Eleições
Spoiler: se você, caro (e)leitor, tem opção preferencial e emocional por "extremidades destras", se é que me entendem, recomendo fraternalmente o distanciamento obsequioso desta sequência de impressões acerca das últimas semanas que discorro a seguir.
Sempre fui um ativista político. Quer dizer, mais ou menos. Muito eventualmente me envolvi diretamente em campanhas, no caso, de algum amigo candidato a vereador. No mais - ou no menos - minhas atividades eram apenas leves discussões no trabalho e nos bares da vida. Mais recentemente, falo de uns 15 anos pra cá, ativo também nas redes sociais. Se você é jovem, pode soar estranho eu usar "recentemente" para um longo período de uma década e meia, mas em casos sex_agenários (também denominados 60+) tal afirmação não soa absurda, posso garantir. Fiquem tranquilos, vocês chegarão lá, quer dizer, aqui. Inclusive entenderão esse estranho uso de pontuação.
Mas vamos aos fatos. Em maio fui convidado para compor chapa do meu Sindicato para concorrer nas eleições trienais. Nunca imaginei participar de um trabalho assim, embora minha vida laboral sempre tenha sido de apoio incondicional à luta trabalhista, até por uma questão de sobrevivência profissional. Pois fomos eleitos. E lá estava eu, diretor sindical às vésperas de eleições presidenciais.
Obviamente desta vez eu teria que efetivamente me engajar totalmente na campanha para reeleição de Lula. O que não me empolgava muito. Porque estava claro que não havia muita coisa a fazer. Ele se reelegeria no primeiro turno. Algo em torno de 75% dos votos, no mínimo. Afinal, nem a psiquiatria conseguiria explicar algo acima de 25% de lunáticos que votariam nos bizarros Bolsonaros outra vez.
A medida que fui me informando melhor, dentro do sindicato mesmo, comecei a perceber que meus conhecimentos de psicologia de massa, sociologia, antropologia e pecuária, eram bem mambembes. Meus cálculos daqueles 25% estavam errados em 100%. Pra baixo. Quando vi que tinha de multiplicar por 2 as minhas previsões, entrei em desespero. Existencial. Como assim? O que está acontecendo? De imediato recorri ao Bromezapam 6mg, receita azul, 1 comprimido ao deitar. E quem me prescreveu foi um médico bolsonarista. Más línguas dizem que isso é exigência do CFM. Caso contrário o CRM cassa o registro. No entanto, por uma questão de apego exagerado à vida eu não falo mal de profissionais da saúde. Nem da recepcionista do consultório, por via das dúvidas.
Passadas as primeiras arritmias cardíacas, me convenci que estava no lugar certo, no momento certo. Os companheiros mais experientes do sindicato, embora bem mais jovens, são da luta. E me puxaram para o bom combate. Até porque não havia opção. A outra era o fim. Apocalypse Now. O horror, o horror. Me aproximei mais do PT, antes era apenas um filiado distante. Muito antes do Comandante Janones, a ordem para a militância era clara: presença total nas ruas e nas redes. Carreatas, passeatas, caminhadas, panfletagem, etc. Fui designado para coordenar um grupo de "bandeirantes". Na verdade chamamos as ações de "bandeiraços". Escolhíamos uma esquina movimentada por dia e ficávamos agitando as bandeiras, entregando panfletos e adesivos, quando o sinal fechava. Tínhamos até uma caixa JBL tocando aquelas músicas legais, como o "Rap do Silva".
Era muito boa a energia que possuíamos, a certeza de estar fazendo a coisa certa. Mas não pensem que era fácil fazer isso em uma cidade conservadora, de grau educacional apenas mediano, sendo otimista, e com vasto histórico no ramo pecuarista. Em média, a cada 3 minutos, passava alguém nos xingando. Na hora do rush este tempo diminuía. Inexplicavelmente, se é que tem algo explicável nessa história toda, quem mais nos odiava eram aqueles que mais precisam da presença do estado em suas vidas. De bicicleta velha com aquela mochila de entregador. Mandavam a gente ir trabalhar (SIC). Ou diziam "Lula ladrão". Rimando, as meninas respondiam (e nós também): "Roubou meu coração!". Certa vez, quando eu já estava cansado, já noite, baixou a quinta série em mim. No sinal um motoboy gritou, antes de arrancar a moto, "Lula ladrão!" Eu: "Meu pau na sua mão!" Ainda bem que as meninas não ouviram.
Do primeiro para o segundo turno foi aquele balde de gelo nas nossas cabeças. Balde de 22 kg. Não só a vaca não tinha ido pro brejo como havia o risco da manada toda subir a rampa. Nos primeiros dias nem o Bromazepam deu jeito. Aquele médico bolsonarista (lembram?) recomendou Rivotril de 2 mg, mas naquelas alturas eu já não confiava em ninguém que se vestia de branco. Com algumas exceções, claro. E também à exceção das sextas-feiras. Oxalá tenhamos paz e sabedoria.
Mas não podíamos entregar os pontos. Pelo contrário, a luta naquelas três semanas seria de vida ou morte. Fomos salvos pelos estudantes, como vocês sabem. E demos sorte de ter em nossa cidade duas universidades públicas (UFF e UENF) e mais as unidades do IFF. Participávamos de todas as plenárias universitárias. Éramos os sindicalistas estranhos no ninho, mas sempre muito bem-vindos. Na sequencia formou-se o Exército Janoniano, que foi exatamente o contrário do Brancaleone. Sucesso universal.
Nossos bandeiraços sindicalistas recomeçaram bem sofríveis, muitos não haviam se recuperado da derrota do primeiro turno, outros estavam cansados mesmo. Minha estratégia como coordenador do pequeno grupo foi unir os poucos que sobraram a outros também pequenos. Nos salvaram as meninas do PSOL e do PT. Aqui cabe um esclarecimento. Nesses bandeiraços sempre havia mais mulheres que homens. Colocávamos para o fim da tarde, início da noite, para mais pessoas poderem participar, mas sempre eram elas que faziam a diferença. Heroínas que também faziam parte dos outros grupos de ações diversas. Tinha o das caminhadas e conversas com moradores dos bairros periféricos. Tinha os das banquinhas que ficavam em pontos estratégicos da cidade, fornecendo informações, panfletos e adesivos. Tinha o pessoal de plantão no comitê de campanha. Tudo feito com dedicação, amor e luta.
Quanto à pouca presença masculina, desconfio que a rapaziada não tem muito ânimo em se expor nesta cidade reacionária. Pior para quem não participou pois o que vimos foi um crescimento exponencial do número de carros que buzinavam, pediam adesivos e faziam o L. Motoristas e passageiros. Houve uma virada mesmo. Quase não nos xingavam mais e éramos tratados como heróis da resistência. E isso foi nos animando cada dia mais e pode ser traduzido em números: somamos mais de 25 mil votos para Lula do primeiro para o segundo turno. E Campos dos Goytacazes foi a quinta cidade do Brasil a tirar mais votos de Flávio Bolsonaro no mesmo período.
Nossa última ação foi em um distrito distante do centro, na sexta-feira antes do segundo turno. E olha que legal: uma professora que morava ali nos convidou para ir lanchar na casa dela depois de encerrada a manifestação. Foi um fechamento com chave de ouro da nossa luta diária de dois meses. É a foto que ilustra este texto. Naquele instante uma sensação de termos dado o máximo possível, do dever cumprido de quem sabe estar do lado certo, de fazer parte da história que se desenharia dali a dois dias: uma vitória histórica que atravessou fronteiras e vem inspirado tantos ao redor do mundo. Gosto de pensar que algumas bandeiras em uma esquina e o nosso gesto em L para os carros que passavam podem ter influenciado não só o resultado das eleições no Brasil, mas também o início da derrocada da extrema direita no mundo. Lembrem-se do Efeito Borboleta, aquele conhecido conceito da Teoria do Caos do Edward Lorenz.
Postado por Marcos Oliveira

Mais de uma vez vi vcs ali na beira valão. No segundo turno passei ali na 28 de março e vcs estavam nos fundos do IFF. Parabéns porque vcs fizeram diferença nesta cidade. Antes só tinha bandeiras do 22 em cada esquina. No segundo turno principalmente a força 13 apareceu!
ResponderExcluirTem razão Antônio. Primeiro turno, teve chuva de dinheiro 22 por aqui e acho que em todas as cidades. Mas no segundo turno a nossa dedicação dominou e revertemos.
ExcluirAlô Marquinho Metamúsica! Onde tu se mete as coisas ficam boas. Agora no Sindicato? Caramba! Kkk É L! Só falta voltar a publicar o seu jornal, o melhor do mundo. Abração
ResponderExcluirRsrs... TMJ my friend. Um dia o Metamúsica volta. A luta agora é trabalhista. Mas o Rock Progressivo continua na agulha. 😊
ExcluirQue virada! Nos livramos do ataque fascista! 👏🏻
ResponderExcluir🙏🏻🙏🏻
ExcluirAs mulheres estão fazendo a diferença. Adorei sua crônica contando essa experiência de militância nas ruas. Parabéns para todos e todas que estiveram juntos com você na luta.
ResponderExcluirObrigado pelas palavras Alice. E a luta continua!
ExcluirParabéns pela história de luta. Tudo que acontece tem o tempo certo para acontecer. Nada é cedo demais ou tarde para acontecer. Vc debuta na Diretoria, com maestria devido a politização, seriedade e compromisso. Tenho certeza que a ótima votação em Campos foi fruto dessa galera do Lula que estava ao lado nas ruas e redes. A Democracia foi salva pelos jovens e idosos. Viramos exemplo mundial!
ResponderExcluirEssa crônica é um importante registro histórico. Emocionante!!!
ResponderExcluirParabéns a você e a todos e todas que ocuparam as ruas e também as redes sociais! E ainda teve a classe artística local, que deu um verdadeiro show! A luta continua!