quinta-feira, 23 de julho de 2015

Um intelectual brasileiro de 77 anos que procura trabalho

Luiz Carlos Maciel
Relato agora o que para mim é um drama. Mas espero que tenha um final feliz.
Vamos lá.
Um assunto que volta e meia me chama atenção é o aumento da expectativa de vida dos brasileiros. Vindo junto a questão da qualidade de vida. E muitos outros temas: saúde, previdência social, cuidadores, denúncias de maus tratos à idosos, etc.
As famílias estão menores.
Estamos envelhecendo bem, mas em algum momento necessitaremos de amparo, se não formos antes.
Abordo de forma genérica tão complexo tema porque ando remoendo uma história que vi no Facebook há algumas semanas.
O crítico musical Jamari França postou em seu perfil uma nota de Luiz Carlos Maciel. Acho que a maioria dos meus 17 leitores não conhece essa pessoa.
Eu tive contato com seus escritos em meados dos anos 1970. Foram artigos que escrevia para revistas musicais. Fiquei encantado na época.
Descobri que ele podia, a partir de qualquer assunto, desenvolver suas idéias intelectuais, filosóficas acerca do existir e de uma forma absolutamente encantadora.
Foi chamado de "guru da contracultura" mas sua bagagem cultural transcende quaisquer rótulos.
A partir daí procurei ter contato com seus livros e suas crônicas em diversas publicações, entre elas o insuperável Pasquim, lar da intelectualidade brasileira em plena época da ditadura.
Para que vocês tenham uma ideia melhor de quem é ele, reproduzo pequena biografia da Wikipedia:

"Luiz Carlos Maciel (Porto Alegre, 15 de março de 1938) é um escritor, jornalista e roteirista brasileiro.

Formou-se me Filosofia em 1958, pela Universidade do Rio Grande do Sul. Enquanto estudava, foi diretor e ator amador de teatro. Em 1959 recebeu uma bolsa de estudos para a Escola de Teatro da Universidade da Bahia. Nessa ocasião, conheceu Gláuber Rocha, João Ubaldo Ribeiro e Caetano Veloso, entre outros. Gláuber foi, inclusive, o ator principal de seu curta-metragem A cruz na praça.

Em 1960 recebeu nova bolsa de estudos, desta vez da Fundação Rockefeller, para o Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, nos Estados Unidos da América, onde estudou direção teatral e realização de roteiros, durante dezoito meses. Na volta a Salvador, foi professor da Escola de Teatro, tendo dirigido diversas peças.

Em 1964 mudou-se para o Rio de Janeiro,e lecionou no Conservatório Dramático Nacional e trabalhou em jornais locais, entre eles Jornal do Brasil, Última Hora e na revista Fatos e Fotos.

Conhecido como o "guru da contracultura", destacou-se nos anos 1960 e 70 com suas ideias sobre o underground. Foi um dos fundadores do jornal O Pasquim, em 1969. Em 1970, juntamente com a maior parte da equipe de O Pasquim, foi preso pelas autoridades militares da época, e passou dois meses na Vila Militar, no Rio.

Editou também o semanário contra-cultural Flor do Mal, e foi diretor de redação do semanário Rolling Stone. Trabalhou durante vinte anos na Rede Globo, exercendo funções de roteirista, redator, membro de grupos de criação de programas e de analista e orientador de roteiros.

Em 1979 colaborou no semanário Enfim e, no ano seguinte, na revista Careta, ambos editados por Tarso de Castro. Em 1984 dirigiu o espetáculo musical Baby Gal, com a cantora Gal Costa, e a peça Flávia, cabeça, tronco e membros, de autoria de Millôr Fernandes.

Em 1987 voltou a lecionar, principalmente cursos de roteiro. Em 1991 dirigiu as peças Boca molhada de paixão calada, de Leilah Assumpção, e Brida, de Paulo Coelho. Em 1998, seu roteiro para o filme de longa-metragem Dolores recebeu um prêmio concedido pelo Ministério da Cultura.

É casado desde 1976 com a atriz Maria Cláudia."

Mas que drama é esse que cito no início do post? Tem a ver com o comentário publicado na página do Jamari França. Trata-se de um post recente de Luiz Carlos Maciel em sua página do Face (que eu nem sabia que ele tinha mas que agora acompanho):

MACIEL QUER TRABALHO
"Amigos do Facebook. Um tanto constrangido, é verdade, mas sem outro jeito, aproveito esse meio de comunicação, típico da era contemporânea e de suas maravilhas, para levar ao conhecimento público o fato desagradável de que estou sem trabalho e, por conseguinte, sem dinheiro. É triste mas é verdade. Estou desempregado há quase um ano. Preciso urgentemente de um trabalho que me dê uma grana capaz de aliviar este verdadeiro sufoco. Sei ler e escrever, sei dar aulas, já fiz direções de teatro e de cinema, já escrevi para o teatro, o cinema e a televisão. Publiquei vários livros, inclusive sobre técnicas de roteiro, faço supervisão nessa áreas de minha experiência, dou consultoria, tenho – permitam-me que o confesse – muitas competências. Na mídia impressa, já escrevi artigos, crônicas, reportagens... O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. Será que não há um jeito honesto de ganhar a vida com o suor de meu rosto?
Luiz Carlos Maciel
lcfmaciel@gmail.com"

Terrível, não acham? Um intelectual deste porte. Maciel está com 77 anos (daí a minha introdução "genérica", no sentido de extrapolar a situação dele para muitos outros na mesma situação).

Mas o final feliz se aproxima. Vejam essa nota recente dele:

OFICINA PERMANENTE DE ROTEIRO
"Amigos, as circunstâncias me levaram a transformar o Curso de Roteiro que comecei a fazer há poucos dias, numa Oficina Permanente de Roteiro, funcionando igualmente às terças e quintas, às 19 hrs, na Rua José Linhares, 244, Páteo (P), no Leblon. Essa decisão vem atender a um certo número de interessados com problemas de disponibilidade para um curso com prazo determinado. Na Oficina, o participante se inscreve quando quiser, sai e volta à vontade, conforme suas necessidades pessoais. Fiz uma Oficina Permanente dessas, anos atrás, no Tempo Glauber, e deu muito certo. Acho que também vai dar agora. Além da exposição teórica dos Fundamentos do Roteiro para Cinema e Televisão, a Oficina promove o acompanhamento, passo a passo, de roteiros elaborados pelos participantes, com minha orientação direta e individualizada. O pagamento é feito adiantado, mensalmente, no valor de R$ 400 (quatrocentos reais). Muito obrigado pelo interesse em meu trabalho. Espero vocês.
Luiz Carlos Maciel"

No sábado passado, o Jaguar - antigo companheiro da época do Pasquim - em sua coluna semanal do jornal O Dia, abordou o tema, ao seu modo:

Jaguar
"Rio - ‘Conheço esse cara de algum lugar’, pensava ao passar por ele rumo ao Alemão, para tomar uma cerveja sem álcool. É um velho que fica num banco na esquina da Carlos Góis com Ataulfo de Paiva. Às vezes nossos olhares se cruzam. Como ele não me cumprimenta, ia em frente. Agora a ficha caiu: li, na ‘Folha de S. Paulo’ de 12 de julho, excelente matéria de Claudio Leal, com o perfil de Luiz Carlos Maciel. Ele deve ter pensado o mesmo ao me ver, outro velho, de boné, também com a barba por fazer, arrastando as sandálias. Porra, estivemos presos na Vila Militar no fim dos anos 60! No auge do ‘Pasquim’, manteve uma coluna, ‘Underground’, que fez dele o guru, meio a contragosto, da contracultura. Era quem mais recebia cartas dos leitores.

Mas Ivan Lessa jogava fora todas e fazia da seção de cartas do jornal, sob o pseudônimo de Edélzio Tavares, uma delirante obra de ficção. Aspas para Claudio Leal: “Maciel sacudiu o jornalismo brasileiro ao lado da patota do ‘Pasquim’. O jornalista trazia as boas notícias, e às vezes as trágicas, de artistas como Janis Joplin, Jimi Hendrix e Richie Havens.” 

Maciel teve um encontro com Janis no Rio. No número 67, de outubro de 1970, escreveu sobre ela. 
Destaco trechos: “As mortes de Hendrix e Joplin, num período de cerca de 15 dias, foram demais para nós. Há uma certa perplexidade no ar, uma angústia que beira o pânico, uma dúvida pesada sobre o apocalipse que se anuncia, os derradeiros horizontes do século se ele, de fato, promete um novo começo, como querem as crianças de Aquarius, ou se apenas assinala um fim sem futuro, como a grande imprensa insinua como um sintoma assustador que não tem, sequer, consciência de si mesmo.
Sim, o impacto das duas mortes foi poderoso. Os que mais as sentiram tentam conservar a paz de espírito, revestindo-a de novos valores místicos e/ou míticos: os que permaneceram indiferentes não conseguem esconder sua satisfação necrófila diante do fato: ‘Ué, já começaram a morrer todos, é?’”

Na ‘Folha’, Claudio informa que “aos 77 anos, depois de trabalhar por duas décadas na Globo e mais outra na Record, em núcleos de roteiro, Maciel está desempregado há um ano”. Mas esse gaúcho abaianado, adotado por Glauber e Caetano, não esquenta; tem um patrimônio que ninguém pode lhe tirar: sólida cultura e experiência (aos 19 anos dirigiu ‘Esperando Godot’, de Beckett). Continua na batalha; no próximo livro associa Heidegger ao movimento hippie. E oferece, no Leblon, um curso de roteiro para teatro e tevê. Para quem estiver interessado nas aulas do mestre, passo o e-mail para inscrições: lcmaciel@gmail.com."

E mais uma vez voltando ao início: e os outros da terceira idade em situação semelhante ou bem pior? Como tratamos e trataremos os nossos idosos? E a questão previdenciária?

Em 06 de fevereiro de 2011 publiquei um artigo de Luiz Carlos Maciel no Blog de Luiz Felipe Muniz que pode ser conferido aqui. Chama-se "Nostalgia", extraído do livro "A Morte Organizada", de 1977. Vale conferir.

Me lembro de um texto dele cujo título era "Seduzido por Santana e Hendrix eu agora queria mais". Infelizmente não achei esse para reproduzi-lo, mas em homenagem a LCM escolhi duas canções desses mestres imortais, para mim tão eternos como o próprio mestre Luiz Carlos Maciel.




3 comentários:

  1. Muito triste saber disso. Luiz Carlos Maciel foi meu guru na juventude e merecia uma aposentadoria compulsória que fizesse jus à sua importância na cultura brasileira.

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  2. Isso aí também é um problema da própria pessoa. É muito ligado nas coisas transcendentais, filosóficas e não dá a mínima para dinheiro. Isso é muito lindo mas chega uma hora que pode complicar, como é o caso. Uma pena o mundo ser tão capitalista.

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  3. Marquinho, viu a música incidental que o Santana acrescenta? Aquarela do Brasil!

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