sexta-feira, 17 de junho de 2016

Lembranças Musicais: Do Rádio de Pilha ao Smartphone

Eu e minhas lembranças nostálgicas. Ainda bem que não estou sozinho. E também não quer dizer que não esteja antenado e vivenciando tudo - ou quase tudo - de novo que aparece por atacado nos correntes dias.

Desta vez andei me lembrando, vejam só, do antigo radinho de pilha. Sim aquele mesmo. Acho que todos tivemos né?! Lá em casa tinha um, que acompanhava meu saudoso pai e que depois, ainda jovem, aderi.

As novas gerações não estão muito ligadas em ouvir rádio. Vocês já devem ter percebido isso. Diversos fatores contribuíram para esse distanciamento.

Na minha época de infância (lá vou eu de novo), subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, ouvir rádio era hábito obrigatório para quem gostava de música. Poucos tinham condições de adquirir equipamentos de som nos anos 60. Aquelas grandes Radio-Vitrolas que eram verdadeiros móveis de luxo na sala. A opção era o rádio de pilha. Pilhas Ray-O-Vac.

Ainda não existiam as emissoras FM, de melhor qualidade sonora, que começaram a surgir em meados dos anos 70. Daqui a pouco falo delas.

As rádios AM (Ondas Médias ou Amplitude Modulada) dominavam a programação, que era de alto nível. Tinha que ser mesmo pois as opções do Pop, do Rock e da MPB da época eram nada mais nada menos que Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos, Chico Buarque, Milton Nascimento, Mutantes, Novos Baianos, Gil, Caetano... Só para citar alguns.

Eu ouvia muito a Radio Tamoio e a Radio Mundial (AM 860), que tinham uma bela disputa de audiência entre elas.

Por exemplo, na Tamoio existia o programa "Musical dos Colégios". O DJ dizia: "música do Colégio Pedro II", Beatles, "Hey Jude"(!). Aí o pessoal ligava para votar nas preferidas. As mais pedidas retornavam nas campeãs.

Já na Mundial tinha o "Show dos Bairros". "Música da Tijuca": Tim Maia, "Azul da Cor do Mar"(!).

Não era legal? Musical dos Colégios e Musical dos Bairros. Uma amostra da ligação carinhosa dos adolescentes com sua escola e com o bairro que morava.

Eram lançados LPs das emissoras com coletâneas dos principais sucessos do período. Joias disputadas por quem tinha toca-discos. Naquela época a moda era o chamado 3 em 1 (radio, toca-fitas e toca-discos). Tinha também os portáteis "Sonata", utilizados para ser levados para a casa de alguém para animar as festas regadas à gelo e Rum com Coca-Cola, porque era a bebida mais barata. Quem tinha o "Sonatão" e o LPs eram respeitadíssimos.

A ótima série de discos "Sua Paz Mundial", teve diversas edições. Serve de exemplo de como funcionava o mercado de discos nos anos 1970. Aliás foi também Mundial e Tamoio que cunharam o termo "Good Times" nos programas que recordavam músicas de anos anteriores, afinal "Saudade Não Tem Idade" (outro programa).

Nessa linha formaram-se ouvintes mais conscientes, que conheciam os diversos estilos musicais. Parte desse público tornou-se mais exigente e as emissoras acompanhavam a evolução: na MEC, Música Clássica; na Jornal do Brasil, "60 Minutos de Música Contemporânea". E aí vieram as FMs com destaque para a EldoPop que mirava no Hard-Rock, Jazz-Rock, Rock Progressivo e MPB de vanguarda. Em outro post falo desta.

No final dos anos 70 a coisa desandou e as emissoras tornaram-se "pasteurizadas": os Djs falavam da mesma forma, tocavam as mesmas músicas e os programas eram muito parecidos. Iniciou-se o chamado "jabá" das gravadoras: pagavam para a emissora tocar só o que era interessante economicamente para elas. Vem daí o hábito corrosivo de "fabricar sucessos".

Pouca coisa se salvou nos anos 80 e uma delas foi a Fluminense FM (a "Maldita") que transmitia de Niterói uma programação fora dos padrões, sem jabá e com excelentes programadores. Não durou muito tempo.

Os anos 1990 e 2000 foram uma lástima. A ponto de surgirem as emissoras piratas regionais para tentar colocar vida inteligente no ar. Eu participei disso, mais como ouvinte mesmo, eventualmente como programador, mas sem risco de derrubar aviões (como se temia na época em relações às frequências não oficiais), pois estávamos longe de aeroportos.

Foram 20 anos perdidos e aí voltamos ao ponto inicial: muitos não sabem o que é uma emissora de radio de qualidade e nem se ligam muito nisso.

No entanto, curiosamente, uma nova geração "rádio de pilha" começa a surgir. E, vejam só, através dos modernos smartphones pode-se ouvir rádios FM, emissoras online, os áudios em streaming e as músicas em arquivos mp3.

Ouvir nos pequenos auto-falantes do aparelho (ao invés dos fones de ouvido) é uma viagem no tempo: de volta ao radinho de pilha! Vocês mais "experientes", façam o teste para ver. Quer dizer, ouvir.

É a música nos seguindo onde estivermos.

No livro "O Triunfo da Música" (Cia. das Letras) do historiador inglês Tim Blanning, a importância da música e a sua elevação de status nos últimos séculos é devidamente analisada em cinco pontos chave: prestígio, propósito, espaços, tecnologia e libertação. Música é definitivamente cultura, além de lazer e de fazer bem para alma. Não toda música, é claro.

Resolvi fazer esse pequeno texto em homenagem a alguns amigos que sempre tem a excelente companhia da boa música e homenageando também, em especial, o amigo Paulo André, figura única na cidade que fez história com sua inesquecível loja de discos de vinil nos anos 70 e 80, a Caiana Discos.

Ele volta agora via Internet com a... Radio Caiana! Grande figura o meu amigo. Merece uma conferida em http://radiocaiana.com.br/ (no computador, notebook, tablet ou Smart TV) ou no "radinho de pilha" do século 21 em radiocaiana.radiostream321.com - em android e iOS, clique em Listen on Listen2myradio APP e façam o download do aplicativo) ou através do site mesmo.

Enfim, essa pequena cronologia musical, tendo como referência as emissoras de radio, busca resgatar aquilo que fez parte da vida de muita gente, que não tinha a Internet como componente de sua juventude, pois essa não existia mesmo! E mostra que a vida, às vezes de forma inesperada, dá círculos. Quem diria, por exemplo, que um moderno smartphone de mil dólares soasse como aqueles velhos radinhos de pilha dos pobres da época?

Reminiscências e questionamentos de um cinquentão ainda e para sempre ligado em velhas músicas românticas e novíssimas tecnologias.

P.S. Musical:
A citada Radio Mundial tinha um comercial na TV, em 1978, que ficou muito famoso na época, pois era pioneiro nesse estilo de propaganda. Era um vôo de asa delta ao som da romântica canção "I'd Rather Hurt Myself " do cantor Randy Brown. Depois deste comercial a música ficou conhecida como "Mêlo da Asa" ("Melô" era uma gíria que se referia à palavra melodia).


5 comentários:

  1. Eu não dou da cidade da Caiana, mas ouvi também muito radinho de pilha e a Radio Mundial. Sabia que ela existe ainda? Só que agora é evangélica!!!

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  2. Muito bom amigo. Sempre com suas boas lembranças e textos gostosos de ler!

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  3. Que viagem!!!Durante muito tempo dormi ao som do ''radinho de pilha'',Amei rever a propaganda da Mundial.

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  4. Obrigado pelos comentários. As mensagens que recebi me surpreenderám: muita gente ouvia radinho de pilha e lembra das emissoras citadas!

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  5. Obrigado pelos comentários. As mensagens que recebi me surpreenderám: muita gente ouvia radinho de pilha e lembra das emissoras citadas!

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