sábado, 25 de março de 2017

Incidente na Praia da Joana

A experiência de fotografar pode gerar algumas surpresas, como de resto qualquer atividade humana.
Esta semana estávamos em uma praia semi-deserta, chamada Joana, registrando algumas imagens outonais de final de tarde.
Nesta época do ano a luminosidade vespertina mostra-se ideal, impondo imagens serenas, independente da ansiedade do que está ao redor ou de quem está fotografando.
Não era o caso daquele momento: a praia calma, o verde em frente ao mar (da Unidade de Proteção Ambiental) e a proximidade da hora do sol se esconder por trás das montanhas ao longe, proporcionavam apenas  isso, paz.
Eu não havia levado a minha velha Nikon, tampouco minha filha sua Canon, ela já uma profissional da imagem. Fomos olhar o mar e eventualmente registrar algumas visões com o celular mesmo.
Como apenas meu filho se animou a entrar na água, ficamos por ali, sentados, olhando as águas, sob uma provavelmente centenária amendoeira que se equilibrava - mostrando as raízes - em um desnível no terreno logo depois das areias de cor... areia.
Olhando em direção ao sol, percebi que ele começava a se aproximar de um morro próximo e resolvi tirar algumas fotos. Poderia ser que conseguisse, na sorte, algo bonito, mesmo com o Smartphone, pois o ambiente estava propício.
Era um daqueles momentos mágicos - era a hora mágica do dia - em que percebemos, meio que instintivamente, que parece existir algo além do que estamos enxergando.
Pensando nisso apontei o celular em direção ao sol e cliquei. Ofuscado e com a lente do celular não ajudando muito, apenas toquei na tela, sem ver o que registrava. Ao final, volto a falar desta foto.
Olhei as rochas na extremidade da praia e percebi que dali conseguiria um ângulo diferente do sol, pegando outras praias por trás do morro. Mas eu precisava ser rápido: caminhar pelas areias e fazer uma escalada atrás do que buscava, antes que o astro rei se fosse.
Estando em clima quase místico, fiz a pequena peregrinação em direção ao objetivo, chegando nas pedras em poucos minutos. Comecei a subida sem me preocupar onde estava pisando. A bela luz das 17 horas sobre o vegetação, a areia, as pedras e o mar era o que estava em minha mente e em meus olhos.
Repentinamente uma espécie de transe hipnótico aconteceu. Eu parecia ter perdido o peso, a força gravitacional não existia mais, eu estava flutuando no ar. O que estava acontecendo comigo? Então todas aquelas experiências esotéricas que eu havia ouvido falar eram verdade? Eu estava vivenciando o que já estava se prenunciando naquela tarde: a presença de algo que não se pode explicar, apenas sentir.
E eu senti - com intensidade - quando, chamado de volta à realidade, quase todo o meu lado direito se chocou violentamente com a pedra abaixo de mim. Senti dor.
O fato é que o mar havia lambido as rochas horas antes e ali deixado uma areia fina. Os pés deslizavam com uma facilidade ímpar e minha falta de atenção ajudou abundantemente. Eu escorreguei com imensa velocidade em uma inclinação e flutuei no ar por um segundo. Por sorte livrei a cabeça, graças ao antebraço que fez um movimento instintivo de proteção.
Mas o restante ficou com escoriações e por pouco não desmaiei de dor. Talvez por que precisasse salvar o celular que havia pulado de minha mão e caído na areia molhada mais abaixo. Ali o mar tinha se afastado por uns momentos mas já ia voltar e levar o aparelho. Não sei como consegui descer, pegar o celular e voltar para uma altura segura. Coisas de um cinquentenário fazendo artes.
Retornei caminhando com certa dificuldade. Já não havia aquele clima místico da tarde. A dor não permitia essas coisas transcendentais. Meus filhos não tinham visto nada.
Chegamos em casa e depois de contar a história em detalhes e verificar as marcas do tombo, minha esposa perguntou: "Lembrou de agradecer à Deus?". Ora, porque diabos (epa!) eu agradeceria? Pelo tombo feio? "Pelo livramento". Poderia ter batido com a cabeça, coluna, face (com óculos e tudo)... na pedra. E os resultados poderiam ser dramáticos.
Resolvi olhar o celular. A foto que havia batido, sem enxergar quase nada por ser contraluz, tinha resultado em uma imagem plácida com raios e reflexos incidentes sobre mim.
Resolvi agradecer depois de ver essa imagem. Havia ali uma presença Divina sim. Provavelmente me dizendo: você vai fazer besteira, mas estou aqui para protegê-lo.
Minha filha por sua vez me me mostrou uma foto que ela tirou quando eu estava indo em direção às pedras. Sem querer parecer dramático, aquela poderia ser uma foto de despedida.
De qualquer forma, evitarei daqui pra frente fazer algumas incursões mais radicais que fazia há algum tempo atrás. O tempo passa, até mesmo para teimosos que acham que são eternamente jovens...

segunda-feira, 20 de março de 2017

Mais um Outono: A Estação da Alma


Certa vez Carlos Drummond de Andrade "conversou" com uma amendoeira na manhã do primeiro dia de outono: "(...) Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza." Em "Fala, Amendoeira", 1957.
Nesta manhã eu não conversei com uma amendoeira  - e estou a milhares de anos-luz da capacidade de escrita do Drummond, seja ao descrever o início da estação ou sobre qualquer outro tema - mas foi uma das poucas vezes que senti de maneira forte a chegada do outono.
Segundo informações meteorológicas ele iniciaria às 07:29 h. Não sei como eles conseguem esse grau de precisão, mas acreditemos no fato.
Por volta das 07:20 h entrei no automóvel e percorri um caminho já rotineiro, por entre ruas arborizadas, um trecho de beira-mar e outro à beira-rio, depois de uma ponte.
Chovia levemente, depois das fortes águas da noite anterior e a temperatura se mantinha amena, como foi no final de semana.
Repentinamente a chuva diminuiu e o sol abriu. Não olhei as horas, mas desconfio que era por volta de 07:29.
Muitas nuvens no céu não impediam o atravessar dos raios, a vegetação molhada compunha o quadro ideal para aquele tipo de luminosidade que não ofusca. Parei o carro e tirei umas fotos com o celular. Acho que Drummond não faria isso.
Se o outono é mais estação da alma que da natureza, talvez eu tenha percebido essa beleza momentânea mais com os olhos da emoção.
Certa vez Gabriel Garcia Marquez disse que, dos livros que havia escrito, o que mais gostava era "O Outono do Patriarca". Acho belo esse título e me faz lembrar que "outono" é também usado para designar uma estação da vida: o da maturidade.
Estando eu "outonal", é possível que tenha exagerado ao reparar na beleza do dia. A alma pode ter falado mais alto. Mas são momentos como esses que nos fazem parar a correria e lembrarmos que estamos vivos, aqui, conectados com a natureza, pois somos parte dela.
E que tudo um dia termina, ao final do outono de cada um, independente de ser Drummond, Garcia Marquez ou um cronista desconhecido de um blog esquecido num canto da Internet.
Vivamos pois cada estação, conversando com amendoeiras, olhando o céu de vez em quando, colocando-nos no lugar do outro.
Quem sabe assim as cores de abril (mês outonal, conforme cantou Vinícius e Toquinho) venham povoar com mais frequência os tempos cinzentos que tem habitado muitas estações.
Para quem ficou curioso sobre o final da conversa de Drummond com a amendoeira (sobre sua idade outonal), segue o último diálogo:

"-Não me entristeças" (falou Drummond)

"- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho."


domingo, 12 de março de 2017

Dos livros de bolso de Estefania às leituras de verão

Estefânia é um bonito nome feminino, raro. Já Estefanía é um sobrenome espanhol. Com certeza poucos leitores conhecerão alguém assim batizado. Eu já, por causa do Marcial Lafuente Estafanía. Ficaram na mesma?
Pouco dinheiro na mão costuma ser a tônica dominante de ávidos leitores adolescentes dos subúrbios. Era o meu caso, lá pelos anos 70. Mas havia uma escapatória: os estabelecimentos que vendiam livros usados, conhecidos como "sebos". Sobretudo livros usados que já eram baratos quando novos, nas bancas de jornal. Era o caso dos "livros de bolso" (Pulp Fiction) de faroeste. Esses tinham um mestre: o escritor madrilenho citado acima, que publicava como M.L. Estefania. Escreveu quase três mil dessas histórias, até falecer em 1984, aos 81 anos.
Mas nem só de faroeste eu sobrevivia, pois havia séries de espionagem, policiais, ficção científica, romance e até eróticas e de terror (ou tudo isso junto...).
Um sucesso na época foi a série "Giselle Montfort, a espiã nua que abalou Paris" escrita - de forma não creditada - pelo jornalista brasileiro David Nasser no antigo jornal "Diário da Noite" (da empresa Diários Associados) de Assis Chauteaubriand, a partir de 1948 em forma de folhetim e depois publicada como série de bolso pela editora espanhola Monterey, nos anos 60, chegando até a década posterior.
Está aí, além dos gibis é claro (ou HQs de super-heróis que estão dando origem a tantos filmes de sucesso atualmente), a minha iniciação como ávido leitor que permanece até hoje, embora tenha me afastado dos livros por causa do incessante e cansativo trabalho.
Aos poucos volto às origens. Não falo dos livros de bolso mas do bom hábito da leitura que, segundo estudiosos, além do prazer das viagens proporcionadas pelos mesmos, o hábito previne até o Mal de Alzheimer.
Neste verão - que para mim vai se estender até o início de abril - tive como meta ler cinco livros na minha "estação de veraneio", com algumas restrições, como não levar publicações para as areias da praia (cumpri até agora, mas tenho dúvidas se foi uma boa ideia).
Um costume que adquiri foi o de ler sempre com um fundo musical: escolho antes os CDs, de acordo com o livro. Mergulho na leitura mas os agradáveis e suaves sons sempre presentes enriquecem o momento.
De forma não programada acabei optando por livros de não-ficção e a maioria relacionados à música, o que não chega ser uma surpresa. Ficaram então de fora livros do Arthur C. Clarke, que trouxe mas não coloquei a mão. Ou os olhos. E um outro documento que precisa de mais dedicação em sua leitura: "Os Bispos Católicos e a Ditadura Militar Brasileira: A Visão da Espionagem" do historiador Paulo César Gomes.
Das leituras realizadas me surpreendi com "50 fatos que mudaram a história do Rock" (edição ilustrada) de Paolo Hewitt. Não que concorde com ele nos itens selecionados, mas realmente alguns detalhes trágicos que descreve eu não sabia, como o assassinato do soul man Sam Cooke e os fatos que que levaram ao "massacre da atriz Sharon Tate" (então esposa do cineasta Roman Polanski) em 1969 e da relação disso com o seminal grupo de surf-music The Beach Boys. O massacre comandando pela "seita" de Charles Manson (até hoje preso) não foi bem por questões pseudo-religiosas: Manson tinha interesse em se tornar um superastro da música, daí... Leiam o livro pois é uma longa história.
Outro interessante que fez parte do verão foi "Blues" do francês Gérard Herzhafat. Nele um mergulho não só na música, mas no mundo difícil dos negros americanos no início do século XX, que geraram essa música-lamento bem como tudo que veio depois, influenciado pelo Blues: do Rock ao Pop, passando pelo Jazz.
O terceiro livro tem o mesmo nome do segundo, mas trata-se de reprodução de histórias em quadrinhos - criadas também dos anos 1970 - pelo genial (e marginalizado) Robert Crumb, onde ele conta a história de bluesmen dos anos 20 e 30, com uma forte carga dramática e social. Não era para ser diferente.
Restam dois que pretendo "devorar" até o final do mês, começando hoje.
O primeiro é "Os Guinle - A História de uma Dinastia", do historiador Clóvis Bulcão, um profundo mergulho nas raízes e desenvolvimento dessa família aristocrática carioca. Mais conhecida pela associação com o lendário hotel Copacabana Palace e com as conquistas amorosas de famosas atrizes de Hollywood feitas pelo playboy Jorginho Guinle, a família não é apenas isso. Segundo o autor, o glamouroso estilo de vida ofuscou o empreendedorismo visionário dos patriarcas e de seus sete filhos.
Por último, um livro de 2002 que só agora adquiri - em sua 9ª edição, de 2015.
Voltando aos temas musicais, trata-se do surpreendente "Eu Não Sou Cachorro, Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar", do jornalista e historiador Paulo César Araújo (o mesmo da biografia proibida de Roberto Carlos). Com certeza este livro vai merecer uma resenha à parte. Além de contar a história da música brega do período 1968 - 1978 o autor prova que "um importante capítulo da história do Brasil e da música popular vem sendo muito mal contada".
Independente do sucesso da polêmica empreitada, com certeza vou gostar do que for contado pois - vai aqui uma confissão -  além de Jazz, Blues, Rock e MPB mais "intelectual" (e nas diversas vertentes desses estilos), fui fã de nomes como Fernando Mendes, José Augusto, Odair José, Paulo Sérgio, etc. Isso enquanto lia os livros de bolso do Estefania. Mas não contem pra ninguém, ok?!

Trilha sonora enquanto escrevia estas mal traçadas linhas: Não foi ...aquela menina em sua "Cadeira de Rodas" de Fernando Mendes, mas o CD "Spark Of Life" do Marcin Wasilewski Trio w/ Joakim Milder, da ótima gravadora alemã ECM Recods,