quarta-feira, 30 de maio de 2018

Roberto Carlos em Ritmo de Vanguarda

Roberto Carlos: de um lado Chico Buarque e do outro Geraldo Vandré (que na época lembrava fisicamente um pouco o Jerry Adriani). Foto de 1966.
Em um dos grupos de WhatsApp que participo (hoje quase todos estão em grupos
de redes sociais, meio de comunicação marca desses tempos), sobre Artes & Histórias, houve uma discussão interessante sobre o Roberto Carlos.
Em época de tantas crises, discutir importância do "rei" parece ser coisa um tanto quanto fora de sincronia. Mas é justamente isso que nos faz conseguir atravessar esses dias caóticos e inseguros.
Como já disse Friedrich Nietzsche, "a arte existe para que a verdade (realidade) não nos destrua".
Então, como um pouco de abrigo da realidade lá fora mas não fugindo dela, eis-me aqui falando do Roberto.
Não participei da discussão citada. Fiquei só lendo os posts de três ou quatro amigos. Meu silêncio foi porque estava ocupado com outra coisa e porque minha opinião era de concordância com todos os pontos discordantes e seria bem complicado explicar isso naquele momento. E continua sendo agora.
Uma corrente falava da importância inquestionável do "rei" e de sua longa obra. A outra relativizava isso: apenas um artista protegido dos meios de comunicação.
Antes do sucesso Roberto Carlos estava antenado com o que acontecia lá fora através da "Turma da Tijuca" do qual faziam parte Jorge Ben, Tim Maia, Erasmo Carlos e Lafayette, via The Sputinicks. Eles tocavam Litlle Richards e Elvis Presley entre outros. Considerando as dificuldades de conseguir discos do exterior e o fato das emissoras de rádio só tocarem samba-canção aquilo era um feito, pois estamos falando de 1958!
Com a separação do grupo - e se isso não tivesse acontecido provavelmente teríamos tido no Brasil uma das primeiras bandas de Rock da história, fora dos EUA e da Inglaterra - Roberto se bandeou pro lado da sonoridade da Zona Sul carioca, lançando um álbum de Bossa Nova. Apesar de continuar conectado com a vanguarda (neste caso brasileira) essa não era a praia dele.
Sua praia seria descoberta com a turma de São Paulo que fazia umas versões de músicas Pop/Rock dos Beatles, já por volta de 1963.
Nascia ali a Jovem Guarda, versão tupiniquim da Geração Beat inglesa. O problema é que - enquanto os ingleses e posteriormente os norte-americanos, evoluíam para a Psicodelia que geraria o Hard Rock e o Rock Progressivo, além da conexão com os movimentos de Contracultura - os "jovemguardistas" pararam no tempo e no espaço. Pior, perderam o bonde da história ao não tentar conectar o pop/rock com ritmos brasileiros. Quem pegou esse bastão foi o Movimento Tropicalista de Gil, Caetano, Tom Zé, Júlio Medaglia e sobretudo Mutantes.
Dizer que a Ditadura atrapalhou tem sua razão de ser mas, até o AI-5 ser decretado, dava pra fazer alguma coisa, como fizeram os Tropicalistas.
Roberto vem a se destacar musicalmente com seus discos de transição de 1968 e 1969. Ali reconhece que a Jovem Guarda "já era" e aposta em aspectos mais Rock e sobretudo Soul e Funk, provavelmente influência do Tim Maia que havia voltado de sua temporada nos EUA. Em um dos seus filmes, "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", tal tendência também já se faz sentir na escolha da trilha sonora (menos Jovem Guarda nas canções).
Já a partir de 1970 começa a mergulhar na música romântica que seria sequencia da curta fase "psicanalítica" de músicas autobiográficas como "O Divã", "Traumas", etc.
Com tantas referências, a melhor fase criativa de Roberto Carlos pode ser localizada entre fins dos anos 60 e primeira metade dos anos 70. Situado em uma linha imaginária divisória entre a MPB sofisticada de Chico, Milton, Gil e Caetano e os chamados "Bregas" representados por nomes como Odair José, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e muitos outros.
Dessa época não há registros de canções de cunho político de Roberto, tirando a famosa "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", uma homenagem secreta ao amigo Caetano que estava exilado em Londres.
Curiosamente, ao contrário que muitos pensam, não só os "sofisticados" foram perseguidos pela Ditadura. Também os bregas, por outros motivos, o foram, como bem relata o excelente livro "Eu Não Sou Cachorro Não - Música Popular Cafona e Ditadura Militar" de Paulo César de Araújo.
Voltando ao Roberto Carlos a de se reconhecer a excelência de muitas composições, arranjos e produção. No entanto analisar a música do rei deve passar por outras variáveis.
É fato que ele foi adotado pelos meios de comunicação populares mas não só isso explica seu destaque. Muitos outros o foram e sumiram na areia do tempo.
Além de canções de qualidade (mesmo estando fora dos "sofisticados") daquela época - reconhecidas por nomes como Caetano - há um fator primordial na perenidade da "realeza" de Roberto Carlos: a memória afetiva. Gerações tiveram momentos de infância, adolescência e juventude em que a trilha sonora (vinda em sua maioria das emissoras de radio AM) eram as músicas do Roberto, ainda me referindo ao citado período. Daí a explicação da manutenção da audiência de seus especiais de fim de ano. O repertório desses shows é primordialmente composto de canções dos anos 60 e 70 e público em sua maioria de mais de 40 anos.
Assim, é complexa a análise da música e do sucesso do "Rei". Fora do "gosto" "não gosto", ou "bom" e "ruim" há muitas variáveis que fogem de questões binárias.
De qualquer forma consigo imaginar um cenário diferente onde a música brasileira do período (fins dos anos 60), para além da Bossa Nova, conseguiria se inserir no cenário internacional como uma das mais importantes do mundo:
- Não existiria o AI-5
- Os Tropicalistas não debandariam e se conectariam com a Psicodelia
- Roberto Carlos entraria no movimento (como chegou a sinalizar em algumas canções dos discos de 68 e 69)
- Mutantes + Tropicalistas + Roberto Carlos unidos entrariam no Mapa Mundi da vanguarda psicodélica internacional e seriam até hoje referência de uma música sem fronteiras mas com jeito brasileiro único.
Essa seria uma realidade paralela, bem ao estilo do escrito de Ficção Científica Phillip K. Dick.
Mas fiquemos com o que temos hoje. Mesmo com todas as limitações Os Mutantes são reconhecidos no exterior como um dos mais importantes grupos dos anos 60. Talvez um dia o Roberto chegue lá também.


"Não vou ficar", de 1969, de Tim Maia. Percebam o estilo Funk / Soul presente. Isso pode ser considerado influencia Tropicalista.

"2001" de Os Mutantes, lançada no mesmo ano da canção acima, 1969. Mistura genial de música caipira brasileira e Rock Psicodélico.

Um comentário:

  1. Alice in Wonderland30 de maio de 2018 21:46

    Olá Marcos! Tá demorando muito publicar aqui no blog. Mas quando publica é sempre um tratado surpreendente! Essa visão do Roberto eu nunca tinha tido nem lido a respeito!!!
    Muito bom seu texto, como sempre!

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