sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A dura decisão da Playboy americana e as impressões que isso me causou

Ando meio desanimado para escrever as minhas crônicas semanais aqui no Impressões e no Blog de Luiz Felipe Muniz.
Leve depressão? Não. Falta de tempo. Na verdade deve ser é falta de criatividade. Ou incapacidade mesmo.
Então tá. Sobre que tentarei escrever?
Enquanto penso dou uma olhada no Face. E em alguns sites.
Como sempre, ouvindo uma música ao fundo. Na madrugada, no CD player, não rolava um Blues, mas o som Smotth Jazz do Matt Marshak, CD "Lifestile". Vejam (ou já vão ouvindo) ele lá no final deste texto.
O título do disco acende a primeira luz do que poderia ser um tema.
A segunda luz veio de um post feito pelo amigo Betinho, sempre alegre, gaiato e crítico, sobre tempos passados versus tempos presentes: "Sabe porque eu sou feliz? Porque curti, mesmo novinho, o final da década de 60 do século passado. E eu curti pra 'caráleo' a geração da década de 70. E curti pra cacete a geração da década de 80. E curti pra caramba a geração da década de 90. Aí veio o ano 2000 e fudeu tudo. Tudo politicamente correto. Chato pra cacete. Mas to vivendo feliz... Até que essa chatice acabe...".
Huummm... Acho que isso não é apenas filosofia de boteco não. O amigo anda com razão.
Continuo minha navegação e me deparo com uma notícia bombástica: A Playboy americana não vai mais publicar foto de mulher pelada (ok, nuas, despidas...)!
Como assim?
Preciso de um tempo para tentar entender esta pauta bomba.
E aí já conectei a notícia com o post do Betinho: a Playboy estaria tentando ser "politicamente correta" ao eliminar as beldades nuas de suas páginas?
A bem da verdade este é - historicamente - um tema polêmico, uma vez que feministas sempre acharam essa questão de posar nua como sendo um insulto à mulher, um resultado da sociedade "machista-patriarcal" que transforma mulheres em objetos.
Nunca concordei com isso. Só concordo que não se deve existir uma ditadura de um padrão de beleza. No mais, posa quem quer, compra a revista quem quiser. E é sim uma homenagem às mulheres e à sensualidade.
A suposta rendição da Playboy seria portanto uma vitória do que chamávamos (nos bons tempos) de pura caretice (destes maus tempos citado pelo Betinho).
Ao longo de décadas (ok, principalmente na adolescência e pós), acompanhei com afinco as selecionadas da Playboy brasileira. E misturava meus ideais políticos com a sensualidade emanada daquelas imagens via Che Guevara: "Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás".
Mais recentemente mantivemos nos dois blogs a seção "Musa da Semana", onde a homenageada não se destacava pela utilização de muitos panos. Sempre foi a seção mais aclamada.
Mas... e agora, com essa guinada "politicamente correta" da lendária Playboy, nossa principal referência?
Admirar a beleza feminina, maior criação Divina, é quase um "Lifestile". Estaremos condenados ao patrulhamento de forças reacionárias?
No entanto, ao que parece, não é bem o caso. Tem mais a ver com a diminuição do faturamento da revista porque ninguém tava comprando para ver mulher pelada: tem mulher pelada à rodo na Internet. Daí faz-se necessário uma adaptação na linha editorial para que ela não quebre de vez. Ou não amoleça definitivamente.
Mas um assunto antológico desse precisa de maior tempo de análise e maturação (ou 'maduração', segundo alguns interioranos e experts em trocadilhos infames).
Para quem não tinha assunto no início, agora considero o que escrevi até aqui como insuficiente ao tema.
Saio então à procura de alguém que tenha - este sim - escrito uma crônica definitiva. Demorei a encontrar, mas achei. Tinha que ser ele mesmo, o incomparável Xico Sá. Com seu humor, ironia e estilo, fez um texto primoroso sobre a decisão da Playboy.
Sem pedir permissão a ele reproduzo a seguir, com o link do El Pais, onde foi originalmente publicada.
Como o artigo não tinha imagens, coloquei algumas históricas capas da Playboy escolhidas à dedo, à mão, à língua, etc. para que fique mais ilustrado e ainda mais agradável de ler. Brincadeira. São musas citadas no próprio artigo.
No mais, que a Playboy brasileira não tome a mesma decisão. Ou então que se cumpra o que prega o Xico Sá! 
Post Scriptum:
- Atenção possíveis navegantes dos anos 2000 (aí Betinho!): grande parte do que escrevi acima e do que o Xico escreve abaixo, são formas de expressar com humor e ironia um fato. Brincadeiras sem atingir ninguém. Não me venham portanto com reprimendas politicamente corretas.
Uma vez, neste blog mesmo (procurem!), publiquei um texto picante de uma escritora; o post foi alvo de muitas críticas, algumas - curiosamente - impublicáveis. :)
- No início do texto, o nosso amigo faz uma bela homenagem ao querido Miele, como se estivesse conversando com ele, que sempre foi um grande admirador bem humorado da beleza feminina. 

Pornocracia: faça você mesmo a capa da revista
Ou como o amadorismo do sexo na Internet faz corar de vergonha e prejuízo os profissionais do mercado

Quando o sexo não é mais tabu: o ‘reset’ da revista ‘Playboy’
 "É, mr. Miele, chegou um futuro mais estranho que a ficção científica. Um tempo em que se consome café sem cafeína, cerveja sem álcool, bolo sem açúcar, moela gourmet, feijoada completa light e Playboy sem mulher pelada. Até a couve, pasme, fugiu de alguns pratos típicos e virou suco detox... E a gente ainda não viu nada.

Repare que mesmo o final de relacionamento, amigo, não tem mais lágrimas, se acaba namoro até por uma lacônica mensagem de texto ou por um emoticon sem graça, uma carinha de bunda ruborizada usando os óculos escuros da covardia amorosa. Acontece, rola sim, mas antes que confundam este libelo em defesa da vida intensa com supostas ideias mofadas, vamos focar, meu velho Miele, apenas no caso da revista e da ideia atualíssima de erotismo.

Espere aí, obediente leitor(a), não mande nudes agora, reflita com a colega Milagros Pérez Oliva, que escreveu sobre o assunto neste El País: “Em tempos de Internet, o sexo já não é mais tabu. O erotismo, expresso em forma de nu feminino mais ou menos artístico, está em baixa, varrido por uma pornografia descaradamente explícita que está ao alcance de qualquer um”.

Pode ser. Não vejo, todavia, esse cenário como negativo ou nada apocalíptico. O nu agora é infinitamente mais democrático. A pornocracia, pelo menos nos campos virtuais, vingou de vez. Toda nudez será publicada e amostrada, tio Nelson. Não mais propriedade exclusiva da estrela na capa da revista. É, de certa forma, a vingança do amadorismo e a quebra do padrão da gostosa-celebridade.
Palavra de um amante radical de Playboy que viu suas próprias mãos ficarem peludas, qual o truque de espelhos da Monga, nestes 40 anos da edição brasileira. Agora mesmo folheio na memória as Moniques, Lumas, Isadoras, Ísis, Veras, Bárbaras, Closes, Maitês, Brondis, Julianas, Sônias, Sabrinas, Tiazinhas, Feiticeiras, Cléos, Negrinis, Xuxas, Ohanas, Brunets, Galisteus...

Vista a roupa, meu bem
Ousada a decisão da matriz norte-americana de fazer uma espécie de strip-tease ao contrário nas suas páginas. As mulheres aparecerão vestidas. Em meio a tanta fartura de erotismo e pornografia no cabaré da Internet, pode ser revolucionário –a Playboy gringa sempre foi muito tesuda também de conteúdo. A versão tupiniquim, que também enfrenta crise de disfunção eréctil-econômica, ainda não decidiu se tomará o mesmo destino gutenberguiano. Que nunca broche de vez.

Agora sim, pode soltar a primeira peça de roupa, leitor(a). Tenha cuidado, porém, para não vazar na rede a nudez. Sem julgamento moral, por favor, afinal de contas, a pornografia é o erotismo dos outros -quando se passa na nossa casa, chamamos de erotismo; na casa do vizinho, julgamos pornografia pura. Não é questão de estética ou gosto. É, para variar, a patrulha moral do bairro chamado mundo. Viver é uma ideia provinciana, esteja você em Nova York ou em Cajazeiras, Paraíba.

Viva a imaginação
A Playboy, nas suas versões multinacionais, poderia incentivar, na contramão da ansiedade pelo sexo explícito e imediato, o exercício da imaginação que estamos perdendo. Principalmente os homens. De todas as faixas etárias.

Creio, na minha teoria de Sigmund Freud de boteco, que a facilidade do acervo erótico diminuiu a nossa capacidade de criar historinhas, inclusive nas sessões masturbatórias.

Estamos perdendo o fio do enredo nesses momentos profanos e sagrados. A morte da punheta de autor ou autoral, como diria, em um delírio típico dele, o genialíssimo messiê Lacan.

Último pedido
Digamos que a Playboy brasileira, amigo(a), decidisse seguir a matriz. Pura viagem, nada baseada em fatos reais, caríssimo Sérgio Xavier, competente diretor de redação aqui nos trópicos. Divaguemos mais ainda: quem você escolheria, leitor, como a mulher dos sonhos -vale qualquer uma mesmo!- para ser a capa derradeira? Favor evitar repeteco. Vamos sonhar um sonho inédito e alto, como estivéssemos nos tempos dos cachês milionários. Quem?

A Vanessa Giácomo, a Tóia da novela “A regra do jogo”? A Bruna Linzmeyer, Nelita Stewart no mesmo folhetim televisivo? Quem sabe uma criatura da novela “Os dez mandamentos” –você sabia que a Bíblia é considerada um dos livros mais eróticos da humanidade? Por que não uma anônima rainha dos nudes de redes sociais? A sua própria garota, quem dera, como na profética música “Revista Proibida” de Odair José?

A utópica Fernanda Lima totalmente “Amor & Sexo”? A lolita de “Verdades Secretas”? Uma intelectual como apostou o último calendário Pirelli? Seja quem for a escolhida, o fotógrafo sou eu quem indico: J. R. Duran, óbvio, este sabe da arte de mirar uma fêmea.

Não se limite ao possível. Pode dizer de boca cheia Camila Pitanga, mesmo que ela esteja longe de topar a missão. A Tainá Müller? Sim, vale sonhar sempre. Taís Araújo? A Trip deu primeiro, gozaria, na buena onda, o diretor Paulo Lima, revigorando um slogan clássico da sua revista.

Faça sua aposta, agora curta os nudes amadores à vontade e bom final de semana."


Xico Sá:
Jornalista.
Comentarista do programa “Papo de Segunda” (GNT)
Autor de “Os machões dançaram – crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões” (editora Record), entre outros livros.



Um comentário:

  1. Brilhante amigão!!
    Você é o Xico Sá tem semelhanças de estilo!
    Parabéns!!

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