segunda-feira, 23 de abril de 2018

Despedidas

Na semana passada eu estava chegando em casa de carro quando passei pelo Seu Francisco. Ele me acenou, com um sorriso.
Figura simples e gentil.
Atencioso, sempre disposto a uma boa conversa, onde contava as longas histórias de sua vida, muito interessantes.
Estatura baixa, poucos cabelos brancos, voz pausada e suave, olhar intenso e casos curiosos pra contar. Era um avô que todos gostariam de ter.
Precisava bater um agradável papo com ele, eu me cobrava. Quase não tinha tempo antes mas agora, aposentado, não tinha desculpa. Dias, semanas, meses se passaram e eu só no adeusinho enquanto o automóvel seguia seu rumo e ele acompanhando a trajetória.
Abri o portão automático da garagem, entrei com o carro e aquele pensamento de ir falar com ele naquele instante se esmaeceu. Atendi o celular, subi a escada, atravessei a porta.
No dia seguinte chega a notícia: Seu Francisco morrera naquela noite. Um enfarte agudo o levou. Além do triste golpe, algo a mais a pesar sobre meus ombros: a longa conversa que não tive. Deveria ter simplesmente parado o carro em frente à ele. Muito simples. Porque não fiz isso?
Eventualmente a vida prepara essas pequenas piadas sem graça e nos deixa com jeito de arrependimento, uma espécie de sentimento de culpa ou apenas a sensação das oportunidades perdidas.
Na volta de seu enterro, demos carona a uma outra vizinha. Viemos falando sobre o marido dela, que havia feito uns exames, constatando que estava tudo bem. Como todo bom brasileiro, gostava de eventualmente tomar umas caninhas do alto de seus 76 anos. Ao deixá-la em casa pedi que desse um grande abraço naquele outro vizinho de longa data e também gente boníssima.
Menos de uma semana depois, a repetição do mesmo evento a que todos nós estamos sujeitos a qualquer momento, a única certeza que temos. Lá se foi ele com sua alegria e ótimas frases.
Voltei à pouco de sua despedida.
Esse não é um tema agradável para uma tentativa de crônica em um final de feriadão. Mas serve para nos lembrar do óbvio ululante, como diria o Nelson Rodrigues.
Que cada segundo vivos estejamos efetivamente vivendo, com gratidão e atentos às oportunidade que nos são oferecidas, seja uma bela música, um pássaro voando, as nuvens no céu, momentos com a família e amigos, um livro que conta histórias, um filme que nos faça refletir ou simplesmente viajar sem sair da poltrona, a visão do mar, a presença de um animal...
Enfim, daqui a pouco tudo passou. Como meus vizinhos que se foram mas que continuarão para sempre em minhas lembranças. Pelo menos enquanto eu estiver por aqui.

2 comentários:

  1. Já passei por isso também amigo.
    Tocante a sua crônica. Força à todos. Um abraço fraterno do amigo aqui de SP.

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  2. Alice in Wonderland23 de abril de 2018 21:00

    Tocante mesmo. Bonito texto de fatos tristes. Bjs

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