quinta-feira, 23 de junho de 2016

Uma Trilha Sonora Para o Inverno

Nesta semana aconteceu o Solstício de Inverno no Hemisfério Sul. Foi quando entrou o Inverno, mais precisamente segunda-feira passada, dia 20.

A definição de "Solstício de Inverno", segundo Dr. Google (M.D.), é de ser um evento astronômico em que o Hemisfério Norte está mais inclinado na direção do sol. Estamos então ao contrário. Lógico. Verão lá, Inverno aqui.

Ah! Me lembrei! Não confundam com Equinócio, que é outra coisa, mas que eu não vou falar aqui agora senão o texto vai ficar chato e nem eu vou ter paciência de reler.

Esses períodos tinham muita importância para antigas religiões conectadas com a natureza, desde a China até a Irlanda (dos povos Celtas). Muitas celebrações destinadas à presença Divina nos fenômenos naturais, mudanças de estações e para a natureza de forma geral eram feitas. Até hoje devem acontecer em algumas regiões.

Mas, outra vez, não é objetivo destas mal traçadas linhas fazer um mapeamento de antigas celebrações. Encontrarão isso facilmente consultando o já citado e respeitável "Doutor".

Will Ackerman e seu refúgio na montanha: nada mal.
A Windham Hill é uma gravadora independente americana criada em fins dos anos 1970 por um poeta, carpinteiro e ótimo violonista nas horas vagas. William (Will) Ackerman tocava de forma diferente as cordas de aço do seu instrumento. Suavemente. Quem ouvia adorava. Seu primeiro disco foi financiado pelos amigos da faculdade. Com o sucesso alcançado veio a gravadora que por 20 anos lançou discos de música instrumental de diversos músicos conectados a uma sonoridade mais tranquila, pacífica, mas de alto nível técnico, com referências à música Folclórica, Clássica, Jazz, Fusion e New Age.

Em 1996 ele vendeu a gravadora para a BMG que depois passou para o controle da Sony Music. Atualmente não são mais lançados produtos novos pela Windham Hill, apenas coletâneas do extenso e excelente catálogo da ex-gravadora independente.

Mas Will Ackerman não parou e atualmente possui um belo estúdio de gravação, onde mora, o 'Imaginary Road Studios' em West County, região montanhosa do estado de Vermont, Nordeste dos EUA, na fronteira com o frio Canadá. Um lugar de bela natureza que reflete o tipo de música feita ali. Ele produz e lança discos de outros artistas pela gravadora West Rivers Records, especializada em música instrumental contemporânea.

Quem chegou até aqui deve estar se perguntando porque comecei com um assunto e passei para outro, sem maiores explicações.
Vamos tentar conectá-los então. Uma tradição de Will Ackerman é promover concertos de Inverno na época do Solstício. Para ele sua música e a dos seus amigos tem conexão especial com essa época. Neste caso falo do mês de dezembro, quando chega o frio no Hemisfério Norte. Se olharem a página dele poderão se certificar que já existem alguns concertos marcados para o final de 2016 (http://www.williamackerman.com).

Uma das séries de coletâneas da Windham Hill Records chama-se "A Winter’s Solstice". Eu possuo um desses CDs. Exatamente o que comemora 25 anos da criação da gravadora. São treze artistas, com músicas belíssimas. No entanto uma coisa sempre me causou estranhamento. A capa do disco traz a imagem do Inverno no Hemisfério Norte, ali mesmo na fronteira com o Canadá. Muito frio e neve na montanha. Se a música tenta traduzir isso, obviamente não é fácil a um ouvinte do Hemisfério Sul sentir uma conexão tão completa, como gostaria o artista criador. Para mim então, que nunca vi neve na vida... Ok, música é música, no entanto sempre tento ir além do simples ouvir.


Na fronteira com o Canadá: verão e inverno
Mas, vejam só, por pura coincidência, neste mês de junho, remexendo nas centenas de CDs, eis que acho o disco esquecido lá no alto da estante. Será coincidência mesmo?

O fato é que há muito tempo não fazia uma união de tempo chuvoso com temperaturas próximas dos 15 graus à noite em plena Região Sudeste. Não deu outra: peguei uma garrafa de vinho e coloquei o disco para rodar. Pela janela da minha sala não via o branco da neve. Apenas o verde de um coqueiro sob a chuva fina e as luzes da torre de uma igreja. Mesmo assim, em minha audição, consegui chegar perto do que seria um "Winter Solstice", segundo a tradição do norte frio. Bem, talvez o vinho tenha ajudado...

Quem sabe um dia vou até Vermont e, na montanha do William Ackerman (Windham Hill), escuto e vejo o som da natureza, mesmo que for em um "Summer Solstice", o que para mim, dos trópicos, já vai ser frio o suficiente, mesmo sem neve.

Mas, enquanto isso, retorno à minha realidade urbana/suburbana/rural e lembro que frio aqui é sinônimo do dia de São João, que é amanhã. E na Festa Junina não cabe trilha sonora da Windham Hill Records. Só um forró ou xote dançante. O que não é nada mal, convenhamos. Quem sabe seja uma forma diferente de celebrar, ainda que inconscientemente, o Solstício de Inverno Tropical.





sexta-feira, 17 de junho de 2016

Lembranças Musicais: Do Rádio de Pilha ao Smartphone

Eu e minhas lembranças nostálgicas. Ainda bem que não estou sozinho. E também não quer dizer que não esteja antenado e vivenciando tudo - ou quase tudo - de novo que aparece por atacado nos correntes dias.

Desta vez andei me lembrando, vejam só, do antigo radinho de pilha. Sim aquele mesmo. Acho que todos tivemos né?! Lá em casa tinha um, que acompanhava meu saudoso pai e que depois, ainda jovem, aderi.

As novas gerações não estão muito ligadas em ouvir rádio. Vocês já devem ter percebido isso. Diversos fatores contribuíram para esse distanciamento.

Na minha época de infância (lá vou eu de novo), subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, ouvir rádio era hábito obrigatório para quem gostava de música. Poucos tinham condições de adquirir equipamentos de som nos anos 60. Aquelas grandes Radio-Vitrolas que eram verdadeiros móveis de luxo na sala. A opção era o rádio de pilha. Pilhas Ray-O-Vac.

Ainda não existiam as emissoras FM, de melhor qualidade sonora, que começaram a surgir em meados dos anos 70. Daqui a pouco falo delas.

As rádios AM (Ondas Médias ou Amplitude Modulada) dominavam a programação, que era de alto nível. Tinha que ser mesmo pois as opções do Pop, do Rock e da MPB da época eram nada mais nada menos que Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos, Chico Buarque, Milton Nascimento, Mutantes, Novos Baianos, Gil, Caetano... Só para citar alguns.

Eu ouvia muito a Radio Tamoio e a Radio Mundial (AM 860), que tinham uma bela disputa de audiência entre elas.

Por exemplo, na Tamoio existia o programa "Musical dos Colégios". O DJ dizia: "música do Colégio Pedro II", Beatles, "Hey Jude"(!). Aí o pessoal ligava para votar nas preferidas. As mais pedidas retornavam nas campeãs.

Já na Mundial tinha o "Show dos Bairros". "Música da Tijuca": Tim Maia, "Azul da Cor do Mar"(!).

Não era legal? Musical dos Colégios e Musical dos Bairros. Uma amostra da ligação carinhosa dos adolescentes com sua escola e com o bairro que morava.

Eram lançados LPs das emissoras com coletâneas dos principais sucessos do período. Joias disputadas por quem tinha toca-discos. Naquela época a moda era o chamado 3 em 1 (radio, toca-fitas e toca-discos). Tinha também os portáteis "Sonata", utilizados para ser levados para a casa de alguém para animar as festas regadas à gelo e Rum com Coca-Cola, porque era a bebida mais barata. Quem tinha o "Sonatão" e o LPs eram respeitadíssimos.

A ótima série de discos "Sua Paz Mundial", teve diversas edições. Serve de exemplo de como funcionava o mercado de discos nos anos 1970. Aliás foi também Mundial e Tamoio que cunharam o termo "Good Times" nos programas que recordavam músicas de anos anteriores, afinal "Saudade Não Tem Idade" (outro programa).

Nessa linha formaram-se ouvintes mais conscientes, que conheciam os diversos estilos musicais. Parte desse público tornou-se mais exigente e as emissoras acompanhavam a evolução: na MEC, Música Clássica; na Jornal do Brasil, "60 Minutos de Música Contemporânea". E aí vieram as FMs com destaque para a EldoPop que mirava no Hard-Rock, Jazz-Rock, Rock Progressivo e MPB de vanguarda. Em outro post falo desta.

No final dos anos 70 a coisa desandou e as emissoras tornaram-se "pasteurizadas": os Djs falavam da mesma forma, tocavam as mesmas músicas e os programas eram muito parecidos. Iniciou-se o chamado "jabá" das gravadoras: pagavam para a emissora tocar só o que era interessante economicamente para elas. Vem daí o hábito corrosivo de "fabricar sucessos".

Pouca coisa se salvou nos anos 80 e uma delas foi a Fluminense FM (a "Maldita") que transmitia de Niterói uma programação fora dos padrões, sem jabá e com excelentes programadores. Não durou muito tempo.

Os anos 1990 e 2000 foram uma lástima. A ponto de surgirem as emissoras piratas regionais para tentar colocar vida inteligente no ar. Eu participei disso, mais como ouvinte mesmo, eventualmente como programador, mas sem risco de derrubar aviões (como se temia na época em relações às frequências não oficiais), pois estávamos longe de aeroportos.

Foram 20 anos perdidos e aí voltamos ao ponto inicial: muitos não sabem o que é uma emissora de radio de qualidade e nem se ligam muito nisso.

No entanto, curiosamente, uma nova geração "rádio de pilha" começa a surgir. E, vejam só, através dos modernos smartphones pode-se ouvir rádios FM, emissoras online, os áudios em streaming e as músicas em arquivos mp3.

Ouvir nos pequenos auto-falantes do aparelho (ao invés dos fones de ouvido) é uma viagem no tempo: de volta ao radinho de pilha! Vocês mais "experientes", façam o teste para ver. Quer dizer, ouvir.

É a música nos seguindo onde estivermos.

No livro "O Triunfo da Música" (Cia. das Letras) do historiador inglês Tim Blanning, a importância da música e a sua elevação de status nos últimos séculos é devidamente analisada em cinco pontos chave: prestígio, propósito, espaços, tecnologia e libertação. Música é definitivamente cultura, além de lazer e de fazer bem para alma. Não toda música, é claro.

Resolvi fazer esse pequeno texto em homenagem a alguns amigos que sempre tem a excelente companhia da boa música e homenageando também, em especial, o amigo Paulo André, figura única na cidade que fez história com sua inesquecível loja de discos de vinil nos anos 70 e 80, a Caiana Discos.

Ele volta agora via Internet com a... Radio Caiana! Grande figura o meu amigo. Merece uma conferida em http://radiocaiana.com.br/ (no computador, notebook, tablet ou Smart TV) ou no "radinho de pilha" do século 21 em radiocaiana.radiostream321.com - em android e iOS, clique em Listen on Listen2myradio APP e façam o download do aplicativo) ou através do site mesmo.

Enfim, essa pequena cronologia musical, tendo como referência as emissoras de radio, busca resgatar aquilo que fez parte da vida de muita gente, que não tinha a Internet como componente de sua juventude, pois essa não existia mesmo! E mostra que a vida, às vezes de forma inesperada, dá círculos. Quem diria, por exemplo, que um moderno smartphone de mil dólares soasse como aqueles velhos radinhos de pilha dos pobres da época?

Reminiscências e questionamentos de um cinquentão ainda e para sempre ligado em velhas músicas românticas e novíssimas tecnologias.

P.S. Musical:
A citada Radio Mundial tinha um comercial na TV, em 1978, que ficou muito famoso na época, pois era pioneiro nesse estilo de propaganda. Era um vôo de asa delta ao som da romântica canção "I'd Rather Hurt Myself " do cantor Randy Brown. Depois deste comercial a música ficou conhecida como "Mêlo da Asa" ("Melô" era uma gíria que se referia à palavra melodia).


quinta-feira, 9 de junho de 2016

O inverno de um coração urbano

Nesta semana, ao que parece, o inverno começou a dar sinais de vida, embora ainda estejamos no outono. Aí fica a dúvida: se em 2016 teremos frio de verdade ou apenas uma leve recordação dos casacos esquecidos no armário. Com cheiro de ano passado.

Minhas lembranças de épocas em que as estações pareciam ser mais definidas são interessantes. É bom dizer que elas - as lembranças - deveriam ser muitas pelo singelo fato de que eu já ultrapassei o meio século de atividades ininterruptas neste "pálido ponto azul". Mas não são não. O que é preocupante. Estariam elas desaparecendo à medida que somo mais um na contagem progressiva (na verdade regressiva) da vida?

Enfim, mais uma conversa a ter com meu Geriatra que eu nem sei quem é pois continuo, teimosamente, me recusando a procurar. Talvez daqui a dez anos. Sei que não é a atitude mais correta em termos de saúde mas é provável que eu tenha a Síndrome da Juventude Eterna. Neste caso melhor procurar um Psiquiatra antes. De preferência um que não tenha o mesmo problema.

Voltando ao ponto central, se é que existe um, o inverno me faz lembrar a minha "divisão interna" que costumo chamar de "ou isso ou aquilo". Minhas reminiscências tendem a fazer com que me sinta, eventualmente, um ser urbano. Ou, pelo menos, de coração urbano. Lembro e penso em roupas mais elegantes, restaurantes, encontros ao redor de uma garrafa de vinho.

Da infância, a possibilidade de correr muito sem sentir aquele calor abrasador dos dias quentes. Brincar mais no subúrbio. Urbano, ainda que na periferia.

Se o verão é praia, as meias estações dirigem meus afetos para o mato, interior, serra. Então. É isso ou aquilo: ser urbano ou interiorano, ao ritmo das estações.

O ritmo do inverno, quando ele acontece, tende a ser mais lento que as demais estações. Deve ser impressão, mas me parece ser mais fácil observar e ouvir pessoas. As intenções, atenções, afetos. O caminhar. Os cachecóis, casacos, botas. O ir e vir na cidade. O céu do entardecer por entre casas e prédios. O que fazem e pensam os urbanos corações que ali habitam.

A estação parece ter até mesmo uma trilha sonora: Jazz. Não consigo combinar esse gênero musical com suor e cerveja. Mas harmoniza bem com noite, frio, chuva, pernas cruzadas na poltrona e vinho.

Não, não tenho uma estação preferida e, se tivesse que escolher, seria outono ou primavera, desde que não acontecessem em apenas uma semana. Mas o fato é que essa chegada do inverno ao mesmo tempo que me aproxima da cidade grande, me faz pensar o quanto ela também pode ser impessoal e distante. O coração urbano talvez esteja tentando mandar um recado: esse meu sentimento de proximidade com os outros no frio é também a necessidade de aproximação de mim mesmo. Do qual talvez ande meio distante.
Coisas urbanas.