terça-feira, 25 de outubro de 2016

Os Ipês Amarelos Sobreviventes

Seja na correria dos deslocamentos de carro ou transporte coletivo, seja no fato de ficarmos trancados o dia todo em um escritório, é fato que cada vez menos reparamos o universo ao nosso redor (parafraseando o título de uma bela canção da Marisa Monte).
Na manhã desta terça-feira de outubro uma chuva fina caía. Amena temperatura sinalizava que ainda estamos na primavera, apesar do horário de verão.
Precisava me deslocar até a Rodoviária para comprar uma passagem. Apesar da chuva, sabiamente optei por ir caminhando. Até porque é perto de minha casa. E me livro de ter de procurar vaga para estacionar, fato que tem incomodado todo mundo, tanto nas metrópoles como em cidades de médio porte.
Esta cidade plana não é exemplo de bom urbanismo: ao longo de décadas os gestores perderam a oportunidade de humanizar e harmonizar pessoas com seu entorno. Faltam calçadas dignas, ciclovias, árvores, gramados, transporte público. 
Sobram carros, ônibus barulhentos, calçadas alquebradas, buracos e tons de cinza. Neste caso não me refiro ao céu nublado de hoje.
A Rodoviária fica no centro da cidade, parcialmente cortado por um canal que é chamado de valão. O que não é em vão: curso d'água que é pura poluição. Prosa que rima mas que não é poética.
No entanto, fora dos carros e dos escritórios e no meio do caos do trânsito, da fumaça que escurece o ar, dos motores que ensurdecem os sons naturais, semi-milagres podem acontecer.
Atravessei a pista dupla ao lado do terminal rodoviário. Alguma coisa me chamou atenção.
Tirei do bolso o celular, escolhi o ângulo e fotografei.
Ipês Amarelos florescendo ao lado dos automóveis, do valão, da gritaria urbana.
No chão um tapete amarelo acima de uma grama verde que serpenteava em estreita faixa deixada ali como esmola, uma vez que a prioridade são pistas largas para os milhões de veículos.
A foto é a que mostro neste post. Verdade que tive de usar uma estratégia para criar um panorama lindo, natural, posicionando a câmera de forma a não mostrar a confusão urbana.
Mas é fato que os Ipês Amarelo me ajudaram a lembrar que estamos na Primavera e que, apesar de nós, eles continuam resistindo, mostrando que a verdadeira beleza urbana pode não estar naquela BMW ou naquele imenso prédio de vidros espelhados.

3 comentários:

  1. Que texto lindo!! Que sensibilidade!! Parabéns, amigo querido!! Abs

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  2. Que harmonia!!!!Ipês,Primavera m Marisa Monte e sua habilidade de escrever...

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  3. Obrigado pelas palavras que são incentivos importantes.
    Que ótimo que gostaram!
    Abraços.

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