sábado, 10 de janeiro de 2015

Por Que Chora A Tarde

Por que chora a tarde?
Por que chora?
A tarde está chorando por você.
Uma rápida chuva vespertina me fez lembrar desta canção brega do Antônio Marcos (1945-1992).
Não sei qual seria a melhor definição hoje desta palavra que foi moda no século passado.
Naquela época o sinônimo era cafona. Contrário de chique.
A área da música popular foi a que melhor traduziu o significado deste que era quase um estilo de ser.
Nos tempos da brilhantina eram mais claras as fronteiras que separavam a MPB de categoria das músicas compostas e ouvidas pelo baixo clero.
Primeiro foi a Bossa Nova e a Tropicália versus a Jovem Guarda.
As duas primeiras foram a fonte que desaguaram na elite do anos 1970: Vinícius, Chico, Gil, Milton, Caetano, Tom.
Já a Jovem Guarda ao amadurecer deu em músicas românticas da Zona Norte, consideradas pelos críticos como subcultura.

"Por que chora, a tarde seu pranto entristece o caminho
Por que chora, se tem a beleza do sol e da flor
Por que chora, a tarde sabendo que existe outro dia
E a alegria depois da tormenta, é dia de Sol"

Verdade que a Zona Sul se rendia às canções de amor, mas aí tinha de ser de Vinícius ou Tom. Permitiam-se no máximo ouvir Tim Maia e Roberto Carlos, esses em cima de um imaginário muro localizado no perímetro entre o bom gosto e o dispensável sentimento da perda do amor.
Que, no caso dos bregas, assumiam a dor de cotovelo, a sensação plena do sofrimento de ser corno, do abandono, da paixão não correspondida, do amor impossível.
Convenhamos que isso não combinava com salões aristocráticos nem com bibliotecas de mais de dez mil volumes regadas à uísque 12 anos.

"Por que chora, a tarde no rio salpicando o seu leito
Por que chora, gritando ao vento angustias e dor
É que a tarde já sabe que alguém carregou meu carinho
Eu compreendo que também a tarde, soluça de amor"

Nem mesmo a ditadura gostava dos bregas.
É que, segundo eles, acredito eu, haviam componentes sociais em alguma letras que deveriam ser analisadas mais a fundo antes de serem liberadas.
Questões feministas, de sinalização à minorias e de liberação sexual poderiam ser indícios de apoio à visões mais à esquerda na política.
Ninguém entendia e apoiava os bregas.
A não ser aquela parcela do povão mais simples e romântica.

"A tarde está chorando por você
Por que assiste a solidão no meu caminho
A tarde entristeceu junto comigo 
E eu preciso desta tarde como abrigo"

Isso lá para trás, anos 1970.
Do José Augusto e sua reclamação pelo fato do seu amor não lhe ter ensinado a esquecê-la, do Fernando Mendes e sua menina na cadeira de rodas e da outra, aquela desconhecida, do Odair José e o seu pedido para a namorada parar de tomar a pílula.
Passadas algumas décadas, depois do aval, respeito e consideração confessados por compositores da elite, depois de livros e teses de doutorado, aquelas antigas composições foram elevadas à categoria cult.
Nada de novo no front para quem gosta tanto de música que não tem preconceitos contra o canto de paixonites agudas e perdas amorosas à la suburbian nights.
As músicas eram legais e marcaram uma época para quem estava atento.

"A tarde está chorando por você
Ela sabe que o amor partiu pra sempre
Seus passos vão sumindo pela estrada..."

Mesmo em canções que terminam com versos do tipo "...E esta chuva faz a tarde tão molhada"!





Antônio Marcos

Um comentário:

  1. Adorei o post!! Assumo minha identidade: Sou brega, sou cafona, sou baixo clero e sou de esquerda. rsrsrs. Sempre curti estas músicas! Parabéns!!!

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