quinta-feira, 13 de julho de 2017

Sobre orgasmos (sim, é esse o título)

Não é privilégio meu: todos andam reclamando da "velocidade do tempo". Duas medidas diferentes em uma só. Que, afinal, sempre andaram juntas.
Fato: não temos tempo de fazer tudo que precisamos ou gostaríamos.
Das obrigações ao prazer as coisas andam com os dias - ou os minutos - contados, cronometrados.
Quem aí não poderia enumerar uma série de demandas que aguardam na fila para serem concluídas?
Um leve exemplo: ler e escrever estão entre as minhas prioridades não realizadas à contento. Fica então aquela série de volumes (ainda não aderi ao Kindle) na estante, aguardando pacientemente sua hora. Pior são as idéias para um texto: surgem prontas na minha mente e desaparecem com a mesma facilidade porque naquele momento não dava para escrever. Um pseudo escritor de ideias não realizadas, eis aqui quem vos fala neste momento.
Existem umas estratégias que ando aprendendo no caso da leitura e da criação: apostar em textos curtos, sintéticos. Não como opção literária, mas como saída para amestrar o tempo. Meu e dos possíveis leitores.
E, já que citei essa palavra - amestrar - comento de passagem um desses livros não volumosos, de textos pequenos e leitura rápida. Mas que eu ainda não li todo...
Trata-se do curioso, bem-humorado e delicioso (com duplo sentido) "Amestrando Orgasmos" (Editora Objetiva, 200 páginas) do sempre ótimo Ruy Castro.
Nessas crônicas Ruy foi buscar em revistas científicas, reportagens policiais e curiosidades de pé de página, material verdadeiro para desenvolver suas observações irônicas sobre o nosso (pelo menos meu e dele, mas acho que de todos) interesse pelo tema.
Me lembro de uma personagem criada pelo Chico Anísio cujo jargão era "você só pensa naquilo...". Podemos até não pensar nisso o tempo todo mas enquanto tivermos interesse pelo tema com certeza as obrigações e o tempo não terão nos engolido por completo.
As histórias que conta são ótimas, bem humoradas quase um tratado sócio-psicológico sobre o assunto. Não "orgasmo" propriamente dito, mas a curiosidade sobre ele e os assuntos que o circundam languidamente. Afinal, sexo é vida, diria uma propaganda do Viagra. Muito sexo, mais vida ainda. E saber da vida dos outros sobre sexo é o que delicia não só a plebe rude mas qualquer categoria social e faixas etárias (mesmo depois dos 70, atualmente talvez até mais!).
Na crônica título, por exemplo, ele conta a história da escocesa de 54 anos que tinha orgasmos espontâneos e deu matéria na revista científica The Lancet: "Uma amiga minha, que me confidenciou ter tido apenas um orgasmo nos últimos oito anos, leu a respeito e ficou morta de inveja". A partir daí explora, as diferenças: "Como se explica que as mulheres possam ter orgasmos múltiplos, e o homens, não? O homem, quando foi, já era. E mulher continua tendo orgasmos, um depois do outro, enquanto o homem já está pensando na morte da bezerra. Isso demonstra que, mesmo que não haja diferença anatômica - na origem - entre os dois órgãos, alguma parte do cérebro deve funcionar de um jeito para um e de outro para o outro. E, pelo visto,  o da mulher funciona melhor. Além disso, como se explica que a mulher esteja pronta para o sexo 30 segundos depois de ter feito, enquanto o homem só pode dar bis depois de sabe-se lá quanto tempo?".
Já viram o tom do livro né?! Excelente!
Os títulos das crônicas vão entregando o que está lá dentro (epa!), uma saborosa (epa!) análise de fatos inusitados e observações ferinas com comentários sarcásticos: "Orgasmo Multilíngue", "Orgasmo em longa-metragem", "O clitóris", "O gosto secreto", "Prazeres da carne", "Banhos, inclusive de gato", etc.
A capa do livro é um primor minimalista, com o essencial: possui uma fenda losangular cujo abertura tem por baixo papel em cor vermelha...
Para não deixar vocês com muita água na boca, salivas em excesso (epa!) reproduzo a seguir uma das crônicas. Acho que o Ruy (e a editora) não vão ficar bravos comigo.
No máximo ele pode criar uma crônica me sacaneando, contando alguma derrota que definitivamente nunca aconteceu. Juro! Bem, se não veio a público não aconteceu!


MARIDOS FRIOS, MULHERES QUENTES
      "Uma senhora adentrou furibunda a sede do Procon, no Rio, brandindo um envelope. Depois de passar horas na fila, conseguiu chegar ao balcão para registrar queixa contra um produto que, segundo ela, não estava funcionando direito: seu marido.
      O Procon, como se sabe, é um órgão sério, dedicado a registrar reclamações de pessoas que compraram um produto acreditando no que a publicidade dizia e, ao usá-lo, sentiram-se tapeadas. Seus funcionários são gente habituada a todo tipo de queixa, principalmente a respeito de facas mágicas, implantações de silicone e loções para calvície. Tudo isso está previsto na bíblia do órgão, que é o Código de Defesa do Consumidor, mas, às vezes, aparece gente se queixando de algum produto que não consta do código. Certa vez, por exemplo, um homem reclamou que, ao ir a um motel com sua namorada, fora obrigado a ouvir, no quarto ao lado, os gemidos de uma mulher em pleno ato com um homem, e que ele identificou como sendo os gemidos da sua própria mulher. Note bem, o sujeito não estava se queixando do fato de ser traído, mas das paredes finas do motel, que não velavam pela privacidade dele.
      Os funcionários do Procon são treinados para não rir e reagir com toda paciência em casos como este. Mas a história da mulher do envelope era inédita.
      Pelo que eles puderam entender, a dita senhora se queixava de que, depois de 30 anos de casamento, seu marido já não a procurava havia mais de um ano. Não a procurava sexualmente, é claro - porque, para outros fins, até que a procurava o tempo todo: para lavar-lhe as cuecas, engomar lhe os colarinhos ou preparar-lhe uma carne-seca com aipim.
O envelope que ela trazia debaixo do braço era sua certidão de casamento, datada de 1970, com assinatura do juiz, tabelião e testemunhas. A mulher alegou que não tinha nada a reclamar dos primeiros 29 anos de união, mas que o desinteresse de seu marido no último ano era uma quebra das promessas que ele lhe fizera quando ainda estavam noivos - de que, a depender dele, teriam uma agitada vida sexual até que um dos dois morresse e, talvez, até depois. Donde ela se sentia vítima de publicidade enganosa e, por isso, achava que era um caso para o Procon.
      O funcionário do Procon anotou tudo em uma ficha. Foi aos arquivos investigar se havia um precedente de queixas parecidas e, como não havia, voltou ao balcão de mãos abanando.
Só lhe restava perguntar o que a mulher esperava que o Procon fizesse por ela. E ela, sem piscar: "Dá para trocar de marido?".
      Bem, maridos não são exatamente fornos microondas (outro item sobre o qual o Procon vive recebendo queixas), e o dela, muito menos. Aliás, se tivesse de ser comparado a um eletrodoméstico, o marido acusado de frigidez estaria mais para um freezer. Mas não se pode trocar um marido como se troca uma enceradeira, nem há um fabricante contra o qual se queixar. O funcionário do Procon sugeriu à senhora - extra-oficialmente - que ela aplicasse Viagra no cônjuge e observasse a reação dos corpos cavernosos. E, caso o Viagra não resolvesse, aí, sim, ela poderia voltar ao Procon e registrar queixa, não contra o marido, mas contra o medicamento.
      Pois, não olhe agora, mas algo de muito esquisito está se passando no universo masculino. Na mesma época em que a mulher foi ao Procon se queixar do marido frio, outra história incrível saiu nos jornais: um cidadão de Nova Iguaçu, RJ, foi à polícia para pedir proteção contra o assédio sexual que estaria sofrendo de uma vizinha. O homem (43 anos, casado, pai de três filhos e, francamente, longe de ser um galã de novela) declarou não aguentar mais ser o alvo de tantas investidas. A vizinha o bombardeava diariamente com flores, cartas, telefonemas, bilhetinhos, recados, e-mails e presentes, entre os quais camisas, relógios e agendas. O surpreendente foi que, ao ser procurada pela polícia, a mulher (36 anos, morena, bonita, perfeita para um dia de chuva) não apenas confirmou tudo, como garantiu que, apesar de também ser casada, não descansaria enquanto não levasse para a cama o tal homem, objeto de sua paixão.
      A divulgação da história provocou um tal malestar em todos os envolvidos (incluindo a mulher dele e o marido dela) que, poucos dias depois, a morena declarou ter desistido de seus imorais intentos e prometeu deixar em paz o gostosão. O que deve ter acontecido, porque o caso sumiu do noticiário.
      Os vários casais que protagonizaram essas histórias só se conhecem pelos jornais, mas um encontro entre eles poderia resolver todos os problemas. Suponhamos que a assediadora sexual desse em cima do marido frio - poderia ter sucesso, porque a frigidez daquele marido só devia acontecer com a mulher com quem ele era casado há 30 anos. Esta senhora, por sua vez, poderia se aventurar para o lado do marido assediado e, quem sabe, com ela, talvez ele se animasse. Já a mulher do assediado teria uma grande chance com o marido da assediadora, já que os dois estariam sobrando do mesmo jeito."

Um comentário:

  1. Estou rindo até agora Marquinho.
    A história do Ruy Castro é ótima e suas brincadeiras no estilo do próprio são ótimas. Você precisa publicar suas crônicas também. Você é um novo Ruy Castro! Abração.

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