segunda-feira, 16 de março de 2015

Avenida Paulista, 15 de março de 2015

Ia escrever alguma coisa sobre as manifestações de ontem, mas tem gente muito melhor e mais qualificada opinando.
Então resolvi reproduzir este texto do escritor e jornalista Mario Donato, publicado originalmente no Diário do Centro do Mundo.


“Isso aqui é uma putaria e disso eu entendo”: o dono do Bahamas e outras figuras na Paulista
"Algo como final de Copa do Mundo misturado com réveillon. Esse pode ser um bom exemplo quanto ao volume de pessoas bem como pelo estado de espírito. Quase uma micareta. Poucos tinham noção das consequências. Mas não é possível fechar os olhos e ficar só na desqualificação. Os diálogos ouvidos foram bizarros.

“Com o dólar do jeito que está, teremos que ir para a Europa”, conversavam duas mulheres muito provavelmente debatendo a mudança de planos para as férias. “O custo de vida disparou. Meu condomínio pulou de 1.500 para 2 mil reais”, ouvi de um outro grupo. Dois casais acompanhados de crianças, ensinavam um garotinho de cerca de 4 anos de idade a dizer “Dilma é o caralho”. Estrebucharam de rir em seguida.

Mulheres siliconadas de unhas e cabelos feitos, rapazes bombados de academia, filas gigantescas nos estacionamentos (eles foram de carro para a manifestação!!), e uma presença ativa porque era ‘cool’ estar na rua ontem. Afinal, a Globo chamou. Nas padarias e lanchonetes pediam coxinha. Era um cenário de inúmeras piadas prontas. Mas não se pode ignorar o ocorrido. O povo, unido, é gente pra burro.

O discurso “fora PT, fora Dilma” foi acompanhado pela “indignação contra a corrupção”. Mas é curioso que o uniforme ‘oficial’ da manifestação de ontem tenha sido a camisa da seleção brasileira. A camiseta da CBF. Isso demonstra duas coisas: primeiro o caráter da monovisão simplista e excludente que o futebol representa no país.

Segundo, novamente a falta de informação. Adotaram a seleção como exemplo? A CBF é uma das entidades mais corruptas da face da terra. Esse detalhe fala por si só. Algo como se milhares de pessoas fossem às ruas pedir uma alimentação mais saudável trajando a camiseta do McDonalds.

Hoje, como os números foram muito expressivos, circula o argumento de que não era mais só o topo da pirâmide presente. Como não? Não havia negros. Basta olhar as fotos. A massa era predominantemente branca, bem nutrida e de roupas novas. Aquelas pessoas não demonstravam nenhuma necessidade básica. Apontam o dedo contra a corrupção dos outros. Só a dos outros, claro.

Alguns um pouco mais esclarecidos, reconheciam não ser exequível nem sustentável o caminho do impeachment e citavam a necessidade de uma reforma política. Ok, mas o que garante que aquele camarada de ontem não irá fazer uma doação como pessoa física e depois irá cobrar seu contratinho de sua empresinha na sua prefeiturinha do mesmo jeito?

A corrupção não se dá apenas no macro. Por isso é difícil levar a sério a massa que foi para as ruas ontem. Ela carece de moral para cobrar o que estava cobrando.

“Estou aqui como candidato a presidência da república porque é uma putaria o que está aí e ninguém entende mais de putaria do que eu. Claro que estou brincando, mas não suporto mais ver o meu país nessas condições. O nosso país é muito mais sério e essa ideologia que aí está é superada, não tem como dar continuidade.” Impeachment? “A pergunta é delicada, andei pensando nisso. Agora eu pergunto: Aécio fez oposição? Não sei quem eu colocaria no lugar, só sei que eu não tenho condições”, disse Oscar Maroni, proprietário da boate Bahamas.

No meio de tantas camisetas da CBF, Maroni era um dos poucos lúcidos."

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