quinta-feira, 8 de março de 2018

Chico Buarque e o Dia da Mulher


Dois homens entram conversando no elevador.
"Não admito que minha mulher sequer pense em olhar para outro sujeito! Sou melhor que qualquer um!"
Para além do ciúme, um tanto quanto machista e controlador esse comentário, convenhamos.
O outro retruca: "Mas e se esse outro for o Chico Buarque?"
O olhar desanimador do primeiro já indica a sua derrota. "É... com o Chico não dá pra competir, né?"
Não dá não camarada.
Certa vez, em um café em Paris, próximo de seu apartamento (sim, além de tudo ele ainda tem apartamento em Paris), o repórter faz uma pergunta direta, no x da questão: "Chico, e o seu sucesso com as mulheres? Todos sabemos de sua fama de conquistador...".
Chico ri. Segundo ele, tudo isso é mito: "Sou um cara bem devagar nesse aspecto". Foi correto. Esse tipo de coisa não se comenta, é jogar contra. Quietude nessa hora.
Chico não entende a alma feminina. Nenhum homem entende. Mas ele tenta entender. É sim apaixonado pelo enigma feminino.
Quando faz as músicas como se fosse uma mulher cantando e contando sua história, tenta se colocar no lugar delas, assim se aproxima de uma improvável compreensão plena.
Tal encantamento é talvez a única coisa que posso tentar dizer que tenho em comum com ele. Mas minha incapacidade de fazer músicas maravilhosas e a abismal distância no aspecto físico me deixa a milhares de quilômetros de distância. E tem mais. Nem conheço Paris pessoalmente, que dirá ter um apartamento lá.
O encantamento dele com as mulheres é amplamente retribuído (o que não é o meu caso): as mulheres o amam.
Mas os motivos para isso são ainda mais amplos. Muitas das canções não femininas do Chico são políticas e trazem em suas entrelinhas retratos sociais que apelam aos sentidos maternos. Sensibilidade. Preocupação com o outro. Com um mundo melhor.
O Dia Internacional da Mulher faz pensar que talvez seja pela alma feminina que encontraremos a saída para esse beco em que estamos, colocados pelo mundo masculino.
Mais matriarcado menos patriarcado, fazendo aqui um mea culpa, ainda que não tenha culpa por esse estado de coisas.
Pelo menos um aprendizado e talvez uma parceria real entre esses dois universos.
Sem mais "super-homens" no poder ou, lembrando a canção do Gil, tão parceiro do Chico, ao evocar o verdadeiro herói: "quem sabe, o super-homem venha nos restituir a glória, mudando como um deus o curso da história, por causa da mulher".
Torçamos para isso.
Por enquanto fiquemos com Chico, personificado na figura de uma mulher que deu a volta por cima (aqui ele mesmo - como os demais homens - é o atingido pela suave vingança): "... E que venho até remoçando / Me pego cantando / Sem mais nem porquê / E tantas águas rolaram / Quantos homens me amaram / Bem mais e melhor que você..".
Definitivamente não dá para competir.

8 comentários:

  1. A sensibilidade do Chico é de chorar. É pra amar mesmo. Não fique com ciúme não Marcos.rs Você tem tanta sensibilidade quanto. Só não é famoso. Lindo texto, adoro, como sempre.
    Beijos!

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    1. Obrigado pelo apoio Maria Inês. Que bom que gostou.
      Bj.

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  2. Excelente, Metamúsica man!!!

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  3. Chico está acima do bem e do mal,do que é certo e do que e errado e alem de todas as qualidades poéticas tem os olhos mais lindos e puros que já vi...

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    1. Tô dizendo... Não dá pra competir! Rsrs...

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  4. Boa tarde.
    Adorei o seu blog que descobri enquanto procurava no Google algo sobre Chico Buarque e suas músicas sobre mulheres.
    Parabéns. Vou sempre olhar aqui.

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