sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Morando em si mesmo (ou em um bar à beira-mar)

Comecei este fim de semana (sim, o fim de semana começa na sexta, é claro!) lendo a seguinte frase poética de Mario Quintana: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas." Foi citado pelo escritor - ligado em meditações diversas - Pedro Tornagui, acompanhado desta foto aqui ao lado, de uma casinha perdida em uma agradável floresta.
Verdade que tá cada vez mais difícil "morar em si mesmo", com licença poética ou não.
Aliás o feriadão é um convite à tese contrária: pegar avenidas e estradas engarrafadas em direção à praias e, eventualmente, serra. Uma perda de tempo que sou adepto.
Mas a sexta apresenta-se nublada e eventualmente chuvosa.
Talvez o feriadão permaneça com muitas nuvens e a tradição do dia de finados chuvoso se cumpra, o que hoje já seria uma exceção: tradições (mística) e meteorologia (ciência) não tem se combinado ultimamente.
Mas, na maioria das vezes - desconfio - por falha na ciência, que não entende o comportamento do tempo na era do aquecimento global. Provocado, quem sabe, pela "ciência" humana.
Valha-nos então o caminho xamânico ou de qualquer filosofia ou religião. O transcendental fica sendo a nossa esperança de salvação ainda aqui na terra e não apenas do lado de lá.
Se chover mesmo, talvez fique em casa. Quem sabe possa então ter uma sobra de tempo para pensar no citado verso do Mario Quintana.
Afinal, viver para o que está no exterior é hoje o padrão. Não nos resta muita opção com tantas obrigações, pressões e necessidade insana de informação e de grana para pagar o status quo.
Correndo contra o tempo, não sinto o tempo passar nem me sinto presente no instante presente. E a vida passa e eu não vejo. Perdi o bonde. Ou o trem.
E quando tenho tempo livre, preciso desestressar - destemperado que estou - seja na serra, seja no mar, seja no bar.
Mas e se eu ficar mesmo no lar e não viajar? Ganho então tempo para ler, conversar com a família e mergulhar nos "meus discos e livros e nada mais", mesmo que não seja uma casa no campo.
E, se cair uma chuvinha, ver as gotas batendo na palmeira que fica em frente à janela de minha sala.
Mas "morarei em mim mesmo"? Não. Não tenham essa ilusão. Nenhum de nós (não trata-se aqui de citação ao antigo grupo gaúcho de pop-rock). Talvez monges budistas.
Do lado de cá, do Ocidente, continuamos abastecendo o carro, reformando a cozinha, comprando uma camisa nova no shopping, incitando ou tentando fugir do ódio nas redes sociais, reclamando do sinal fraco no smartphone e respondendo as mensagens instantâneas em nossas dezenas de grupos do WhatsApp. E trabalhando. Muito.
Como então se voltar para esse estranho ser que somos nós mesmos?
Talvez tenhamos que retornar no tempo ("De Volta para o Passado"), dos nossos pais e avós.
Desligar o celular e, na segunda-feira, dia 2, ir ao cemitério e lá fazer uma meditação.
Enquanto ainda estamos por aqui.
E esperar que nossos filhos e netos se lembrem de nós no futuro.
Se é que isso tem alguma importância agora.
Mas escreveria isso tudo se o tempo não estivesse nublado?
E se estivesse aquele sol de rachar, pedindo um deslocamento para o meu balneário preferido, cheio de bares (e chopps) de frente para o mar?
Neste caso provavelmente tentaria no máximo uma filosofia de boteco... no próprio!
E deixaria pensamentos grandiosos sobre o que temos feito de nossa vida para um próximo período frio e chuvoso. Como os grandes filósofos do norte europeu. Neste caso todos os caminhos levariam à Munique, Berlim ou Düsseldorf. Mas nunca a Ipanema, Búzios, Rio das Ostras, Grussaí ou Guarapari.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A dura decisão da Playboy americana e as impressões que isso me causou

Ando meio desanimado para escrever as minhas crônicas semanais aqui no Impressões e no Blog de Luiz Felipe Muniz.
Leve depressão? Não. Falta de tempo. Na verdade deve ser é falta de criatividade. Ou incapacidade mesmo.
Então tá. Sobre que tentarei escrever?
Enquanto penso dou uma olhada no Face. E em alguns sites.
Como sempre, ouvindo uma música ao fundo. Na madrugada, no CD player, não rolava um Blues, mas o som Smotth Jazz do Matt Marshak, CD "Lifestile". Vejam (ou já vão ouvindo) ele lá no final deste texto.
O título do disco acende a primeira luz do que poderia ser um tema.
A segunda luz veio de um post feito pelo amigo Betinho, sempre alegre, gaiato e crítico, sobre tempos passados versus tempos presentes: "Sabe porque eu sou feliz? Porque curti, mesmo novinho, o final da década de 60 do século passado. E eu curti pra 'caráleo' a geração da década de 70. E curti pra cacete a geração da década de 80. E curti pra caramba a geração da década de 90. Aí veio o ano 2000 e fudeu tudo. Tudo politicamente correto. Chato pra cacete. Mas to vivendo feliz... Até que essa chatice acabe...".
Huummm... Acho que isso não é apenas filosofia de boteco não. O amigo anda com razão.
Continuo minha navegação e me deparo com uma notícia bombástica: A Playboy americana não vai mais publicar foto de mulher pelada (ok, nuas, despidas...)!
Como assim?
Preciso de um tempo para tentar entender esta pauta bomba.
E aí já conectei a notícia com o post do Betinho: a Playboy estaria tentando ser "politicamente correta" ao eliminar as beldades nuas de suas páginas?
A bem da verdade este é - historicamente - um tema polêmico, uma vez que feministas sempre acharam essa questão de posar nua como sendo um insulto à mulher, um resultado da sociedade "machista-patriarcal" que transforma mulheres em objetos.
Nunca concordei com isso. Só concordo que não se deve existir uma ditadura de um padrão de beleza. No mais, posa quem quer, compra a revista quem quiser. E é sim uma homenagem às mulheres e à sensualidade.
A suposta rendição da Playboy seria portanto uma vitória do que chamávamos (nos bons tempos) de pura caretice (destes maus tempos citado pelo Betinho).
Ao longo de décadas (ok, principalmente na adolescência e pós), acompanhei com afinco as selecionadas da Playboy brasileira. E misturava meus ideais políticos com a sensualidade emanada daquelas imagens via Che Guevara: "Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás".
Mais recentemente mantivemos nos dois blogs a seção "Musa da Semana", onde a homenageada não se destacava pela utilização de muitos panos. Sempre foi a seção mais aclamada.
Mas... e agora, com essa guinada "politicamente correta" da lendária Playboy, nossa principal referência?
Admirar a beleza feminina, maior criação Divina, é quase um "Lifestile". Estaremos condenados ao patrulhamento de forças reacionárias?
No entanto, ao que parece, não é bem o caso. Tem mais a ver com a diminuição do faturamento da revista porque ninguém tava comprando para ver mulher pelada: tem mulher pelada à rodo na Internet. Daí faz-se necessário uma adaptação na linha editorial para que ela não quebre de vez. Ou não amoleça definitivamente.
Mas um assunto antológico desse precisa de maior tempo de análise e maturação (ou 'maduração', segundo alguns interioranos e experts em trocadilhos infames).
Para quem não tinha assunto no início, agora considero o que escrevi até aqui como insuficiente ao tema.
Saio então à procura de alguém que tenha - este sim - escrito uma crônica definitiva. Demorei a encontrar, mas achei. Tinha que ser ele mesmo, o incomparável Xico Sá. Com seu humor, ironia e estilo, fez um texto primoroso sobre a decisão da Playboy.
Sem pedir permissão a ele reproduzo a seguir, com o link do El Pais, onde foi originalmente publicada.
Como o artigo não tinha imagens, coloquei algumas históricas capas da Playboy escolhidas à dedo, à mão, à língua, etc. para que fique mais ilustrado e ainda mais agradável de ler. Brincadeira. São musas citadas no próprio artigo.
No mais, que a Playboy brasileira não tome a mesma decisão. Ou então que se cumpra o que prega o Xico Sá! 
Post Scriptum:
- Atenção possíveis navegantes dos anos 2000 (aí Betinho!): grande parte do que escrevi acima e do que o Xico escreve abaixo, são formas de expressar com humor e ironia um fato. Brincadeiras sem atingir ninguém. Não me venham portanto com reprimendas politicamente corretas.
Uma vez, neste blog mesmo (procurem!), publiquei um texto picante de uma escritora; o post foi alvo de muitas críticas, algumas - curiosamente - impublicáveis. :)
- No início do texto, o nosso amigo faz uma bela homenagem ao querido Miele, como se estivesse conversando com ele, que sempre foi um grande admirador bem humorado da beleza feminina. 

Pornocracia: faça você mesmo a capa da revista
Ou como o amadorismo do sexo na Internet faz corar de vergonha e prejuízo os profissionais do mercado

Quando o sexo não é mais tabu: o ‘reset’ da revista ‘Playboy’
 "É, mr. Miele, chegou um futuro mais estranho que a ficção científica. Um tempo em que se consome café sem cafeína, cerveja sem álcool, bolo sem açúcar, moela gourmet, feijoada completa light e Playboy sem mulher pelada. Até a couve, pasme, fugiu de alguns pratos típicos e virou suco detox... E a gente ainda não viu nada.

Repare que mesmo o final de relacionamento, amigo, não tem mais lágrimas, se acaba namoro até por uma lacônica mensagem de texto ou por um emoticon sem graça, uma carinha de bunda ruborizada usando os óculos escuros da covardia amorosa. Acontece, rola sim, mas antes que confundam este libelo em defesa da vida intensa com supostas ideias mofadas, vamos focar, meu velho Miele, apenas no caso da revista e da ideia atualíssima de erotismo.

Espere aí, obediente leitor(a), não mande nudes agora, reflita com a colega Milagros Pérez Oliva, que escreveu sobre o assunto neste El País: “Em tempos de Internet, o sexo já não é mais tabu. O erotismo, expresso em forma de nu feminino mais ou menos artístico, está em baixa, varrido por uma pornografia descaradamente explícita que está ao alcance de qualquer um”.

Pode ser. Não vejo, todavia, esse cenário como negativo ou nada apocalíptico. O nu agora é infinitamente mais democrático. A pornocracia, pelo menos nos campos virtuais, vingou de vez. Toda nudez será publicada e amostrada, tio Nelson. Não mais propriedade exclusiva da estrela na capa da revista. É, de certa forma, a vingança do amadorismo e a quebra do padrão da gostosa-celebridade.
Palavra de um amante radical de Playboy que viu suas próprias mãos ficarem peludas, qual o truque de espelhos da Monga, nestes 40 anos da edição brasileira. Agora mesmo folheio na memória as Moniques, Lumas, Isadoras, Ísis, Veras, Bárbaras, Closes, Maitês, Brondis, Julianas, Sônias, Sabrinas, Tiazinhas, Feiticeiras, Cléos, Negrinis, Xuxas, Ohanas, Brunets, Galisteus...

Vista a roupa, meu bem
Ousada a decisão da matriz norte-americana de fazer uma espécie de strip-tease ao contrário nas suas páginas. As mulheres aparecerão vestidas. Em meio a tanta fartura de erotismo e pornografia no cabaré da Internet, pode ser revolucionário –a Playboy gringa sempre foi muito tesuda também de conteúdo. A versão tupiniquim, que também enfrenta crise de disfunção eréctil-econômica, ainda não decidiu se tomará o mesmo destino gutenberguiano. Que nunca broche de vez.

Agora sim, pode soltar a primeira peça de roupa, leitor(a). Tenha cuidado, porém, para não vazar na rede a nudez. Sem julgamento moral, por favor, afinal de contas, a pornografia é o erotismo dos outros -quando se passa na nossa casa, chamamos de erotismo; na casa do vizinho, julgamos pornografia pura. Não é questão de estética ou gosto. É, para variar, a patrulha moral do bairro chamado mundo. Viver é uma ideia provinciana, esteja você em Nova York ou em Cajazeiras, Paraíba.

Viva a imaginação
A Playboy, nas suas versões multinacionais, poderia incentivar, na contramão da ansiedade pelo sexo explícito e imediato, o exercício da imaginação que estamos perdendo. Principalmente os homens. De todas as faixas etárias.

Creio, na minha teoria de Sigmund Freud de boteco, que a facilidade do acervo erótico diminuiu a nossa capacidade de criar historinhas, inclusive nas sessões masturbatórias.

Estamos perdendo o fio do enredo nesses momentos profanos e sagrados. A morte da punheta de autor ou autoral, como diria, em um delírio típico dele, o genialíssimo messiê Lacan.

Último pedido
Digamos que a Playboy brasileira, amigo(a), decidisse seguir a matriz. Pura viagem, nada baseada em fatos reais, caríssimo Sérgio Xavier, competente diretor de redação aqui nos trópicos. Divaguemos mais ainda: quem você escolheria, leitor, como a mulher dos sonhos -vale qualquer uma mesmo!- para ser a capa derradeira? Favor evitar repeteco. Vamos sonhar um sonho inédito e alto, como estivéssemos nos tempos dos cachês milionários. Quem?

A Vanessa Giácomo, a Tóia da novela “A regra do jogo”? A Bruna Linzmeyer, Nelita Stewart no mesmo folhetim televisivo? Quem sabe uma criatura da novela “Os dez mandamentos” –você sabia que a Bíblia é considerada um dos livros mais eróticos da humanidade? Por que não uma anônima rainha dos nudes de redes sociais? A sua própria garota, quem dera, como na profética música “Revista Proibida” de Odair José?

A utópica Fernanda Lima totalmente “Amor & Sexo”? A lolita de “Verdades Secretas”? Uma intelectual como apostou o último calendário Pirelli? Seja quem for a escolhida, o fotógrafo sou eu quem indico: J. R. Duran, óbvio, este sabe da arte de mirar uma fêmea.

Não se limite ao possível. Pode dizer de boca cheia Camila Pitanga, mesmo que ela esteja longe de topar a missão. A Tainá Müller? Sim, vale sonhar sempre. Taís Araújo? A Trip deu primeiro, gozaria, na buena onda, o diretor Paulo Lima, revigorando um slogan clássico da sua revista.

Faça sua aposta, agora curta os nudes amadores à vontade e bom final de semana."


Xico Sá:
Jornalista.
Comentarista do programa “Papo de Segunda” (GNT)
Autor de “Os machões dançaram – crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões” (editora Record), entre outros livros.



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O sonho que tive e seu possível significado (sem recorrer a Freud)

Um ônibus no sonho?
Tenho sonhado ultimamente.
Pode não significar nada que mereça um registro aqui e vocês - meus 17 leitores - estarão certos. Mesmo assim me arrisco a escrever sobre isso. Ainda que com a possibilidade dos 17 se reduzirem a 7.
Dizem que sonhamos sempre. O cérebro não para. Mas na maioria das vezes não nos lembramos. Ocorre que ultimamente tenho me lembrado. Pelo menos em flashes. Não sei se tem ocorrido com vocês isso também.
Na última noite sonhei que estava em uma excursão. De ônibus. Na verdade íamos a um casamento. Em Brasília. Nos arredores de Brasília. Meio distante do centro.
As casas eram de classe média, muito espaçadas uma das outras e eram longe de tudo. Pensei que não deve ser legal morar tão distante de um centro urbano.
Aí me questionei: o que pensa um morador de Nova Yorque sobre quem mora em uma distante cidade de porte médio no Brasil? Ou o que pensa um morador de Ipanema sobre um morador do Irajá? Ou, ao contrário, o que acha quem fugiu dos centros urbanos e está lá longe, na roça, na natureza?
Nem pensam né?!
Não me lembro quem estava na excursão. Nem porque a cidade era Brasília. Nem de quem era o casamento.
Aí tentei montar o quebra-cabeças, já acordado, pois perdi o sono lá pelas 4 da madruga.
Vi noticiários de Brasília antes de dormir. Aliás qualquer noticiário parece só falar o tempo todo da cidade. Da cidade não. Do Congresso e do Planalto. Haja saco.
Também antes de dormir soube que meu irmão parte hoje em um ônibus fretado pelo grupo de amigos motociclistas para o Salão Internacional de Motocicletas em São Paulo (Salão Duas Rodas 2015).
Fora o fato de fazer uma mini-viagem de ônibus fretado todos os dias, pois trabalho em uma cidade vizinha.
Sobre casamentos, devo ter visto ou ouvido alguma coisa a respeito no mesmo período. Aí se juntou tudo.
O fato é que me dei conta de que há séculos não faço uma excursão com amigos. Isso foi relativamente comum na época de jovem estudante, lá em um distante subúrbio carioca.
Depois teve uma, para João Pessoa, já nos tempos do coral da Escola Técnica.
Desconfio que exista apenas um significado para este sonho: talvez eu esteja querendo voltar àqueles tempos mais simples, calmos e gostosos. Unir duas coisas boas: viajar e estar ao mesmo tempo com amigos, sem maiores compromissos.
Hoje à noite meu irmão vai "reativar" essa experiência ao entrar no ônibus e rever a galera das motos. Talvez essas coisas simples é que sejam o melhor da vida.
Quanto ao sonho, me esqueci do resto. Vamos aguardar a próxima madrugada. Tomara que não seja um pesadelo. E chega de Brasília!

Em tempo: Sigmund Freud publicou em 1900 um livro chamado "A Interpretação dos Sonhos". Passados 115 anos, ainda não existe uma conclusão precisa sobre o tema. Faça você também sua própria interpretação. Isso se lembrar de algum. E quanto mais "viajante", melhor!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

La Barca e a história do sexo na praia (reminiscências de um cubano)


Ler sempre esteve entre meus hábitos cotidianos, desde que me entendo por gente. E ouvir e colecionar músicas.
Nunca fui de escrever (bem), muito menos de criar músicas, mas me insiro quase que automaticamente em uma boa história ou numa linda canção de outros.
Alguns autores conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo, escrevem como se fosse música, fazem música como se contassem uma história (mesmo que não tenham letras).
Recentemente descobri um escritor cubano que, com suas reminiscências e análises do cotidiano masculino, conta coisas simples que me soam como pequenas canções. O nome dele é Fabio Hernandez, que publica no site Diário do Centro do Mundo.
Reproduzo a seguir uma de suas histórias. E, como ele escreve por música - e nesse caso cita uma - resolvi reproduzir a canção mencionada ao final, o belo bolero "La Barca".


O melhor sexo de minha vida.
Por Fabio Hernandez

"Juanita estava de amarelo naquela noite quente e estrelada de Cuba. Um vestidinho leve, barato, que parecia um manto de rainha naquele corpo majestosamente moreno de seios miúdos jamais reprimidos por sutiãs.

Juanita achava que se depilar era coisa de mulher burguesa, mas quase não se notavam seus pelos pelo efeito do sol, e também por serem poucos e discretos.

Eu gostava quando ela erguia os braços para fazer coisas como arrumar os cabelos num rabo de cavalo. Vislumbrava por instantes fugidios aqueles quase invisíveis pelos rebeldes sob seus braços fortes de mulher cubana, acostumada desde cedo a trabalhos manuais que mulheres de outras partes costumam delegar a empregadas.

Andávamos pelas areias mornas da praia. Ou melhor, vagabundeávamos. Falávamos sobre tudo e falávamos sobre nada, e nisso gastávamos horas.

Éramos nosso assunto predileto, como costuma ocorrer com amantes em seus primeiros tempos.

Já estava prestes a amanhecer quando nos sentamos na areia para descansar. Ficamos por alguns momentos calados, olhos para o mar verde-azulado e ouvidos concentrados no canto das gaivotas.

Havana dormia, menos nós.

E então Juanita, com aqueles olhos esverdeados que contrastavam tão lindamente com sua pele morena e salgada pelo mar, me endereçou um convite sem palavras, silencioso como os grãos mornos da areia que nos acolhiam para um momento de descanso.

Era como se ela dissesse: “Vem, Fabio. Toma posse do que já é e sempre será teu, agora e pela eternidade.”

No próximo instante, eu já estava dentro de Juanita.

Ela entendeu o significado do olhar que enderecei para a praia deserta.

“Fabio”, ela disse. Não, ela gemeu. Ela gemia palavras, em vez de dizê-las, quando metíamos. “Se aparecer alguém, não para.”

Não era uma recomendação. Era uma ordem, e a última coisa que eu faria naquelas circunstâncias era desobedecer Juanita.

Refreei o impulso de esguichar minha semente nela enquanto não a vi gozar daquele jeito que era só dela, um sorriso de Mona Lisa nos lábios, os olhos fechados e apertados, o ar de infinita satisfação que só uma mulher em pleno orgasmo é capaz de ter.

Ela fez então o que sempre fazia nessas ocasiões. Passou os dedos em sua virilha molhada de minha semente. Levou os dedos primeiro à ponta do nariz arrebitado e depois à boca.

“Adoro seu cheiro de homem, e o seu gosto de macho”, murmurou.

Antes que amanhecesse, e que pessoas aparecessem na praia, tivemos tempo ainda para nos banharmos no mar morno, sob uma lua cheia que iluminava como nunca a beleza morena de Juanita.

Pouco depois, Juanita partiu de Cuba, levada pela possibilidade de enriquecer em Miami.

Durante algum tempo trocamos cartas, mas elas foram se espaçando, e diminuindo na extensão, até desaparecerem.

Ainda agora, quando ouço La Barca, é nela que penso, não com dor, não com amargura, mas com gratidão.

Hoy mi playa se viste de amargura,

Porque tu barca tiene que partir

A cruzar otros mares de locura

(Cuida que no naufrague en tu vivir)

Cuando la luz del sol se esté apagando

Y te sientas cansada de vagar,

Piensa que yo por ti estaré esperando

Hasta que tú decidas regresar.

Tantos anos depois, e tantas mulheres depois, lembro com detalhes este que foi o melhor sexo de minha vida, e tolamente agradeço ao Deus no qual não acredito por um dia ter colocado Juanita no meu caminho."