sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Kraftwerk: música eletrônica, andróides e sentimentos

Já faz tempo que não abordamos aqui literatura, música, filmes e artes de forma geral. Curioso, porque o objetivo maior deste espaço, quando de sua criação, era registrar impressões sobretudo relativas ao tema artes áudio-visuais.
Talvez o momento venha sendo mais propício a reflexões diversas acerca de detalhes cotidianos e existenciais.
Bem, resolvemos hoje retornar às origens.
Acabo de ler o livro "Kraftwerk Publikation" (Editora Seoman, 351 páginas), que traz a biografia do seminal grupo alemão: "Uma história sociocultural dos precussores da música eletrônica para as massas".
Desde meados dos anos 1970 acompanho a trajetória deste único, peculiar, estranho e magnífico grupo.
A banda é fora dos padrões porque se assemelha mais a uma equipe de cientistas em seus laboratórios tecnológicos do que uma banda musical.
E é mais ou menos isso mesmo.
Na época não existiam as facilidades dos Hardwares e Softwares de hoje e eles próprios (engenheiros eletrônicos) davam seu jeito de conseguir as sonoridades que queriam, inventando aparelhos, montando fitas, fazendo colagens, etc.
Não é para menos que são considerados os pais de quase todos os estilos que se referenciam na eletrônica, das diversas vertentes da Dance Music até a New Age e a Ambient Music. O livro mostra a quantidade de artistas ingleses, americanos, franceses, italianos, japoneses, etc. que ao longo das últimas décadas tem o Kraftwerk como entidade acima do bem e do mal.
Também a sua postura de radical distanciamento da imprensa, da fama e da colaboração com outros artistas, se autoreferenciando e se isolando do mundo exterior, colaboraram para a criação e manutenção de uma mitologia que os seguirá para sempre.
Suas apresentações robóticas (literalmente, pois em algumas haviam robôs-réplicas dos componentes no palco), sem movimentação, sem interação com a platéia era (e ainda é) outra característica exclusiva, que refletia o modo de ser da banda, totalmente em consonância com sua música (quer dizer, mais ou menos, aquelas batidas quase que obrigam a pessoa a sair pulando).
No livro, o inglês David Buckley, tenta de todas as formas desvendar a música e o mito, mergulhando em histórias nunca contadas e conversando com pessoas ligadas ao grupo (ele não conseguiu em nenhum momento falar com Ralph Hütter e Florian Schneider, os criadores e mentores do Kraftwerk).
Do grupo, o componente que mais passou informações para ele foi Wolfgang Flür. O quarto elemento, Karl Bartos, não deu tantas informações mas fez a apresentação do livro, que traz muitas fotos das diferentes épocas: de 1970 a 2012.
Para os quem não conhecem, os principais álbuns (podem ser ouvidos via You Tube) do grupo são: "Autobanh" de 1974 (uma viagem "ambiental" pelas auto-estradas alemãs), "Radio-Activity" de 1975 (experimentos hipnóticos diversos), "Trans-Europe Expess" de 1977 (também "viajante" e cheio de melodias inesquecíveis), "The Man-Machine" de 1978 (uma dançante apologia espacial ao "homem-máquina") e "Computer World" de 1981 (mais uma obra-prima que influenciou tudo que viria a ser feito nos anos 1980 e 1990).
Eu gosto de Kraftwerk mas não é uma música que qualquer pessoa admira. Está longe dos padrões Pop-Rock vigentes ontem e hoje.
É uma música mais próxima dos minimalistas e é provavelmente um tipo de som que gênios do passado estariam fazendo hoje. Mesmo assim suas melodias simples ao extremo conseguem capturar uma legião de fãs, mesmo os não iniciados aos mistérios desses robôs germânicos.
Recomendo o livro e os discos citados. Mesmo que for só por curiosidades do tipo: até que ponto as emoções são primordiais e se é possível ficar à margem delas, como androides sem sentimentos?
Um ponto primordial para entender a existência do fenômeno Kratfwerk: só existiram por causa da história da Alemanha no pós-guerra. Leiam o livro e entenderão.





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