segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Observatório da Imprensa e Blog da Cidadania: as pesquisas, a falta de transparência e os possíveis resultados da 'guerra' contra Dilma

Reproduzimos artigos analíticos dos jornalistas Luciano Martins Costa, do site Observatório da Imprensa, e Eduardo Guimarães do Blog da Cidadania.
Ambos foram publicados hoje, 09/02/2015.
O post ficou um pouco extenso mas vale a pena conhecer o outro lado das grandes questões atuais que a grande mídia não mostra.
 
A Falta de Transparência
"A pesquisa Datafolha, publicada no domingo (8/2) por todos os jornais de circulação nacional e com grande repercussão nos outros meios de comunicação, revela como a imprensa trabalha com uma agenda central e um discurso homogêneo. O ponto central da consulta é a popularidade da presidente da República, Dilma Rousseff, embora também tenham sido avaliados o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito da capital paulista, Fernando Haddad.
Na segunda-feira (9), a imprensa analisa as consequências possíveis da queda na reputação da presidente e suas chances de reverter o processo de desgaste de sua imagem, claramente afetada pelo escândalo da Petrobras, mas também influenciada pelo noticiário negativo sobre a economia. Especialistas em comunicação dão suas opiniões, e, nos bastidores de Brasília, os jornalistas garimpam especulações que procuram mostrar um momento de indecisão e espanto nas hostes do governo petista.
Enquanto isso, as análises sobre a queda de popularidade do governador paulista se resumem a considerá-lo uma vítima do problema da falta de água na região metropolitana de São Paulo. A Folha de S. Paulo ajuda a empurrar a opinião no sentido de desvincular o governador da crise hídrica, com uma nova pesquisa segundo a qual 60% dos moradores da capital paulista aprovam o rodízio no fornecimento de água, enquanto outra consulta mostra que 65% dos brasileiros defendem o racionamento preventivo de energia elétrica.
A observação do conjunto noticioso e opinativo revela, mais uma vez, o que se tornou uma característica da mídia tradicional no Brasil: com base numa fonte supostamente objetiva, como uma pesquisa de opinião, formulam-se hipóteses que são claramente distorcidas pela manipulação dos editores. Assim, a perda de popularidade da presidente da República decorre de seus próprios erros, enquanto o governador paulista ganha a chance de corrigir os danos de sua omissão e incúria ao adotar tardiamente as medidas que deveria ter tomado muitos anos atrás.
Pesquisas sobre popularidade e falta de transparência Em suma, a leitura dos jornais indica que a presidente Dilma Rousseff é culpada pela situação da Petrobras e pelas dificuldades econômicas, e o governador de São Paulo é vítima das mudanças climáticas.
Mas falta transparência a Dilma, a Alckmin e à própria mídia.

Dilma no espelho
Como já se disse aqui em outras ocasiões, quando se analisa a imprensa não se está trabalhando necessariamente com a realidade, mas apenas com uma versão espelhada no ambiente midiático. No entanto, o reflexo desse espelho tende a influenciar a realidade, como se pode observar nas pesquisas de opinião que revelam o efeito do viés negativo sobre uma personagem e a condescendência com que outra figura é tratada pela imprensa.
No caso do governador paulista, há claramente um esforço para dar guarida a suas desculpas, enquanto a presidente da República é sitiada diariamente por manchetes negativas. No noticiário sobre o problema do abastecimento de água em São Paulo, a estratégia dos jornais foi, até aqui, evitar o debate sobre as causas da crise. Com exceção de um ou outro especialista, a maioria dos textos publicados deixa aberta a possibilidade de que tudo seja culpa de São Pedro. A imprensa evitou o debate sobre sustentabilidade, proposto por ativistas da questão ambiental, e restringiu o noticiário à diminuição das chuvas.
Na noite de quarta-feira (4/2), André Trigueiro, um dos mais premiados jornalistas brasileiros, apresentou no programa Cidades e Soluções (ver aqui), da GloboNews, uma reportagem na qual lembrava os alertas feitos em 2003 sobre as previsões de falta de água.
O programa alcançou apenas o público que acessa a TV a cabo perto da meia-noite. Por que não na emissora de maior audiência do grupo, a TV Globo? Por que não no horário nobre? Por outro lado, o noticiário que afeta diretamente a imagem da presidente da República está diariamente no Jornal Nacional e nas primeiras páginas dos jornais.
Representantes do governo federal citados pelos jornais se dizem chocados com a queda de popularidade da presidente e dão palpites sobre como melhorar suas relações com a imprensa. Na opinião de alguns consultores, a presidente da República estava certa ao conclamar seus ministros a entrar na “batalha da comunicação”, e o poder Executivo precisa aprender a lidar com os jornalistas.
Bobagem: os erros do governo têm que ser discutidos abertamente com a sociedade, com ampla transparência; a imprensa é um partido de oposição."

 dilma
Guerra política contra Dilma prejudicará a todos “democraticamente”
"Em 29 de junho de 2013, após três semanas seguidas de protestos diários pelo país, com centenas de milhares de pessoas indo à rua e promovendo o caos, o Datafolha divulgou pesquisa de opinião mostrando expressiva queda da aprovação a Dilma Rousseff, bem maior do que a verificada em pesquisa do mesmo instituto divulgada no último sábado.

Há cerca de um ano e meio, dos 57% de bom e ótimo que a presidente tinha antes de aqueles protestos eclodirem, o percentual caiu para 30%. Desta vez foi pior: Dilma perdeu 19 pontos percentuais, caindo de 42% para 23%, enquanto a taxa de ruim e péssimo explodiu, indo de 24% em dezembro para 44% agora.

O que é mais preocupante para a presidente é que, na pesquisa de junho de 2013, sua taxa de ruim e péssimo subiu de 9% para 25% e, agora, subiu de 24% em dezembro último para 44%. Desde o governo Fernando Henrique Cardoso que um presidente não tinha rejeição tão alta.

Apesar desse quadro tétrico, Dilma tem motivos para ter esperança de melhora. Assim como ela se recuperou do baque de junho de 2013 e acabou se reelegendo, ainda que por margem apertada, o mesmo pode acontecer ao longo do ano. Isso porque alguns dos motivos que estão presentes no novo desmoronamento de popularidade também estavam no anterior.

Análise ponderada dos fatos mostra que, assim como em 2013, desta vez também foi a esquerda que desencadeou a queda de popularidade acentuada da presidente. Mas não é só. Desta vez também está presente uma percepção popular sobre a economia que contribuiu para a queda de popularidade do ano retrasado.

Na pesquisa de junho de 2013, disparou para 44% a taxa dos que acreditavam que o desemprego iria aumentar; na pesquisa divulgada no sábado, o pânico com a economia foi ainda maior, com 60% temendo pelo emprego.

Em 2013, o medo da inflação também revelou uma das principais razões para a queda de popularidade da presidente. Em junho daquele ano, 54% acreditavam em disparada da inflação; hoje, o percentual, espantoso, é de 80%.

A grande semelhança entre os dois momentos é que em junho de 2013 tampouco havia razão material para o descontentamento da população com o governo federal. A população não se revoltava com o que estava acontecendo, mas com o que a induziram a crer que iria acontecer.

Hoje, como em 2013, o desemprego é baixíssimo, o salário subiu ainda mais e a inflação está controlada – terminamos 2014 com a inflação de novo dentro da meta.

Porém, assim como em 2013, de novo a esquerda (incluindo setores do PT) fomentou a revolta da população; essa esquerda (incluindo, de novo, setores do PT) desencadeou uma enorme ofensiva nas redes sociais contra nomeações de ministros considerados de direita – Katia Abreu, na Agricultura, e Joaquim Levy, na Fazenda.

A casa de Dilma começou a cair em novembro do ano passado, com manifesto de intelectuais que apoiaram a sua reeleição. Cerca de 30 dias após a presidente se reeleger, esses intelectuais fizeram uma acusação tácita a ela ao pedirem que cumprisse o programa de governo com o qual se apresentara nas urnas. Ou seja, acusaram-na de estelionato eleitoral.

Chega janeiro e Dilma nomeia os ministros Abreu e Levy, desencadeando uma onda de críticas à esquerda que foi aumentando mesmo após semanas das nomeações. Esperta, a mídia antipetista tratou de divulgar fartamente que o próprio PT e sua militância estavam acusando Dilma de estelionato eleitoral, enquanto Aécio dizia a mesma coisa.

A tese do estelionato eleitoral, agora contestada por boa parte dos próprios correligionários de Dilma e por ex-simpatizantes da candidatura presidencial do PT, tornou-se uma tsunami que engolfou a opinião pública.

Além disso, a mídia tratou de ludibriar a população inventando uma crise de energia elétrica  – que não existe – e, tacitamente, culpou o governo federal pela crise hídrica em São Paulo, onde, segundo o Datafolha, 53% acreditam que Dilma e o prefeito Fernando Haddad são responsáveis pelo racionamento velado de água que a população vem sofrendo.

Por fim, alguns formadores de opinião conseguiram “viralizar” a teoria de que Dilma deveria usar rede nacional de rádio e televisão para se defender das críticas, o que não poderia fazer sob pena de ser acusada judicialmente de usar um equipamento público para fins políticos, já que rede nacional, por lei, só pode ser usada para comunicar assuntos de interesse da população, nunca para fazer política – e Dilma se defender em rede seria fazer política.

A boa notícia é a de que, se o governo conseguir impedir que os vaticínios catastrofistas sobre a economia se materializem, sua popularidade irá se recuperar. Se não houver aumento do desemprego e da inflação, a parcela da opinião pública que foi colocada em pânico tende a reverter sua posição política.

A má notícia é a de que tudo o que está acontecendo na política está influindo drasticamente na economia. O tratamento escandaloso que a mídia vem dando à Operação Lava Jato pode obrigar a Justiça a impedir que as empreiteiras acusadas operem as grandes obras em curso no país, o que irá fazer o desemprego explodir. Além disso, investidores, assustados com o quadro político, tendem a se retrair.

O bombardeio político de Dilma e seu enfraquecimento em sua base de apoio, portanto, podem causar um desastre econômico, fazendo explodir o desemprego e a inflação. Nesse contexto, o país seria tomado pelo caos. Ressurgimento de novas manifestações de rua seria mais do que provável.

Na grande mídia, vários analistas vinham dizendo que tudo de que o PSDB e a mídia precisam para propor o impeachment de Dilma ao Congresso é perda de apoio popular. Com o último Datafolha, a direita ganhou o instrumento de que precisava. Porém, a expectativa é que espere a situação se agravar mais um pouco.

O que Dilma pode fazer é tentar dialogar com o país e, sobretudo, com os movimentos sindical e sociais e com setores do PT e da militância partidarizada ou independente que, até aqui, dizem aos quatro ventos que se arrependeram do voto na presidente por conta das nomeações daqueles dois ministros e de algumas medidas de austeridade no seguro-desemprego e em mais alguns outros benefícios trabalhistas,

Outra possibilidade que pode melhorar a perspectiva do país é o instinto de sobrevivência do empresariado. Inclusive do grande empresariado. A política está destruindo a economia brasileira e, com isso, eles amargarão prejuízos astronômicos enquanto os trabalhadores mergulharão no desemprego e no arrocho salarial.

Ou seja: a qualquer um que tenha cérebro não interessa continuar pondo lenha na fogueira contra Dilma, seja essa pessoa de direita, de centro, de esquerda, do que for. Contudo, o país vive uma catarse. A política está sabotando a economia e até quem não quer o caos cedeu ao canto da sereia da mídia ou de formadores de opinião independentes.

Na atual situação, só um pacto pela governabilidade e pela defesa dos interesses de TODOS – trabalhadores e empresários, esquerdistas e direitistas – pode evitar uma tragédia econômica que jamais aconteceria sem essa maldita guerra política que vem prejudicando tanto um país que tem tudo para continuar melhorando como vinha fazendo há mais de uma década.

Uma distensão política permitiria que terminássemos 2015 sem ganhos econômicos, mas sem desastre. Se prevalecerem os interesses políticos dos derrotados na eleição de 2014, porém, aí todos terão motivos de sobra para se preocupar. E a queda de Dilma não resolveria nada, só agravaria, pois quem a sucederia seria bem mais duro nos ajustes econômicos."

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