sexta-feira, 29 de maio de 2015

Eternamente Jovem?

Para muitas coisas, ao longo desta não tão longa vida, tenho buscado encontrar respostas.
Algumas merecem o tempo perdido ou "achado", outras nem tanto.
Nunca saberei.
Como dizia o Raul (Seixas), "duas coisas me preocupam na vida: a verdade do universo e a prestação que vai vencer".
Citaria diversas aqui (questões existenciais), mas teria que dar um mínimo de explicação sobre cada uma delas. Não tenho tempo.
Então vou falar apenas sobre uma. Sim é ele: o tempo.
Nem isso. Só vou postar aqui dois videos da mesma música gravados em épocas diferentes pelos mesmos protagonistas (no caso apenas o cantor e um dos tecladistas).
A canção fala por si, no entanto o hiato de tempo em que foram registrados talvez mostrem em suas entrelinhas e nos rostos dos dois, mais respostas que a própria música.
Mas tem que "filosofar" para entender e se emocionar sobre o que significa a passagem do tempo, de não sermos eternos, muito menos jovens para sempre.

A banda alemã Alphaville conseguiu razoável sucesso no ano de 1984 com o lançamento de seu primeiro disco. Conseguiram emplacar três músicas como sucesso mundial, sendo o maior deles esta melódica balada "Forever Young".
O grupo fazia parte da geração "Synthpop", que explorava as facilidades dos novos sintetizadores digitais.
Se o primeiro vídeo mostra-os na fase áurea da juventude, o segundo é o registro ao vivo da comemoração dos 30 anos de lançamento da música, já em 2014.
Como se vê, para eles também não foi possível permanecer eternamente jovens, mesmo com o "hino" fazendo essa exclamação (e interrogação). Também não viverão para sempre.
Emblemático assistir a esses dois momentos e entender a letra da canção (a tradução está no segundo vídeo).

Depois que completei meio século de vida, a questão existencial do passar do tempo e da vida tornou-se um foco pelo qual de vez em quando debruço minha lupa de questionamentos.
Um fato recente veio reforçar isso. Com a ajuda das redes sociais conseguimos reunir 37 anos depois(!) o grupo de amigos que se formou na Escola Técnica no ano de 1978. Foi um acontecimento marcante, inédito e histórico para todos nós. Rever os amigos tantos anos depois (quase quatro décadas!) foi acima de tudo emocionante.
Mas despertou aquela série de perguntas sobre os caminhos pessoais que foram trilhados e a ação do passar do tempo em cada uma daquelas existências, agora maduras, não mais os jovens sonhadores de 1978. O que é, afinal, o processo natural do existir.

Nos dois registros de "Forever Young" não encontrei respostas, apenas uma irônica constatação do óbvio: elas não existem. Precisamos viver apenas. Não eternos jovens, mas com um espírito jovem e uma visão de acordo com o momento que estamos vivendo.
Vivenciar o presente - nem que ele seja a contradição de cantar um refrão como "Eu quero ser eternamente jovem" ou "Você realmente quer viver eternamente?" - aos cinquenta e poucos anos.




sexta-feira, 22 de maio de 2015

Rumores e Boatos: a confusa (e incrível) história da gravação de um dos melhores discos da história da música Pop

 
Casamentos, relações, rompimentos, problemas, música. A arte imita a vida. A vida imita a arte.
Existem muitas histórias inusitadas envolvendo a produção musical dos últimos 50 anos.
Uma das mais incríveis foi a da gravação do disco "Rumours" do grupo anglo-americano Fleetwood Mac, lançado em 1977.
Esta banda existia desde fins dos anos 1960 e passou por diversas mudanças de formação e estilo. Só as histórias de como essas mudanças ocorreram já daria um longo e ótimo artigo - o que mostra a tendência da banda para tudo o que era fora do rotineiro -  mas vamos nos centrar agora apenas no citado disco.
A história da gravação do álbum ganhou notoriedade e atravessou décadas por um motivo especial: é considerado pelos críticos um dos melhores discos da história do Pop/Rock, sendo incluído em qualquer lista de "Discoteca Básica". Além disso, o LP vendeu mais de 40 milhões de cópias(!) e colocou, no mínimo, quatro músicas nos Top Charts dos EUA e Reino Unido, fato só superado pelos Beatles até então.
Mas o que aconteceu durante a gravação de "Rumours"? Muitos rumores e muitos fatos reais que impossibilitariam a sua gravação. No entanto não só ele foi gravado como é considerado até hoje uma pequena obra-prima Pop.
Conclui-se que as dificuldades, os fatos ruins, a forma como teve de ser feito, foi o motor que resultou naquelas canções.
O grupo então era centrado em dois casais: o baixista John McVie e a tecladista e vocalista Christine McVie; o outro casal era o vocalista e guitarrista Lindsey Buckingham e a vocalista Stevie Nicks.
Completava a banda o baterista Mick Fleetwood.
Fato 1: quando entraram em estúdio para gravar "Rumours" o casal Buckingham/Nicks estava se separando e de forma litigiosa. Quase não se falavam e havia um clima horrível entre eles.
Fato 2: embora ainda não oficialmente o outro casal, John e Christine McVie, também estava passando por sérios problemas conjugais.
Fato(s) 3: Muitos boatos que nunca foram devidamente esclarecidos. Alguns deles:
Foto promocional de 1977
- O baterista Mick Fleetwood era casado com Jenny Boyd. Quem? Trata-se da irmã mais nova de Pattie Boyd. Quem? Aquela que foi pivô da celeuma envolvendo a paixão de Eric Clapton por ela. Que então era casada com o beatle George Harrison, melhor amigo de Eric... (outra história complicadíssima que já contei no Blog do Luiz Felipe Muniz, cliquem no link para ler). E aí? A Jenny também estaria naquele período apaixonada pelo melhor amigo de Mick! Eles tinham então dois filhos bem pequenos.
- Talvez por isso, fala-se que Mick Fleetwood estava tendo caso com a vocalista  Stevie Nicks. Lembrando: que era casada com o amigo guitarrista Lindsey Buckingham, da mesma banda!
- Contribuindo para a confusão ou como fuga dela, drogas eram consumidas aos quilos por todo(a)s no estúdio durante todo o período de gravação e mixagem do disco. Ao que parece eles só conseguiam compor e gravar em conjunto movidos à substâncias químicas, pois fora isso mal se dirigiam uns aos outros e quando se dirigiam entravam em rota de colisão.
Mac: "a banda chegava por volta de sete horas da noite, faziam uma grande festa particular com convidados até uma ou duas da manhã e então, quando eles já estavam exauridos e doidões, começavam a gravar"
Fica então o mistério insondável: como conseguiram compor e gravar músicas tão lindas neste estado de coisas?
Stevie Nicks
"Cada música, cada frase, mantém sua crueza e seu poder emocional imediato, razão pela qual 'Rumours' tocou num nervo exposto quando de seu lançamento em 1977 e tem,  desde então, transcendido sua Era para tornar-se um dos maiores e mais atraentes álbuns de música pop de todos os tempos." (Stephen Thomas Erlewine, o editor do site especializado Allmusic).
Wikipedia: "Em 2004, a revista especializada on line Slant Magazine elogiou o Mac por transformar frustrações românticas e turbulências pessoais em "um clássico eterno". Em 2007, a crítica Daryl Easlea, da BBC, considerou o resultado sonoro do disco como "quase perfeito", "como um milhar de anjos beijando você suavemente na testa".
Em 2004, a revista norte-americana Rolling Stone colocou Rumours no 26º lugar em sua lista dos 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos e, na sua avaliação do disco, diz que o Fleetwood Mac "transformou um tumulto privado numa brilhante e melódica arte pública."
Esse disco foi lançado no Brasil no ano seguinte de sua produção, em 1978, há exatos 37 anos. Me lembro que na época algumas músicas alcançaram sucesso nas rádios, sobretudo "Dreams" e "You Making Love Fun". Naquele período o que tinha mais destaque eram os sons "discoteque" e embora essa não fosse uma produção da "Disco Music" as citadas músicas - por sua batida rítmica - foram muito tocadas nas festinhas e boates. Good times...
Para finalizar, uma informação interessante: 38 anos depois de toda essa história - 37 depois da separação - o Fleetwood Mac está agora, em 2015, reunido, realizando shows!
Quem diria. Ao que parece a vida vai dando a dimensão correta de cada coisa com o passar do tempo.
Vida que passa...
Depois de tudo, depois de tanto tempo, em 2015... (é impressão minha ou há uma simbologia na foto com a Stevie Nicks abraçada com Buckingham e com o braço direito em direção à Mick Fleetwood?)







Dreams (trecho)
"Agora vem você de novo
Você diz que quer sua liberdade
Bem, quem sou eu para te impedir
Está certo, você deve jogar do jeito que tem vontade
Mas ouça com atenção o som da sua solidão
Como o bater do coração...que te deixa louco
Na calmaria da lembrança do que você tinha
E do que perdeu...

Só há trovões quando chove
Jogadores só te amam quando estão jogando
Dizem...
Mulheres...elas virão e irão
Quando a chuva te molhar você saberá..."

Don't Stop (trecho)
"Se você acordar e não sentir vontade de sorrir
Ainda que isso leve apenas um momento
Abra seus olhos e olhe para o dia
Você verá as coisas de uma maneira diferente

Não pare de acreditar no amanhã
Não pare, logo ele estará aqui
E será melhor do que antes
Ontem já se foi, ontem é passado

Por quê não pensar sobre os tempos que virão
E não sobre as coisas que você têm feito
Se sua vida foi ruim pra você,
Simplesmente pense no que o amanhã fará

Não pare, acredite no amanhã
Não pare, logo ele estará aqui
E será, melhor do que antes
Ontem já se foi, ontem é passado

Tudo o que eu quero é te ver sorrir
Ainda que por apenas um momento
Eu sei que você não acredita que isso é verdade
Eu nunca lhe desejei nada de ruim"

E olha eles aí, se reencontrando em 2015! 
Vídeo gravado (da plateia) no mês passado em Vancouver, Canadá.
E viva a união, a reconciliação, a tolerância e a alegria provocada pela música!
Que bom que tiveram essa iniciativa, antes que não pudessem mais.


terça-feira, 19 de maio de 2015

Curta-Metragem - Lila, sua arte e imaginação: corrigindo as pequenas coisas do nosso dia a dia


Interessante e belíssimo curta-metragem.
Lila, através dos seus desenhos e pinturas (poderia ser fotografia ou escrita), constrói um novo mundo, ou melhor, corrige o que vê em seu dia a dia.
Cria alternativas positivas usando sua imaginação e seu dom.
Sensível produção do argentino Carlos Lascano (42 anos), com a jovem atriz Alma Garcia e música da francesa Sandy Lavallart.
Vale a pena "perder tempo" assistindo os 9 minutos de duração do filme.

sábado, 16 de maio de 2015

Loucos nossos de cada dia

A famosa frase do "profeta"
Sempre tenho muitas pendências à resolver (mas quem não tem?) e as manhãs de sábado eu costumo reservar para - entre outras coisas - ir ao comércio que costuma fechar as portas por volta das 13 horas.
Mas o dia amanheceu 'outonalmente' fechado com uma chuva fina e leve queda na temperatura.
Resolvi então ir ao barbeiro cortar o cabelo. Poderia dizer "cabeleireiro", mais chique, mas eu vou é no barbeiro mesmo, o Ricardo, estabelecido umas três ou quatro quadras de minha casa.
Dispensei o carro pois a chuvinha tinha dado uma trégua e, no caminho, me deparei com um daqueles loucos inofensivos, fechado em seu mundo próprio.
Caminhava segurando um pequeno rádio de pilha que nem sei se funcionava e uma antiga revista. Falava algo que não consegui entender. Sorria.
Eu fui pensando nele. Sobre o que é realidade, normalidade, loucura. Quem hoje pode ser considerado "normal" ou que é a realidade? Referências existenciais ao modo de "Matrix".
Quase todas as cidades tem os seus loucos famosos. Seja um pequeno arraial do interior ou uma metrópole.
Me lembrei de um do Rio, que ficou bem famoso. Tema de teses, livros, camisetas, música e polêmicas. Trata-se do "Profeta Gentileza". Ele nos traz à mente a frase "gentileza gera gentileza" e a camisa e aos logotipos quase tão famosos como os de Che Guevara.
Uma vez a prefeitura, sob o comando do Cesar Maia, mandou pintar os muros em que o Gentileza tinha registrado as suas frases positivistas, o que gerou protesto e uma linda música da Marisa Monte. O prefeito voltou atrás e investiu na preservação da memória afetiva do profeta.
Ocorre que, pelo que andei pesquisando, o Gentiliza não era tão gentil assim. Incomodava as moças quando vestiam uma roupa mais curta ou tentava doutrinar à força as pessoas. Não sei. Só o vi uma vez, de longe.
Estava nesse ritmo quando cheguei ao barbeiro e tive que esperar um pouquinho. Procurei algo para ler e lá estava o jornal O Dia de hoje. Verifiquei que na página 2 tinha uma crônica do inimitável Jaguar, e não é que o título era "Malucos do Rio"? Coincidência?
Trata-se de texto leve. Não mergulha na questão existencial que levantei. Para isso terei que voltar a alguns filósofos. Ou não. Melhor ficar só com a leveza do Jaguar e uma taça de vinho ou copo de cerveja nesta leve tarde-noite de sábado chuvoso.
Vinho e cerveja que o Jaguar gostava tanto mas agora teve que parar por recomendações médicas. Gentilmente.

Jaguar
Jaguar: Malucos do Rio
Rio - "O primeiro que conheci foi nos anos 50, quando estudava no Colégio Ruy Barbosa, numa rua perto do Largo do Machado. O Camundongo morava num carro de puxar, de duas rodas, um burrinho sem rabo. Estacionava a ‘residência’ no Largo. Com latas, lonas, caixotes e placas de zinco amarrados com arame, construiu uma espécie de labirinto. Hoje poderia exibir como instalação e até ser premiado na Bienal. Fazia jus ao apelido: miúdo, olhos matreiros, bigodinho ralo, passava horas no bojo da geringonça. Dormia lá, às vezes saía fumaça cheirando a fritura

Outra figura era o Homem-Éter, perambulava pelo Posto 5 de Copacabana. Ao contrário do Camundongo, era um sujeito grandalhão. Carregava sempre uma garrafa com éter, que cheirava o tempo todo. O cheiro o precedia; antes de dobrar uma esquina, sabíamos que estava chegando. Os dois não falavam com ninguém, nem para pedir nem para agradecer as esmolas, mas eram tranquilos e não incomodavam. Já a Preta da Cobra falava pelos cotovelos.

Circulava pelos bares do Leme, vestida de baiana, com uma jiboia enrolada no pescoço. Se oferecia para ler na palma da mão a sorte dos bêbados de plantão. Poucos ousavam recusar. Eu devia ter bebido todas quando disse que não estava interessado no meu destino. “Morde?”, perguntei. “Não, é mansa, criada em casa.” “Pago o dobro para enrolar no meu pescoço.” Quase me dei mal. Pensei que ia picar a mão que segurava o copo. Fiz um gesto brusco e quase fui estrangulado. A baiana me salvou da bichona: “Ela gosta de cerveja, você a assustou.”

Não sei que fim levaram os três, mais a jiboia. O Homem-Éter deve ter explodido quando alguém acendeu um cigarro perto dele.

Outros, tidos como malucos, são conhecidos. Não posso deixar de falar no Gentileza, que até virou samba-enredo da gloriosa Portela. É considerado como filósofo e autor de frases memoráveis (tudo baboseira, coisa de 171). Chegaram a escrever livros e teses sobre ele. Sempre o achei um chato de galochas. Uma vez, na barca da Cantareira, dei-lhe um chega pra lá quando tentou me doutrinar (antes da Igreja Universal).

E, zanzando pelo Leblon, a Mulher de Branco (procure no Google), maluca-beleza que foi top model, amiga e vizinha do Tom Jobim, ex-mulher de Marcos Valle. Agora se veste de azul por causa de uma música de Wilson Simonal. Mudou para pior, pelo menos de compositor. De fino trato, é querida no bairro. E é só. Alguém conhece outros malucos-beleza? Cartas para a redação."
Fonte: O DIA