Adorno & Horkheimer
1.1
Adorno é "qualquer objeto, acessório ou elemento utilizado para enfeitar, embelezar ou ornamentar pessoas ou ambientes". Atualmente não é termo amplamente utilizado. Usa-se de forma mais direta o que se pretende utilizar. Decorar ambientes em arquitetura. Utilizar jóias, roupas e maquiagem. O verbo adornar no momento é vintage. Mas essas coisas antigas sempre voltam a ficar na moda, como diria Friedrich Nietzsche em sua teoria do eterno retorno (atenção: isso é uma piada!).
1.2
A TV Globo voltou a transmitir o Campeonato Mundial de Fórmula 1. Enquanto estava na Band parecia que isso não existia mais: a venus platinada ignorava solenemente o esporte. Agora que comprou os direitos novamente parece que só isso importa. É fato que desde a morte do Senna os brasileiros se desligaram mesmo. Mas essa estratégia não é nova. Lá pelos idos da década de 80 a Globo comprou os direitos de transmissão do Live Aid, um mega concerto de rock beneficente que aconteceu em Londres (Wembley) e Filadélfia (JFK Estadium). Foi assistido ao vivo por cerca de 1,5 bilhão de pessoas no mundo. Menos no Brasil. A Globo comprou só para que outra emissora não transmitisse, atrapalhando sua grade de programação (o concerto durou o dia todo e à noite). Na época fiquei indignado. Quando se fala em circuitos de Fórmula 1 me lembro de um que existe na Alemanha, pois o mesmo atravessava uma linda floresta, chamada Floresta Negra. Achava incrível. Chama-se Hockenheim. Atualmente o autódromo só abriga corridas do DTM (Deutsche Tourenwagen Masters), o campeonato alemão da fórmula turismo. E o traçado foi mudado. Não cruza mais a mata. Atitude correta em tempos de luta pelo meio ambiente.
2.1
Ao longo de décadas um dos questionamentos mais presentes em minhas divagações era sobre a evolução humana. Explico. Porque o desenvolvimento científico e tecnológico não é acompanhando de um avanço nas questões do respeito à dignidade humana, do respeito mútuo, da empatia, da busca por uma paz coletiva, de direitos e oportunidades iguais? Uma coisa que era para impulsionar a outra parece produzir o contrário, talvez aplicando por vias tortas uma versão da Terceira Lei de Newton, da ação e reação. Como explicar as guerras, o ódio às diferenças, o sentimento de vingança, racismo, fascismo, xenofobia e tantos outras atitudes soturnas em um mundo tão esclarecido pelas ciências exatas e humanas?
2.2
Certa feita (locução adverbial de sabor antiquado) ouvi sobre a Escola de Frankfurt. Não me perguntem quando nem onde, uma vez que a utilização de metade de um comprimido de ansiolítico por longo período prejudica a memória. Sei que foi muito antes da era da Internet. Falaram primeiro sobre Adorno e depois Horkheimer. Pensei que o primeiro era um especialista em decoração e o segundo, o que deu nome ao autódromo alemão. Estão achando que é sacanagem? Sério!
3.1
A Escola de Frankfurt foi criada lá pela década de 1920 por um grupo de cientistas sociais. Funcionava no Instituto para Pesquisa Social, um anexo da Universidade de Frankfurt (atual Universidade Johann Wolfgang Goethe). Sua estratégia teórica consistia em unir aspectos das idéias marxistas, ensaios de filosofia existencialista, sociologia, comunicação, psicanálise e outras disciplinas. O principal legado foi a Teoria Crítica ("a racionalidade ocidental se transformou apenas em um meio para dominar a natureza e os homens, focada na eficiência e no lucro, em vez da liberdade") que trabalhou analisando o capitalismo, a indústria cultural e a dominação social, combinando marxismo, psicanálise freudiana e filosofia. Entre seus luminares estão nomes que deixaram um legado para entender melhor o Século XX e que permanecem extremamente atuais: Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Erich Fromm e Jürgen Habermas (que faleceu semana passada).
3.2
Dois destes - Adorno e Horkheimer - escreveram em conjunto um livro que responde, pelo menos parcialmente, a questão por mim levantada no parágrafo 2.1. Se não lembrarem do que escrevi e precisarem ler de novo é sinal que seus HDs estão piores que o meu! Trata-se de "Dialética do Esclarecimento" (224 páginas, Editora Zahar), escrito no início da década de 1940 quando estavam no exílio por conta da segunda guerra mundial. Nesta obra, os filósofos defendem que houve um "desencantamento" com o mundo por conta do esclarecimento. Os mistérios e mitos deixaram de existir quando a ciência comprovou que muitas crenças mágicas e sobrenaturais como, por exemplo, o medo do "castigo Divino", eram fruto da imaginação. Em recente aula Filipe Boni mostra que para os autores esse esclarecimento poderia gerar dois caminhos: a liberdade humana ou à regressão com crescimento do autoritarismo, da dominação, da barbárie. Ao que parece o segundo caminho tem vencido. Lembre-se que o livro foi escrito em plena ascensão do fascismo, momento que os autores denominaram de "eclipse da razão": a razão que era para servir às pessoas parece ter se voltado contra elas. Lembrando que razão em filosofia significa "capacidade intelectual humana de pensar, ordenar, julgar e compreender o mundo de forma lógica, abstrata e consciente". Assim, três situações na época comprovavam a teoria da dominação: Nazifascismo na Europa, Stalinismo na União Soviética e Capitalismo das massas nos EUA (Industria Cultural). A destruição dos mitos promoveu a autodestruição do esclarecimento e que se mostra agora com toda força na figura da extrema direita. Em suma, o progresso técnico não garante o progresso moral, ético, de respeito às diferenças, de empatia, de preocupação com o direito de todos terem acesso às mesmas oportunidades, com o reconhecimento do sofrimento. Pelo contrário, ele (o esclarecimento, o conhecimento) parece fornecer mais instrumentos para a barbárie. Não é portanto uma obra cheia de otimismo mas chama atenção para o necessário reconhecimento do problema no sentido de salvar o esclarecimento de si mesmo e consequentemente, salvar a própria espécie humana.
4.1
Ora questionareis: ensaio filosófico por aqui? Foi mal. Sei que o parágrafo anterior ficou confuso pra caramba e eu não consegui descrever a contento o que gostaria. Na verdade não é minha praia, isso fica claro. Porque não deleto então e começo de novo? Sei lá. Vou deixar assim mesmo. Desculpem. Mas acho que dá pra salvar alguma coisa. No máximo fica a dica do livro. Como professor de filosofia deveria eu ter ficado com adorno de festa e a pista de Fórmula 1 mesmo. O fato é que não dá para ficar imune às agruras de nosso tempo. Basta ver o noticiário. Neste mesmo livro os autores fazem um ensaio sobre como e porque muitas vezes a estupidez triunfa. Nelson Rodrigues em uma de suas históricas tiradas afirmou que "os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos". E tem outra famosa dele sobre a mesma temática: "outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores". Pode-se dizer, anos depois de Nelson e dos dois de Frankfurt que eles continuam sendo porta vozes do nosso tempo.
4.2
Início da tarde de sábado. Digito este último parágrafo no celular. Pela grande janela olho o sol e os carros que passam lá fora. Na sala de aula o ar condicionado marca 23⁰ C. Dois jovens alunos fazem as provas nos computadores. Buscam seu diploma superior, seguindo seu caminho na luta pela realização profissional, com esperança e dedicação. Mais uma vez dou uma olhada em trechos da obra de Adorno e Horkheimer. Por esses jovens, por um bom futuro, vale a pena seguir o conselho de Paulo Freire e conjugar o verbo esperançar: levantar-se, agir, construir alternativas e não desistir!
Ilustração: Wassily Kandinsky, "Delicate Tension. No. 85", 1923.
Postado por Marcos Oliveira

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