sexta-feira, 27 de maio de 2016

Aconteceu em um verão

Não sei se narrei aqui - com os devidos detalhes emocionais - o reencontro de minha turma da antiga Escola Técnica, 37 anos depois. Seria um longo texto e acho que ainda devo isso a mim. E aos queridos amigos daqueles saudosos tempos.
Mas ainda não será desta vez.
Depois do reencontro não perdemos mais o contato e temos realizados até mesmo pequenas viagens juntos.
Em um desses bate-papos de lembranças, foi citada uma festa de despedida que fizemos na praia, na casa de um professor. Em um verão de fins dos anos 1970.
Éramos tão jovens (isso é título de livro, acho). Essa recordação me levou a outra, de um filme que se passa em 1942, em um verão. E eu sabia que havia escrito algo a respeito e provavelmente registrado no blog do amigo Luiz Felipe Muniz.
Estava certo. Foi em 2010 e eu consegui achar o pequeno artigo que reproduzo a seguir.
Para nostálgicos, admiradores de delicadezas e românticos em geral. O filme, não o meu sofrível texto.

Houve uma vez, um verão
Na década de 1970 assisti a um filme de que nunca mais esqueci. Na verdade não me lembro com detalhes de todos os acontecimentos da trama mas, adolescente que era, ficou na memória, em linhas gerais, uma espécie de “sinopse” da história.

Ocorre que nunca mais vi esse filme. Acredito que ele esteja disponível em DVD (se estiver em catálogo) ou mesmo que passe eventualmente nesses canais de filmes antigos. Ou em Streaming.

Pode ser que eu tenha, inconscientemente, optado por assistir aquela única vez para deixar registrado o encantamento de uma mente adolescente que ainda não tinha tido uma única namorada mas que, no fundo, ansiava por uma paixão. Óbvio.

Acho que se eu falar o nome do filme e descreve-lo um pouco, vocês vão entender melhor, certo?

Chama-se “Summer of '42”. A direção foi de Robert Mulligan, baseado em um roteiro autobiográfico de Herman Raucher. Ou seja, trata-se de uma história real. São as recordações de Herman, já um senhor maduro, contando um episódio da adolescência que marcou sua vida.

Foi uma paixão de verão (em um balneário americano) que ele teve por uma mulher mais velha chamada Dorothy (a bela Jennifer O'Neill), recém-casada e carente devido à ausência do marido, que estava servindo na II Guerra Mundial.

É talvez um dos mais singelos e emocionantes registros sobre o tema “a primeira vez”, onde a iniciação sexual é tratada de forma emocional. Apesar do tema 'forte' é um hino à inocência, a um momento único. Uma lição de amor e de vida, contada de forma poética e sensível. O que não é fácil, pois além da questão 'iniciação' trata-se de um relacionamento passageiro entre uma mulher casada, mais velha e um adolescente. Isso em 1942, contado no início dos anos 1970!
A capa original do LP com a trilha-sonora

Estou falando de minhas lembranças acerca do filme. Alguns de vocês podem procurar o mesmo, assistir e... achar horrível! Os tempos são outros...

É que, para muitos, poderá parecer uma história “datada”. Não deixa de ser verdade. É o relato de uma época. Os tempos mudam e, sem nostalgia, acho que muitos jovens poderiam assisti-lo para comparar com as facilidades atuais. Isso sem querer distinguir “como melhor ou pior”.

No Brasil, com tantas adaptações de títulos infelizes, neste eles acertaram e para mim ficou melhor que o original: “Houve Uma Vez Um Verão” (acho que depois relançaram com o título "No Verão de 42"). E acredito que nunca houve um verão como aquele no cinema. Pelo menos naquela época.

Mas tem outra coisa no filme que contribuiu para que ficasse em minha memória: a maravilhosa trilha-sonora de Michel Legrand, essa sim indispensável para admiradores de boa música orquestral. Retratou de maneira impar os momentos suaves do filme.

Talvez esteja na hora de, tantos anos depois, rever essa película (antigamente chamávamos assim) e verificar se resgato as mesmas sensações. Apesar de já ter ultrapassado os 50...

Ou talvez seja melhor deixá-lo lá. Guardado, trancado, nas minhas gavetas afetivas da memória.



Jennifer O'neill

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Morre o mestre musical Isao Tomita


Fiquei sabendo hoje da morte do músico japonês Isao Tomita.
Ele partiu para suas outras esferas cósmicas na quinta-feira, dia 5, mas só ontem foi divulgado em sua página no Facebook.
Tomita estava com 84 anos.
Não era muito conhecido pelo grande público do Ocidente, fora dos círculos musicais mais especializados.

Foi ele um dos pioneiros na utilização mais ampla dos diversos sintetizadores portáteis (portáteis ao nível daquele época; antes um sintetizador ocupava uma sala inteira) desenvolvidos nos anos 1960, sobretudo o Moog Synthesizer.

Em fins daquela década Tomita já criava trilhas sonoras "eletrônicas", termo que só seria popularizado muito tempo depois.
Sua especialidade, além das criações de trilhas para filmes, era fazer adaptações "cibernéticas" de peças da música clássica, embora seu primeiro disco, de 1972, tenha se chamado "Switched on Rock: Electric Samurai".

Costumo chamar suas adaptações de "Impressionismo Cósmico". Definitivamente não é de fácil acesso. Há que se entrar no mundo imaginado por ele para se conseguir extrair dali as sensações que pretendia passar. Isso fica mais claro em obras como "Snowflakes are Dancing" (adaptações de Debussy).
Uma das indicações que fazia era ouvir sua música com diversas caixas de som, o ouvinte no centro, para ser envolvido pelo sonoridade. Isso nos anos 70. Foi o pioneiro portanto no conceito de 'home-theaters' de última geração. Na falta dessa possibilidade, é imprescindível ouvir com fones de ouvido (como na música que inseri abaixo).

Influenciou gente do porte de Jean Michael Jarre, Vangelis, Kitaro e Yanni, embora esses tenham seus próprios estilos.
Por suas dezenas de adaptações e obras próprias é difícil indicar seus melhores discos mas eu gosto particularmente de "The Planets" (de Holst), "Pictures at an Exhibition" (de Mussorgsky, também adaptado pela banda de Rock Progressivo Emerson, Lake & Palmer), "The Bermuda Triangle" e "The Ravel Album", também lançado como "Bolero".

O detalhe é que foi muito premiado na área da música erudita (incluindo diversas indicações ao Grammy), mas muitos de seus círculos de fãs são formados por pessoas que se interessam por música eletrônica e novidades sonoras de forma geral.

Reconhecido no Japão como um importante nome de sua arte e cultura, Tomita deixa um legado importante, por fazer de maneira única a conexão da música de séculos atrás com a música do futuro. Neste caso buscando manter a essência emocional que normalmente se perde neste tipo de "transformação".

Descanse em paz Tomita. Boa viagem. Obrigado!


Morreu Isao Tomita, um dos pioneiros da música eletrônica
"Em 2015 foi-lhe atribuído o Prêmio Fundação Japão, criado para distinguir personalidades ou instituições que tenham contribuído para promover a amizade e compreensão entre o Japão e o resto do mundo. Isao Tomita agradeceu a honra. Mais tarde, comentou: “Nunca acreditei que a minha arte devia contribuir para promover o país. Mas a música, mesmo que seja uma coisa nova que recorra a sintetizadores, será sempre algo que pode ser apreciado por todos, independentemente da idade ou da proveniência. É esse o conceito por trás de todos os meus projetos”.

Assim era Isao Tomita que morreu na quinta-feira passada aos 84 anos mas só foi noticiado este domingo na sua página de Facebook. Foi um dos pioneiros da música eletrônica, um fascínio nascido quando do contato com o trabalho de Wendy Carlos, autora da trilha-sonora de Laranja Mecânica, e de Robert Moog, o inventor do famoso sintetizador.
Em 1971, quando já contava mais de uma década de trabalho enquanto compositor para a televisão, cinema e teatro japoneses, encomendou e começou a trabalhar com um dos primeiros Moogs chegados a território japonês. No ano seguinte, editou no seu país, "Electric Samurai - Switched on Rock", álbum em que gravou versões eletrônicas de canções pop e rock. Em 1974, chegou aquela que se tornaria a sua obra mais célebre, "Snowflakes are Dancing", em que os mesmos princípios de "Switched on Rock" eram aplicados à música de Claude Debussy. O álbum tornou-se um sucesso global, sendo nomeado para quatro categorias dos Grammy e subindo ao primeiro lugar da tabela da Billboard dedicada à música clássica – muitos anos depois, em 2014, Ben e Joshua Safdie resgataram-no para a trilha sonora do seu filme "Heavens Knows What".

Paralelamente ao trabalho que continuou a desenvolver para cinema e televisão, foi aumentando a sua discografia com álbuns no mesmo espírito de "Snowflakes are Dancing", editando "Firebird" e "Pictures From An Exhibition", inspirados nas obras respectivas de Stravinsky e Mussorgsky. A sua música tornar-se-ia referência marcante para, por exemplo, Ryuichi Sakamoto e os seus Yellow Magic Orchestra.
Nos anos 1980 desenvolveu e apresentou mundo fora os concertos ao ar livre Sound Cloud, em que colunas de som rodeavam o público para proporcionar uma experiência imersiva. Atualmente trabalhava em "Dr. Coppelius", balé a ser protagonizado por hologramas. Em Janeiro, dizia ao "The Japan Times" que a sua prioridade era manter-se saudável. “Mas gostaria de adiantar 'Dr. Coppelius' o máximo que me fosse possível, de forma a que, mesmo que algo me aconteça, outros possam terminá-lo”. O coração traiu-o antes do tempo. O legado continuará. E a obra derradeira certamente não ficará inacabada."
Fonte:  Público (Portugal)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Amenidades em um época difícil

Está difícil escrever neste momento.
Falo em escrever sobre amenidades.
Leves impressões sobre o nosso dia a dia, observações do cotidiano.
Descrições de viagens, resenhas de filmes, discos, livros.
Dicas sobre o bem-viver, análises superficiais de nossos aspectos morais, sociais...  caminhos que se abrem nas encruzilhadas do dia, do mês, do ano.
Sobre o passar do tempo, sobre a natureza, sobre a labuta diária.
Amizades, paixões, distâncias, saudades, reencontros, vivências, poesias, sonhos e planos.
Observações urbanas, suburbanas, periféricas, rurais.
Descrever sensações, sons, imagens, sabores, texturas, perfumes, beleza.
Maio, outono, sol, chuva, vento, mar, luz.
Do gosto de uma cerveja gelada ou de um café quente feito no coador de pano até complexas questões existenciais que podem ser simplificadas à sombra de uma árvore frutífera em flor.
Sim, está difícil escrever sobre amenidades, como faria Rubem Braga em suas crônicas, que observavam de maneira simples e brilhantes as pequenas coisas do momento.
Mas porque a dificuldade? Provavelmente bloqueio por conta dos temas e dos sentimentos que dividem o país: política, economia, congresso, constituição, justiça e um certo moralismo enviesado.
É quase impossível não estar em um dos lados e ficar imune a uma espécie de clima de ódio e patrulhamento nutrido contra o lado oposto.
E não só em redes sociais e manifestações. Até mesmo no seio familiar e em grupos de amigos.
Falar sobre amenidades neste momento é quase uma afronta. O que não me atingiria. Mas não consigo me distanciar suficientemente do clima. E não falo do outono / inverno.
Tudo bem. É a democracia. Acho que é. Quer dizer, não sei não. Me passa um filme na mente, um dejà-vu, sensação de já ter visto isso antes, com outras roupagens. E há vilões, "forças ocultas" ou não tão ocultas. Mas, se não dá para escrever sobre amenidades, não vou ser mais um a destilar ódio, acusações e suspeitas. Não neste texto, pelo menos.
O problema é que isso se arrasta desde 2014. E lá se foi 2015 e metade de 2016. Nem as Olimpíadas - maior evento esportivo do mundo acontecendo pela primeira vez no hemisfério sul - parecem conseguir quebrar a corrente do mal. E não há sinais que 2017 seja diferente. E em 2018 teremos eleições, logo... a espécie de "guerra não declarada" continuará por um bom tempo.
E a situação econômica  também. Esta reforçada por itens como conjuntura internacional e má atuação de ambos os lados. Ao final a fatura é cobrada de todos. Ou quase todos. E tem sempre aquela parcela que sofre mais.
Não sei quando terei ânimo para voltar a registrar as minhas impressões (não políticas e econômicas) neste espaço. Mas, se conseguir, não sei quem estaria disposto a ler. A não ser para conferir minha posição a respeito de tudo isso.
Mas, como não podemos nos deixar abater e a agradável luminosidade outonal segue lá fora, sigamos em frente.
Tentemos manter pelo menos um pouco da poesia que é o existir. Apesar de tudo.

Fotos: Marina Barbosa (on Facebook)