Do Rush ao Ruy

O domingo amanheceu ensolarado. Nada mal, depois de dias em que as fortes chuvas trouxeram muitos dissabores e preocupações. Ao longo do período as nuvens foram se chegando mas desta vez ao estilo outono que se prenuncia neste primeiro de março, com temperatura agradável, pelo menos na minha localização atual no Google Maps.

Primeiro de março que me avisa que caminhamos para abril, o que significa que daqui a 45 dias estarei completando 67 anos. Não é mal negócio chegar até aqui. Meus planos incluem mais algumas décadas com plena consciência e total controle corporal. São planos, repito. Tenho dúvidas se o psiquiatra, o endocrinologista, a cardiologista, etc falariam com tranquilidade sobre isso. Os exames não estão ruins, mas não estou dizendo que estejam ótimos. Não é tanta vantagem considerando a boa longevidade que temos alcançado. A questão é como estarei daqui a dez ou vinte anos anos. Se estarei.

Conheci um senhor de oitenta e tantos que me contou sua estratégia. Sempre está acompanhando uma novela. Sua teoria é de que não vai morrer enquanto não assistir o último capítulo. Claro que, antes do fim, ele já começa a assistir a que estreia em outro horário. E assim ele vai driblando aquela imagem medieval sinistra e sua foice. Essa jogada não dá certo pra mim. Há uns 30 anos não acompanho novelas e, se tentar retomar agora, acho que morro antes, de desgosto. Mas a ideia é boa. Posso, por exemplo, usar como referência um evento importante. Tomemos como exemplo 2026. Em junho e julho tem a Copa do Mundo (se os EUA não se autodestruírem antes, só falta isso). Depois tem as eleições em outubro e eu estarei totalmente dedicado a elas. Mas e quando terminar este ano? Vejam o próximo parágrafo.

Uma das minhas milhares de teorias acerca de tudo, diz respeito ao poder positivo da música em todas suas vertentes. Influencia a mente, o corpo, o espírito, a sociedade. Por algum motivo, que provavelmente inventei sem nenhuma referência teórica ou pequisa empírica, é de que gostar de Rock contribui para uma saudável longevidade. Nesta linha minha prorrogação para 2027 incluiu adquirir (em 10 vezes "sem juros") com um ano de antecedência ingresso para o show da banda canadense Rush que vai acontecer em 30 de janeiro de 2027 no Engenhão.

Curiosamente e contraditoriamente trata-se do retorno à existência de um dos maiores grupos da história, depois do encerramento abrupto de uma carreira vitoriosa de mais de 50 anos. Foi justamente a morte do baterista Neil Peart, em janeiro de 2020, que ocasionou o fim. Neil era um intelectual. Escrevia todas as extensas letras fantásticas do grupo. Tornou-se também escritor quando resolveu contar sua reconciliação com a vida no livro "Ghost Rider: a Estrada da Cura", depois de perder a filha em um acidente de carro e no mesmo ano a esposa, de câncer. Naquela época havia encerrado a carreira. "Sozinho em casa, convivendo com as lembranças, ele decide pegar a estrada com sua moto, uma BMW R1100GS, para rodar por 90 mil quilômetros, sem destino, em busca de um motivo para preencher o vazio que sentia". Anos depois ele volta pra banda, para enfim completar sua recuperação psicológica. Assim, a "Fifty Something Tour" do Rush é uma homenagem a Neil Peart e a vida dos milhões de fãs que vem acompanhando o grupo por tanto tempo.

Mas se o Rush é minha garantia de vida até 2027, o que vem depois? A bem da verdade devo explicações dos motivos que encaminharam meus escritos neste domingo por este tema, considerando que sou ainda bem jovem. Mas antes preciso achá-las (as explicações). Deixem-me pensar um pouco. Enquanto isso a chuva recomeçou. Bem fina. Ah, sim! É que li uma crônica sobre o tema. Dois escritores são referências para este amador que vos fala. Ambos seres humanos admiráveis, que considero ídolos. Gostam e escrevem também sobre música, não Rock mas Jazz, o que é também uma maravilha. O primeiro partiu para esferas superiores no ano passado, aos 89 anos. É o gaúcho vermelho (torcia pelo Internacional) Luís Fernando Veríssimo. Infelizmente não tive a oportunidade de conhece-lo pessoalmente. Mas a crônica que li esta semana foi do segundo nome, o imortal Ruy Castro. Este sim tive a grata e inesquecível oportunidade de bater papo com ele e sua esposa, a também escritora Heloísa Seixas. Contra ele pesa o fato de ser flamenguista nato. Deveria ter nascido tricolor, tal qual seu retratado Nelson Rodrigues, em uma das melhores biografias já escritas.

Na crônica Ruy, com seu brilhantismo de sempre, fala sobre seu aniversário de 78 anos. Ele cita seu sogro que, quando completou 77 anos, calculou que sobreviveria para ver apenas mais duas Copas do Mundo. Errou pois chegou lúcido aos 97, torcendo ao longo de mais seis! No caso, nosso querido Ruy sentencia que não chegará ao nível do sogro, por conta dos muitos excessos cometidos até os 40. Mas conclui com um dado positivo: "Hoje, com essa idade, o cidadão ainda não chegou nem na primeira curva. Segundo meu médico, os 78 anos de agora são os 55 de outro dia. Ótimo. Outra grande vantagem dos 78 é que ainda falta um ano para os 79." Leiam a crônica na página da Academia Brasileira de Letras. O título é "Dos 77 aos 78".

Quanto a mim, tenho esses 45 dias faltantes como contagem regressiva para 6.7. Depois terei um ano pela frente até o próximo degrau. É longe. No show do Rush, em 2027, ainda estarei com esta idade juvenil, ótima pra curtir o rock enérgico da banda! Só não sei se o Ruy vai, pois ele é do Jazz.


Postado por Marcos Oliveira 

Comentários

  1. Caramba! Tu conseguiu mixar Rush com Ruy Castro. DJ top 😄

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  2. Quase não tô acreditando que vou ver o Rush nesta vida. Pra mim era um sonho impossível. Nos veremos lá Marcos Metamúsica!

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  3. Olá Marquinho! A história do Rush merece um filme e a de Neil Peart mais um. O Ruy Castro é um dos melhores do Brasil. E você será sempre jovem pois é sempre rock and roll 🤘🤘🎸

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  4. Excelente crônica!!!! Parabéns.

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