quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Ao Cair da Noite


Essa frase que uso como título é uma referência a uma sensação sentida a cada fim do dia: o anoitecer me perturba.
Na verdade há um exagero literário aqui. Não me incomodo diariamente às 18 horas. Até porque é um momento sagrado na liturgia católica que eu aprendi a observar: Ave Maria! Até nem deveria, pois minha formação inicialmente batista e depois espírita kardecista me deixariam à vontade para não dar relevância a isso. O que pelo menos dá uma pista da minha volatilidade religiosa. Mas isso é outro assunto.
Seria o anoitecer uma metáfora dos fins dos tempos ou, pelo menos, a recordação da finitude de todas as coisas? Ao término da claridade me sentiria como que lembrado de que meu tempo urge? Seria esse o motivo dessa leve perturbação?
Nem tão dramático assim, afinal é na noite que os grandes mistérios e segredos se fazem acontecer.
Transgressões, quebra de regras, beleza da lua refletida no mar, brilho das estrelas, luzes indiretas que passam através das casas envidraçadas, gatos que passeiam por entre escadas, músicas ouvidas à meia luz, peles sedosas, de jazz... O que seria dos poetas sem a noite, que chega de mansinho e toma conta primeiro da alma e depois do corpo, como se fossem entidades separadas que finalmente se unem ao fim de cada dia? E lhes dá todos esses temas para que sua poesia venha à luz (ou à penumbra)?
Devaneios à parte, ao me sentar na pequena escrivaninha do meu quarto para escrever algo que eu não sabia o que era, olhei pela janela procurando algo indefinido, possivelmente uma inspiração que não viria. A luminosidade natural já estava em seus últimos momentos e uma leve melancolia talvez tenha meio que tentado se infiltrar por entre as dobras das emoções.
Talvez algum pequeno poema que eu tenha lido e não me lembre sugerisse essa conexão. Mas não me deixo abater pois a noite chega depois de um dos momentos mais lindo do dia, o por do sol.
E a noite precede uma das melhores sensações que temos: o recomeço da vida a cada novo amanhecer.
Entre o entardecer e o nascer do sol ela acontece e, se tentássemos recapitular a vida, é provável que as mais marcantes emoções tenham ocorrido sem a forte claridade do astro maior dos trópicos.
Talvez próximo das 18 horas, talvez por volta da meia-noite.

4 comentários:

  1. Marcos, me perco nos seus textos. Eles são deliciosos. Pena que sejam tão curtos. Porque não escreve um livro? Please!
    Esse texto me lembrou uns discos que meu pai tinha, era UM PIANO AO CAIR DA NOITE, conhece?
    Mais uma vez parabéns e obrigada! Bjs.

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  2. Olá Maria Inês. Obrigado pelas palavras!
    Acredito que o disco a que se refere era na verdade uma série de LPs, editados no início dos anos 1970 e que se chamavam “Um piano ao cair da tarde”, onde pianistas brasileiros, como Dick Farney, interpretavam standards do Jazz e da música brasileira.
    Bjs.

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  3. Olá amigão!
    Sabes que gosto mesmo é quando discorres sobre música, ao estilo do saudoso Metamúsica! No entanto a sua prosa é poética, diria musical. Tanto que ela faz, numa ótima sacada, conexão com a clássica jazzística Round Midnight, Por Volta da Meia Noite, do Thelonius Monk.
    Você está cada vez melhor em sua escrita. Parabéns. Mas bem que podia voltar com o Metamúsica!
    Abração amigão!

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  4. Rsrs... Obrigado pela força amigão.
    Acho que a ideia do texto foi a partir da lua cheia e de Round Midnight. Entre essas duas coisas a crônica foi criada.
    Pode deixar que um dia o Metamúsica volta! :)
    Abraço!

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