terça-feira, 30 de maio de 2017

Devaneios e lembranças de um coração urbano musical (1)


Minha paixão por música é pública e notória.
Filmes e livros sempre me seduziram mas a música está em primeiro.
Não é à toa que costumo ler com um fundo musical e, nos filmes que assisto, presto atenção além do que deveria na trilha sonora, por mais minimalista que seja.
Se costumo emprestar livros e indicar filmes, na música fui além, buscando dividir a paixão: eu gravava fitas cassete para os amigos. Isso lá pelo início dos anos 1980. Nos anos 70 gravavam para mim.
Quando consegui comprar meu primeiro "3 em 1" (toca-discos, toca-fitas e rádio) não tinha dúvidas que deveria ter aquilo como missão. Eu selecionava as músicas e registrava naquelas fitinhas as melhores que tinha nos ainda poucos discos da coleção.
Havia uma estratégia: como não possuía tudo que desejava, ficava ligado nas melhores rádios FMs com as teclas Rec e Pause do gravador apertadas. Quando tocava a música que estava querendo soltava o Pause e aí conseguia capturar a música. Que alegria!
Assim, além de ir aumentando aos poucos a coleção de LPs também aumentava o número de pessoas que me pediam para gravar as tais fitas K7, para tocar no toca-fitas marca TKR do carro. Um luxo!
Em 1995 o inglês Nick Hornby lançou sua famosa obra "Alta Fidelidade" que narra a história de um apaixonado por listas de músicas, filmes e livros. O personagem trabalha em uma loja de discos e também grava as suas "melhores" em fitas para os amigos. Muita gente se viu - pelo menos parcialmente - retratada nessa história... Bem, o livro é ótimo e está na minha lista dos melhores.
E, foi exatamente nos anos 90 que aos poucos o CD foi fazendo sua ascensão e glória, deixando para trás as fitinhas. Não me dei por vencido. Precisava continuar presenteando a mim e aos amigos com as melhores músicas que não existiam reunidas em nenhum lugar oficialmente. Pesquisei e dei um salto de qualidade: passei a fazer compilações em CD.
Gravei dezenas deles com poucas cópias cada um. Era difícil encontrar as músicas que eu não tinha, mas sempre dava um jeito. O detalhe é que eu fazia também as capinhas. Criava um título e capturava alguma imagem legal na Internet. O encarte tinha o nome das músicas, o artista e o tempo de duração. Trabalho de "amante profissional" (lembrando aquela música de 1985 do grupo Herva Doce, que a maioria dos meus leitores não deve conhecer).
No entanto a evolução não parou e a Internet e o formato mp3 chegaram.
Não me dei por vencido: com a grande rede passou a ser mais fácil encontrar aquelas músicas perdidas dos anos 70 que nunca haviam sido reeditadas no formato CD. O problema para quem queria achar as canções era saber o nome delas e dos artistas. Quer dizer, para mim não era problema, eu sabia os títulos de todas que queria.
Das gravações em CD para o armazenamento de grande quantidade de músicas em pen-drivers foi o novo salto e posso garantir que felizes são aqueles que receberam muitos deles ainda nos anos 2000. Minhas seleções muitas vezes eram personalizadas, com a vantagem de poder colocar LPs inteiros naqueles pequenos objetos.
Hoje o formato persiste sobretudo para facilitar a audição no carro e nos Smartphones via micro-cartões de armazenamento.
No entanto, com o advento da música em Streaming, fazendo uma assinatura em que se paga menos de R$ 20,00 por mês, é possível acessar até 50 milhões de músicas! E dá para ouvir em casa ou no carro com ótima qualidade sonora.
Meus tempos de fitas-cassete, de CDRs se foram. Está chegando o momento em que os pen-drivers também serão obsoletos e acho que desta vez não arranjarei um substituto para gravar as seleções, pois não será mais necessário.
Nossa geração foi a única - até agora - a ver tantas mudanças de uma forma tão rápida.
Lembro-me dos anos 70, em que se conseguir ter um LP de seleção de músicas (como as trilhas-sonoras de novelas, por exemplo) era um feito a ser comemorado.
Rendo-me a tantos avanços que tornaram nossas vidas mais fáceis (ou não) mas, talvez por nostalgia ou para demarcar meu espaço na história da reprodução musical, há poucos anos comprei um novo aparelho "três em um" com design vintage. Quer dizer, quatro em um. Ou cinco em um, sei lá...
Definitivamente o meu prazer de gravar as seleções musicais estão com os dias contados. Acho que, como espécie de represália, tenho me recusado a ouvir os mp3 em casa. Cada dia ouço mais os CDs, LPs e até fitas! Ok, parece nostálgico mas, por sorte, vi esses dias uma reportagem mostrando que na Europa estão reaparecendo as lojas que, além dos CDs vendem uma quantidade cada vez maior de discos de vinil. Detalhe: os maiores compradores são os jovens. A relação de carinho com a música personificada em um objeto físico (o disco) volta a ser valorizada. Acho que por trás disso há uma reclamação acerca da vida multitarefa que temos hoje, o tempo todo.
Para ouvir um LP ou um CD você deve, preferencialmente, dar uma parada. Está tudo tão rápido que as pequenas coisas boas que tinham um grande valor, hoje passam despercebidas e são apenas detalhes, como o tamanho de uma canção comprimida em um arquivo digital.
Retomar um pouco do tempo para si mesmo, seja para ouvir música, ler um livro, ver um filme, gravar músicas para os amigos, estar com eles (fisicamente, não só virtualmente) ou simplesmente se sentir existindo é uma meta a ser buscada em um época que parece que não sentimos mais o tempo passar.
Como já dizia o Mario Quintana (ou algum monge budista), de repente já se passou a vida e nem percebemos.
Acho que vou ouvir "Dark Side Of The Moon" agora. E David Arkenstone. Mas vão ser em LP ou os CDs remasterizados com encarte especial...







4 comentários:

  1. Grande Marquinhos Metamúsica!
    Grande DJ.
    E grande cronista também!
    Um grande abraço amigo, de SP.

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    1. Obrigado amigo.
      Grande abraço pra você também!

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  2. Parabéns pela sensível crônica dos Good Times.

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