sábado, 24 de janeiro de 2015

A última viagem cósmica de Edgar


A única publicação musical de que gosto e assino atualmente no Brasil é a revista Poeira Zine, editada pelo Bento Araújo.
Embora tenha uma visão ampla da música, o foco principal é o Rock dos anos 1960 e 1970. E olha que o Bento é bem jovem ainda, ao contrário deste escriba.

Falar da música popular daquela época tem um complicador. Os artistas de que eu gostava naqueles tempos deveriam estar na faixa média dos 25 anos. Entre 15 e 20 anos a mais do que eu.
Os nossos ídolos que sobreviveram aos loucos anos estão hoje com idade variando entre 65 e 80 anos.

Na Poeira Zine - que tem edições bimestrais - tem uma seção chamada "Quem Se Foi".
Já viram onde estou querendo chegar. A cada bimestre tem uma penca de conhecidos nossos que partiram deste evento existencial.
O que é um tanto o quanto nostálgico, melancólico, deprimente, triste, etc. Mas é a vida. Quem não partiu jovem, da velhice não escapa.
Ocorre que, com o aumento da expectativa de vida, qualquer pessoa que parta - mesmo aos setenta e poucos - nos parece que foi prematuramente. Sobretudo quando se trata de um artista que continua produzindo.

Quando editei o Jornal Metamúsica, entre os anos de 1995 e 2000, não cheguei a pensar em uma seção como essa. Acho que não morria tanta gente.
Mas uma das prioridades era fazer matérias, se possível com entrevistas, com músicos que eu admirava e que não tinham o merecido espaço na grande mídia.

Entre as que consegui fazer está um artigo e entrevista com Edgar Froese, multinstrumentista alemão que foi um dos desenvolvedores da música de base eletrônica através do seu grupo Tangerine Dream.
Estudante de artes plásticas, Edgar chegou a ser aluno do grande Salvador Dali - mestre do Surrealismo - antes de se dedicar exclusivamente à música em fins dos anos 1960.

O som do Tangerine Dream - sobretudo em seu auge, entre meados da década 1970 e metade dos anos 1980 - era considerado o topo da música eletrônica de tonalidades cósmicas, espaciais, 'viajantes'.
Um dos seus LPs solo - para citar um exemplo que serve de referência para entendimento - chama-se "Electronic Meditations". Mas há dezenas de outros: "Aqua", "Phaedra", "Cyclone", "Rubycon", "Stratosfear", "Hyperborea", etc.
Junto com o Kraftwerk (outro grupo alemão), o TD influenciou tudo que foi feito nos ultimos 35 anos que tenha como base sons sintetizados, da New Age Music até os gêneros "techno".
Edgar Froese e seu Tangerine Dream também fizeram inúmeras trilhas sonoras para diversos filmes. Sua música era também cinematográfica.

Eu tenho uma empatia muito grande com o som da banda que nunca deixei de ouvir ao longo das últimas décadas.
Disso nasce uma consideração especial pelas pessoas que produzem aqueles sons que nos acompanham pela vida. Mesmo que nunca os tenhamos conhecido pessoalmente. Tornamo-nos amigos deles. E ficamos tristes quando temos a notícia de que deixaram o planeta definitivamente.

A próxima edição do Poeira Zine vai trazer na citada seção o nome de Edgar Froese. Ele partiu para sua última criação cósmica na última terça-feira, dia 20 de janeiro. Estava em uma cidade muito musical: Viena, Áustria. Repentinamente, de embolia pulmonar, aos 70 anos.

No infinito vai compor uma canção espiritual que vai soar por toda a eternidade.

Obrigado Edgar. Descanse em paz.




2 comentários:

  1. "Edgar Froese, fundador da banda alemã Tangerine Dream, uma das mais importantes do rock progressivo eletrônico, morreu na última terça-feira, aos 70 anos, vítima de complicações de uma embolia pulmonar. Segundo o Facebook da banda, o músico morreu "repentina e inesperadamente" em Viena, na Áustria.

    Nascido em Berlim, Froese formou, em 1967, a Tangerine Dream, que lançou mais de 100 álbuns e compôs a trilha sonora de dezenas de filmes, entre eles "A lenda" (1985), "Negócio arriscado" (1983) e "A fortaleza infernal" (1983).

    Ao lado dos conterrâneos Kraftwerk e Can, o grupo foi um dos expoentes da cena conhecida como Krautrock, atribuída a artistas experimentais da Alemanha no começo dos anos 1970, quando Froese passou a experimentar novas técnicas eletrônicas. Foi a partir desse período que a Tangerine Dream atingiu o seu auge, lançando os aclamados discos "Atem" (1973) e "Phaedra" (1974).

    Em junho do ano passado, a banda lançou um novo álbum de estúdio, "Chandra – The Phantom Ferry Part II"."

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  2. Emocionante Marcos. Sabia que ia publicar algo a respeito. Também fiquei muito triste e estou ouvindo direto todos os discos do Tangerine Dream que possuo, além dos álbuns solo dele.

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