Sofrência
Como de costume o mês de janeiro anda bem quente. Se bem que este ano até que não tem sido dos piores se considerarmos os períodos chuvosos em determinadas regiões, como tem sido esta semana no Sudeste. Mas há de se convir que, normalmente, ventilador e ar condicionado são artigos de primeira necessidade. Se possível um refresco em uma piscina ou em frente a um mar azul, um luxo que deveria ser possível a todos. Socialização do bem estar em um país tropical e equatorial, com férias coletivas devidamente bem remuneradas. Sonhemos.
Não sei o que faço
A minha vida é uma luta sem fim
Me sinto no espaço
O tempo todo à procura de mim
Na medida das possibilidades, bem restritivas diga-se de passagem, frequento as areias claras do Atlântico Sul, uma praia não famosa. Nestas ocasiões levo o básico: cadeira de alumínio, guarda-sol colorido (não gosto dessas mesas de quiosques espalhadas pelo litoral), bolsa térmica e alguns complementos, como o celular carregado. Esclareço: sempre levo o smarthphone para tirar algumas fotos da natureza. Inclusive algumas delas já inspiraram algumas das crônicas mais lidas deste espaço, cito três como exemplo: A Tempestade na Praia, Onde Morrem os Pássaros? e Incidente na Praia da Joana. Para concluir, entre os citados complementos que levo, não pode faltar minha caixa de som JBL de 100 Watts, grande pra caramba e que produz um som altíssimo, na medida. Calma pessoal! É claro que estou de sacanagem! Eu também acho o cúmulo do absurdo som na praia!
Não sei o que faço
Se volto agora ou continuo a seguir
Eu sinto cansaço
E já não sei se vale a pena insistir
No início desta semana, antes de aportar e permanecer por aqui a já conhecida Zona de Convergência do Atlântico Sul, fui dar uma desestressada no fim de tarde, optando por trecho bem pouco concorrido, quase deserto naquele momento. Me preparava para ficar quieto olhando o azul do mar e ouvindo o barulho das ondas quando um som forte veio da minha direita (tinha de ser!). Era um casal que havia chegado, se instalado a uns dez metros e ligado um som altíssimo. Desta vez deixei de lado minha pacificidade característica e fiquei olhando pra eles com cara de pouquíssimos amigos. Para minha sorte perceberam, levantaram acampamento e foram se reinstalar vários metros adiante. Melhorou mas o som ainda chegava, baixo, trazido pelo vento, atrapalhando um pouco minha desejada desconexão geral.
Há dias na vida
Que a gente pensa que não vai conseguir
Que é bem melhor deixar de tudo e fugir
Que outro mundo tudo vai resolver
Mas que música era aquela que atrapalhava minha ligação com o mar? Não era estranha, algo que me lembrava a infância. Não que fosse uma música infantil, pelo contrário. Lá pelo início dos anos 70, quando não estava estudando ou correndo livre por uma chácara desabitada em frente à casa, costumava ouvir um aparelho de rádio, apelidado de "rabo quente". Neste caso nenhuma conotação sensual: é que o aparelho esquentava muito na parte de trás por causa das válvulas termiônicas (Modo IA: "são componentes eletrônicos que foram importantes no desenvolvimento da radiofonia e atuam, principalmente, como amplificadores de sinal"). Enfim, provavelmente era alguma canção que ouvia na Rádio Mundial ou Tamoio AM.
Não creio em mais nada
Já me perdi na estrada
Já não procuro carinho
Me acostumei na caminhada sozinho
A vida toda só pisei em espinho
Já descobri que o meu destino é sofrer
Como minha meditação marítima já estava comprometida resolvi focar no HD pra ver se lembrava o nome da música e o cantor. Definitivamente era uma canção brega (Modo IA: "cafona, kitsch, vulgar, ordinário, grosseiro, chinfrim, medíocre, deselegante, inferior, desprovido de refinamento, descrevendo algo ou alguém de mau gosto, de qualidade duvidosa"), termo que os críticos criaram para diferenciar da MPB mais intelectualizada, no que discordo mas isso é tema pra outra hora. O HD instalado já está bem cheio o que, teoricamente, indicaria uma gama muito ampla de conhecimento e lembranças. O problema é que o acesso a essas memórias está ficando cada vez mais lento à medida que vou me distanciando do momento em que nasci. E não dá pra fazer upgrade. No máximo tomar algum suplemento vitamínico. Na Amazon o Lavitan Neuro Memo está em oferta com entrega grátis caso seja membro Prime. De R$ 34,90 por R$ 18, 38. Desconto de 47%! 60 comprimidos revestidos. Fica a dica.
Há dias na vida
Que a gente pensa que não vai conseguir
Que é bem melhor deixar de tudo e fugir
Que outro mundo tudo vai resolver
Irritado, desisti de tentar lembrar qual era a música. Foi quando lembrei (aí sim!) da memória externa: o celular! Rapidinho, antes que a mesma terminasse, desbloqueei e abri o Shazam, um aplicativo de reconhecimento musical. Ele rodou por alguns segundos, com algumas dificuldade para captar o som por causa do vento, mas deu a resposta! Paulo Sérgio, "Não Creio Em Mais Nada". Aí ficou fácil. Lançada em 1970 pelo cantor que, na época, foi acusado de imitar Roberto Carlos, Paulo Sérgio teve uma carreira de sucesso até morrer prematuramente em 1980 aos 36 anos, vítima de um AVC. Tal qual Roberto, era também Capixaba, da cidade de Alegre, na época famosa por seus festivais de música que existem até hoje. Aliás, dizem que o título do LP de Roberto de 1968, "O Inimitável", foi escolhido exatamente por causa do surgimento de Paulo Sérgio, cujo timbre vocal era muito parecido bem como o estilo das canções.
Não creio em mais nada
Me acostumei na caminhada sozinho
A vida toda só pisei em espinho
Já descobri que o meu destino é sofrer
"Não Creio Em Mais Nada" poderia ser apenas mais uma das canções românticas de "dor de cotovelo", tradição que vem se mantendo desde sempre em nossa música popular. Nos últimos tempos tem sido denominada de "sofrência" por que sempre se refere a desilusões amorosas, que mexe com as emoções, causa sofrimento. É fato que esse termo não existe na linguagem oficial. O mais próximo é "sofrença", como sinônimo da dor da paixão não correspondida, do abandono, infidelidade, etc etc.
Há dias na vida
Que a gente pensa que não vai conseguir
Que é bem melhor deixar de tudo e fugir
Ocorre que esta mergulha em um mundo mais tenebroso. Ao que parece não se refere apenas à falta de carinho mas a toda uma gama de insucessos e decepções na vida. Um verdadeiro rosário de motivos para desânimo, depressão e desistência de tudo. Também uma espécie de reconhecimento que o sofrer é inerente ao viver. Pelo menos no caso do narrador que dá pistas de suas desventuras em série. Coisa típica do pessimista Arthur Schopenhauer, para quem "a vida é essencialmente sofrimento e a dor, uma constante, alternando com o tédio". Não recomendo esse filósofo alemão para aqueles de alma mais sensível. Essa escola dramática já havia tido um ponto alto em 1936 na canção "O Ébrio" de Vicente Celestino, transformada depois em peça de teatro e filme de sucesso dez anos depois. Nele o sofredor conta que "Hoje ao ver-me na miséria, tudo vejo então / O falso lar que amava e que a chorar deixei / Cada parente, cada amigo, era um ladrão / Me abandonaram e roubaram o que amei". Caramba!
Não sei o que faço
Se volto agora ou continuo a seguir
Eu sinto cansaço
E já não sei se vale a pena insistir
Por volta de 1960 surge outra música tristíssima. Na voz do gaúcho Teixeirinha, "Coração de Luto" narrava a tragédia de perder a mãe em um incêndio. Pessoas insensíveis apelidaram a música de "Churrasquinho de Mãe", entre essas está este narrador que vos fala. O que provavelmente me coloca na lista daqueles com passaporte para o céu não garantido.
Não sei o que faço
A minha vida é uma luta sem fim
Me sinto no espaço
O tempo todo à procura de mim
Como podem ver a sofrência musical dos dias atuais até que é bem leve. A fila anda, vida que segue. Já "Não Acredito Em Mais Nada" pega mais pesado, a ponto de me atrapalhar o momento na praia. Meio inquieto olho para o mar e penso: "depois escrevo uma crônica sobre isso". Tomada essa decisão ficou mais fácil relaxar e entrar no ritmo hipnótico das ondas que vem e vão. E sobrou pra vocês lerem isso. Sorry! :)

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