quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O dia comum e o grupo no WhatsApp


Todo dia pela manhã abro o WhatsApp (aquela rede social) daquele grupo e tem vários "Bom Dia". Alguns com mensagens com votos de felicidade e dicas do bem viver.
Hoje nem abri. É a mesma coisa dita de forma diferente, repetida.
Deixo o celular de lado, vou levantar pra tomar café com leite, aipim, batata doce e queijo branco. Tenho me esforçado para abandonar meu caso de amor eterno com o pão francês. Farinha branca, meu pirão por último. Coisas de saúde versus idade. Quase sempre encontro com velhos amigos - não amigos velhos - reclamando de índices glicêmicos, taxas de colesterol e triglicerídeos, balanças desreguladas... Melhor fazer logo um sacrifício e entrar no arroz integral e assemelhados. Dizem que depois a gente acostuma. Tem que acostumar. Minha genética tem me ajudado até aqui, mas desconfio que ela já chegou no seu limite, preciso agora fazer a minha parte.
Mas e aquele grupo? Nem olhei.
O joelho nesta manhã dá leves sinais de reclamação, desconfio que ontem na Academia quis acompanhar aqueles rapazes tatuados e aquelas jovens de belos leggings grudados. Fiz mal negócio. Melhor ir devagar pegando ritmo, caso contrário a "Idade do Com_dor" vai se tornar uma realidade para este não tão garoto como pensa aparentar.
O celular está lá, esquecido. Nem vi o Facebook nem o Instagram. Nem aquele grupo.
Por volta das 11 horas fui com meu filho cortar o cabelo. Pensei em ir em uma barbearia que abriu aqui perto de casa. Nem tem nome de barbearia. É Barbershop (ou Barber Shop, não sei bem como se escreve). Lá os jovens profissionais usam barba. E tem música legal. E tem sinuca. E tem cerveja. Decoração e ambiente modernos. Grandes portas de vidro, pé direito alto. Fazem do cortar o cabelo quase uma experiência sensorial. Mas lá não tem o meu barbeiro Ricardo com suas histórias e hilárias considerações, com um certo mau humor irônico. Nem os antigos clientes que repetem os mesmos 'causos' que se passaram em suas vidas. Hoje o tema foi um valão que tem ali perto. Estão limpando. Dizem que desta vez vão dar a solução definitiva. Os ipês roxos e amarelos que ali habitam agradecerão.
E teve um falatório sem fim de um senhor que tenta há 20 anos retomar seu posto nos Correios, demitido numa dessas reduções de mão de obra. Segundo ele o caso já está nas mãos do Ministro Barroso do STF há quatro anos, engavetado. Segundo ele... Definitivamente não vou trocar a pequena barbearia do Ricardo perto do valão com ipês por aquela Barbershop chic. E olha que o preço é praticamente o mesmo.
E deu meio-dia. Hora de desejar "boa tarde", mas eu nem entrei naquele grupo hoje...
No retorno pra casa muito sol, vento seco. Não sei bem porque, resolvi lavar o carro. Não sou adepto de tal prática, embora goste que o veículo esteja sempre limpo. Desconfio que queria fazer uma atividade física ao som de uma boa música alta. Coloquei Deep Purple, Led Zeppelin e The Who. Nada mal. O carro ficou um brinco e eu nem percebi o tempo passar, ouvindo "Machine Head", "Phisical Graffiti" e "Who's Next"! Já lavaram o carro ao som de Hard Rock? É uma terapia física e mental. Mesmo que você odeie limpar automóvel. Bem, tem gosto pra tudo.
Mas faltava algo naquela tarde... o que seria? Claro! O livro do Ruy Castro que contém crônicas sobre música, principalmente Jazz, que havia começado a ler na véspera. Chama-se "Tempestade de Ritmos" e ótimo de ler tendo como trilha-sonora qualquer CD do genial Miles Davis.
Mas, eis que repentinamente no meio da leitura, algo me salta de forma clara à mente: o fato de não ter olhado e respondido aqueles "bom dia!" do Whatsapp está me perseguindo! Sobretudo aquela turma. Literalmente turma.
Não os via há 37 anos, desde a formatura em 1978 na Escola Técnica. Depois de um longo percurso nos reencontramos em 2015 e foi como não existisse essa tão grande lacuna. É uma história longa e comovente.
O tempo passou para todos - inexorável que é - caminhos diferentes foram tomados. Mas depois que que nos reencontramos algo mudou: conseguimos trazer de volta aqueles momentos jovens, felizes sem pressões. De pureza da alma, de ser amigo apenas para desfrutar o prazer de ser amigo. Juntos voltamos aos 18 anos, um presente que não esperávamos.
Nos encontramos pessoalmente regularmente mas é no Whatsapp que temos os contatos diários. Neste dia em que tantas atividades foram feitas e estive com pessoas que nem conhecia bem, percebi que sempre precisamos do outro. É nosso espelho, nossa referência existencial: me percebem, logo existo. Mas se esse outro são aqueles amigos e amigas de um período tão áureo de nossa vida, a coisa atinge um ponto muito mais alto, diferenciado.
Nos "Bom Dia", nas mensagens, nas piadas, nos videos e músicas, nos bate-papos, nas fotografias daquele grupo da Escola Técnica eu posso estar com eles todos os dias, como foram aqueles tempos maravilhosos de 1976, 1977 e 1978. Não é nostalgia. Ou, não é apenas. É vivenciar hoje o bem estar de outrora.
E, no final desta tarde, depois de barbeiros, histórias intermináveis, ipês roxos, carros, rock, jazz, livros, cálculos financeiros que nem sempre fecham, peguei o celular, abri o Whatsapp e olhei o grupo "Edificações 76*78": 77 mensagens não lidas! Digitei "Boa tarde turma, obrigado por existirem! Abraços a todos!"

sábado, 19 de agosto de 2017

Impressões sobre a música e seus poderes

Nunca entendi porque algumas pessoas gostam tanto de música e outros não dão a mínima. Ok, é apenas mais um item da singularidade entre os seres humanos.
Acredito que na natureza (fora a humana) existe um consenso maior. 
No mundo animal (irracional ou nem tanto), por exemplo, a música - ou sons organizados em uma forma - é unanimidade por um motivo simples: sexo! Qualquer tipo de acasalamento que já ouvi falar leva em consideração a arte da conquista, ainda que instintivamente. Neste caso, além de sinais visuais são emitidos cantos, muitas vezes complementados por danças ou movimentos bem específicos. Sem dúvida um ótimo motivo para os animais criarem sua própria forma musical, de acordo com a espécie.
E com o mundo vegetal? Experiências tem sido feitas com viníferas submetidas à música de alto nível para se conseguir colheitas de caráter superior, gerando vinhos soberbos. Coincidência que o vinho seja considerado a mais sensual das bebidas.
Nesse aspecto, também no universo humano a música tem forte respaldo, seja através de letras apaixonadas (ainda que de "sofrência" ou de "corno") ou de ritmos e melodias que conduzem ao apelo das artes amorosas. É de se concluir que, ao longo dos séculos - até pela sobrevivência da espécie - o encontro sexual tenha se mantido como fato propulsor da humanidade. Seguindo essa linha de raciocínio a música pegou carona em tal fato e tem sobrevivido e se expandido como necessidade e prazer.
Paradoxalmente, que gênero musical (em suas diversas formatações) tem atravessado os tempos? A música religiosa! Incluindo cânticos e ritmos tribais, para não ficarmos somente nas matrizes europeias e asiáticas. Bem, alguns músicos místicos ao longo da história tem afirmado que a distância entre esses dois extremos (sexualidade e espiritualidade) não é tão grande assim. Muito menos excludentes.
Dogmas cristãos à parte (sobretudo da Idade Media), vemos isso em algumas vertentes hinduístas, como o Tantra, só para citar um exemplo.
O fato é que, se sobrevive e se amplia no universo humano, a música gera então uma infinidade de oportunidades, afinidades, interconexões, etc.
A beleza e o prazer de ouvir e criar música se estabelece como ponto de partida para iniciativas que transcendem seu universo inicial já citado aqui.
São inúmeros os exemplos a atravessar a história, mas podemos vivenciar isso em nosso ambiente, agora.
Na ultima sexta-feira fui assistir a uma apresentação da sempre adorável Leila Pinheiro, acompanhada de uma Orquestra Sinfônica. 
Se a Leila dispensa maiores comentários sobre as emoções que seu canto desperta, algumas palavras sobre essa orquestra se fazem necessárias.
Ela é formada por jovens que em sua maioria foram resgatados de uma história de vida que provavelmente não teria final feliz. A ONG "Orquestrando a Vida" (lindo título) faz um trabalho com jovens carentes que nunca tiveram contato com a música e os transforma em músicos profissionais. Mas vai além disso: os constrói como cidadãos plenos e com sua humanidade aflorada, através da Cultura Musical. Existe algo mais nobre e belo do que isso? Fruto do trabalho de pessoas que amam e vivem dentro da música.
São esses alguns dos poderes mágicos dessa forma de linguagem tão difícil de definir da mesma forma que o tempo.
Falando nele, é sempre tempo de ouvir boa música, ter prazer com ela e através dela realizar ações para fazer deste um mundo melhor para todos.
Sem esquecer o sexo, é claro! O que me faz lembrar de uma frase símbolo da Contracultura do final dos anos 1960 e início da década de 70: "Faça amor, não faça a guerra". Lembrando que a Contracultura nasceu da música e sempre foi movida por ela. Um bom lembrete para os dias nebulosos de hoje.




domingo, 6 de agosto de 2017

O Edifício Soturno e a Nossa Vida


Faz muito tempo.
Quando criança, caminhava pelas ruas simples do meu bairro do subúrbio. Neste caminhar gostava de olhar com curiosidade para as casas e seus quintais.
Nos tempos adultos tal hábito se perdeu e nem sei mais porque tinha aquela curiosidade.
Preso em escritório no dia a dia de labuta e me deslocando quase exclusivamente de carro não existe inocente costume juvenil que sobreviva.
Observando detalhes nas ruas
Com a recente aposentadoria, começo a perceber que fatos, emoções, hábitos até então soterrados por compromissos, preocupações, pressões diárias, começam a voltar à tona. Existindo a propriedade do próprio tempo - ainda que parcialmente - descobre-se que andamos nos últimos anos e décadas sendo apenas parte de uma engrenagem, pouco exercendo a grata satisfação de apenas "ser".
Tais divagações são apenas tentativas de explicar um fato aparentemente corriqueiro.
Estava no Rio passando uns dias. De manhã, após o café, resolvi dar uma volta nas imediações. O Aterro ficava a cinco minutos e eu segui em direção ao mesmo. Era domingo, quando a maioria das velozes pistas ficam fechadas para que as famílias aproveitem com mais liberdade o complexo de lazer que tem o magnífico projeto paisagístico de Burle Marx.
Perdido nos meus pensamentos paro na esquina da Rua Ferreira Viana com a pista principal esperando o momento de atravessar. Eis que olho à minha esquerda e levo um susto! Que prédio era aquele? Como não o tinha percebido antes?
Parecia ter mais de 10 andares. Belo, imponente e... assustador! Era escuro, quase negro e lembrava arquitetura gótica, embora - nos meus parcos conhecimentos - vislumbrei que era de referências ecléticas. Me lembrei que estava com o celular no bolso da bermuda e, quase no automático, tirei uma foto, sem me preocupar com ângulo, foco, zoom, etc.
Atravessei as largas avenidas e continuei com o meu passeio.
A vivacidade do Aterro em contraste com o prédio em frente
O verde do Aterro, a paisagem deslumbrante da Baía, do Pão de Açúcar, das famílias em piquenique dominical nos gramados, os atletas de fim de semana jogando futebol e vôlei... Percebi que, apesar da minha ligação com aquele momento, uma coisa estava me martelando a mente: quem morava naquele prédio? Ele era tão cinzento e meio tenebroso por dentro como era por fora? Porque, apesar de assustador eu o achava belo? Como explicar o contraste de seu projeto com o exuberante verde que fica ali em frente? Mas acima de tudo gostaria de saber sobre a vida de seus moradores. Uma curiosidade existencial de minha parte? Foi ali que me lembrei de meu hábito de infância, nesta mesma cidade, mas no distante subúrbio, em tempos mais distantes ainda.
Retornei pelo mesmo caminho e parei alguns minutos em frente ao objeto que havia se tornado um foco extraordinário de minhas atenções. As portas de frente e laterais estavam fechadas, pareciam seladas. O brilhante sol da manhã outonal incidia sobre os andares superiores e, visto de baixo para cima, o céu azul e as nuvens brancas realçavam ainda mais as impressões emocionais que a construção me proporcionava. Bati mais umas fotos e continuei meu caminho.
Percebi então que reparava mais nas coisas ao meu redor. Na moça que havia saído de seu apartamento com os dois cachorrinhos que festejam a rua, na fachada de um café instalado em uma pequena casa com varanda, na portão de ferro todo trabalhado de outro antigo edifício, no vendedor de rua que espalhava na calçada sua rara mercadoria: velhos livros e discos de vinil que parei para conferir.
Filme: questões existenciais
Descobri que aquela criança curiosa que observava as casas do bairro ainda estava ali, havia agora retornado (depois de décadas de indiferença com o que estava ao seu redor) e mais: que o importava para ela não eram as coisas mas as pessoas e suas vidas. Na impossibilidade de conhecer e entender as diferenças de vida e de forma de viver de cada um, a lente observadora se dirige para o que é tangível: prédios, lojas, ruas, calçadas, automóveis, placas de aviso e propaganda, etc.
Ontem revi o complexo filme "A Viagem" (no original, "Cloud Atlas" dos irmãos Wachowski) e umas das personagens (a clone coreana Sonmi-451 vivida pela bela Donna Bae) diz que do "nascimento ao túmulo, todos estamos - direta ou indiretamente - interligados". E, mesmo depois disso, a ligação continua pois "a morte é apenas uma porta; quando uma se fecha, outra se abre."
Me lembrei dessa minha curiosidade, sobre as diferentes experiencias do que é a vida para cada um, as milhões de almas que habitam e habitaram esta terra.
Longe da complexidade do citado filme (que conta seis histórias de vidas interligadas em épocas diferentes, inclusive futuro), resta-me apenas voltar a observar casas, prédios e jardins em uma tênue tentativa de entender pessoas e existências. Enfim, o que é a vida.
O edifício de um outro ângulo (foto da Internet)
Em tempo: pesquisei um pouco sobre o citado prédio.
Chama-se Seabra, construído em 1931 por um banqueiro e industrial.
Projetado por um arquiteto italiano, grande parte de seus componentes interiores vieram da Europa. É que este bem sucedido empresário era casado com uma italiana, que queria algo parecido com a Primeira Renascença, uma vez que ela era descendente de nobres, parente do príncipe Rainier, de Mônaco.
Ao que parece o interior é luxuoso e belíssimo. Existe um livro contando a história do prédio e da família (mas eu não consegui ainda).
Muitos o apelidaram de o "Edifício Dakota Carioca", o lúgubre prédio novaiorquino em frente ao qual John Lennon foi assassinado (ele morava ali) e onde foi rodado o filme de terror "O Bebê de Rosemary".
Visão parcial do interior do Edifício Seabra (foto conseguida na Internet)
Visão parcial do interior do Edifício Seabra (foto conseguida na Internet)