quinta-feira, 15 de junho de 2017

A feira da roça e outras amenidades

A feirinha da roça na cidade
Com o passar do tempo noto que alguns temas tem sido recorrentes nestes meus simples e simplificados escritos.
Um deles é o que iniciou este arremedo de crônica: o passar do tempo.
Mas não só este assunto.
Outro é uma certa briga interna entre um coração essencialmente urbano - de asfalto, prédios, multidões - e uma necessidade cada vez maior das areias de uma praia deserta ou de uma trilha por entre o verde, à sombra da mata.
Mar, árvores, céu azul, nuvens, silenciosa cantiga das ondas e dos pássaros.
Mas o coração urbano ainda canta suas belas canções, mesmo que para lembrar do interior e da velha infância. Ou de coisas e lugares que não conheci ou não me recordava.

Toda semana, não muito longe de minha casa (na cidade) ocorre, na calçada de uma praça, a "feirinha da roça". Na última terça-feira lá estive com a incumbência de comprar aipim e batata-doce. E o que mais achasse interessante.
Seria normal estar em uma praia deserta
 e lembrar do interior de Minas?
Mas o que chamou atenção eu não podia comprar: a própria feira que repentinamente me fez viajar no tempo e no espaço para aquele subúrbio da Estrada de Ferro Central do Brasil, anos 60. Apesar de ser a capital do antigo Estado da Guanabara, metrópole, o Rio tinha uma micro-região chamada Zona Rural, hoje integrada à Zona Oeste. Era ali que eu morava. Ou seja, quase roça, mesmo na cidade grande.
Não existiam hortifrutis, nem supermercados. Ou era a quitanda do português ou a feira que vendia de tudo um pouco, produtos produzidos ali mesmo, nos grandes quintais e sítios das casas simples.
Essas nostálgicas reminiscências de um tempo que já se foi, provocadas pela visão da feirinha da roça na região central de uma cidade grande, não foi a única sensação daquele momento.

Já perceberam alguma vez uma espécie de saudade de algo que não vivenciaram ou de um lugar que não conheceram?
Pois é. Foi isso também. Naquele momento senti falta de Minas Gerais. Detalhe, que talvez já tenham percebido, é que nunca - nunca - fui a Minas, mesmo estando tão perto.
Talvez não seja tão difícil explicar isso (a forma mais fácil seria constatar que estou ficando um tanto quanto louco, mas não é o caso, acho).
É fato que sempre me liguei na música feita em Minas e música sempre vem em primeiro lugar para mim.
As canções mineiras são do mundo mas ao mesmo tempo fincadas em uma tradição única, de suas terras, dos seus ritmos, do seu interior.
Essas ricas construções harmônicas e os seus cantadores - falando das pessoas simples, das serras e estradas, do sentimento de se viver plenamente a calma do momento - sempre me deram a sensação de estar em sintonia com um Brasil mágico, de pessoas boas que ainda não caíram na armadilha do corre-corre da cidade grande.

Mas porque não fui lá até hoje?
Aquela velha história de que "Minas não tem praia" talvez tenha contribuído ao longo do tempo para um certo desinteresse de minha parte, tão ligado que sou no mar.
Por outro lado sempre gostei daquelas igrejas coloniais, pisos de pedra, montanhas e trens.
Mas o fato é que a visão de imagens do interior, da roça - que parecem cada vez mais distantes neste coração urbano cheio de carros (não de bois), shoppings, ônibus, prédios, computadores - tem me sensibilizado cada vez mais.
Coisas da (c)idade?

Minas, apesar de ter suas grandes cidades, parece representar bem as sensações despertadas por um país simples, já distante. Tão distante quanto a minha infância lá da Zona Rural, daquela feira na praça do bairro.

Na feirinha da roça do centro da cidade esta semana, pude por uns momentos - apesar dos prédios e carros - estar por entre aquelas barraquinhas de 50 anos atrás, ao mesmo tempo que viajei mentalmente até algum lugar de Minas, onde a vida segue tranquila por vielas, trilhas e temas musicais.

Hoje, neste feriado de Corpus Christi, em frente ao mar, criei na imaginação uma cidade do interior mineiro em frente à praia. E ouvi aquelas velhas canções que retratam sensações e emoções que não temos tido tempo de vivenciar como gostaríamos...