terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

As peras e o tempo

Certa vez uma amigo me disse que não ligava para as memórias, para o passado. O que vale é o momento presente, segundo sua visão de mundo.
Não importava - para ele - se eram momentos bons ou ruins a serem deixados para trás. Eles tinham que ficar lá e nada mais.
Esse "nada mais" é o xis da questão.
Há filosofias, talvez a budista, que podem dizer algo semelhante. Não sei. E tem, talvez, os existencialistas. Fiquei sem esboçar reação diante daquela declaração.
Estaria ele correto? Serviria tal proceder uma matéria para reflexão a ser  aplicada em minha própria vida?
Faz tempo desde esta declaração, mas eu nunca esqueci. Ele provavelmente já. Aliás, como faz muito tempo que não o vejo, deve ter até esquecido de mim também.
Nunca me pareceu ser uma pessoa infeliz ou com algum problema psicológico, o que pode depor a favor de seu estilo de "esquecimento de tudo", sempre seguindo em frente.
Eventualmente me recordo disso quando lembranças afetivas me incorrem. O que não é raro. Aliás, ligado em imagens, sons, cheiros, histórias e emoções, concluo que não sobreviveria sem as memórias.
O filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", de 2004, explora um episódio do que poderia ser isso, nesse caso em uma terminada história de amor. Na verdade nunca acabada. A sinopse diz: "Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória os quais ela não participa." E mais não conto em respeito a quem não viu. Mas é na linha do raciocínio do amigo, neste caso em uma base de fantasia imaginativa.
Ao tocar neste tema me lembro exatamente agora de uma bela garota que sentava ao meu lado na escola primária, no distante subúrbio da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, no Rio.
Não lembro de quão bonita ela era, ou se era, eu tinha uns 12 anos, mas lembro que gostava dela. Não esqueci seu nome e confesso que, por uma curiosidade beirando o ridículo, andei procurando seu nome no Facebook. É claro que não encontrei. Ainda bem. Há 45 anos não tenho notícias.
As chamadas memórias afetivas são combustível que alimentam respostas que não temos. Sobre o significado da vida, por exemplo. Sobre o "ser".
Com elas multiplicamos nossa existência, da mesma forma como ao ler um livro que prende tanto a atenção que nos desligamos do agora. Ou quando ouvimos músicas que nos emocionam.
Ou seja nem sempre o agora é o que importa. Não o tempo todo.
Há situações do passado que nunca se repetirão. Ou acontecerão de forma diferente. Ou findarão por acontecer o que antes apenas se desenhou.
Tais divagações se apresentaram agora por um motivo inusitado: uma pera. Sim, a fruta. E acho que não é a que vocês conhecem como tal.
Neste carnaval estivemos em um distante distrito do município serrano de Trajano de Moraes, altitude de 700 metros. Local de difícil acesso mas com fácil possibilidade de se apaixonar por ele. Como é mais alto que a cidade a que pertence, imagino que o distrito deve estar próximo aos mil metros.
No agradável sítio dos gentis anfitrões uma penca de frutas que não vemos nos hortifrutis urbanos.
Não distante da entrada avistei uma árvore carregada. Seus frutos vergavam os galhos e formavam um tapete no chão das que vinham caindo constantemente, de maduras.
Ao ser informado que se tratava de um pé de pera me aproximei para conhecer tal raridade para mim. Quando cheguei perto, peguei uma daquelas frutas e imediatamente fui transportado para minha infância. Aquela não era uma das espécies que encontramos hoje facilmente.
Fazia décadas que não via uma daquelas, ainda mais tirada direto do pé.
Reminiscências me vieram pois a encontrávamos a preços baixos nas pequenas quitandas do longíquo bairro da já minha distante infância.
A chamávamos apenas de pera. Ao que parece é de uma espécie asiática, também conhecida como pera-dura ou Keiffer, de sabor levemente ácido.
Me surpreendi como uma simples fruta, com seu formato, cor, cheiro e sabor tem tal poder. Assim é com o picolé caseiro - feita naquelas formas de alumínio - de abacate, a manga que nos lambuzava, o tamarindo que nos dava água na boca, etc.
Nestes segundos emocionantes de viagem no tempo e espaço me veio a certeza da impossibilidade de aplicar a filosofia do amigo existencialista.
Ao lembrar da fruta, das meninas bonitas de minha infância e adolescência, dos amigos de todos os tempos, dos filmes, discos e livros que me emocionaram e emocionam, dos momentos vividos e dos não vividos por motivos vários, a certeza de que os segundos não nos fogem pelas mãos do tempo, como parece ser: estão conosco em cada momento presente e futuro, nos embalando e sustentando, mesmo que não nos demos conta disso.


3 comentários:

  1. Luis Fernando Duarte28 de fevereiro de 2017 19:47

    Olá! Suas referências são os filósofos do século XIX e XX. Leio muito. Parabéns pelo texto emocional. Li outros do seu blog e são muito bons. Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. E concluir com uma música escolhida, de acordo com o texto, que parece ser uma de suas marcas registradas, é ótimo!

    ResponderExcluir