quinta-feira, 5 de maio de 2016

Amenidades em um época difícil

Está difícil escrever neste momento.
Falo em escrever sobre amenidades.
Leves impressões sobre o nosso dia a dia, observações do cotidiano.
Descrições de viagens, resenhas de filmes, discos, livros.
Dicas sobre o bem-viver, análises superficiais de nossos aspectos morais, sociais...  caminhos que se abrem nas encruzilhadas do dia, do mês, do ano.
Sobre o passar do tempo, sobre a natureza, sobre a labuta diária.
Amizades, paixões, distâncias, saudades, reencontros, vivências, poesias, sonhos e planos.
Observações urbanas, suburbanas, periféricas, rurais.
Descrever sensações, sons, imagens, sabores, texturas, perfumes, beleza.
Maio, outono, sol, chuva, vento, mar, luz.
Do gosto de uma cerveja gelada ou de um café quente feito no coador de pano até complexas questões existenciais que podem ser simplificadas à sombra de uma árvore frutífera em flor.
Sim, está difícil escrever sobre amenidades, como faria Rubem Braga em suas crônicas, que observavam de maneira simples e brilhantes as pequenas coisas do momento.
Mas porque a dificuldade? Provavelmente bloqueio por conta dos temas e dos sentimentos que dividem o país: política, economia, congresso, constituição, justiça e um certo moralismo enviesado.
É quase impossível não estar em um dos lados e ficar imune a uma espécie de clima de ódio e patrulhamento nutrido contra o lado oposto.
E não só em redes sociais e manifestações. Até mesmo no seio familiar e em grupos de amigos.
Falar sobre amenidades neste momento é quase uma afronta. O que não me atingiria. Mas não consigo me distanciar suficientemente do clima. E não falo do outono / inverno.
Tudo bem. É a democracia. Acho que é. Quer dizer, não sei não. Me passa um filme na mente, um dejà-vu, sensação de já ter visto isso antes, com outras roupagens. E há vilões, "forças ocultas" ou não tão ocultas. Mas, se não dá para escrever sobre amenidades, não vou ser mais um a destilar ódio, acusações e suspeitas. Não neste texto, pelo menos.
O problema é que isso se arrasta desde 2014. E lá se foi 2015 e metade de 2016. Nem as Olimpíadas - maior evento esportivo do mundo acontecendo pela primeira vez no hemisfério sul - parecem conseguir quebrar a corrente do mal. E não há sinais que 2017 seja diferente. E em 2018 teremos eleições, logo... a espécie de "guerra não declarada" continuará por um bom tempo.
E a situação econômica  também. Esta reforçada por itens como conjuntura internacional e má atuação de ambos os lados. Ao final a fatura é cobrada de todos. Ou quase todos. E tem sempre aquela parcela que sofre mais.
Não sei quando terei ânimo para voltar a registrar as minhas impressões (não políticas e econômicas) neste espaço. Mas, se conseguir, não sei quem estaria disposto a ler. A não ser para conferir minha posição a respeito de tudo isso.
Mas, como não podemos nos deixar abater e a agradável luminosidade outonal segue lá fora, sigamos em frente.
Tentemos manter pelo menos um pouco da poesia que é o existir. Apesar de tudo.

Fotos: Marina Barbosa (on Facebook)

6 comentários:

  1. Olá. Boa tarde!
    Acabei de ler e não resisti em comentar. Concordo inteiramente com as suas poéticas e sinceras considerações. É muito triste o momento que estamos passando. A situação difícil deveria servir para ensinar a união do país. Mas acontece o contrário. Todos se julgam donos da verdade e ninguém se entende. Uma pena que as pessoas piorem as coisas. Parabéns por sua crônica e espero que nunca desista de escrever a sua amena arte. A arte é a nossa salvação.
    Beijos.

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  2. A poesia está desaparecendo do mundo. Só há materialismo e busca do poder! Estamos muito mal.

    Belo texto e lindas fotografias!

    Parabéns!

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  3. Não há como não se contaminar com os últimos acontecimentos no nosso país,falam os que tudo sabem e os não sabem de nada.Gostaria apenas neste momento de ouvir amenidades,não para me alienar mas porque meus ouvidos estão feridos demais.Desejo para nosso bem que se reconcilie o mais veloz possível com a serenidade e produza os textos que todos nos acostumamos a ler.Grande abraço!

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  4. Agradeço os comentários e a força!
    Espero também que essa fase seja ultrapassada e todos nós possamos voltar às amenidades. Precisamos né?! Mais uma vez agradeço os comentários aqui registrados, também no Facebook e via email. Abraços fraternos!

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  5. Marcos, meu amigo, a sua suavidade e sensibilidade ao se expressar nos comove. Principalmente neste momento tão repleto de barbaridades e desumanidade que vivenciamos. Precisamos muito de suas reflexões! ! Belo texto! Linda música! Parabéns! ! Bjs

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  6. Muito obrigado pela palavras e pela força para continuidade do blog, Fátima!
    Querida amiga que reencontrei depois de tanto tempo, da mesma forma que a Lu, que sempre se faz presente aqui também. Bjs para as duas!

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