se aproxima de uma improvável compreensão plena.
Tal encantamento é talvez a única coisa que posso tentar dizer que tenho em comum com ele. Mas minha incapacidade de fazer músicas maravilhosas e a abismal distância no aspecto físico me deixa a milhares de quilômetros de distância. E tem mais. Nem conheço Paris pessoalmente, que dirá ter um apartamento lá.
O encantamento dele com as mulheres é amplamente retribuído (o que não é o meu caso): as mulheres o amam.
Mas os motivos para isso são ainda mais amplos. Muitas das canções não femininas do Chico são políticas e trazem em suas entrelinhas retratos sociais que apelam aos sentidos maternos. Sensibilidade. Preocupação com o outro. Com um mundo melhor.
O Dia Internacional da Mulher faz pensar que talvez seja pela alma feminina que encontraremos a saída para esse beco em que estamos, colocados pelo mundo masculino.
Mais matriarcado menos patriarcado, fazendo aqui um mea culpa, ainda que não tenha culpa por esse estado de coisas.
Pelo menos um aprendizado e talvez uma parceria real entre esses dois universos.
Sem mais "super-homens" no poder ou, lembrando a canção do Gil, tão parceiro do Chico, ao evocar o verdadeiro herói: "quem sabe, o super-homem venha nos restituir a glória, mudando como um deus o curso da história, por causa da mulher".
Torçamos para isso.
Por enquanto fiquemos com Chico, personificado na figura de uma mulher que deu a volta por cima (aqui ele mesmo - como os demais homens - é o atingido pela suave vingança): "... E que venho até remoçando / Me pego cantando / Sem mais nem porquê / E tantas águas rolaram / Quantos homens me amaram / Bem mais e melhor que você..".
Definitivamente não dá para competir.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Minha vida e o pato


Não, não é sobre o pato amarelo da FIESP. É outra tragicomédia real.
Até os 12 anos, aproximadamente, morei na região que era chamada Zona Rural do Rio. Sim, existia. Com vacas e bois eventualmente passando na rua de barro com esgoto à céu aberto.
Não existe mais como era. Hoje chama-se Zona Oeste. Área norte, imagino eu, pois a sul é a Barra.
Casa simples mas com quintal grande, árvores frutíferas, galinheiro e chiqueiro.
Em frente à minha casa tinha um imenso sítio "sem dono", tudo aberto, com riacho, campo de futebol de várzea, pés de goiaba, araçá (que é uma mini-goiaba), manga, jamelão.
Criávamos também patos e patas (brevemente entenderão por que faço essa distinção), com um pequeno laguinho de cimento que meu pai fez. No entanto era pequeno e eventualmente eu era incumbido de leva-los para nadar no riacho.
Dentre os patos havia o "todo-poderoso", grande, top de linha. O chefão da tribo. Não sei se hoje em dia os patos são assim, mas lá em casa era. Eu o chamava de Dom Patão. Tinha uns nove anos, acho. Eu tinha nove anos, não Dom Patão que parecia ser um senhor de seus 40 ou 50 anos (estou tentando converter para uma perspectiva humana). De todos era o que mais estimávamos. Sim, eram de estimação. Ninguém comia pato (ou pata) em casa.
Não sei bem porque, teve uma época que só tinha ele de macho. Ficou sendo dono de um harém, pois tinha uma meia dúzia de patas que ele comandava com mão de ferro. Ou patas de ferro melhor dizendo.
Pois bem, certa feita ele descobriu uma pata de uma vizinha que morava a uns cem metros de minha casa e do riacho. Começou a se engraçar com ela e eu não conseguia entender porque. Tendo ele seis à disposição, foi se apaixonar pela vizinha. Ou melhor, pela pata da vizinha. Bem vocês entenderam.
Isso aumentou meu estresse na hora de levar a turma pro riacho. Ele queria abandonar as patas dele lá e sair de fininho pela rua pra chegar lá longe, na outra pata. E meu pai temia perde-lo e me comunicou a necessidade de vigilância redobrada: eu não podia permitir que ele cometesse aquele ato transloucado de paixão irracional.
O problema era que, chegando ao riacho, eles se separavam, era difícil ter uma visão completa. Eu corria o risco de perdê-lo de vista. Acho que até entendia a posição emocional do amigo pato, tinha pena dele, mas nem tanto, pois - pelo menos no que tange à sua vida sexual com as seis patas - ele não estava mal.
Tive então uma brilhante ideia. Havia uma mangueira próxima do local que me forneceria uma visão ampla, facilitando a vigilância, desde que eu subisse no galho mais alto. Isso não era problema. Nove anos, leve, ágil e acostumado a escalar grandes árvores.
Em poucos minutos eu já estava no galho mais alto. Não me lembro a que distancia do chão, mas não era baixo, talvez equivalente ao topo de um prédio de três andares. A visão era mesmo geral.
Naquele dia ele estava calmo, acho que percebeu a minha estratégia e resolveu esperar uma oportunidade melhor.
Portanto a coisa andava até meio parada. E criança de nove anos é inquieta. Eu olhei para o ponto de união do galho com o tronco e me perguntei se ele resistiria se eu começasse a fazer um movimento de balanço, uma brincadeira contra o tédio. Concluí que sim e iniciei uma espécie de pêndulo. Não durou muito. Só escutei o "crac". Despenquei lá de cima. Bati de costas no chão. Isso eu só lembrei depois. Quando dei por mim a vizinhaça toda estava ao meu redor, meio desesperada. Eu sem entender o que havia acontecido.
Mas estava sem maiores ferimentos, apenas com dor no tórax. Meu pai e minha mãe resolveram me colocar no trem para a Central até o Hospital dos Servidores do Estado, que eu tinha direito por seu meu pai funcionário público federal do Ministério da Saúde.
Depois dos exames de praxe e nada mais grave sendo constatado, me deixaram 24 horas internado em observação.
Quando retornei fui me lembrando aos poucos. Havia muitos galhos mais finos abaixo daquele que eu estava. Eles foram se quebrando à medida que eu caía, amenizando o impacto que poderia ter sido fatal mas que resultou apenas em um desmaio e leves escoriações.
Concluíram os religiosos vizinhos que meus anjos da guarda me salvaram. E que, através deles, a mão de Deus me segurou.
Quanto ao Dom Patão, soube depois que ele se aproveitou de toda confusão e consumou seu ato com aquela que seria sua sétima conquista. Assim, como a história do rei Henrique VIII e suas seis esposas, ele se tornaria lendário. Pelo menos para mim.
Depois disso não durou muito. Teve um mal súbito à noite e amanheceu morto. Comoção da família e aparentemente das seis patas que já o haviam perdoado da escapulida.
Quanto à sétima pata (aquela da vizinha, pivô de toda a história), tornou-se amiga de suas rivais: pouco tempo depois apareceu lá em casa pra nadar com as novas companheiras de infortúnio saudoso.
Quando nos mudamos elas ficaram morando todas juntas.
Em retrospecto pseudo analítico-filosófico, me pergunto se não seria Dom Patão um ídolo. Mas aí me lembro da queda fatídica e penso que não. Mas creio que ele tinha consciência que estava com os dias contados, por isso a ânsia de perpetrar sua derradeira aventura amorosa.
Possível também que tenha morrido tranquilo, sabendo que, ultrapassada a barreira dessa existência, encontraria não apenas sete patas, mas pelo menos uma dúzia no seu novo harém celestial (dos patos).
Atualmente eu - ainda que muito raramente - mantenho a coragem de subir em árvores. Mas, nesses esparsos momentos, meus cuidados se multiplicam. Não acredito que os anjos de guarda ou a mão de Deus tenham paciência de cuidar de um sujeito de quase sessenta anos que não aprendeu a lição e insista em repetir o erro. Até porque acho difícil ter um harém do outro lado.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Tales From Topographic Oceans


Final dos anos 1990. Eu editava o jornal Metamúsica faziam cinco anos. Exigente comigo mesmo que sou, buscava sempre abordar temas cada vez mais complexos relativos à música.
Neste caminho achei que seria uma ótima ideia escrever sobre um dos discos mais intricados da história, seja pela temática seja pela construção musical.
Escrevi a resenha. Reli e não gostei. Me surpreendi com a minha incapacidade de retratar o que deveria ser retratado.
Percebi que precisava de ajuda. Mas quem poderia me auxiliar?
Coincidência (ou não?) nesta época eu já conhecia o Prof. Wagner Borges, fundador do IPPB, Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas, de São Paulo.
Sabia que era amante de boa música e fã da banda em questão.
Em um contato que tivemos na época ele abordou exatamente esse disco! Contei-lhe do meu "beco sem saída" relativo à obra. Ele apenas me disse: "meu querido amigo, fique tranquilo, me dê um tempo que eu escrevo pra você"!
O resultado foi brilhante. Era o que eu queria retratar, sobretudo no que se refere aos temas espiritualistas criados pelo genial cantor John Anderson. Aliás, essa é uma banda formada exclusivamente por gênios. Falo do Yes e do disco "Tales From Topographic Oceans".
Reproduzo na íntegra o artigo, não sem antes fazer duas recomendações para os estimados leitores do blog:
 - Mesmo que não sejam ligados em música ou nesse estilo musical, leiam estas explicações do Prof. Wagner Borges. Acho que vale a pena e vão entender porque.
- Caso não conheçam o Yes e ficaram curiosos para conhecer sua obra, recomendo que não comecem por esse disco. Optem por "Close To The Edge" ou "Fragile".
P.S.: A maioria das capas dos discos do grupo inglês Yes foram realizadas pelo pintor Roger Dean.



Tales From Topographic Oceans
Estamos no ano de 1973. O rock progressivo está em seu auge.
Bandas como Pink Floyd, Yes, Emerson, Lake and Palmer, Moody Blues, King Krinsom, Jethro Tull e outros estão na crista da onda.

É uma época de grandes realizações musicais dentro da corrente progressiva.

Muitos clássicos do gênero foram gestados nesse período, tais como: "The Dark Side of The Moon" (Floyd), "Selling England By The Pound" (Genesis), "Tales From Topografic Oceans" (Yes) e tantos outros.

É sobre esse último que comentarei. Inclusive, porque essa obra maravilhosa do Yes ainda não é bem compreendida até os dias de hoje. Conheço admiradores do grupo que simplesmente abominam esse disco. No entanto, há muitos que consideram esse trabalho no mesmo nível de "Close To The Edge".

Outro dia, conversando sobre rock progressivo e temas espirituais com o Marcos, editor do "Metamúsica", contei-lhe a história de como Jon Anderson escreveu as letras desses "Contos Para Oceanos Topográficos" e quais foram os motivos que levaram-no a escrever esse épico sonoro que remete o ouvinte atento à uma verdadeira "viagem espiritual progressiva" pelos caminhos da música e dos sonhos luminosos.

Desse nosso papo, surgiu a idéia de escrever um texto elucidativo sobre a produção desse disco, detalhes sobre a banda na época, seus vôos sonoros e as viagens pelo terreno das aspirações espirituais.

Ao longo dos anos, tenho explicado a vários alunos um pouco da alma de "Tales..." e suas repercussões dentro da própria banda. Por isso, de maneira a facilitar minha exposição sobre o tema, alinhavei o assunto em perguntas e respostas, de maneira bem simples e objetiva.

Antes disso, vamos a uma pequena introdução:

- Em 1973, o Yes estava em turnê internacional. Na esteira do sucesso de "Yes Album" (1971), "Fragile" (de onde surgiu o hit "Roundabount"; 1971) e "Close To The Edge" (sua obra mais fantástica; 1972) o grupo viajou bastante e fez muitos shows (dessa turnê surgiu o disco triplo ao vivo "Yessongs").

Durante essa turnê, enquanto estavam no Japão para alguns shows, Jon Anderson leu o livro "Autobiografia de Um Iogue", do mestre hindu Paramahansa Yogananda, e simplesmente viajou nos belos ensinamentos ali contidos. Inspirou-se e começou a escrever alguns temas baseados naquilo que lia. O livro contava as experiências espirituais de Yogananda em contato com diversos mestres da Índia. Falava daquela viagem espiritual na busca da paz, de Deus, do encontro consigo mesmo e da expansão da consciência na luz.

Anderson nunca escondeu suas tendências espiritualistas, tendo, inclusive, colocado no disco "Time And World" (1970) uma música que narrava uma viagem astral (experiência fora do corpo, projeção da consciência, onde a pessoa percebe-se fora do próprio corpo, manifestando-se nas dimensões espirituais). Essa música chama-se "Astral Traveller" ("Viajante Astral"). Ela aparece também na coletânea "Yesterday" (1975).

Em seus discos solos, essa tendência fica mais transparente ainda, principalmente em "Olias of Sunhilow" (1976) e "Song of Seven" (1980).

Posteriormente, no disco "Anderson, Bruford, Wakeman e Howe" (1989), em que houve uma discussão com Chris Squire (baixista e co-líder da banda, pedra fundamental da existência e manutenção dessa entidade musical chamada Yes) pelo uso do nome do conjunto, Anderson deu altos vôos espirituais nas letras das músicas, mas, dessa feita, de maneira bem menos ostensiva (como exemplo disso, a música "Big Dream").

Já na década de 1990, ocorreram várias discussões entre ele, que cada vez mais queria falar de temas etéreos nas letras, e Squire e Trevor Rabin (guitarrista, compositor e produtor do Yes entre 1983 e 1995), que queriam mais peso e pé no chão nos movimentos musicais da banda.

Quando esteve no Brasil em sua turnê solo em 1993, mais especificamente em São Paulo, ele deu uma entrevista para uma revista falando de suas inclinações espirituais.

Pois foi influenciado por sua busca espiritual, que Anderson escreveu "Tales..."

Quando o disco saiu, vendeu muito nos primeiros dias e alcançou um bom posto nas paradas inglesas. Contudo, boa parte dos fãs decepcionaram-se. Na verdade, não entenderam o conceito do álbum e não sacaram o pano de fundo das letras. Além disso, o disco (duplo) continha apenas quatro músicas imensas, o que dificultava sua execução nas rádios. Acredito que se fosse um disco simples e com músicas mais curtas, teria sido um grande sucesso de público.

Para o ouvinte mais atento, independentemente do teor das letras, "Tales..." contém algumas passagens instrumentais memoráveis, principalmente nas seções a cargo de Rick Wakeman, principal responsável pelo clima etéreo de vários trechos da obra. Muito embora ele não concordasse muito com uma obra desse gênero, ele trabalhou corretamente e fez sua parte a altura do seu talento.

Aliás, diga-se de passagem, em matéria de talento, o Yes sempre foi privilegiado. Seu principal guitarrista, Steve Howe, sempre foi considerado um dos maiores guitarristas do rock. Rick Wakeman, virtuose dos teclados, simplesmente um dos maiores tecladistas do planeta. Jon Anderson e sua voz maravilhosa, capaz de fazer inveja aos anjos da música. E Chris Squire, um dos baixistas mais dignos da história do rock (seu único disco solo, "Fish Our The Waters" (1975) é um clássico). A conjunção desses virtuosos elementos em uma banda (lembrando ainda dos dois bateristas do grupo, o irriquieto e criativo Bill Bruford - 1968 a 1973, e o fiel e correto Alan White - de 1973 em diante), gerou sonoridades que até hoje encantam e emocionam as gerações mais novas.

Bom, antes que o nosso amigo editor reclame do tamanho desse texto, vamos as perguntas e respostas sobre "Tales From Topographic Oceans".

É verdade que foi por causa de "Tales from Topographic Ocean" que Rick Wakeman saiu do Yes pela primeira vez?
Em parte, sim. Wakeman não concordou com a temática do disco. Quando Jon Anderson (bastante empolgado e absolutamente encantado com as idéias hindus inseridas nas composições) e Steve Howe (bem menos empolgado que Anderson, mas influenciado fortemente por ele) apresentaram o esquema das letras e das melodias aos outros componentes do grupo e aos empresários da gravadora, Wakeman simplesmente saiu da sala extremamente aborrecido. Também Squire e White ficaram impactados com a proposta do disco. Estando a cargo dos dois a parte rítmica (baixo e bateria), ou seja, a cozinha sonora, base e força que daria a sustentabilidade e o contraponto ao tapete sonoro dos teclados e aos rifs de guitarra, eles não compreendiam bem o motivo daquelas letras falando de temas etéreos. Mas, Anderson persuadiu os dois a embarcarem em sua aventura espiritual-sonora.

Wakeman participou desse disco a contragosto. Segundo suas declarações à época, havia muita "encheção de linguiça" nas músicas. Ou seja, muitas seções foram ampliadas exageradamente, o que tornou o disco repetitivo e maçante, mesmo para os fãs do grupo. Na verdade, sua crítica tinha procedência. Se o grupo houvesse trabalhado as músicas de maneira mais simples e com duração menor nas mesmas, o disco teria sido um estrondoso sucesso.

Além desses fatores, o primeiro disco solo de Wakeman, o maravilhoso "The Six Wives of Henry Vlll" ("As Seis Esposas de Henry Vlll"; 1973), tornara-se um sucesso de crítica. Isso motivou-o a tentar uma obra mais ambiciosa ainda: "Journey To The Centre of The Earth" ("Viagem Ao Centro da Terra";1974), seu maior sucesso até hoje. Como ele estava descontente com o rumo que a música do Yes estava tomando e seus trabalhos solos estavam tendo boa aceitação, ele planejou sua saída da banda. Mas, esse descontentamento não empanou o brilho nas seções de teclados a seu cargo no disco. Acima de tudo, muito embora Steve Howe dissesse à época que ele não era sério, seu lado de músico profissional prevaleceu e seu trabalho nesse disco é fantástico.

O comentário ferino de Howe tinha um motivo: por essa época, Wakeman levava uma vida desbragada demais. Bebia muito e era extravagante. Tanto que dois anos depois, em plena turne solo, sofreu sérios problemas cardíacos. E teve que mudar vários hábitos para sobreviver. Há outro fato que convém considerar: com exceção de Wakeman, o resto do grupo era vegetariano. Inclusive, certa revista de rock estampou em suas páginas a foto de Wakeman comendo um hambúrger. Tudo isso foi gerando um grande mal-estar que acabou levando-o a desligar-se da banda logo no início de 1974, pouco depois do disco ter sido lançado.

Por que o disco só tem quatro músicas apenas? Sendo um álbum duplo eles não poderiam ter feito algo mesclado, unindo o conceito principal do disco com temas mais simples?
Na concepção de Jon Anderson não dava para fazer dessa maneira. Ele queria subdividir o tema em quatro seções básicas, de modo que o ouvinte mais atento pudesse perceber uma mensagem espiritual inserida nas palavras.

Em seu livro "Yes, But What Does It Means?", Thomas J. Mosbo comenta isso da seguinte forma: "Não surpreende que "Tales From Topographic Ocean, talvez a única sinfonia de rock verdadeira, tenha permanecido mal entendida, mal apreciada, freqüentemente caluniada e em geral não escutada, exceto pelos fanáticos fãs do Yes, desde sua criação em 1973.

Porém, as sinfonias não estão isentas de que exista um tema determinado que lhes haja inspirado um conceito básico. Isso é o que Anderson encontrou nas escrituras hindus, ainda que seu desenvolvimento não implica na relação de uma história com personagens, uma trama e um desfecho convencional. Também não se pode dizer que suas letras não contenham uma mensagem ao ouvinte. Porém, não está elaborado de forma operística, não narra acontecimentos e nem sagas, e isso se deve a que o conceito, basicamente religioso, que a inspirou e condicionou sua música é estático. Mais do que eventos ou acontecimentos dinâmicos, evoca imagens e climas criados para produzir impressões e estados de ânimo.

Além de qualquer significado real nas letras, a combinação de sons nas palavras contribuem com o efeito auditivo da música, mesmo na condição de que se alguém não entende certa linguagem, como pode acontecer ao escutar a música "The Ancient" ("Os Antigos"), os sons cantados poderão levá-lo a uma percepção da intencionalidade determinada ali inserida."

Você pode explicar em detalhes as quatro músicas?
A primeira parte (antigo lado 1 do disco de vinil duplo) é "The Revealing Science of God - Dance of the Dawn" ("A Ciência Reveladora de Deus - Dança da Aurora"). Essa parte é descrita por Jon Anderson assim:

Primeiro Movimento: SHRUTIS (do sânscrito: "Textos Sagrados"; "Revelações Sagradas")."

"A Ciência reveladora de Deus pode ser vista como uma flor permanentemente aberta, da qual emergem as verdades simples, registrando as complexidades e a magia do passado, e fazendo-nos ver que não deveríamos esquecer nunca a canção que nos foi dada escutar. O conhecimento de Deus é uma indagação objetiva e constante."

Essa primeira música tem tudo de bom do Yes clássico: uma letra inspirada ("Amanhecer da luz", "Amanhecer do pensamento", "Amanhecer de nosso poder" e "Amanhecer do amor"), bons momentos de teclado e guitarra e a voz de Anderson em momento muito inspirado. Para muitos, essa é a melhor música do disco. Em minha opinião, Steve Howe e Rick Wakeman estão fantásticos nessa seção. Novamente, volto a pensar: se essa música fosse mais curta teria sido um grande sucesso da banda.

A segunda parte (lado 2 do disco de vinil duplo) é "The Remembering - High the Memory" ("Os Que Recordam a Memória Elevada").

Descrição de Jon Anderson:

Segundo Movimento: SURITIS (do sânscrito "Smritis": "Memórias de epopéias inspiradas").

"Todos os nossos pensamentos, impressões, conhecimentos e temores têm se desenvolvido no transcurso de milhões de anos. Podemos, através de nós mesmos, referirmo-nos somente sobre nosso próprio passado, vida e história. Aqui é o teclado de Rick que projeta vívidos fluxos e refluxos de olho de nossas mentes: o oceano topográfico.

Por sorte, notamos que certos aspectos ocorridos ao longo do tempo não são tão significativos como a natureza do que está impresso em nossa mente, e o modo como isso está registrado e é utilizado."

Essa segunda música fala da possibilidade do olho da mente viajar nas águas do tempo através do oceano da eternidade (um oceano topográfico espiritual) e vislumbrar outras realidades somente perceptíveis pelas vias da imaginação, da intuição e da viagem espiritual. Nesse ponto, Anderson estava bastante adiantado para a época. A chamada regressão de memória (tecnicamente o nome parapsicológico é "retrocognição"), que hoje é estudada por muitos pesquisadores como ferramenta terapêutica para o desbloqueio de vários traumas psíquicos, é abordada de maneira bem sutil ao longo da música. Ele fala de "viajar longe nos sonhos" e explorar as experiências passadas. Fala de "viajar pelo tempo e pelas histórias e mitos" que formaram a alma da humanidade. Ou seja, é uma busca espiritual nas luzes do passado, um doce canto inspirado na viagem da alma pelo rio espiritual do tempo, uma doce viagem da caravela humana pelo oceano da sabedoria antiga (aqui fica bem evidente a influência dos Vedas, as escrituras mais sagradas dos hindus, sobre Anderson).

Apenas mais um detalhe adicional: a percepção supranormal de eventos externos passados é chamada tecnicamente de "psicometria" (do grego: "psiquê": "alma"; e "metria", oriundo de "metron": "medida"). Ou seja, a percepção da alma das coisas, o mergulho nos registros do tempo (conhecidos esotericamente com o nome de "registros akáshicos").

Como observa-se, não é uma temática fácil de ser assimilada pelos leigos, quanto mais musicada e direcionada a um público genérico e acostumado a outros piques progressivos. Isso equivale a tentar musicar os épicos da Bíblia para os orientais. Esse é mais um dado para demonstrar porque esse disco foi tão mal compreendido.

Muitos fãs do grupo não gostam dessa segunda música, talvez pela complexidade do tema. Entretanto, a parte instrumental está excelente. Rick Wakeman brilhou muito nesse segundo movimento. Seus teclados dão um clima etéreo ao tema. Em minha opinião, as seções a seu cargo são a verdadeira alma dos oceanos topográficos. Por várias vezes, extraí apenas suas partes de teclado dessa música e coloquei-as isoladamente para grupos de alunos em práticas de relaxamente e expansão da consciência. O resultado foi ótimo e eles perguntavam que som era aquele que fazia "viajar espiritualmente". Muitos achavam que era um som new age. Porém, quando eu dizia que eram trechos de teclado de Wakeman selecionados de "Oceanos Topográficos", eles ficavam surpresos.

A terceira parte (lado 3 do disco de vinil duplo) é "The Ancient - Giants Under The Sun" ("Os Antigos - Gigantes Sob o Sol").

Descrição de Jon Anderson: Terceiro Movimento: PURANAS (do sânscrito: "Lendas ou narrações de tempos antigos").

"A antiguidade indaga ainda mais profundamente no passado, mais além do ponto de recordação. Aqui a guitarra de Steve é o pivô para a aguda reflexão sobre as belezas e os tesouros das civilizações perdidas: Índia, China, América Central e Atlântida.

Estes e outros povos deixaram um imenso tesouro de conhecimentos."

Essa terceira música é talvez a parte mais complicada da obra. Anderson quis descrever sonoramente a união que os povos antigos tinham com a Mãe Terra. Para isso, usou de muita percussão com o intuito de criar um clima animista bem forte na primeira parte. Tecnicamente, o trabalho de Howe nas guitarras foi excelente, mas o som da percussão é tão forte (aqui brilhou bastante o talento de Alan White na bateria) que empanou seu brilho. Além disso, dá para perceber nitidamente aquela encheção de linguiça a que Wakeman referia-se. Em alguns pontos, a música torna-se irritante, mais parecendo que a banda estava perdida a essa altura, sem saber direito como desenvolver bem a linda idéia de Anderson sobre a sabedoria dos povos antigos.

Outro detalhe: acho que muitos não gostaram dessa música devido ao excesso da percussão. Quem gosta de rock progressivo está mais acostumado ao virtuosismo dos teclados e guitarras no comando do som. Eis aí mais um detalhe para explicar a aversão do fãs a esse disco.

Porém, chamo a atenção para dois pontos nessa terceira música:

Passado o verdadeiro massacre percussivo da parte inicial (infelizmente extenso demais), a última parte é belíssima. Howe brilha muito no violão e a voz de Anderson evoca aquele sentimento cristalino da ascensão à luz.

Além do tema falar da sabedoria e ligação dos antigos com a Terra, também fala de sua devoção ao Sol. Se o ouvinte observar o disco inteiro com cuidado e paciência, notará que ele é a grande referência de toda a obra. Isso deixa mais clara ainda a influência da espiritualidade hindu sobre Anderson. Para os hindus, um de seus mantras mais importantes é o "Gayatri", em homenagem ao Sol (em sânscrito: "Surya"), expressão da vida. E Brahman (do sânscrito: "O Todo"; "O Absoluto"; "Deus") é o Sol de todos!

A quarta parte (lado 4 do disco de vinil duplo) é "Nous Sommes Du Soleil" (do francês: "Nós Somos do Sol").

Descrição de Jon Anderson: Quarto Movimento: TANTRAS (do sânscrito: "Rituais"; "Regras"; Também são chamados de Tantras aqueles tratados esotéricos que tratam do lado invisível do homem e da natureza, além dos meios pelos quais pode-se fazer descobertas espirituais).

"O Ritual. Os sete pontos da sabedoria para aprender e conhecer o ritual da existência. A vida é uma luta entre as forças perniciosas e o amor puro. Alan e Chris apresentam e transmitem a luta da qual sai vencedora a causa positiva. Nous sommes du soleil. Nós somos do sol. Nós todos podemos ver."

Nessa quarta música, depois de viajar pelas águas do tempo, o viajante espiritual emerge dos oceanos topográficos cheio de vida e luz. Sua alma está vitalizada pela luz da paz. O sol do amor despontou em seus horizontes internos. Ele está resplandecente de sabedoria. Houve uma expansão de sua consciência para outras realidades. Ele aprendeu com o passado e uniu-se a Deus (aqui representado pelo Sol) e está pleno no presente, livre das trevas da ignorância. Um portal de luz em seu coração trouxe-lhe a graça e a alegria para trilhar o caminho de novas auroras cheias de esperança. Isso está claro no seguinte trecho: "... Como o amor é verdadeiro, nos ajudará a cruzar a noite... Se diz que os sonhos fazem florescer a coragem."

A viagem espiritual de que Anderson fala é a viagem sutil da própria humanidade. É a sua luta por novas luzes, é a sua saga de vida entre sonhos e dificuldades, é a sua viagem rumo a Deus, o Sol de todos. "Nós somos do sol" é a expressão espiritual de que a alma humana é filha da luz e tem potencial para vencer as trevas de seus medos e ilusões.

Nessa última música, a parte instrumental e vocal está maravilhosa. Anderson está cheio da luz que dá vida ao tema. Chris Squire finalmente aparece mais no disco e dá um show no baixo. O trabalho de Howe e White está na medida certa. Apenas Wakeman ficou meio apagado nessa seção, mas sem comprometer o resultado final.

Para muitos, essa música rivaliza com a primeira como a melhor do disco. Novamentre penso: Ah, se fosse mais curta...

Detalhe adicional sobre essa música: ela aparece no disco ao vivo "Yeshows" (1981 - coletânea de músicas ao vivo). Mas, quem toca os teclados não é Rick Wakeman, é Patrick Moraz. Na época dessa gravação ao vivo, 1976, era o tecladista suiço quem pilotava os teclados da banda. Inclusive, alguns gostam mais dessa versão ao vivo.

O desenho da capa do disco é do Roger Dean?
Sim. É uma das capas mais bonitas que ele fez para a banda. Quem vê a ilustração reduzida na capa do cd não tem idéia de como ela era bonita na capa grande do disco de vinil duplo, uma capa dupla, que só dá a noção completa do belo desenho quando aberta completamente.

Na sua opinião esse disco foi injustiçado?
Sim, sem dúvida alguma. Hoje, 26 anos depois, dá para fazer uma releitura salutar em cima dessa obra. Há muitos jovens que gostam do Yes e apreciam esse disco. Quem tem mais ojeriza a ele é o pessoal antigo, muitos deles entalados na década de 1970 e cheios de ranços estúpidos. Quem sabe agora esse pessoal olhe com mais atenção essa obra maravilhosa?

Em sua opinião quais são os melhores discos do Yes?
"Close To The Edge" (1972), "Tales From Topographic Oceans" (1973), "Relayer" (1974), "Fragile" (1971), "Yes Album" (1971) e "Going For The One" (1977). Além disso, gosto muito de "Keys To Ascension" (1996; os segundos discos, onde estão as músicas de estúdio) e de "Anderson, Bruford, Wakeman e Howe" (1989; esse disco não tem o nome do Yes).

7. Sintetize o que representa "Tales From Topographic Oceans" para você.

É simples. Posso sintetizar o disco com o título da última música:

"Nous Sommes Du Soleil" - "Nós Somos da Luz".

É uma viagem espiritual sintetizada assim:

Surge a luz da aurora em nosso coração, a luz de Deus.
Relembramos nossa essência espiritual no oceano do tempo, somos eternos.
Aprendemos com os sábios antigos a arte espiritual da união com a Terra e a reverência ao Sol, a arte da expansão da consciência.
Voltamos ao presente cheios de esperança e amor para lutarmos pelos nossos sonhos e seguirmos em frente, pois "NÓS SOMOS DA LUZ!"
A todos os leitores de Metamúsica, PAZ E LUZ!

- Wagner D. Borges -
(Pesquisador, conferencista, autor da série de livros "Viagem Espiritual" (sobre experiências fora do corpo e temas espirituais), instrutor de cursos de Projeciologia, Bioenergia, Taoísmo, Hinduísmo e temas espirituais, 37 anos, botafoguense e amante de rock progressivo e new age.)
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* Bibliografia:
- "Seventh Heaven Vol. 3" (revista argentina; há uma matéria especial sobre "Tales From topographic Oceans" nas págs. 1-20). Essa revista fundiu-se com a revista "Mellotron", uma das melhores publicações de rock progressivo do mundo.
- Livro: "Yes, But What Does It Means"; Thomas J. Mosbo.
- Livro: "Yes, Uma Rara Música de Quinteto"; Décio Estigarribia; Editora Muiraquitã; Niterói, Rio de Janeiro.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O Copacabana Palace, os Guinle e eu


Nunca me hospedei no belo Copacabana Palace. Mas bem que gostaria. Quem sabe ainda chego lá. Mas não ao final, como o Jorginho. Logo entenderão o que acabo de dizer.
Acho que a diária mais barata deve estar na faixa dos três mil (no Anexo). Já a mais cara por volta dos 25 (mil Reais): suíte presidencial de cara pro gol, ou seja, Avenida Atlântica. Fora das minhas parcas possibilidades no momento.
O tombamento pelo Iphan nos anos 70 mais uma injeção de 50 milhões de dólares de um americano garantiram a sobrevivência desse monumento artístico e histórico no coração da Zona Sul.
Outro interesse meu é relativo à história do único legítimo Playboy brasileiro: Jorginho Guinle. Torrou em vida bem vivida a herança, conquistando Hollywood e belezuras como Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Kim Novak, Ginger Rogers, Gina Lollobrigida, etc etc. Além de ter se tornado amigo de atores e dos maiores jazzistas dos anos 50 (conta-se que foi ele que aconselhou Miles Davis a inserir John Coltrane em sua banda!!!).
Mas o que une essas duas citações? É que o Copacabana Palace foi erguido pelo pai do Jorginho, na década de 1920. Era um dos componentes do clã Guinle.
Descobri isso lendo o livro "Os Guinle - A história de uma Dinastia" (250 páginas, Editora Intrínseca) do historiador Clóvis Bulcão.
Delicioso, o livro mostra a importância da família para a economia e para o desenvolvimento das artes no Brasil da primeira metade do século XX. 
Alguns exemplos de atuação: estruturação do futebol com a construção do estádio do Fluminense nas Laranjeiras e apoio na criação das sedes do Flamengo e Botafogo; construção do Hipódromo da Gávea; construção do Palácio Laranjeiras (atual sede do governo estadual); criação do Hospital Gaffreé-Guinle; criação e administração do Porto de Santos; construção da Rio-Petrópolis; fundação do Banco Boavista; apoio benemerente a Pixinguinha, Villa-Lobos e Orquestra Sinfônica Brasileira; criação do Banco da Providência, etc etc.
Vai além o livro, quando mostra detalhes inusitados e surpreendentes.
A fortuna da família começa quando dois amigos de infância do Rio Grande do Sul, Eduardo Palassim Guinle e Cândido Gaffreé, ambos de ascendência francesa, montam sociedade no Rio, século XIX, em um modesto armarinho. Essa sociedade nunca se desfez mas a dinastia que entrou na história foi a dos Guinle uma vez que Cândido nunca se casou nem teve filhos. Quer dizer, mais ou menos. Eduardo se casou com Guilhermina e tiveram sete filhos. Historiadores dão conta que a sociedade entre ambos ia mais além. Guilhermina também era amiga de infância dos dois e, ao que parece, pelo menos três dos sete Guinle eram filhos na verdade de Gaffreé, que dava como seu endereço o mesmo do palacete de Eduardo... Turma bem moderna pra época, não acham?
O livro tem muitas outras "fofocas" históricas que eu adoro, confesso. Mas a pesquisa do autor é ampla, mostrando os diferentes caminhos trilhados por cada um dos sete membros originais do clã (cinco homens, duas mulheres), bem como de seus herdeiros. A ascensão bilionária ao longo de 50 anos e a queda após o golpe militar, uma derrocada tão grande (com algumas exceções) cuja principal referência é o milionário playboy Jorginho Guinle pedindo dinheiro emprestado no fim da vida. Não para comprar diamantes, champagne e caviar, mas sim para pagar o mercado e a farmácia. Consertar as roupas puídas enquanto se tratava em hospitais públicos.
Por sorte, ao final, lhe ofereceram uma suíte no Copacabana Palace para passar seus últimos dias, pois ele dizia que "não queria morrer e ir para o céu, e sim morrer no céu".
Assim é a vida. Pelo menos dos Guinle.
Eu, enquanto isso, apenas passo em frente ao hotel e fico imaginando quantas histórias aquelas paredes guardam dentro de si.


domingo, 10 de dezembro de 2017

A Nostalgia e a Morte de Luiz Carlos Maciel

Já passa de 1 h da manhã. O domingo avança pela madrugada. A TV está ligada no canal Arte 1, o volume está baixo mas dá pra ouvir o piano que toca no documentário contando a biografia de Frédéric Chopin.
Todos dormem e meus olhos já ardem de sono. Uma última olhada no celular e vejo a notícia da morte de Luiz Carlos Maciel. Um aperto no peito, sentimento de perda, nostalgia: um dos caras que mais admirei nas minhas leituras de juventude. Tempo, tempo, tempo... Ele estava com 79 anos.
Me lembrei que havia escrito algo sobre ele no Blog do Felipe Muniz. Demorei mas encontrei.
Sem mais comentários sentimentais reproduzo a seguir.
Boa viagem LCM.

Nostalgia, segundo o Luiz Carlos Maciel (originalmente publicado no verão de 2011 no Blog do Felipe Muniz)

O domingo amanheceu ensolarado. Belo dia.
Para quem gostar e tiver oportunidade, um bom dia para tomar um banho de mar (ou “banho de bar”). Desde que a praia não esteja tão lotada nem poluída. Piscina pode ser também uma boa opção.
Quem sabe dormir até mais tarde, fugir do calor, ler o jornal dominical, descansar... Para os religiosos, também dia de ir à Igreja.
Dei uma passada rápida aqui no blog porque precisava passar um mail. Não estava nos planos colocar post hoje. Aliás, verão, fim de semana, a assiduidade por parte dos leitores cai naturalmente, certo? Não! Me surpreendi ao verificar que 410 pessoas olharam o blog ontem. Eu e o Luiz Felipe agradecemos a atenção.
Mas - antes mesmo de tomar o café da manhã e depois dar uma passada na praia - o que devo colocar aqui no blog neste domingo?
Pois, não sei como e porque, me lembrei de uma pessoa, um cara muito especial. É em homenagem a ele este post dominical.

O gaúcho Luiz Carlos Maciel (nasceu em 1938 e em alguns de seus livros o Luiz aparece com s) é escritor, filósofo, jornalista (foi um dos fundadores do jornal “O Pasquim”), diretor, escritor, roteirista, crítico musical, etc.
Era chamado nos anos 1970 de “Papa da Contracultura” (ou “Cultura Underground”). Um grande Intelectual. Com I maiúsculo.
Faz tempo que não vejo ele nos jornais, TV, revistas, etc. Só sei que ele mora no Leblon. Mas sempre me lembro de alguns ensaios de sua autoria que li há muito tempo.
Com a Internet ficou mais fácil achar alguns de seus escritos (acho que todos os seus livros estão fora de catálogo) como este sobre ‘nostalgia’ que reproduzo abaixo.
Não sei se esse tipo de assunto interessa mais, neste dias corridos, sem muito tempo para pensar sobre a vida.
É de 1977, mas vai ser atual sempre (independente do interesse despertado). Só gostaria de saber se hoje em dia (com mais de 70 anos) ele mudaria alguma coisa.
É claro que poderíamos atualizar algumas frases, tipo: O que os Beatles, Tina Turner e Pink Floyd tem que o Justin Bieber, Lady Gaga e Restart não tem?

NOSTALGIA
Luiz Carlos Maciel (do livro “A Morte Organizada”)
"Dizem que há um clima geral de nostalgia em todo o mundo. De repente, como se tivéssemos ficado cansados das novidades incessantes dos últimos anos, estaríamos parando para lembrar. São numerosos os jornais e revistas, os articulistas e repórteres, que parecem estar tentando nos convencer de que a memória, afinal de contas, é bem mais excitante e divertida que a vida atual. O que tem Humphrey Bogart e Marilyn Monroe que Mick Jagger e Alice Cooper, a julgar por eles, não têm? É difícil saber, considerados apenas os chamados dados objetivos desses nomes e dos fenômenos mais amplos que eles representam. As coisas passam e o mundo muda — isto é tudo. Se, de alguma forma, nos prendemos ao que passou ou pretendemos, periodicamente, retornar a ele, isso deve ser naturalmente atribuído a uma poderosa força psicológica sobre a qual não parecemos ter, ainda, muita clareza. Por que o passado — e não o passado distante, mítico e incognoscível, mais aberto portanto à imaginação, mas um passado que vivemos — nos parece, de súbito, tão atraente e envolto em encanto?
A nostalgia, como fenômeno social, é o produto direto de um certo sentimento do mundo, que se pretende afirmar como dominante, típico de pessoas que ultrapassaram a metade provável de suas vidas. Vivemos sempre no passado ou no futuro; a desatenção nos desvia no momento presente para essas fantasias, sempre imprecisas mas exigentes, sugeridas pela memória e pela imaginação. Os jovens, por exemplo, em sua circunstância biológica, costumam viver o futuro: são, inteiramente, projeto e antecipação. Gostam de previsões, profecias e, mesmo, planos a longo alcance. A imaginação doentia, então, se projeta para diante. Na medida em que a vida passa, porém, o futuro se fecha, as fantasias se desmentem e a imaginação — cada vez mais doentia, pois em geral tentamos curar nossas doenças ingerindo doses cada vez mais altas dos venenos que as provocaram — procura pasto na memória. Frustradas as suas antecipações, o ego sente que está perdido e abandonado à insegurança fundamental da liberdade — que, aliás, só é angustiante em sua ótica deformada, sendo para o homem desperto, ao contrário, fonte de paz e equilíbrio psicológico. Volta-se, então para essas imagens obscuras da memória como se elas fornecessem um atestado da existência objetiva de algum paraíso e seguro que ele, o ego, pudesse dominar. As imagens obscuras, porém, são apenas imagens obscuras, não correspondendo a nenhuma realidade efetiva, e o sentimento que brota então é uma coisa morna e passiva, doce mas triste, aparentemente tranquilizadora mas mortal a que chamamos nostalgia.
A verificação prática é fácil. Todos os objetos da pretensa onda de nostalgia que, segundo certa imprensa, é uma moda atual, são lembranças dos anos cinqüenta, justamente a época em que as pessoas que, agora, estão na metade provável da vida, eram jovens curiosos e abertos ao futuro. O aparecimento de um sentimento nostálgico no mundo, nessa gente, indica, antes de mais nada, que estamos vivendo o momento histórico em que elas viram desmentidas as suas antecipações, frustrados os seus projetos e desmanchado o futuro fictício que elaboraram longamente nas cavernas secretas da imaginação. Por que a nostalgia não se satisfaz com um passado mais recente? Por que não ousa recuar a um passado mais remoto? Não: as explosões nostálgicas fixam-se num recuo de cerca de vinte anos, mais ou menos, ou seja, justamente o período intermediário entre a infância e a adolescência dos que estão nos trinta, nos quarenta, e suas atuais decepções. “Já temos um passado, meu amor”, diz Caetano Veloso em Saudosismo. Essa verificação existencial é o ponto inicial do processo: o passado reaparece a partir do esvaziamento do futuro. Os anos cinqüenta aparecem, imaginariamente, como a perspectiva perdida de um controle ingênuo da realidade, típico da infância e da adolescência — uma ilusão evanescente, é verdade, mas nossa primeira reação ao desamparo é o apego a ilusões — dolorosas ou agradáveis, não importa. Naturalmente, o que se introduz aqui, na vida de um indivíduo, é a própria velhice e a própria morte, disfarçadas nas cores suaves da memória. “Recordar é viver”, dizem as pessoas mais velhas, morrendo sempre mais um pouco — sabendo ou não —, na medida em que se fortalece o apego ao que passou. A nostalgia é uma espécie de nó psicológico. Ela obstrui a atenção ao momento presente, invertendo o sentido original de velhas aspirações — políticas, afetivas, existenciais, etc. Pode ser definida como o momento traiçoeiro de descoberta do passado, uma reversão psicológica de conseqüências mortais para a vida espiritual de qualquer indivíduo ou coletividade. Por isso, as épocas nostálgicas são sempre épocas de poucas perspectivas para o futuro. Quando a sombra das desilusões caem sobre ele, nossa sede insana por segurança e conforto, nossa moleza espiritual e nossa covardia procuram refúgio no passado. Esse sentimento do mundo aparece sempre quando a geração intermediária — sempre influente nos caminhos das coisas — se defronta, afinal, com uma perplexidade insuperável. Norman O. Brown já estudou o fenômeno da regressão psicanalítica em termos de uma nostalgia de uma Idade de Ouro perdida junto com a infância. Resta verificar a medida em que essa nostalgia serve a interesses ideológicos específicos de estagnação da vida que deveríamos permitir que se renovasse sempre. A nostalgia, de que tanto falam os jornais e revistas, não passa de um poderoso instrumento psicológico da Morte Organizada."

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Meus 15 minutos de fama

Houve um tempo, mais ou menos distante, em que fui famoso. Mas não fiz fortuna. Acreditem.
Nem era fama instantânea, como agora, em tempos de Internet.
E nada parecido com Brad Pitt, Paulo Coelho ou Kim Jong-un. Ok, isso é uma piada.
Até porque meus possíveis fãs se restringiam aos adeptos de um estilo musical que provavelmente 110% dos meus 17 leitores desconhecem solenemente: Rock Progressivo. Não se sintam menos importantes por isso. Se não conhecem é porque estão dentro da normalidade.
O fato é que - mesmo não sendo da área - editei uma publicação ao longo de cinco anos, cujo ênfase era a análise e divulgação desses sons criados por músicos geniais.
Resumidamente, Rock Progressivo é rock com elementos de Música Clássica, Jazz, Folk, etc. O auge do movimento foram os anos 70 mas ainda hoje (e sempre) existe uma farta produção independente em todos os cantos do mundo. Para isso exige-se do músico "pouca coisa": capacidade técnica, criatividade, emoção, dedicação... Nada a ver com o Funk, Sertanejo ou Pagode, portanto.
Minha publicação - uma das poucas editadas em português até hoje e uma das raras em todo o mundo - chamava-se Metamúsica, formato tabloide e que chegou a ter 98 páginas, quase tudo escrito por mim, que até hoje não sei como consegui.
Com uma média de 1500 exemplares, distribuído em diversos pontos do Brasil e enviado para os cinco continentes (mesmo sendo em português), tornou-se referência no estilo: as centenas de cartas  e discos que recebia para resenha acabavam por abarrotar minha caixa postal (era caixa postal mesmo, nos correios, não a caixa de entrada de e-mails nem as de mensagens do Whatsapp).
Durante esse período colecionei histórias muito interessantes, algumas bem estranhas, como a mensagem que recebi da Espanha, avisando para eu "ter cuidado com o que escrevia", em referência a uma matéria sobre a música do País Basco (na época a organização E.T.A. estava a pleno vapor;  essa é uma longa narrativa que qualquer dia conto aqui).
Mas voltemos ao tema principal, a possível fama efêmera de que fui vítima. É que ontem resolvi montar minha Árvore de Natal e ela estava guardada em uma meia-água que tenho nos fundos do quintal. Ali é o quarto de despejo, cheio de coisas que ainda pretendo organizar e usufruir mas que não faço isso nunca. Ou seja, uma bagunça. Inadvertidamente abri uma estante onde guardo milhares de itens referentes à publicação. Remexi rapidamente e por sorte achei dois jornais com matéria sobre o Metamúsica. No Globo foi só citação dentro de artigo sobre fanzines semi-profissionais. Já o texto maior é, curiosamente, em jornal de minha cidade onde definitivamente o Metamúsica nunca circulou (a não ser entre colecionadores que frequentavam a Caiana Discos, histórico point dos discófilos da região).
A matéria de página inteira foi publicada em outubro de 2000. Reencontrar essa raridade, já meio amassada e amarelada e da qual nem me lembrava, provocou uma certa nostalgia e essa brincadeira da (pseudo) fama efêmera: a bem da verdade muitos artistas tem isso em suas histórias de vida. Fizeram grande sucesso e depois sumiram na poeira do tempo.
Atualmente, com a Internet, tal característica do nossa época tornou ainda mais precisa aquela antiga previsão: "no futuro (que já deve ter chegado) todos terão direito (ou o azar) de ter seus 15 minutos de fama". Ainda bem que eu já tive os meus. Ou não.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A garota do Banco e a minha suposta velhice ou: "Muito velho para o Rock and Roll, muito jovem para morrer"!


Hoje pela manhã precisei ir à agência bancária.
Meu filho foi comigo. Passamos antes no barbeiro e de lá seguimos. Ele precisava também atualizar o número do seu Smartphone para poder movimentar sua Conta Universitário.
Na entrada do banco, antes de passarmos por aquela roleta detectora de metal, há uma máquina emissora de senhas de atendimento. Ali fica uma atendente operando a tal maquininha.
Imagino que deve existir pessoas com dificuldade no "relacionamento digital" (não falo aqui de sentimentos expostos via internet), pois a máquina é amigável, de operação fácil. É introduzir (com cuidado) o cartão e escolher as opções que vão aparecendo.
Mas, já que a moça estava lá, então não vou fazer desfeita e responder as perguntas dela.
- "Bom dia! Introduza na abertura por favor!", disse-me a simpática funcionária, referindo-se obviamente ao cartão do banco.
Fiz o que ela mandou e aguardei ansioso novas instruções que seguiria sem pestanejar.
- "O que o senhor está querendo?", inquiriu ela, com um sorriso de manhã de segunda-feira.
- Como assim?
- "O que o senhor veio fazer aqui?". Olhei para o lado, era comigo mesmo.
- Bem, necessito pensar pra te responder, mas adianto que preciso emitir um TED e conversar com o gerente de minha conta. Ou seja, atendimento no caixa e negocial.
- "Huummm... Então são duas senhas... Deixa eu ver o que faço...". Não tenha pressa em decidir, tenho o dia todo e está agradável esse tumulto aqui. Isso eu pensei mas não falei. Não deve ser fácil ficar ali atendendo o pessoal o dia todo. Devem aparecer muitos impertinentes. Permaneci portanto em "silencio obsequioso".
- "Vou tirar duas senhas, quem sabe dá a sorte de não ser chamado ao mesmo tempo nos dois locais". Era o que eu imaginava ser a melhor opção, parabéns pela sábia decisão! Também não falei isso. Permaneci santificadamente calado, murmurando apenas um "OK" e emitindo leve sorriso.
Ela imprimiu a primeira senha e pediu para introduzir outra vez (o cartão) na abertura indicada, para imprimir a segunda. No entanto, antes dessa complexa operação, ela me fez uma pergunta fatídica:
- "Atendimento preferencial?" Hein?! Esbocei um olhar de incredulidade, mas ela me olhava desafiadoramente, aguardando a resposta.
- "Atendimento prioritário senhor?" Será que ela se referia ao meu tipo de conta corrente? Sabe como é, os bancos atendem com mais atenção quem é detentor de contas mais importante$. Mas isso é detectado automaticamente pelo cartão, que contem todas as informações necessárias. Não era isso. Então só podia estar se referindo à legislação em vigor.
Nos milésimos de segundos que demorei para responder fui buscar no HD o que eram as tais prioridades, pois já tinha lido sobre elas: pessoas portadoras de deficiência, idosos com idade igual ou superior a 60 anos, gestantes, lactantes e às pessoas acompanhadas por crianças de colo. Até onde pude perceber, na quase totalidade dessas situações eu visivelmente não me enquadrava. Bem, uso óculos de grau elevado mas, para esses casos, a "deficiência visual" não se enquadra. Conclusão óbvia: ela queria saber se eu tinha mais de 60 (ou já estava achando que tinha).
Como assim, não perguntei eu. Estaria tão evidente uma idade avançada? Fale comigo moça! Por favor. Só tenho 58 anos, faltam dois séculos para chegar aos 60!
Só respondi "não" e agradeci. Também pelo fato dela não me chamar de tio, ou pior, vovô.
Já aguardando o atendimento, a primeira fila de cadeiras era reservada para os prioritários. Me sentei na segunda. Um bonito casal de velhinhos (ok, idosos), que pareciam estar acima dos 80, sentou-se na minha frente. Virei para meu filho: "Viu?! A atendente já estava querendo me colocar ali". Com um sorriso ele respondeu: "que nada, deve ser uma pergunta protocolar". Tá certo... Muito generoso esse filho.
É fato que não estou tão distante assim do que antes era chamado de terceira idade (nunca entendi esse termo, talvez sexagésima terceira seria mais adequado), e nem me preocupo muito com isso, mas é bom eu me acostumar com a ideia que não dá mais pra competir com a rapaziada da academia. Nossa geração determinou o fim do conceito de "velho" e dizem que a próxima vai chegar bem aos 120, no entanto não dá para ser infinitamente jovem: embora queiramos isso, tem sempre uma atendente de banco no meio do caminho... por mais que eu continue gostando de ouvir rock'n roll, como diria o pessoal da banda inglesa Jethro Tull!

Música: Jethro Tull - "Too Old To Rock'n'Roll Too Young To Die" - Legendado