Crônicas, Copa & Antibióticos

A última crônica que postei neste espaço escondido foi no dia 28 de março. Quase três meses. Assim fica difícil manter um número minimante digno de leitores fieis. Acabam por esquecer até que eu existo, dado a profusão de informações bombardeadas a cada segundo neste mundo líquido, como diria Zygmunt Bauman. Poderia dar algumas explicações deste atraso, mas ninguém estaria muito interessado, afinal todos estão também sem tempo. Assim, além de cronista amador, assumo o termo "bissexto" para designar minhas pseudo intervenções literárias. Conto-lhes portanto apenas algumas pílulas em tempos de inverno viral.

Em abril tomei a vacina contra gripe. Influenza para os íntimos. No Posto de Saúde a atendente me olhou desconfiada, por um motivo que deixa feliz qualquer cidadão na minha situação: "a vacina é apenas para quem tem mais de 60 anos. Me mostre sua identidade por favor". Saquei do documento. Ela me olhou de volta. "67? Poxa!" Mas devo ser sincero e confessar algumas características: eu estava de boné que ia até a altura dos olhos, óculos escuros opacos design Ray-Ban, barba bem aparada, t-shirt preto com estampa de banda de Heavy Metal. Ajudavam também as tatuagens no braço e as pulseiras que sempre uso. Ou seja, de idade um tanto quanto indecifrável por causa do disfarce. Entrei na fila dos velhinhos, olhando para o lado com cara de malvado, como canta Roberto Carlos em uma canção de 1964 chamada "O Calhambeque" que vocês nunca ouviram falar. Fiquei protegido de três Cepas (epa!),  H1N1, H3N2 e Linhagem Victoria. Essa terceira me pareceu mais simpática. Tem uma quarta, mais rara, chamada Linhagem Yamagata, uma senhorinha respeitável provavelmente vinda do extremo oriente, mas que não consta desta aplicada pelo SUS.

Na semana passada comecei a ter os típicos sintomas de uma rinite que costuma aparecer sempre que há uma mudança extrema do tempo. Nada de mais. Já sei o que fazer quando acontece e logo passa. Mas desta vez não. Fui obrigado a incomodar minha otorrinolaringologista feríssima - com uma consulta não programada - que me acompanha desde sempre, com sua infinita paciência e amizade. Na ausculta pulmonar veio o diagnóstico: estava com secreção naquela área. Com a rinite veio a gripe que facilitou a disseminação de bactérias. Não sei se nessa ordem. Mas eu não tinha tomada a vacina doutora? Pacientemente me explicou que vacina previne formas mais graves, evitando maiores complicações que exigiriam internação, mas não a doença. Ok. Mas eu desconfio que foi aquela citada do extremo oriente que me atingiu e que não fazia parte do esquema vacinal. Minhas teorias sobre tudo. Minha médica não liga pro que que eu falo e faz ela muito bem. Não tem jeito, tinha de ser antibiótico mesmo. Novamox 2x: Amoxicilina 875 mg / Clavulanato de Potássio 125 mg. De 12 em 12 horas por 7 dias. Aviso aos hipocondríacos de plantão: não tentem comprar. É só com receita que fica retida.

Jogos do Brasil na Copa e eu não poderia beber? Eu nem fiz essa pergunta, a doutora amiga já avisa. Pode beber, mas só um pouquinho porque o álcool prejudica a absorção do antibiótico (não corta o efeito, como muitos dizem). Mas o que é um pouquinho? Quantas canecas de Chopp, quantas taças de vinho, quantas doses de cachaça? Não que eu seja um pinguço, muito pelo contrário, mas é que essa seleção está exigindo altas doses de calmantes alcoólicos para controle da emoção e do ódio por tantas falhas. Não por culpa do técnico. O cara é bom. Mas precisa de tempo e de novos jogadores. Talvez 2030... Tomara que eu me engane e consigamos chegar lá desta vez. Voltando às bebidas optei por comprar algumas garrafas long neck de cerveja sem álcool. Até que melhoraram de qualidade e o sabor se aproxima muito das reais. Mas, convenhamos, a experiência é incompleta. Como beber café sem cafeína. Fazer o que...

Madrugada de sexta-feira. Me esposa acorda por volta das 5 da madrugada. Vai sair para participar da procissão da Novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Chuva fina. Temperatura por volta dos 14º. Ela diz que se lembra do período em que eu enfrentava essa rotina diariamente para ir ao trabalho em outra cidade. Sempre me perguntam se sinto saudades dessa época. A reposta é não. Principalmente considerado invernos, madrugadas frias, chuva, gripes e antibióticos. O que não significa estar fora do campo de jogo. Permaneço dentro das quatro linhas, como dizia um determinado energúmeno que chegou a ser presidente em uma determinada república ao sul da Linha do Equador. No caso, o sentido que aplico é o de continuar em plena atividade laboral.

Há poucos meses recebi honroso convite para fazer parte de chapa que concorreria ao comando do Sindipetro Norte Fluminense, um dos maiores e mais importantes Sindicatos do país. Por se tratar de um fantástico grupo de pessoas que logo adquiriu minha admiração e amizade, aceitei o desafio de somar forças. A chapa foi eleita e a posse será no próximo mês. Eventualmente terei de encarar madrugadas frias em deslocamentos necessários para buscar a defesa dos interesses dos trabalhadores e aposentados. Além disso este ano tem eleições... Mas aí será em outro nível de entusiasmada dedicação. E, se eventualmente a rinite atacar, sempre terei o contato direto com a otorrino. De preferência sem antibióticos, por favor!

Postado por Marcos Oliveira em 19/06

Comentários

  1. Que bom estar de volta com suas deliciosas crônicas Marcos. Melhoras para você!

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  2. Rapaz, melhoras. Tem muita gente gripado e eu também. Só não consigo fazer uma crônica sobre isso. Hahaha... Parabéns e boa sorte no novo desafio do sindicato.

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