A gente é feito pra acabar?
Vocês viram? Na última semana o lendário guitarrista Ritchie Blackmore tocou uma música - a clássica "Smoke on the Water" - com sua antiga banda, o Deep Purple, depois de 33 anos de distanciamento. Vocês não conhecem este grupo e muito menos esse guitarrista? Calma! Não desistam deste texto. Vamos chegar lá juntos.
A origem do grupo é o icônico 1968 que, como diz Zuenir Ventura, trata-se do ano que não terminou. As mudanças de rumo preconizadas pela juventude européia teve reflexos drásticos no Brasil, com o famigerado AI-5. Com a ditadura perdemos o bonde da história e ficamos comendo mosca enquanto o movimento Flower Power trazia o sonho de um mundo melhor para todos. Muitos dizem que, no final, foi tudo ilusão passageira, afinal o neoliberalismo venceu e espalhou o vírus do "fodam-se os outros" pelos quatro cantos do universo.
Não creio que tudo tenha se perdido. Reflexos daquela visão não materialista, de coletividade, de amor ao próximo preconizada por um Jesus Christ Superstar se estendem até hoje, modificando-se na forma e conteúdo, conforme a época.
Já em fins da década posterior, desenvolveu-se o New Age Movement, filhote direto da Contracultura. A ideia era promover a autodescoberta, uma paz individual e universal, cura para os males físicos e espirituais, questionando os valores capitalistas.
Neste período eu era assinante de uma publicação mensal chama Planeta. A cada edição a revista mergulhava em temas como biopsicoenergética, esoterismo, budismo, hinduísmo, teosofia, teoria das “formas-pensamento”, etc. Ciência e mística juntos.Tudo muito estranho nos dias de hoje. Mas havia uma visão predominante que eram ensinamentos de auto-ajuda baseados em psicologia aplicada e filosofias diversas que levantam interessantes temas sobre nossa existência e a relação com os outros. No fundo essas iniciativas buscavam - meio que indiretamente, é verdade - tentar lançar luzes acerca daqueles questionamentos básicos e primários que transcendiam fé e razão. Qual o sentido da vida? Porque estamos aqui? Como viver melhor? Existe existência depois da existência? Tudo termina daqui a pouco?
Me lembrei dessa minha fase durante um show (na noite de sexta-feira) do cantor, compositor e instrumentista Marcelo Jeneci, que é um dos grandes da nova geração. Ao longo da apresentação da música "Feito pra Acabar", ele faz considerações acerca do viver e partir, do tempo de existência. Mas um pequeno detalhe foi o que mais me fez recordar daquele período Nova Era: o caminho para sermos luz, sol iluminando a existência do outro. Ao tornar a vida de alguém melhor - seja apenas com um sorriso, um cumprimento ou algo maior - encontramos nosso próprio sentido. Porque perder o pouco tempo que temos tornando nossa vida pior com aquelas negatividades do julgar a si próprio e, sobretudo, o outro?
Sob outro ângulo, o genial britânico David Bowie ao longo de sua extensa carreira fez muitas considerações sobre o tema. Outrora religioso, ele observou que, ao assumirmos a responsabilidade pela criação de uma receita de "moralidade" rompemos com as coordenadas que norteavam nossa existência. Em determinado ponto de sua vida ele questionou se os seres humanos são maduros o suficiente para aceitar que não existe um grande plano, um destino predeterminado ou uma dádiva de imortalidade. Para ele a única saída é apenas viver um dia de cada vez, encontrando valor simplesmente no ato de vivenciar a vida. Tempos depois Bowie, já em um caminho sem volta (câncer de fígado terminal), registra em vídeo e disco a sua despedida da vida na obra "Blackstar" de 2016. Ele morre dois dias depois do lançamento.
Tendo fé em algo que exista no além ou não, o fato é que Ritchie Blackmore sempre teve uma personalidade difícil. Da mesma forma que era adorado por sua genialidade como guitarrista, era acusado de egocêntrico, inflexível, falta de empatia, etc. Depois de ter saído do Deep Purple (por briga com o também controlador Ian Gillan, cantor) fundou o Rainbow, outra referência no Classic Rock. Mas a personalidade difícil sempre esteve lá. Segue carreira com o Blackmore's Knight, junto com sua esposa, a cantora folk Candice Knight. Provavelmente ela teve influência para, ao longo de muitos anos, apaziguar o espírito inquieto e revoltado de Ritchie.
Mas o tempo passa. As pessoas envelhecem. O que resta parece não ser mais infinito. Muitas amadurecem, outras não. Talvez Blackmore tenha se perguntado se esse seria seu legado, a lembrança de ter se afastado do grupo que fez com que ele entrasse para a história. Talvez um aperto no coração o tenha feito ligar para Gillan. "Vocês vão se apresentar aqui perto de casa. Eu não estou podendo me deslocar muito, queria tocar uma música com a banda". E aconteceu. Depois do infarto, seis stents, exigindo monitoramento constante e restrição a viagens longas; com Gota que afeta a mobilidade dos pés e dos dedos, atrapalhando a execução dos instrumentos; quatro hérnias de disco que causam fortes dores nas costas e dificultam apresentações longas em pé; vertigens e enxaquecas severas de desorientação e labirintite que o levaram ao hospital várias vezes... Ritchie finalmente concluiu que a gente é feito pra acabar. Enquanto não acaba vive-se da melhor maneira possível, para si mesmo e para os outros. E deu o presente para ele e para nós. Com tantos problemas, aos 81 anos, está longe das performances do lendário músico. Mas o ser humano Ritchie finalmente desabrochou, antes do fim.
Postado por Marcos Oliveira

Correu uma lágrima aqui. Viva o Deep Purple! Viva Blackmore! Vamos valorizar cada momento!
ResponderExcluirOi Marquinho! Como sempre nota mil pela sua crônica. Estrategicamente você margeu a pergunta, tipo se tem vida depoiscda morte, se Deus existe, etc.
ResponderExcluirNinguém sabe o que vem depois desta existência. As religiões tem sua versão mas aí é uma questão de fé, ter ou não ter. O que temos mesmo é o que temos agora. Vamos aproveitar o que a vida nos oferece e tornar este mundo melhor. Foi o seu recado, colocado do seu jeito, indiretamente. TMJ!
Parabéns pelo texto, preciso nos registros musicais, tangente aos espirituais, ambos em equilíbrio.
ResponderExcluirPertinente ao momento, a crônica! Muito li a Planeta, tinha 2 formatos, não sei qual o primeiro ou se foram simultâneos. Devo ter algum exemplar ainda! Abraços
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