quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O Pitoresco Caso do Ombro Congelado


Ele chegou cedo na clínica de fisioterapia. Por volta das 8 h, conforme estava marcado. Estranhou o fato de não ser sua fisioterapeuta que o estava aguardando. "É aniversário da filha dela", disse a substituta.

Ok, vamos lá.

Fazia algum tempo que estava com um problema no ombro direito. Depois de três ortopedistas e mais três exames de imagem, o diagnóstico foi de "capsulite adesiva". Estranhou o nome. "Pode chamar também de ombro congelado" informou um dos médicos. Essa denominação não melhorou muito a percepção de estranhamento. Parece que inventam novas doenças três vezes por semana.
"Uma inflamação de causa desconhecida que regride com o tempo, fique tranquilo, mas tenha paciência e siga o tratamento".
O médico receitou um remédio. Ele leu a bula. Era para psicose, surtos, etc. Atuava no sistema nervoso central. "Doutor há algo errado. Me receitou um medicamento que não tem nada a ver. Eu não estou alucinado. Pelo menos por enquanto".
Pacientemente lhe foi explicado: "o princípio ativo é para isso mesmo ou era. Depois viram que não fazia quase nenhum efeito para psicoses, mas acidentalmente descobriram que aliviava dores e melhorava quadros como o seu. Passou a ser remédio de referência para esses casos de capsulite".
Huummm...
Aceitou tomar mas como uma dosagem reduzida. A bula era assustadora, como todas as bulas. Vai que tem efeito contrário e ele pira de vez...

Mas o fato é que realmente os movimentos do braço estavam restritos, o ombro estava parcialmente "endurecido" e não era bem aquela parte de sua anatomia que ele desejava que permanecesse assim por longos períodos: "Doutor, se eu tivesse tomado aquela pílula azul poderia dizer que foi ela que errou de endereço!". O ortopedista deu uma boa gargalhada. "Fisioterapia", receitou ele em complemento ao medicamento. "Evite fisioterapeutas mulheres e bonitas, senão o ombro pode endurecer mais". E voltou a gargalhar. Bem, quem primeiro fez a piadinha foi ele, agora tinha de aguentar.

Havia começado o tratamento há um mês e os resultados estavam sendo bons.
Naquele dia a fisioterapeuta substituta perguntou qual ombro, ele apontou o ombro esquerdo - o da tatuagem (já esmaecida pelo tempo, precisando de muitos retoques) do sol com uma Clave de Sol dentro - conversando sobre temas diversos ao mesmo tempo ouvindo um blues que tocava na pequena caixa de som. "Blues em uma clínica? Fato raro...". Era Eric Clapton. "Bell Botton Blues".
A fisioterapia consistia em manipulação do ombro e do braço, forçando um "descolamento". Extremamente doloroso. Quase uma seção de tortura dia sim dia não.
No entanto, naquele dia ele não sentiu nada e o braço parecia ter os movimentos já normalizados. Ficou intrigado: "Não era um tratamento demorado? Será que aconteceu um pequeno milagre com uma melhora de 100% de um dia para o outro? Ou será a fisioterapeuta substituta que tem um método diferente?".

A manipulação terminou e foi colocada bolsa de água quente como parte do tratamento, ali bem junto da tatuagem.
Fechou os olhos, relaxou ouvindo o blues, quase pegando no sono.
Eis que abre os olhos repentinamente, afasta a bolsa de água quente, senta-se na cama com um misto de incredulidade e raiva.
A fisioterapeuta, que estava ao lado atendendo outro paciente, olha meio que assustada para ele e pergunta o que estava acontecendo.
Ele olha para ela já resignado e diz apenas: "Te indiquei o ombro errado!".



P.S.: A historinha engraçadinha ficcional acima não tem nada de ficcional. Aconteceu. E foi comigo! Podem rir. :)

10 comentários:

  1. Quá, quá, quá, quá...
    Rindo até o ano que vem seu Marquinho!
    Isso foi o remédio que você falou! Tá te deixando meio louco! Uá, uá...
    Só você mesmo pra descrever essa de forma tão brilhante! Abraço do seu fã!

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  2. KKKKKKKKK
    Não aguentei foi o episódio com o médico, da falha de endereço da pílula azul!
    Ótima Marcos. Adorei seu texto. Precisa escrever essas crônicas em livro.
    Melhoras.

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  3. É mas não pode ficar errando de ombro se não não melhora. rsrsrs
    Gostei do Eric Clapton!

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  4. Hehehe... Divirtam-se. Eu mereço.
    Obrigado pelas palavras de incentivo. Em que pese a falha levemente idiota deste que vos fala. :)
    Abraços.

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  5. Onde vc anda com essa cabeça? Hahaha !!! Ótimos, texto e música.

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  6. Devia estar dando um daqueles voos imaginários. Ou, como disse o Thiago, efeito do medicamento. Ou apenas um episódio pontual de idiotice extrema! Hahaha...

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  7. Oi Marcos!
    Ri muito aqui.
    Você sabe contar bem histórias que seriam banais se contadas de outra forma. Essa é a diferença. Adorei. E continuo rindo dessa sua viajada.
    Bjs

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  8. Rsrs.. Que bom que gostou Lúcia! Foi uma viajada e tanto. A fisioterapeuta deve estar rindo até agora (mas na hora ela não riu não). Bj.

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  9. Seus textos são sempre excelentes Marcos! Mas este foi real e sensacional. Rimos muito juntos não foi mesmo!? haha!! Só "Gesuiz" na causa.

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  10. Hahaha... É verdade Dácia!
    Rimos muito mesmo!! Também, uma história surreal desta...
    Obrigado! Bjs.

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