Sonhos

"Sonhos", de 1990, é um dos filmes mais icônicos de Akira Kurosawa. Contém oito contos baseados nos sonhos do próprio cineasta. Isso é apenas uma lembrança que me veio quando começo a escrever esse texto. Não pretendo fazer uma análise da obra do genial japonês. Mas recomendo. Faço apenas uma ilação porque tenho sonhado muito nos últimos dias, ou melhor noites. O que não deveria ser motivo para uma crônica pois todo mundo sonha o tempo todo no mundo.

Mas, no meu caso não. Sonhava todas as noites na infância e adolescência. Depois foram rareando, até quase sumirem. Na verdade, segundo a ciência, eu continuo sonhando mas o fato é que deixei de lembrar dos mesmos. Mesmo quem sempre lembra, trata-se apenas de registros conscientes parciais. A maioria fica no inconsciente mesmo. Segundo a Inteligência Artificial (PhD), "sonhamos porque o cérebro, durante o sono, processa informações do dia, consolida memórias, regula emoções e simula cenários para nos preparar para o futuro, funcionando como um "terapeuta noturno" que reorganiza experiências e ajuda a resolver problemas de forma criativa, embora a função exata ainda seja um mistério científico". Então tá.

Já meu amigo Carl Jung tenta desvendar esse mistérios alegando que "os sonhos revelam não apenas desejos inconscientes, mas também mensagens do inconsciente coletivo. A interpretação dos sonhos é uma forma de integrar os aspectos conscientes e inconscientes da mente, promovendo equilíbrio e crescimento pessoal". Acho que Jung, em seus estudos e conclusões, margeia aspectos filosóficos e espirituais. 

Desvendar o significado dos sonhos tem sido um desafio não só para a ciência mas também para todo tipo de "parapsicologia", incluindo aí aspectos místicos como, por exemplo, exercícios aplicados de futurologia do indivíduo. Lá pelos idos da década de 1970 foram lançadas muitas obras que explicavam esses mistérios insondáveis. Tinha inclusive um especialista que fazia muito sucesso em um programa radiofônico matinal. As pessoas mandavam o seu sonho e o expert dizia o que significavam. O programa era Haroldo de Andrade e o senhor dos sonhos era o Pedro de Lara que depois fez sucesso como um histriônico jurado da Discoteca do Chacrinha.

Aliás, o período que vai de meados dos anos 60 até metade da década de 1990, mais ou menos, foi de avanço das ciências alternativas, das místicas orientais, das ideias holísticas, da New Age, Era de Aquarius, religiões alternativas, sociedades idem (segundo Raul Seixas) etc. Mas aos poucos isso foi perdendo força. Desconfio que tem a ver com o avanço da Internet e com o domínio comunicativo do neopentencostalismo. Uma pena. Parece que o mundo ficou monocromático no que se refere à busca e vivência de aspectos filosóficos. Anos antes Jonh Lennon já decretara: "O sonho acabou". Ao que os gaiatos retrucavam que bastava ir em outra padaria.

Sonhos e desejos sempre se confundiram. Inclusive na música. O disco "Rumours" de 1978 do grupo Fleetwood Mac tornou-se um clássico pela qualidade de suas músicas e porque nelas os dois casais que formavam a banda descreviam o processo de separação matrimonial que estavam atravessando. Em "Dreams" retratam: "Sou só eu que quero / Me envolver nos seus sonhos e / Há algum sonho que você queira vender? / Sonhos de solidão".

Os sonhos recentes que me encaminharam para este tema, que não é lá tão interessante assim, convenhamos, dizem respeito à lembranças e ao mesmo tempo, quem sabe, destinos a serem cumpridos. Vislumbres do futuro em flashes do passado? Ou não terão significado algum? Pouparei o precioso tempo do estimado leitor evitando entrar em cansativos detalhamentos dos mesmos. Cada um que cuide dos seus preciosos devaneios sonolentos. Até porque eu não sou o genial Kurosawa.

Mas há histórias reais que acho interessante contar. Pelo menos por mera curiosidade. Na década de 1990 eu precisava de alguém com bagagem espiritualista para escrever sobre New Age Music na minha publicação Metamúsica. Difícil conseguir mas foi uma grande descoberta achar em São Paulo o Professor Wagner Borges, um escritor que havia criado o Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas. Impossível neste curto texto descrever sua incrível trajetória, que tem mais de 15 livros publicados. Mantive contato, gentilmente aceitou o convite para ser colaborador do jornal onde escreveu excelentes ensaios sobre música e aspectos espirituais.

Tive muitas conversas com o Professor Wagner, ele me enviou alguns de seus livros. Um dos temas era projeciologia ("ciência que estuda a projeção da consciência, também conhecida como experiência fora do corpo - EFC - ou viagem astral, analisando como a consciência se desprende do corpo físico e atua em dimensões não físicas, buscando autoconhecimento e evolução pessoal sem misticismo, com base em autoexperimentação e pensamento crítico"). Desde adolescência ele tinha essas experiências e resolveu estudá-las, tornado-se um dos maiores especialistas mundiais no tema.

Segundo ele eu poderia ter a experiência de um sonho consciente de forma bem simples, usando técnicas descritas em seus livros. Em resumo, você dorme e começa a sonhar. Mas não da forma "clássica". Ao pegar no sono a consciência se desprende do corpo. Seu corpo dorme mas sua essência mental está acordada viajando por qualquer ponto que queira ir. Seu quarto, sua casa e depois a cidade e o mundo. Mas tinha um problema, pelo menos para mim. É que nessa viagem astral a pessoa se encontra com outros viajantes e também com todo tipo de espírito que estiver rondando a área. E pode dar um azar de não conseguir retornar. Pois eu segui as instruções e não é que começou a funcionar conforme ele descreveu... Mas não pensem que vou fazer aqui uma revelação bombástica sobre essa experiência. Antes procurei me informar: e se, na hora h eu desistir, como faço para acordar? Bastaria mandar uma ordem para o dedo indicador se mexer! Pois é. Amarelei. Vai que o "cordão de prata" que une o espírito/consciência ao corpo se rompesse! Desisti e a estratégia funcionou. Nunca mais! Enfim, é isso. Muito viajante essa história? Coisa do mundo dos sonhos.

Esta semana assistimos ao terceiro filme da saga "Avatar". Uma deslumbrante realização cinematográfica visual e sonora. No entanto é um momento singelo que mais emociona: a capacidade de conexão direta que os habitantes do planeta tem com os animais e as florestas, incluindo a ligação através de sonho/transe com a Deusa Suprema e com os espíritos dos que já se foram e habitam uma outra dimensão. Tudo faz parte de um todo em equilíbrio. 

Este é o ponto. Precisamos da magia do sonhar. Dormindo ou acordados. Do real e do imaginário. Sim. Todo o decorrer desta crônica sobre sonhos tem a ver com uma coisa bem simples: neste início de ano sonho que vocês, caros amigos leitores, realizem seu melhores sonhos. Sonhemos juntos por um mundo mais justo, por saúde e bênçãos para todos. Obrigado pela companhia em 2025. Continuemos viajando juntos em 2026! Feliz Ano Novo!

Postado por Marcos Oliveira

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