quarta-feira, 22 de abril de 2015

Convergência ao nosso "interior"

Sabe aquelas coisas que você nunca leu mas acha que alguém já escreveu? Pois eu estou me lembrando de um texto (ou poesia) que tenho certeza li em algum lugar. Mas não tenho certeza.
Ajudas para reavivar esta memória cambaleante são bem vindas.
Seria mais ou menos assim:
"No inverno sinto saudades do verão, no verão do inverno.
Muito sol e a chuva me faz falta. Mas se chove muito, por onde andará o nosso querido sol?
No litoral sinto falta da serra. Na serra, do mar."
E por aí vai... Devo ter criado isso agora mas com certeza já li algo semelhante.
É sobre isso ou aquilo. Sobre opções. Sobre saudades. Sobre tempo.
O meu quintal não é muito grande. Durante longo período tive vegetação nele. Há alguns anos decidi retirar tudo e colocar um desses pisos decorados. Sobreviveu apenas uma palmeira de estimação. Única lembrança dos tempos verdes de meu pequeno quintal. Não tinha tempo de cuidar das plantas.
Continuo um sujeito urbano. De apartamentos, ruas asfaltadas, cinemas, bares, automóveis. E mar no verão, desde que com uma infra-estrutura de respeito. Ou seja: praia urbana.
Mas ultimamente tenho sentido falta de chão sem asfalto. Barro. De verde. Árvores com sombras. Riachos. Pássaros cantando de manhã. Silêncio de interior.
Não tenho nem nunca tive fazenda, sítio ou algo semelhante. Nunca me animei. Uma piada de alguns experientes sempre me desanimou: "você tem dois momentos de alegria com relação a um sítio: quando compra e quando consegue vender". Pois é.
Mas tenho visto alguns documentários e reportagens que mostram muita gente fazendo o caminho inverso e de forma definitiva ao que sempre vimos por aqui: abandonam uma confortável vida urbana e vão embora para lugares onde predomina o verde, sem o revestimento asfáltico da vida.
Querem se livrar não somente da paisagem árida dos edifícios mas também do interminável estresse provocado pela interminável lista de "coisas a fazer" ou informações a obter.
Foto de Luiz Fernando Almeida
Chegamos a tal ponto que quando não temos nada a fazer (se é que isso acontece em algum momento), ficamos meio que perdidos. Em solidão. Estamos perdendo a capacidade de ficarmos em companhia de nós mesmos.
Vai daí que a presença da natureza pode fazer toda a diferença.
Tem uma história que sempre me lembro (parcialmente, é verdade), a de um guerrilheiro perseguido pelo regime militar. Estava jurado de morte. Os companheiros precisavam tirá-lo do país mas naquele momento estava difícil. O levaram então para uma montanha. No meio da mata tinha apenas uma pequena casa, sem nenhum conforto maior. Precisava ficar ali, talvez durante meses, até as coisas se acalmarem.
Ocorre que o militante era uma dessas pessoas que só vivia a "mil por hora" (exigência da situação) e ficou quase louco ao ver tanta calma, com verde pra todo lado. Isso no começo. Como não tinha opção (a outra era o risco de ser assassinado), foi ficando, ficando e uma espécie de milagre aconteceu.
Quando os companheiros foram buscá-lo para levá-lo em segurança para fora do país, quem disse que ele quis? Alguns meses sozinho o foram transformando, acalmando, colocando-o em comunhão com a natureza, como se de volta ao útero materno. Reencontrando-se consigo mesmo.
Não queria saber mais de fugir, de ir para a cidade nem mesmo de guerrilha. Só queria ficar quieto, ali naquela casinha na mata que tinha um córrego ao lado. E ali ficou.
Não me perguntem quem era o guerrilheiro porque nem sei se essa história está correta ou completa, mas sei que ocorreu algo assim.
E serve para demonstrar essa impressão.
Acho difícil vir a ter o sítio (aquela piada ainda ressoa em minha mente) mas necessito de tempo para, quem sabe, pelo menos refazer aquele meu jardim. Vou ter que quebrar piso é verdade, mas é o preço. 
Enquanto concluo essas linhas, de cara para a tela do computador, ouço uma música que me remete a uma certa tranquilidade rural. Desliguei o ar, liguei o ventilador. Lá fora está sol. Não fui para a praia no "mega-feriado", talvez piscina. Ou talvez veja alguns episódios daquela série.
Da minha janela vejo algumas poucas árvores e o asfalto de minha rua começa a se aquecer.
Não sei não.
Saudade do contrário de tudo isso.
Talvez esteja querendo aquela casinha na montanha do guerrilheiro, com uma chuva fina caindo. Só levaria alguns discos (se é que lá teria energia elétrica), livros e a família. Mas duvido que os filhos iriam querer ir. Para eles, sem Banda Larga não há forma de vida que sobreviva.

Na parte musical do post:
- Grupo 14 Bis: "Um Passeio Pelo Interior".
- Uma da canções que Eddie Vedder (Pearl Jam) compôs para o filme "Na Natureza Selvagem".

10 comentários:

  1. Que legal Marquinhos! Fazia semanas que não postava nada. Não nos abandone! Bjs.

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  2. ALICE IN WONDERLAND22 de abril de 2015 22:29

    ADOREI! E NÃO PODERIA SER DIFERENTE.
    MARIA INÊS TÁ CERTA MARCOS.
    TENTE NOS BRINDAR COM PELO MENOS UM TEXTO POR SEMANA!!!
    BEIJOS.

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  3. Que maravilha... trilha sonora impecável. Sou suspeita ahahah. Texto sensacional. Eu adoro me desligar de tudo e acho q todos deviam se dar essa chance também. Belo o texto!

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  4. Obrigado pelas palavras e pela força Lyz, Maria Inês e Alice!
    Bjs.

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  5. Divulguei o link deste post lá no Facebook. Reporto alguns comentários realizados lá:
    "Não só me interessei, quanto gostei e me identifiquei. Acho que estou neste caminho, e posso lhe dizer que é bom. Lugares menores....pessoas melhores!
    Portanto vou compartilhar Marcos Oliveira, meu cumpadi!
    Um abraço!!" (Gil)

    "Marcos, gostei muito das suas impressoes. Nós, seres humanos, complicamos, de uma forma geral, muito a nossa vida. Acho que se buscarmos mais a simplicidade e a essência da natureza, alimentaremos de uma maneira muito mais saudável nosso corpo e principalmente, o nosso espírito. Torço pra que você quebre as pedras e refaça seu jardim, amigo. Abs" (Fátima)

    "Olá meu amigo, texto excelente e oportuno! Precisamos nos encontrar um dia desses para um bate-papo...o que acha? Abração!!!" (Alfredo)

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  6. Ainda do Face:

    "É, eu precisava ler e lembrar de como eu era. Hoje a vida me absorve tanto..." (Ed)

    "Nada como uma semana com 2 feriados para inspirar o artista !!! Show." (Marcelo)

    "Marcos, amei. Há uns cinco anos resolvemos ter um lugar mais calmo c qualidade de vida pra depois da aposentadoria. Gostamos de sol, praia, não queríamos nem muito roça nem muito urbano. Optamos por Grussaí, é próximo de Campos. Fizemos uma casa boa, vamos lá quase todo fim de semana. Tem grama, planta e nós q cuidamos. Aqui tenho quintal enorme, todo cimentado. O dia a dia é muito corrido. Mas se puder refaça o seu jardim. Bjos." (Jose)

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  7. Mais comentários do Facebook:

    "Excelente! Adorei o texto, as reflexões e as músicas! Parabéns e obrigada, Marcos, estamos todos nesse mesmo "barco", rumo ao interior e ao nosso interior." (Gracie)

    "Querido amigo tentei postar em seu blog, mas perdi o texto...enfim mando aqui. Fico extremamente feliz em ler sua reflexão, compartilhar dela e ainda ver essa foto, que penso traduzir em muito tudo isso que vc fala. Ao ler isso me reforça o quão acertada foi minha decisão. Quando estou aqui sentado no alpendre com a caneca de café tirada do bule na chapa no fogão à lenha, olhando meu mar de montanhas tenho a certeza de ser feliz e no desejo de poder dividir esse sentimento com todos. Muito obrigado pela oportunidade." (Luís Fernando Almeida)

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  8. No texto simples que escrevi citei matérias jornalísticas e documentários sobre pessoas "em fuga" dos grandes aglomerados urbanos. Não citei mas não esqueci de uma pessoa que vi fazer essa opção: você Nando. A bem da verdade foi a lembrança de você e de Lúcia que me provocou - mais do que os citados - o desejo de escrever sobre o tema. A foto foi o sinal mais claro disso. Fico feliz por vocês e com vocês. Assim, eu é que agradeço o exemplo bem sucedido que nos inspira. Abraços! P.S.: e, no meio do caminho entre a metrópole e a Mata Atlântica, nosso amigo Gil e seu agradabilíssimo refúgio em Búzios!

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  9. Marcos, com o passar do tempo vamos sentindo essa necessidade de fazer o caminho inverso. Meu refúgio é Atafoninha com o nordeste maravilhoso, grama, plantas e muito silêncio.Amei suas impressões!

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  10. É isso mesmo Márcia. Em busca da tranquilidade perdida, depois de tantos anos na luta.
    Obrigado!
    Bjs.

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