domingo, 10 de dezembro de 2017

A Nostalgia e a Morte de Luiz Carlos Maciel

Já passa de 1 h da manhã. O domingo avança pela madrugada. A TV está ligada no canal Arte 1, o volume está baixo mas dá pra ouvir o piano que toca no documentário contando a biografia de Frédéric Chopin.
Todos dormem e meus olhos já ardem de sono. Uma última olhada no celular e vejo a notícia da morte de Luiz Carlos Maciel. Um aperto no peito, sentimento de perda, nostalgia: um dos caras que mais admirei nas minhas leituras de juventude. Tempo, tempo, tempo... Ele estava com 79 anos.
Me lembrei que havia escrito algo sobre ele no Blog do Felipe Muniz. Demorei mas encontrei.
Sem mais comentários sentimentais reproduzo a seguir.
Boa viagem LCM.

Nostalgia, segundo o Luiz Carlos Maciel (originalmente publicado no verão de 2011 no Blog do Felipe Muniz)

O domingo amanheceu ensolarado. Belo dia.
Para quem gostar e tiver oportunidade, um bom dia para tomar um banho de mar (ou “banho de bar”). Desde que a praia não esteja tão lotada nem poluída. Piscina pode ser também uma boa opção.
Quem sabe dormir até mais tarde, fugir do calor, ler o jornal dominical, descansar... Para os religiosos, também dia de ir à Igreja.
Dei uma passada rápida aqui no blog porque precisava passar um mail. Não estava nos planos colocar post hoje. Aliás, verão, fim de semana, a assiduidade por parte dos leitores cai naturalmente, certo? Não! Me surpreendi ao verificar que 410 pessoas olharam o blog ontem. Eu e o Luiz Felipe agradecemos a atenção.
Mas - antes mesmo de tomar o café da manhã e depois dar uma passada na praia - o que devo colocar aqui no blog neste domingo?
Pois, não sei como e porque, me lembrei de uma pessoa, um cara muito especial. É em homenagem a ele este post dominical.

O gaúcho Luiz Carlos Maciel (nasceu em 1938 e em alguns de seus livros o Luiz aparece com s) é escritor, filósofo, jornalista (foi um dos fundadores do jornal “O Pasquim”), diretor, escritor, roteirista, crítico musical, etc.
Era chamado nos anos 1970 de “Papa da Contracultura” (ou “Cultura Underground”). Um grande Intelectual. Com I maiúsculo.
Faz tempo que não vejo ele nos jornais, TV, revistas, etc. Só sei que ele mora no Leblon. Mas sempre me lembro de alguns ensaios de sua autoria que li há muito tempo.
Com a Internet ficou mais fácil achar alguns de seus escritos (acho que todos os seus livros estão fora de catálogo) como este sobre ‘nostalgia’ que reproduzo abaixo.
Não sei se esse tipo de assunto interessa mais, neste dias corridos, sem muito tempo para pensar sobre a vida.
É de 1977, mas vai ser atual sempre (independente do interesse despertado). Só gostaria de saber se hoje em dia (com mais de 70 anos) ele mudaria alguma coisa.
É claro que poderíamos atualizar algumas frases, tipo: O que os Beatles, Tina Turner e Pink Floyd tem que o Justin Bieber, Lady Gaga e Restart não tem?

NOSTALGIA
Luiz Carlos Maciel (do livro “A Morte Organizada”)
"Dizem que há um clima geral de nostalgia em todo o mundo. De repente, como se tivéssemos ficado cansados das novidades incessantes dos últimos anos, estaríamos parando para lembrar. São numerosos os jornais e revistas, os articulistas e repórteres, que parecem estar tentando nos convencer de que a memória, afinal de contas, é bem mais excitante e divertida que a vida atual. O que tem Humphrey Bogart e Marilyn Monroe que Mick Jagger e Alice Cooper, a julgar por eles, não têm? É difícil saber, considerados apenas os chamados dados objetivos desses nomes e dos fenômenos mais amplos que eles representam. As coisas passam e o mundo muda — isto é tudo. Se, de alguma forma, nos prendemos ao que passou ou pretendemos, periodicamente, retornar a ele, isso deve ser naturalmente atribuído a uma poderosa força psicológica sobre a qual não parecemos ter, ainda, muita clareza. Por que o passado — e não o passado distante, mítico e incognoscível, mais aberto portanto à imaginação, mas um passado que vivemos — nos parece, de súbito, tão atraente e envolto em encanto?
A nostalgia, como fenômeno social, é o produto direto de um certo sentimento do mundo, que se pretende afirmar como dominante, típico de pessoas que ultrapassaram a metade provável de suas vidas. Vivemos sempre no passado ou no futuro; a desatenção nos desvia no momento presente para essas fantasias, sempre imprecisas mas exigentes, sugeridas pela memória e pela imaginação. Os jovens, por exemplo, em sua circunstância biológica, costumam viver o futuro: são, inteiramente, projeto e antecipação. Gostam de previsões, profecias e, mesmo, planos a longo alcance. A imaginação doentia, então, se projeta para diante. Na medida em que a vida passa, porém, o futuro se fecha, as fantasias se desmentem e a imaginação — cada vez mais doentia, pois em geral tentamos curar nossas doenças ingerindo doses cada vez mais altas dos venenos que as provocaram — procura pasto na memória. Frustradas as suas antecipações, o ego sente que está perdido e abandonado à insegurança fundamental da liberdade — que, aliás, só é angustiante em sua ótica deformada, sendo para o homem desperto, ao contrário, fonte de paz e equilíbrio psicológico. Volta-se, então para essas imagens obscuras da memória como se elas fornecessem um atestado da existência objetiva de algum paraíso e seguro que ele, o ego, pudesse dominar. As imagens obscuras, porém, são apenas imagens obscuras, não correspondendo a nenhuma realidade efetiva, e o sentimento que brota então é uma coisa morna e passiva, doce mas triste, aparentemente tranquilizadora mas mortal a que chamamos nostalgia.
A verificação prática é fácil. Todos os objetos da pretensa onda de nostalgia que, segundo certa imprensa, é uma moda atual, são lembranças dos anos cinqüenta, justamente a época em que as pessoas que, agora, estão na metade provável da vida, eram jovens curiosos e abertos ao futuro. O aparecimento de um sentimento nostálgico no mundo, nessa gente, indica, antes de mais nada, que estamos vivendo o momento histórico em que elas viram desmentidas as suas antecipações, frustrados os seus projetos e desmanchado o futuro fictício que elaboraram longamente nas cavernas secretas da imaginação. Por que a nostalgia não se satisfaz com um passado mais recente? Por que não ousa recuar a um passado mais remoto? Não: as explosões nostálgicas fixam-se num recuo de cerca de vinte anos, mais ou menos, ou seja, justamente o período intermediário entre a infância e a adolescência dos que estão nos trinta, nos quarenta, e suas atuais decepções. “Já temos um passado, meu amor”, diz Caetano Veloso em Saudosismo. Essa verificação existencial é o ponto inicial do processo: o passado reaparece a partir do esvaziamento do futuro. Os anos cinqüenta aparecem, imaginariamente, como a perspectiva perdida de um controle ingênuo da realidade, típico da infância e da adolescência — uma ilusão evanescente, é verdade, mas nossa primeira reação ao desamparo é o apego a ilusões — dolorosas ou agradáveis, não importa. Naturalmente, o que se introduz aqui, na vida de um indivíduo, é a própria velhice e a própria morte, disfarçadas nas cores suaves da memória. “Recordar é viver”, dizem as pessoas mais velhas, morrendo sempre mais um pouco — sabendo ou não —, na medida em que se fortalece o apego ao que passou. A nostalgia é uma espécie de nó psicológico. Ela obstrui a atenção ao momento presente, invertendo o sentido original de velhas aspirações — políticas, afetivas, existenciais, etc. Pode ser definida como o momento traiçoeiro de descoberta do passado, uma reversão psicológica de conseqüências mortais para a vida espiritual de qualquer indivíduo ou coletividade. Por isso, as épocas nostálgicas são sempre épocas de poucas perspectivas para o futuro. Quando a sombra das desilusões caem sobre ele, nossa sede insana por segurança e conforto, nossa moleza espiritual e nossa covardia procuram refúgio no passado. Esse sentimento do mundo aparece sempre quando a geração intermediária — sempre influente nos caminhos das coisas — se defronta, afinal, com uma perplexidade insuperável. Norman O. Brown já estudou o fenômeno da regressão psicanalítica em termos de uma nostalgia de uma Idade de Ouro perdida junto com a infância. Resta verificar a medida em que essa nostalgia serve a interesses ideológicos específicos de estagnação da vida que deveríamos permitir que se renovasse sempre. A nostalgia, de que tanto falam os jornais e revistas, não passa de um poderoso instrumento psicológico da Morte Organizada."

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Meus 15 minutos de fama

Houve um tempo, mais ou menos distante, em que fui famoso. Mas não fiz fortuna. Acreditem.
Nem era fama instantânea, como agora, em tempos de Internet.
E nada parecido com Brad Pitt, Paulo Coelho ou Kim Jong-un. Ok, isso é uma piada.
Até porque meus possíveis fãs se restringiam aos adeptos de um estilo musical que provavelmente 110% dos meus 17 leitores desconhecem solenemente: Rock Progressivo. Não se sintam menos importantes por isso. Se não conhecem é porque estão dentro da normalidade.
O fato é que - mesmo não sendo da área - editei uma publicação ao longo de cinco anos, cujo ênfase era a análise e divulgação desses sons criados por músicos geniais.
Resumidamente, Rock Progressivo é rock com elementos de Música Clássica, Jazz, Folk, etc. O auge do movimento foram os anos 70 mas ainda hoje (e sempre) existe uma farta produção independente em todos os cantos do mundo. Para isso exige-se do músico "pouca coisa": capacidade técnica, criatividade, emoção, dedicação... Nada a ver com o Funk, Sertanejo ou Pagode, portanto.
Minha publicação - uma das poucas editadas em português até hoje e uma das raras em todo o mundo - chamava-se Metamúsica, formato tabloide e que chegou a ter 98 páginas, quase tudo escrito por mim, que até hoje não sei como consegui.
Com uma média de 1500 exemplares, distribuído em diversos pontos do Brasil e enviado para os cinco continentes (mesmo sendo em português), tornou-se referência no estilo: as centenas de cartas  e discos que recebia para resenha acabavam por abarrotar minha caixa postal (era caixa postal mesmo, nos correios, não a caixa de entrada de e-mails nem as de mensagens do Whatsapp).
Durante esse período colecionei histórias muito interessantes, algumas bem estranhas, como a mensagem que recebi da Espanha, avisando para eu "ter cuidado com o que escrevia", em referência a uma matéria sobre a música do País Basco (na época a organização E.T.A. estava a pleno vapor;  essa é uma longa narrativa que qualquer dia conto aqui).
Mas voltemos ao tema principal, a possível fama efêmera de que fui vítima. É que ontem resolvi montar minha Árvore de Natal e ela estava guardada em uma meia-água que tenho nos fundos do quintal. Ali é o quarto de despejo, cheio de coisas que ainda pretendo organizar e usufruir mas que não faço isso nunca. Ou seja, uma bagunça. Inadvertidamente abri uma estante onde guardo milhares de itens referentes à publicação. Remexi rapidamente e por sorte achei dois jornais com matéria sobre o Metamúsica. No Globo foi só citação dentro de artigo sobre fanzines semi-profissionais. Já o texto maior é, curiosamente, em jornal de minha cidade onde definitivamente o Metamúsica nunca circulou (a não ser entre colecionadores que frequentavam a Caiana Discos, histórico point dos discófilos da região).
A matéria de página inteira foi publicada em outubro de 2000. Reencontrar essa raridade, já meio amassada e amarelada e da qual nem me lembrava, provocou uma certa nostalgia e essa brincadeira da (pseudo) fama efêmera: a bem da verdade muitos artistas tem isso em suas histórias de vida. Fizeram grande sucesso e depois sumiram na poeira do tempo.
Atualmente, com a Internet, tal característica do nossa época tornou ainda mais precisa aquela antiga previsão: "no futuro (que já deve ter chegado) todos terão direito (ou o azar) de ter seus 15 minutos de fama". Ainda bem que eu já tive os meus. Ou não.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A garota do Banco e a minha suposta velhice ou: "Muito velho para o Rock and Roll, muito jovem para morrer"!


Hoje pela manhã precisei ir à agência bancária.
Meu filho foi comigo. Passamos antes no barbeiro e de lá seguimos. Ele precisava também atualizar o número do seu Smartphone para poder movimentar sua Conta Universitário.
Na entrada do banco, antes de passarmos por aquela roleta detectora de metal, há uma máquina emissora de senhas de atendimento. Ali fica uma atendente operando a tal maquininha.
Imagino que deve existir pessoas com dificuldade no "relacionamento digital" (não falo aqui de sentimentos expostos via internet), pois a máquina é amigável, de operação fácil. É introduzir (com cuidado) o cartão e escolher as opções que vão aparecendo.
Mas, já que a moça estava lá, então não vou fazer desfeita e responder as perguntas dela.
- "Bom dia! Introduza na abertura por favor!", disse-me a simpática funcionária, referindo-se obviamente ao cartão do banco.
Fiz o que ela mandou e aguardei ansioso novas instruções que seguiria sem pestanejar.
- "O que o senhor está querendo?", inquiriu ela, com um sorriso de manhã de segunda-feira.
- Como assim?
- "O que o senhor veio fazer aqui?". Olhei para o lado, era comigo mesmo.
- Bem, necessito pensar pra te responder, mas adianto que preciso emitir um TED e conversar com o gerente de minha conta. Ou seja, atendimento no caixa e negocial.
- "Huummm... Então são duas senhas... Deixa eu ver o que faço...". Não tenha pressa em decidir, tenho o dia todo e está agradável esse tumulto aqui. Isso eu pensei mas não falei. Não deve ser fácil ficar ali atendendo o pessoal o dia todo. Devem aparecer muitos impertinentes. Permaneci portanto em "silencio obsequioso".
- "Vou tirar duas senhas, quem sabe dá a sorte de não ser chamado ao mesmo tempo nos dois locais". Era o que eu imaginava ser a melhor opção, parabéns pela sábia decisão! Também não falei isso. Permaneci santificadamente calado, murmurando apenas um "OK" e emitindo leve sorriso.
Ela imprimiu a primeira senha e pediu para introduzir outra vez (o cartão) na abertura indicada, para imprimir a segunda. No entanto, antes dessa complexa operação, ela me fez uma pergunta fatídica:
- "Atendimento preferencial?" Hein?! Esbocei um olhar de incredulidade, mas ela me olhava desafiadoramente, aguardando a resposta.
- "Atendimento prioritário senhor?" Será que ela se referia ao meu tipo de conta corrente? Sabe como é, os bancos atendem com mais atenção quem é detentor de contas mais importante$. Mas isso é detectado automaticamente pelo cartão, que contem todas as informações necessárias. Não era isso. Então só podia estar se referindo à legislação em vigor.
Nos milésimos de segundos que demorei para responder fui buscar no HD o que eram as tais prioridades, pois já tinha lido sobre elas: pessoas portadoras de deficiência, idosos com idade igual ou superior a 60 anos, gestantes, lactantes e às pessoas acompanhadas por crianças de colo. Até onde pude perceber, na quase totalidade dessas situações eu visivelmente não me enquadrava. Bem, uso óculos de grau elevado mas, para esses casos, a "deficiência visual" não se enquadra. Conclusão óbvia: ela queria saber se eu tinha mais de 60 (ou já estava achando que tinha).
Como assim, não perguntei eu. Estaria tão evidente uma idade avançada? Fale comigo moça! Por favor. Só tenho 58 anos, faltam dois séculos para chegar aos 60!
Só respondi "não" e agradeci. Também pelo fato dela não me chamar de tio, ou pior, vovô.
Já aguardando o atendimento, a primeira fila de cadeiras era reservada para os prioritários. Me sentei na segunda. Um bonito casal de velhinhos (ok, idosos), que pareciam estar acima dos 80, sentou-se na minha frente. Virei para meu filho: "Viu?! A atendente já estava querendo me colocar ali". Com um sorriso ele respondeu: "que nada, deve ser uma pergunta protocolar". Tá certo... Muito generoso esse filho.
É fato que não estou tão distante assim do que antes era chamado de terceira idade (nunca entendi esse termo, talvez sexagésima terceira seria mais adequado), e nem me preocupo muito com isso, mas é bom eu me acostumar com a ideia que não dá mais pra competir com a rapaziada da academia. Nossa geração determinou o fim do conceito de "velho" e dizem que a próxima vai chegar bem aos 120, no entanto não dá para ser infinitamente jovem: embora queiramos isso, tem sempre uma atendente de banco no meio do caminho... por mais que eu continue gostando de ouvir rock'n roll, como diria o pessoal da banda inglesa Jethro Tull!

Música: Jethro Tull - "Too Old To Rock'n'Roll Too Young To Die" - Legendado

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Em tempos de crise, música que acalma e traz saúde

Provavelmente devido à "características de DNA", sou extremamente ligado à música. Esteja trabalhando, no carro, fazendo alguma tarefa em casa, lendo, escrevendo, é fato que - se for possível - haverá sons melódicos e harmônicos ao meu redor.

Nem todos são assim, óbvio. Há também quem não goste de ler, assistir filmes, ver o por do sol, admirar plantas, cuidar de animais, tirar fotografias (não estou falando de selfies com o celular). Enfim a gama de gostos e desgotos é à la carte: cada cliente da vida tem seu próprio ranqueamento de interesses, de como usar seu tempo livre e seu tempo "preso", de acordo com as oportunidades.

Assim, se abordo aqui músicas de diversos gêneros - Jazz, Blues, Rock, MPB, Pop, Erudito - tal tema vai interessar apenas a uma parte dos prováveis leitores. O mesmo se for comentar sobre os outros itens que citei (livros, filmes, fotografia, etc).
Pensando nisso, refleti se seria possível falar de música de uma forma que despertasse a curiosidade de qualquer pessoa.

Resolvi dar uma olhada em uma das minhas estantes repletas de CDs e LPs (os antigos discos de vinil) e minha visão foi direcionada para uma antiga caixa com quatro discos que eu não mexia nem ouvia há muitos anos. Estava ali o que eu procurava! Para interessar a todos, um assunto que é universalmente importante: a nossa saúde.

A abordagem pode ser diversificada, afinal música é momento e, para cada instante, uma trilha sonora adequada.
Fazer um saudável exercício aeróbico na academia exige uma música mais agitada. Para correr na praia basta o som das ondas, que também é relaxante.
Mas haveria uma música mais "calma" especificamente para ajudar na saúde?

Me lembrei que nos anos 90 havia feito um artigo para o jornal Metamúsica exatamente sobre essa temática e a referência era essa mesma musical box.
No citado artigo tentei desvendar as possibilidades oferecidas pela música como elemento de auxílio à preservação ou recuperação da saúde.
Não foi um artigo sobre musicoterapia e sim sobre sons que facilitam o fluir das informações de auto-cura que cada um traz dentro de si.
O título era “O Poder da Música – Muito Além dos Sons”.
Trabalhos de Jim Oliver, Dr. Jeffrey Thompson, Deuter e Steven Halpern (Ph.D.) compõe a coleção.

Não pretendo reproduzir o artigo aqui, que é longo, mas mostrar algumas composições e alguns comentários dos autores, pesquisadores e músicos.
Está dentro da idéia de “Medicina Quântica”: as exigências atuais costumam nos jogar em inesperadas ondas de estresse. A mente, a alma e o corpo respondem a isso, criando doenças físicas, psíquicas e espirituais.
A busca de uma melhor atitude mental deve ser contínua e traz benefícios individuais, familiares, comunitários, planetários e cósmicos. Não se trata de ‘esoterismo’, mas da realidade que – do micro ao macro – somos um único organismo vivo.

A melhor forma de fazer um resumo do tema é lermos o que opinam os autores/músicos presentes nesta seleção. Cada um deles tem uma forma de trabalhar nas suas construções musicais que buscam oferecer saúde (em todos os níveis) aos ouvintes interessados.

Seguem alguns trechos dos depoimentos que selecionei. Acho que se identificarão com alguns dos comentários - até porque, nesta época tão complexa, tão difícil, o que precisamos é de momentos de paz:

“Nós geralmente nos vemos presos a arrependimentos quanto ao passado e temos grande ansiedade sobre o futuro. A música pode nos ajudar a curar a separação que isso cria e nos permitir viver de fato no presente.” (Jim Oliver)

“Tudo vibra na natureza. Pensando em doença eu argumentei que doença é ‘des-harmonia’, ‘des-tempero’, ‘dis-torção’, ‘dis-sonância’, ‘des-ilusão’ e ‘des-conexão’ (fragmentação da psique). Eles são sinônimos da mesma coisa – não ser um todo, conectado e integrado”. (J.O.)

“Os sons específicos remetem-se às áreas específicas, mas a combinação dos sons em ‘música’ é o que envolve as emoções. Sem cura no nível das emoções e da alma não pode haver uma cura completa no corpo físico”. (J.O.)

“Usando o som, é possível fazer mudanças profundas nos padrões de ondas cerebrais e estados de consciência, observáveis em equipamentos de mapeamento de ondas cerebrais (eletroencefalograma), bem como mudanças positivas no corpo, mensuráveis através de testes de sangue, equipamento de biofeedback e outros procedimentos sofisticados”. (Dr. Jeffrey Thompson)

“Em minhas gravações costumo utilizar três classes de sons: ‘sons primordiais’ (nossa primeira experiência sensorial, ainda como feto, que tem semelhanças com sons captados pela nave Voyager), ‘transferência de ondas cerebrais’ (utilização de ondas alfa e theta; certos arranjos podem criar uma atmosfera de paz, mistério, maravilha e abertura) e ‘música mística em múltiplas camadas’ (com efeitos em 3D, sendo melhor ouvir com fones de ouvido).” (Dr. J.T.)

“Todo desconforto e estresse, toda doença e mal-estar tem a tensão como uma das suas causas principais. Um profundo e total relaxamento, portanto, formará a base de qualquer cura verdadeira e duradoura” (Deuter)

“Nós vivemos em uma sociedade que chama nossa atenção para o exterior, onde todas as energias, todos os objetivos e esforços são direcionados para fora. Portanto, encontramo-nos em desequilíbrio pouco saudável, que nos fará sentir vazios. A música e os sons e a proximidade com a natureza (mar, florestas) podem ser um caminho para nosso interior, para nosso bem estar” (Deuter).

“A base da minha abordagem de curar através da música é empregar a sabedoria própria de corpo/mente e a habilidade geneticamente programada de curar-se, ao apresentá-las com as vibrações apropriadas. Minha intenção sempre foi usar a música e o som para ajudar o corpo a entrar em seu estado natural de equilíbrio e harmonia. Sabemos como equilibrar e curar a nós mesmos, se nos for dada a oportunidade e o encorajamento para tal. Fazemo-lo automática e efecientemente quando estamos em total relaxamento.” (Steven Halpern, Ph.D.)

“Autoridades médicas tem documentado os efeitos benéficos da música através de exames específicos, de maneira que não se trata apenas de crença ou gosto musical. Além das mudanças físicas eu acredito que há um efeito no nível da alma, e que há de fato uma ressonância celular acontecendo no ouvinte, ressonância esta que auxilia o corpo, a mente e o espírito a restabelecerem sua conexão com o Criador, a Fonte (ou qualquer outro nome mais apropriado para você).” (S.H.)

A seguir dois videos, dentro do tema abordado: momentos de introspecção para auxiliar a alcançar, através de sons, o controle do estresse (causador de problemas de saúde). Só para relaxar...



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O dia comum e o grupo no WhatsApp


Todo dia pela manhã abro o WhatsApp (aquela rede social) daquele grupo e tem vários "Bom Dia". Alguns com mensagens com votos de felicidade e dicas do bem viver.
Hoje nem abri. É a mesma coisa dita de forma diferente, repetida.
Deixo o celular de lado, vou levantar pra tomar café com leite, aipim, batata doce e queijo branco. Tenho me esforçado para abandonar meu caso de amor eterno com o pão francês. Farinha branca, meu pirão por último. Coisas de saúde versus idade. Quase sempre encontro com velhos amigos - não amigos velhos - reclamando de índices glicêmicos, taxas de colesterol e triglicerídeos, balanças desreguladas... Melhor fazer logo um sacrifício e entrar no arroz integral e assemelhados. Dizem que depois a gente acostuma. Tem que acostumar. Minha genética tem me ajudado até aqui, mas desconfio que ela já chegou no seu limite, preciso agora fazer a minha parte.
Mas e aquele grupo? Nem olhei.
O joelho nesta manhã dá leves sinais de reclamação, desconfio que ontem na Academia quis acompanhar aqueles rapazes tatuados e aquelas jovens de belos leggings grudados. Fiz mal negócio. Melhor ir devagar pegando ritmo, caso contrário a "Idade do Com_dor" vai se tornar uma realidade para este não tão garoto como pensa aparentar.
O celular está lá, esquecido. Nem vi o Facebook nem o Instagram. Nem aquele grupo.
Por volta das 11 horas fui com meu filho cortar o cabelo. Pensei em ir em uma barbearia que abriu aqui perto de casa. Nem tem nome de barbearia. É Barbershop (ou Barber Shop, não sei bem como se escreve). Lá os jovens profissionais usam barba. E tem música legal. E tem sinuca. E tem cerveja. Decoração e ambiente modernos. Grandes portas de vidro, pé direito alto. Fazem do cortar o cabelo quase uma experiência sensorial. Mas lá não tem o meu barbeiro Ricardo com suas histórias e hilárias considerações, com um certo mau humor irônico. Nem os antigos clientes que repetem os mesmos 'causos' que se passaram em suas vidas. Hoje o tema foi um valão que tem ali perto. Estão limpando. Dizem que desta vez vão dar a solução definitiva. Os ipês roxos e amarelos que ali habitam agradecerão.
E teve um falatório sem fim de um senhor que tenta há 20 anos retomar seu posto nos Correios, demitido numa dessas reduções de mão de obra. Segundo ele o caso já está nas mãos do Ministro Barroso do STF há quatro anos, engavetado. Segundo ele... Definitivamente não vou trocar a pequena barbearia do Ricardo perto do valão com ipês por aquela Barbershop chic. E olha que o preço é praticamente o mesmo.
E deu meio-dia. Hora de desejar "boa tarde", mas eu nem entrei naquele grupo hoje...
No retorno pra casa muito sol, vento seco. Não sei bem porque, resolvi lavar o carro. Não sou adepto de tal prática, embora goste que o veículo esteja sempre limpo. Desconfio que queria fazer uma atividade física ao som de uma boa música alta. Coloquei Deep Purple, Led Zeppelin e The Who. Nada mal. O carro ficou um brinco e eu nem percebi o tempo passar, ouvindo "Machine Head", "Phisical Graffiti" e "Who's Next"! Já lavaram o carro ao som de Hard Rock? É uma terapia física e mental. Mesmo que você odeie limpar automóvel. Bem, tem gosto pra tudo.
Mas faltava algo naquela tarde... o que seria? Claro! O livro do Ruy Castro que contém crônicas sobre música, principalmente Jazz, que havia começado a ler na véspera. Chama-se "Tempestade de Ritmos" e ótimo de ler tendo como trilha-sonora qualquer CD do genial Miles Davis.
Mas, eis que repentinamente no meio da leitura, algo me salta de forma clara à mente: o fato de não ter olhado e respondido aqueles "bom dia!" do Whatsapp está me perseguindo! Sobretudo aquela turma. Literalmente turma.
Não os via há 37 anos, desde a formatura em 1978 na Escola Técnica. Depois de um longo percurso nos reencontramos em 2015 e foi como não existisse essa tão grande lacuna. É uma história longa e comovente.
O tempo passou para todos - inexorável que é - caminhos diferentes foram tomados. Mas depois que que nos reencontramos algo mudou: conseguimos trazer de volta aqueles momentos jovens, felizes sem pressões. De pureza da alma, de ser amigo apenas para desfrutar o prazer de ser amigo. Juntos voltamos aos 18 anos, um presente que não esperávamos.
Nos encontramos pessoalmente regularmente mas é no Whatsapp que temos os contatos diários. Neste dia em que tantas atividades foram feitas e estive com pessoas que nem conhecia bem, percebi que sempre precisamos do outro. É nosso espelho, nossa referência existencial: me percebem, logo existo. Mas se esse outro são aqueles amigos e amigas de um período tão áureo de nossa vida, a coisa atinge um ponto muito mais alto, diferenciado.
Nos "Bom Dia", nas mensagens, nas piadas, nos videos e músicas, nos bate-papos, nas fotografias daquele grupo da Escola Técnica eu posso estar com eles todos os dias, como foram aqueles tempos maravilhosos de 1976, 1977 e 1978. Não é nostalgia. Ou, não é apenas. É vivenciar hoje o bem estar de outrora.
E, no final desta tarde, depois de barbeiros, histórias intermináveis, ipês roxos, carros, rock, jazz, livros, cálculos financeiros que nem sempre fecham, peguei o celular, abri o Whatsapp e olhei o grupo "Edificações 76*78": 77 mensagens não lidas! Digitei "Boa tarde turma, obrigado por existirem! Abraços a todos!"

sábado, 19 de agosto de 2017

Impressões sobre a música e seus poderes

Nunca entendi porque algumas pessoas gostam tanto de música e outros não dão a mínima. Ok, é apenas mais um item da singularidade entre os seres humanos.
Acredito que na natureza (fora a humana) existe um consenso maior. 
No mundo animal (irracional ou nem tanto), por exemplo, a música - ou sons organizados em uma forma - é unanimidade por um motivo simples: sexo! Qualquer tipo de acasalamento que já ouvi falar leva em consideração a arte da conquista, ainda que instintivamente. Neste caso, além de sinais visuais são emitidos cantos, muitas vezes complementados por danças ou movimentos bem específicos. Sem dúvida um ótimo motivo para os animais criarem sua própria forma musical, de acordo com a espécie.
E com o mundo vegetal? Experiências tem sido feitas com viníferas submetidas à música de alto nível para se conseguir colheitas de caráter superior, gerando vinhos soberbos. Coincidência que o vinho seja considerado a mais sensual das bebidas.
Nesse aspecto, também no universo humano a música tem forte respaldo, seja através de letras apaixonadas (ainda que de "sofrência" ou de "corno") ou de ritmos e melodias que conduzem ao apelo das artes amorosas. É de se concluir que, ao longo dos séculos - até pela sobrevivência da espécie - o encontro sexual tenha se mantido como fato propulsor da humanidade. Seguindo essa linha de raciocínio a música pegou carona em tal fato e tem sobrevivido e se expandido como necessidade e prazer.
Paradoxalmente, que gênero musical (em suas diversas formatações) tem atravessado os tempos? A música religiosa! Incluindo cânticos e ritmos tribais, para não ficarmos somente nas matrizes europeias e asiáticas. Bem, alguns músicos místicos ao longo da história tem afirmado que a distância entre esses dois extremos (sexualidade e espiritualidade) não é tão grande assim. Muito menos excludentes.
Dogmas cristãos à parte (sobretudo da Idade Media), vemos isso em algumas vertentes hinduístas, como o Tantra, só para citar um exemplo.
O fato é que, se sobrevive e se amplia no universo humano, a música gera então uma infinidade de oportunidades, afinidades, interconexões, etc.
A beleza e o prazer de ouvir e criar música se estabelece como ponto de partida para iniciativas que transcendem seu universo inicial já citado aqui.
São inúmeros os exemplos a atravessar a história, mas podemos vivenciar isso em nosso ambiente, agora.
Na ultima sexta-feira fui assistir a uma apresentação da sempre adorável Leila Pinheiro, acompanhada de uma Orquestra Sinfônica. 
Se a Leila dispensa maiores comentários sobre as emoções que seu canto desperta, algumas palavras sobre essa orquestra se fazem necessárias.
Ela é formada por jovens que em sua maioria foram resgatados de uma história de vida que provavelmente não teria final feliz. A ONG "Orquestrando a Vida" (lindo título) faz um trabalho com jovens carentes que nunca tiveram contato com a música e os transforma em músicos profissionais. Mas vai além disso: os constrói como cidadãos plenos e com sua humanidade aflorada, através da Cultura Musical. Existe algo mais nobre e belo do que isso? Fruto do trabalho de pessoas que amam e vivem dentro da música.
São esses alguns dos poderes mágicos dessa forma de linguagem tão difícil de definir da mesma forma que o tempo.
Falando nele, é sempre tempo de ouvir boa música, ter prazer com ela e através dela realizar ações para fazer deste um mundo melhor para todos.
Sem esquecer o sexo, é claro! O que me faz lembrar de uma frase símbolo da Contracultura do final dos anos 1960 e início da década de 70: "Faça amor, não faça a guerra". Lembrando que a Contracultura nasceu da música e sempre foi movida por ela. Um bom lembrete para os dias nebulosos de hoje.




domingo, 6 de agosto de 2017

O Edifício Soturno e a Nossa Vida


Faz muito tempo.
Quando criança, caminhava pelas ruas simples do meu bairro do subúrbio. Neste caminhar gostava de olhar com curiosidade para as casas e seus quintais.
Nos tempos adultos tal hábito se perdeu e nem sei mais porque tinha aquela curiosidade.
Preso em escritório no dia a dia de labuta e me deslocando quase exclusivamente de carro não existe inocente costume juvenil que sobreviva.
Observando detalhes nas ruas
Com a recente aposentadoria, começo a perceber que fatos, emoções, hábitos até então soterrados por compromissos, preocupações, pressões diárias, começam a voltar à tona. Existindo a propriedade do próprio tempo - ainda que parcialmente - descobre-se que andamos nos últimos anos e décadas sendo apenas parte de uma engrenagem, pouco exercendo a grata satisfação de apenas "ser".
Tais divagações são apenas tentativas de explicar um fato aparentemente corriqueiro.
Estava no Rio passando uns dias. De manhã, após o café, resolvi dar uma volta nas imediações. O Aterro ficava a cinco minutos e eu segui em direção ao mesmo. Era domingo, quando a maioria das velozes pistas ficam fechadas para que as famílias aproveitem com mais liberdade o complexo de lazer que tem o magnífico projeto paisagístico de Burle Marx.
Perdido nos meus pensamentos paro na esquina da Rua Ferreira Viana com a pista principal esperando o momento de atravessar. Eis que olho à minha esquerda e levo um susto! Que prédio era aquele? Como não o tinha percebido antes?
Parecia ter mais de 10 andares. Belo, imponente e... assustador! Era escuro, quase negro e lembrava arquitetura gótica, embora - nos meus parcos conhecimentos - vislumbrei que era de referências ecléticas. Me lembrei que estava com o celular no bolso da bermuda e, quase no automático, tirei uma foto, sem me preocupar com ângulo, foco, zoom, etc.
Atravessei as largas avenidas e continuei com o meu passeio.
A vivacidade do Aterro em contraste com o prédio em frente
O verde do Aterro, a paisagem deslumbrante da Baía, do Pão de Açúcar, das famílias em piquenique dominical nos gramados, os atletas de fim de semana jogando futebol e vôlei... Percebi que, apesar da minha ligação com aquele momento, uma coisa estava me martelando a mente: quem morava naquele prédio? Ele era tão cinzento e meio tenebroso por dentro como era por fora? Porque, apesar de assustador eu o achava belo? Como explicar o contraste de seu projeto com o exuberante verde que fica ali em frente? Mas acima de tudo gostaria de saber sobre a vida de seus moradores. Uma curiosidade existencial de minha parte? Foi ali que me lembrei de meu hábito de infância, nesta mesma cidade, mas no distante subúrbio, em tempos mais distantes ainda.
Retornei pelo mesmo caminho e parei alguns minutos em frente ao objeto que havia se tornado um foco extraordinário de minhas atenções. As portas de frente e laterais estavam fechadas, pareciam seladas. O brilhante sol da manhã outonal incidia sobre os andares superiores e, visto de baixo para cima, o céu azul e as nuvens brancas realçavam ainda mais as impressões emocionais que a construção me proporcionava. Bati mais umas fotos e continuei meu caminho.
Percebi então que reparava mais nas coisas ao meu redor. Na moça que havia saído de seu apartamento com os dois cachorrinhos que festejam a rua, na fachada de um café instalado em uma pequena casa com varanda, na portão de ferro todo trabalhado de outro antigo edifício, no vendedor de rua que espalhava na calçada sua rara mercadoria: velhos livros e discos de vinil que parei para conferir.
Filme: questões existenciais
Descobri que aquela criança curiosa que observava as casas do bairro ainda estava ali, havia agora retornado (depois de décadas de indiferença com o que estava ao seu redor) e mais: que o importava para ela não eram as coisas mas as pessoas e suas vidas. Na impossibilidade de conhecer e entender as diferenças de vida e de forma de viver de cada um, a lente observadora se dirige para o que é tangível: prédios, lojas, ruas, calçadas, automóveis, placas de aviso e propaganda, etc.
Ontem revi o complexo filme "A Viagem" (no original, "Cloud Atlas" dos irmãos Wachowski) e umas das personagens (a clone coreana Sonmi-451 vivida pela bela Donna Bae) diz que do "nascimento ao túmulo, todos estamos - direta ou indiretamente - interligados". E, mesmo depois disso, a ligação continua pois "a morte é apenas uma porta; quando uma se fecha, outra se abre."
Me lembrei dessa minha curiosidade, sobre as diferentes experiencias do que é a vida para cada um, as milhões de almas que habitam e habitaram esta terra.
Longe da complexidade do citado filme (que conta seis histórias de vidas interligadas em épocas diferentes, inclusive futuro), resta-me apenas voltar a observar casas, prédios e jardins em uma tênue tentativa de entender pessoas e existências. Enfim, o que é a vida.
O edifício de um outro ângulo (foto da Internet)
Em tempo: pesquisei um pouco sobre o citado prédio.
Chama-se Seabra, construído em 1931 por um banqueiro e industrial.
Projetado por um arquiteto italiano, grande parte de seus componentes interiores vieram da Europa. É que este bem sucedido empresário era casado com uma italiana, que queria algo parecido com a Primeira Renascença, uma vez que ela era descendente de nobres, parente do príncipe Rainier, de Mônaco.
Ao que parece o interior é luxuoso e belíssimo. Existe um livro contando a história do prédio e da família (mas eu não consegui ainda).
Muitos o apelidaram de o "Edifício Dakota Carioca", o lúgubre prédio novaiorquino em frente ao qual John Lennon foi assassinado (ele morava ali) e onde foi rodado o filme de terror "O Bebê de Rosemary".
Visão parcial do interior do Edifício Seabra (foto conseguida na Internet)
Visão parcial do interior do Edifício Seabra (foto conseguida na Internet)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Sobre orgasmos (sim, é esse o título)

Não é privilégio meu: todos andam reclamando da "velocidade do tempo". Duas medidas diferentes em uma só. Que, afinal, sempre andaram juntas.
Fato: não temos tempo de fazer tudo que precisamos ou gostaríamos.
Das obrigações ao prazer as coisas andam com os dias - ou os minutos - contados, cronometrados.
Quem aí não poderia enumerar uma série de demandas que aguardam na fila para serem concluídas?
Um leve exemplo: ler e escrever estão entre as minhas prioridades não realizadas à contento. Fica então aquela série de volumes (ainda não aderi ao Kindle) na estante, aguardando pacientemente sua hora. Pior são as idéias para um texto: surgem prontas na minha mente e desaparecem com a mesma facilidade porque naquele momento não dava para escrever. Um pseudo escritor de ideias não realizadas, eis aqui quem vos fala neste momento.
Existem umas estratégias que ando aprendendo no caso da leitura e da criação: apostar em textos curtos, sintéticos. Não como opção literária, mas como saída para amestrar o tempo. Meu e dos possíveis leitores.
E, já que citei essa palavra - amestrar - comento de passagem um desses livros não volumosos, de textos pequenos e leitura rápida. Mas que eu ainda não li todo...
Trata-se do curioso, bem-humorado e delicioso (com duplo sentido) "Amestrando Orgasmos" (Editora Objetiva, 200 páginas) do sempre ótimo Ruy Castro.
Nessas crônicas Ruy foi buscar em revistas científicas, reportagens policiais e curiosidades de pé de página, material verdadeiro para desenvolver suas observações irônicas sobre o nosso (pelo menos meu e dele, mas acho que de todos) interesse pelo tema.
Me lembro de uma personagem criada pelo Chico Anísio cujo jargão era "você só pensa naquilo...". Podemos até não pensar nisso o tempo todo mas enquanto tivermos interesse pelo tema com certeza as obrigações e o tempo não terão nos engolido por completo.
As histórias que conta são ótimas, bem humoradas quase um tratado sócio-psicológico sobre o assunto. Não "orgasmo" propriamente dito, mas a curiosidade sobre ele e os assuntos que o circundam languidamente. Afinal, sexo é vida, diria uma propaganda do Viagra. Muito sexo, mais vida ainda. E saber da vida dos outros sobre sexo é o que delicia não só a plebe rude mas qualquer categoria social e faixas etárias (mesmo depois dos 70, atualmente talvez até mais!).
Na crônica título, por exemplo, ele conta a história da escocesa de 54 anos que tinha orgasmos espontâneos e deu matéria na revista científica The Lancet: "Uma amiga minha, que me confidenciou ter tido apenas um orgasmo nos últimos oito anos, leu a respeito e ficou morta de inveja". A partir daí explora, as diferenças: "Como se explica que as mulheres possam ter orgasmos múltiplos, e o homens, não? O homem, quando foi, já era. E mulher continua tendo orgasmos, um depois do outro, enquanto o homem já está pensando na morte da bezerra. Isso demonstra que, mesmo que não haja diferença anatômica - na origem - entre os dois órgãos, alguma parte do cérebro deve funcionar de um jeito para um e de outro para o outro. E, pelo visto,  o da mulher funciona melhor. Além disso, como se explica que a mulher esteja pronta para o sexo 30 segundos depois de ter feito, enquanto o homem só pode dar bis depois de sabe-se lá quanto tempo?".
Já viram o tom do livro né?! Excelente!
Os títulos das crônicas vão entregando o que está lá dentro (epa!), uma saborosa (epa!) análise de fatos inusitados e observações ferinas com comentários sarcásticos: "Orgasmo Multilíngue", "Orgasmo em longa-metragem", "O clitóris", "O gosto secreto", "Prazeres da carne", "Banhos, inclusive de gato", etc.
A capa do livro é um primor minimalista, com o essencial: possui uma fenda losangular cujo abertura tem por baixo papel em cor vermelha...
Para não deixar vocês com muita água na boca, salivas em excesso (epa!) reproduzo a seguir uma das crônicas. Acho que o Ruy (e a editora) não vão ficar bravos comigo.
No máximo ele pode criar uma crônica me sacaneando, contando alguma derrota que definitivamente nunca aconteceu. Juro! Bem, se não veio a público não aconteceu!


MARIDOS FRIOS, MULHERES QUENTES
      "Uma senhora adentrou furibunda a sede do Procon, no Rio, brandindo um envelope. Depois de passar horas na fila, conseguiu chegar ao balcão para registrar queixa contra um produto que, segundo ela, não estava funcionando direito: seu marido.
      O Procon, como se sabe, é um órgão sério, dedicado a registrar reclamações de pessoas que compraram um produto acreditando no que a publicidade dizia e, ao usá-lo, sentiram-se tapeadas. Seus funcionários são gente habituada a todo tipo de queixa, principalmente a respeito de facas mágicas, implantações de silicone e loções para calvície. Tudo isso está previsto na bíblia do órgão, que é o Código de Defesa do Consumidor, mas, às vezes, aparece gente se queixando de algum produto que não consta do código. Certa vez, por exemplo, um homem reclamou que, ao ir a um motel com sua namorada, fora obrigado a ouvir, no quarto ao lado, os gemidos de uma mulher em pleno ato com um homem, e que ele identificou como sendo os gemidos da sua própria mulher. Note bem, o sujeito não estava se queixando do fato de ser traído, mas das paredes finas do motel, que não velavam pela privacidade dele.
      Os funcionários do Procon são treinados para não rir e reagir com toda paciência em casos como este. Mas a história da mulher do envelope era inédita.
      Pelo que eles puderam entender, a dita senhora se queixava de que, depois de 30 anos de casamento, seu marido já não a procurava havia mais de um ano. Não a procurava sexualmente, é claro - porque, para outros fins, até que a procurava o tempo todo: para lavar-lhe as cuecas, engomar lhe os colarinhos ou preparar-lhe uma carne-seca com aipim.
O envelope que ela trazia debaixo do braço era sua certidão de casamento, datada de 1970, com assinatura do juiz, tabelião e testemunhas. A mulher alegou que não tinha nada a reclamar dos primeiros 29 anos de união, mas que o desinteresse de seu marido no último ano era uma quebra das promessas que ele lhe fizera quando ainda estavam noivos - de que, a depender dele, teriam uma agitada vida sexual até que um dos dois morresse e, talvez, até depois. Donde ela se sentia vítima de publicidade enganosa e, por isso, achava que era um caso para o Procon.
      O funcionário do Procon anotou tudo em uma ficha. Foi aos arquivos investigar se havia um precedente de queixas parecidas e, como não havia, voltou ao balcão de mãos abanando.
Só lhe restava perguntar o que a mulher esperava que o Procon fizesse por ela. E ela, sem piscar: "Dá para trocar de marido?".
      Bem, maridos não são exatamente fornos microondas (outro item sobre o qual o Procon vive recebendo queixas), e o dela, muito menos. Aliás, se tivesse de ser comparado a um eletrodoméstico, o marido acusado de frigidez estaria mais para um freezer. Mas não se pode trocar um marido como se troca uma enceradeira, nem há um fabricante contra o qual se queixar. O funcionário do Procon sugeriu à senhora - extra-oficialmente - que ela aplicasse Viagra no cônjuge e observasse a reação dos corpos cavernosos. E, caso o Viagra não resolvesse, aí, sim, ela poderia voltar ao Procon e registrar queixa, não contra o marido, mas contra o medicamento.
      Pois, não olhe agora, mas algo de muito esquisito está se passando no universo masculino. Na mesma época em que a mulher foi ao Procon se queixar do marido frio, outra história incrível saiu nos jornais: um cidadão de Nova Iguaçu, RJ, foi à polícia para pedir proteção contra o assédio sexual que estaria sofrendo de uma vizinha. O homem (43 anos, casado, pai de três filhos e, francamente, longe de ser um galã de novela) declarou não aguentar mais ser o alvo de tantas investidas. A vizinha o bombardeava diariamente com flores, cartas, telefonemas, bilhetinhos, recados, e-mails e presentes, entre os quais camisas, relógios e agendas. O surpreendente foi que, ao ser procurada pela polícia, a mulher (36 anos, morena, bonita, perfeita para um dia de chuva) não apenas confirmou tudo, como garantiu que, apesar de também ser casada, não descansaria enquanto não levasse para a cama o tal homem, objeto de sua paixão.
      A divulgação da história provocou um tal malestar em todos os envolvidos (incluindo a mulher dele e o marido dela) que, poucos dias depois, a morena declarou ter desistido de seus imorais intentos e prometeu deixar em paz o gostosão. O que deve ter acontecido, porque o caso sumiu do noticiário.
      Os vários casais que protagonizaram essas histórias só se conhecem pelos jornais, mas um encontro entre eles poderia resolver todos os problemas. Suponhamos que a assediadora sexual desse em cima do marido frio - poderia ter sucesso, porque a frigidez daquele marido só devia acontecer com a mulher com quem ele era casado há 30 anos. Esta senhora, por sua vez, poderia se aventurar para o lado do marido assediado e, quem sabe, com ela, talvez ele se animasse. Já a mulher do assediado teria uma grande chance com o marido da assediadora, já que os dois estariam sobrando do mesmo jeito."

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A feira da roça e outras amenidades

A feirinha da roça na cidade
Com o passar do tempo noto que alguns temas tem sido recorrentes nestes meus simples e simplificados escritos.
Um deles é o que iniciou este arremedo de crônica: o passar do tempo.
Mas não só este assunto.
Outro é uma certa briga interna entre um coração essencialmente urbano - de asfalto, prédios, multidões - e uma necessidade cada vez maior das areias de uma praia deserta ou de uma trilha por entre o verde, à sombra da mata.
Mar, árvores, céu azul, nuvens, silenciosa cantiga das ondas e dos pássaros.
Mas o coração urbano ainda canta suas belas canções, mesmo que para lembrar do interior e da velha infância. Ou de coisas e lugares que não conheci ou não me recordava.

Toda semana, não muito longe de minha casa (na cidade) ocorre, na calçada de uma praça, a "feirinha da roça". Na última terça-feira lá estive com a incumbência de comprar aipim e batata-doce. E o que mais achasse interessante.
Seria normal estar em uma praia deserta
 e lembrar do interior de Minas?
Mas o que chamou atenção eu não podia comprar: a própria feira que repentinamente me fez viajar no tempo e no espaço para aquele subúrbio da Estrada de Ferro Central do Brasil, anos 60. Apesar de ser a capital do antigo Estado da Guanabara, metrópole, o Rio tinha uma micro-região chamada Zona Rural, hoje integrada à Zona Oeste. Era ali que eu morava. Ou seja, quase roça, mesmo na cidade grande.
Não existiam hortifrutis, nem supermercados. Ou era a quitanda do português ou a feira que vendia de tudo um pouco, produtos produzidos ali mesmo, nos grandes quintais e sítios das casas simples.
Essas nostálgicas reminiscências de um tempo que já se foi, provocadas pela visão da feirinha da roça na região central de uma cidade grande, não foi a única sensação daquele momento.

Já perceberam alguma vez uma espécie de saudade de algo que não vivenciaram ou de um lugar que não conheceram?
Pois é. Foi isso também. Naquele momento senti falta de Minas Gerais. Detalhe, que talvez já tenham percebido, é que nunca - nunca - fui a Minas, mesmo estando tão perto.
Talvez não seja tão difícil explicar isso (a forma mais fácil seria constatar que estou ficando um tanto quanto louco, mas não é o caso, acho).
É fato que sempre me liguei na música feita em Minas e música sempre vem em primeiro lugar para mim.
As canções mineiras são do mundo mas ao mesmo tempo fincadas em uma tradição única, de suas terras, dos seus ritmos, do seu interior.
Essas ricas construções harmônicas e os seus cantadores - falando das pessoas simples, das serras e estradas, do sentimento de se viver plenamente a calma do momento - sempre me deram a sensação de estar em sintonia com um Brasil mágico, de pessoas boas que ainda não caíram na armadilha do corre-corre da cidade grande.

Mas porque não fui lá até hoje?
Aquela velha história de que "Minas não tem praia" talvez tenha contribuído ao longo do tempo para um certo desinteresse de minha parte, tão ligado que sou no mar.
Por outro lado sempre gostei daquelas igrejas coloniais, pisos de pedra, montanhas e trens.
Mas o fato é que a visão de imagens do interior, da roça - que parecem cada vez mais distantes neste coração urbano cheio de carros (não de bois), shoppings, ônibus, prédios, computadores - tem me sensibilizado cada vez mais.
Coisas da (c)idade?

Minas, apesar de ter suas grandes cidades, parece representar bem as sensações despertadas por um país simples, já distante. Tão distante quanto a minha infância lá da Zona Rural, daquela feira na praça do bairro.

Na feirinha da roça do centro da cidade esta semana, pude por uns momentos - apesar dos prédios e carros - estar por entre aquelas barraquinhas de 50 anos atrás, ao mesmo tempo que viajei mentalmente até algum lugar de Minas, onde a vida segue tranquila por vielas, trilhas e temas musicais.

Hoje, neste feriado de Corpus Christi, em frente ao mar, criei na imaginação uma cidade do interior mineiro em frente à praia. E ouvi aquelas velhas canções que retratam sensações e emoções que não temos tido tempo de vivenciar como gostaríamos...





terça-feira, 30 de maio de 2017

Devaneios e lembranças de um coração urbano musical (1)


Minha paixão por música é pública e notória.
Filmes e livros sempre me seduziram mas a música está em primeiro.
Não é à toa que costumo ler com um fundo musical e, nos filmes que assisto, presto atenção além do que deveria na trilha sonora, por mais minimalista que seja.
Se costumo emprestar livros e indicar filmes, na música fui além, buscando dividir a paixão: eu gravava fitas cassete para os amigos. Isso lá pelo início dos anos 1980. Nos anos 70 gravavam para mim.
Quando consegui comprar meu primeiro "3 em 1" (toca-discos, toca-fitas e rádio) não tinha dúvidas que deveria ter aquilo como missão. Eu selecionava as músicas e registrava naquelas fitinhas as melhores que tinha nos ainda poucos discos da coleção.
Havia uma estratégia: como não possuía tudo que desejava, ficava ligado nas melhores rádios FMs com as teclas Rec e Pause do gravador apertadas. Quando tocava a música que estava querendo soltava o Pause e aí conseguia capturar a música. Que alegria!
Assim, além de ir aumentando aos poucos a coleção de LPs também aumentava o número de pessoas que me pediam para gravar as tais fitas K7, para tocar no toca-fitas marca TKR do carro. Um luxo!
Em 1995 o inglês Nick Hornby lançou sua famosa obra "Alta Fidelidade" que narra a história de um apaixonado por listas de músicas, filmes e livros. O personagem trabalha em uma loja de discos e também grava as suas "melhores" em fitas para os amigos. Muita gente se viu - pelo menos parcialmente - retratada nessa história... Bem, o livro é ótimo e está na minha lista dos melhores.
E, foi exatamente nos anos 90 que aos poucos o CD foi fazendo sua ascensão e glória, deixando para trás as fitinhas. Não me dei por vencido. Precisava continuar presenteando a mim e aos amigos com as melhores músicas que não existiam reunidas em nenhum lugar oficialmente. Pesquisei e dei um salto de qualidade: passei a fazer compilações em CD.
Gravei dezenas deles com poucas cópias cada um. Era difícil encontrar as músicas que eu não tinha, mas sempre dava um jeito. O detalhe é que eu fazia também as capinhas. Criava um título e capturava alguma imagem legal na Internet. O encarte tinha o nome das músicas, o artista e o tempo de duração. Trabalho de "amante profissional" (lembrando aquela música de 1985 do grupo Herva Doce, que a maioria dos meus leitores não deve conhecer).
No entanto a evolução não parou e a Internet e o formato mp3 chegaram.
Não me dei por vencido: com a grande rede passou a ser mais fácil encontrar aquelas músicas perdidas dos anos 70 que nunca haviam sido reeditadas no formato CD. O problema para quem queria achar as canções era saber o nome delas e dos artistas. Quer dizer, para mim não era problema, eu sabia os títulos de todas que queria.
Das gravações em CD para o armazenamento de grande quantidade de músicas em pen-drivers foi o novo salto e posso garantir que felizes são aqueles que receberam muitos deles ainda nos anos 2000. Minhas seleções muitas vezes eram personalizadas, com a vantagem de poder colocar LPs inteiros naqueles pequenos objetos.
Hoje o formato persiste sobretudo para facilitar a audição no carro e nos Smartphones via micro-cartões de armazenamento.
No entanto, com o advento da música em Streaming, fazendo uma assinatura em que se paga menos de R$ 20,00 por mês, é possível acessar até 50 milhões de músicas! E dá para ouvir em casa ou no carro com ótima qualidade sonora.
Meus tempos de fitas-cassete, de CDRs se foram. Está chegando o momento em que os pen-drivers também serão obsoletos e acho que desta vez não arranjarei um substituto para gravar as seleções, pois não será mais necessário.
Nossa geração foi a única - até agora - a ver tantas mudanças de uma forma tão rápida.
Lembro-me dos anos 70, em que se conseguir ter um LP de seleção de músicas (como as trilhas-sonoras de novelas, por exemplo) era um feito a ser comemorado.
Rendo-me a tantos avanços que tornaram nossas vidas mais fáceis (ou não) mas, talvez por nostalgia ou para demarcar meu espaço na história da reprodução musical, há poucos anos comprei um novo aparelho "três em um" com design vintage. Quer dizer, quatro em um. Ou cinco em um, sei lá...
Definitivamente o meu prazer de gravar as seleções musicais estão com os dias contados. Acho que, como espécie de represália, tenho me recusado a ouvir os mp3 em casa. Cada dia ouço mais os CDs, LPs e até fitas! Ok, parece nostálgico mas, por sorte, vi esses dias uma reportagem mostrando que na Europa estão reaparecendo as lojas que, além dos CDs vendem uma quantidade cada vez maior de discos de vinil. Detalhe: os maiores compradores são os jovens. A relação de carinho com a música personificada em um objeto físico (o disco) volta a ser valorizada. Acho que por trás disso há uma reclamação acerca da vida multitarefa que temos hoje, o tempo todo.
Para ouvir um LP ou um CD você deve, preferencialmente, dar uma parada. Está tudo tão rápido que as pequenas coisas boas que tinham um grande valor, hoje passam despercebidas e são apenas detalhes, como o tamanho de uma canção comprimida em um arquivo digital.
Retomar um pouco do tempo para si mesmo, seja para ouvir música, ler um livro, ver um filme, gravar músicas para os amigos, estar com eles (fisicamente, não só virtualmente) ou simplesmente se sentir existindo é uma meta a ser buscada em um época que parece que não sentimos mais o tempo passar.
Como já dizia o Mario Quintana (ou algum monge budista), de repente já se passou a vida e nem percebemos.
Acho que vou ouvir "Dark Side Of The Moon" agora. E David Arkenstone. Mas vão ser em LP ou os CDs remasterizados com encarte especial...







sábado, 25 de março de 2017

Incidente na Praia da Joana

A experiência de fotografar pode gerar algumas surpresas, como de resto qualquer atividade humana.
Esta semana estávamos em uma praia semi-deserta, chamada Joana, registrando algumas imagens outonais de final de tarde.
Nesta época do ano a luminosidade vespertina mostra-se ideal, impondo imagens serenas, independente da ansiedade do que está ao redor ou de quem está fotografando.
Não era o caso daquele momento: a praia calma, o verde em frente ao mar (da Unidade de Proteção Ambiental) e a proximidade da hora do sol se esconder por trás das montanhas ao longe, proporcionavam apenas  isso, paz.
Eu não havia levado a minha velha Nikon, tampouco minha filha sua Canon, ela já uma profissional da imagem. Fomos olhar o mar e eventualmente registrar algumas visões com o celular mesmo.
Como apenas meu filho se animou a entrar na água, ficamos por ali, sentados, olhando as águas, sob uma provavelmente centenária amendoeira que se equilibrava - mostrando as raízes - em um desnível no terreno logo depois das areias de cor... areia.
Olhando em direção ao sol, percebi que ele começava a se aproximar de um morro próximo e resolvi tirar algumas fotos. Poderia ser que conseguisse, na sorte, algo bonito, mesmo com o Smartphone, pois o ambiente estava propício.
Era um daqueles momentos mágicos - era a hora mágica do dia - em que percebemos, meio que instintivamente, que parece existir algo além do que estamos enxergando.
Pensando nisso apontei o celular em direção ao sol e cliquei. Ofuscado e com a lente do celular não ajudando muito, apenas toquei na tela, sem ver o que registrava. Ao final, volto a falar desta foto.
Olhei as rochas na extremidade da praia e percebi que dali conseguiria um ângulo diferente do sol, pegando outras praias por trás do morro. Mas eu precisava ser rápido: caminhar pelas areias e fazer uma escalada atrás do que buscava, antes que o astro rei se fosse.
Estando em clima quase místico, fiz a pequena peregrinação em direção ao objetivo, chegando nas pedras em poucos minutos. Comecei a subida sem me preocupar onde estava pisando. A bela luz das 17 horas sobre o vegetação, a areia, as pedras e o mar era o que estava em minha mente e em meus olhos.
Repentinamente uma espécie de transe hipnótico aconteceu. Eu parecia ter perdido o peso, a força gravitacional não existia mais, eu estava flutuando no ar. O que estava acontecendo comigo? Então todas aquelas experiências esotéricas que eu havia ouvido falar eram verdade? Eu estava vivenciando o que já estava se prenunciando naquela tarde: a presença de algo que não se pode explicar, apenas sentir.
E eu senti - com intensidade - quando, chamado de volta à realidade, quase todo o meu lado direito se chocou violentamente com a pedra abaixo de mim. Senti dor.
O fato é que o mar havia lambido as rochas horas antes e ali deixado uma areia fina. Os pés deslizavam com uma facilidade ímpar e minha falta de atenção ajudou abundantemente. Eu escorreguei com imensa velocidade em uma inclinação e flutuei no ar por um segundo. Por sorte livrei a cabeça, graças ao antebraço que fez um movimento instintivo de proteção.
Mas o restante ficou com escoriações e por pouco não desmaiei de dor. Talvez por que precisasse salvar o celular que havia pulado de minha mão e caído na areia molhada mais abaixo. Ali o mar tinha se afastado por uns momentos mas já ia voltar e levar o aparelho. Não sei como consegui descer, pegar o celular e voltar para uma altura segura. Coisas de um cinquentenário fazendo artes.
Retornei caminhando com certa dificuldade. Já não havia aquele clima místico da tarde. A dor não permitia essas coisas transcendentais. Meus filhos não tinham visto nada.
Chegamos em casa e depois de contar a história em detalhes e verificar as marcas do tombo, minha esposa perguntou: "Lembrou de agradecer à Deus?". Ora, porque diabos (epa!) eu agradeceria? Pelo tombo feio? "Pelo livramento". Poderia ter batido com a cabeça, coluna, face (com óculos e tudo)... na pedra. E os resultados poderiam ser dramáticos.
Resolvi olhar o celular. A foto que havia batido, sem enxergar quase nada por ser contraluz, tinha resultado em uma imagem plácida com raios e reflexos incidentes sobre mim.
Resolvi agradecer depois de ver essa imagem. Havia ali uma presença Divina sim. Provavelmente me dizendo: você vai fazer besteira, mas estou aqui para protegê-lo.
Minha filha por sua vez me me mostrou uma foto que ela tirou quando eu estava indo em direção às pedras. Sem querer parecer dramático, aquela poderia ser uma foto de despedida.
De qualquer forma, evitarei daqui pra frente fazer algumas incursões mais radicais que fazia há algum tempo atrás. O tempo passa, até mesmo para teimosos que acham que são eternamente jovens...

segunda-feira, 20 de março de 2017

Mais um Outono: A Estação da Alma


Certa vez Carlos Drummond de Andrade "conversou" com uma amendoeira na manhã do primeiro dia de outono: "(...) Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza." Em "Fala, Amendoeira", 1957.
Nesta manhã eu não conversei com uma amendoeira  - e estou a milhares de anos-luz da capacidade de escrita do Drummond, seja ao descrever o início da estação ou sobre qualquer outro tema - mas foi uma das poucas vezes que senti de maneira forte a chegada do outono.
Segundo informações meteorológicas ele iniciaria às 07:29 h. Não sei como eles conseguem esse grau de precisão, mas acreditemos no fato.
Por volta das 07:20 h entrei no automóvel e percorri um caminho já rotineiro, por entre ruas arborizadas, um trecho de beira-mar e outro à beira-rio, depois de uma ponte.
Chovia levemente, depois das fortes águas da noite anterior e a temperatura se mantinha amena, como foi no final de semana.
Repentinamente a chuva diminuiu e o sol abriu. Não olhei as horas, mas desconfio que era por volta de 07:29.
Muitas nuvens no céu não impediam o atravessar dos raios, a vegetação molhada compunha o quadro ideal para aquele tipo de luminosidade que não ofusca. Parei o carro e tirei umas fotos com o celular. Acho que Drummond não faria isso.
Se o outono é mais estação da alma que da natureza, talvez eu tenha percebido essa beleza momentânea mais com os olhos da emoção.
Certa vez Gabriel Garcia Marquez disse que, dos livros que havia escrito, o que mais gostava era "O Outono do Patriarca". Acho belo esse título e me faz lembrar que "outono" é também usado para designar uma estação da vida: o da maturidade.
Estando eu "outonal", é possível que tenha exagerado ao reparar na beleza do dia. A alma pode ter falado mais alto. Mas são momentos como esses que nos fazem parar a correria e lembrarmos que estamos vivos, aqui, conectados com a natureza, pois somos parte dela.
E que tudo um dia termina, ao final do outono de cada um, independente de ser Drummond, Garcia Marquez ou um cronista desconhecido de um blog esquecido num canto da Internet.
Vivamos pois cada estação, conversando com amendoeiras, olhando o céu de vez em quando, colocando-nos no lugar do outro.
Quem sabe assim as cores de abril (mês outonal, conforme cantou Vinícius e Toquinho) venham povoar com mais frequência os tempos cinzentos que tem habitado muitas estações.
Para quem ficou curioso sobre o final da conversa de Drummond com a amendoeira (sobre sua idade outonal), segue o último diálogo:

"-Não me entristeças" (falou Drummond)

"- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho."


domingo, 12 de março de 2017

Dos livros de bolso de Estefania às leituras de verão

Estefânia é um bonito nome feminino, raro. Já Estefanía é um sobrenome espanhol. Com certeza poucos leitores conhecerão alguém assim batizado. Eu já, por causa do Marcial Lafuente Estafanía. Ficaram na mesma?
Pouco dinheiro na mão costuma ser a tônica dominante de ávidos leitores adolescentes dos subúrbios. Era o meu caso, lá pelos anos 70. Mas havia uma escapatória: os estabelecimentos que vendiam livros usados, conhecidos como "sebos". Sobretudo livros usados que já eram baratos quando novos, nas bancas de jornal. Era o caso dos "livros de bolso" (Pulp Fiction) de faroeste. Esses tinham um mestre: o escritor madrilenho citado acima, que publicava como M.L. Estefania. Escreveu quase três mil dessas histórias, até falecer em 1984, aos 81 anos.
Mas nem só de faroeste eu sobrevivia, pois havia séries de espionagem, policiais, ficção científica, romance e até eróticas e de terror (ou tudo isso junto...).
Um sucesso na época foi a série "Giselle Montfort, a espiã nua que abalou Paris" escrita - de forma não creditada - pelo jornalista brasileiro David Nasser no antigo jornal "Diário da Noite" (da empresa Diários Associados) de Assis Chauteaubriand, a partir de 1948 em forma de folhetim e depois publicada como série de bolso pela editora espanhola Monterey, nos anos 60, chegando até a década posterior.
Está aí, além dos gibis é claro (ou HQs de super-heróis que estão dando origem a tantos filmes de sucesso atualmente), a minha iniciação como ávido leitor que permanece até hoje, embora tenha me afastado dos livros por causa do incessante e cansativo trabalho.
Aos poucos volto às origens. Não falo dos livros de bolso mas do bom hábito da leitura que, segundo estudiosos, além do prazer das viagens proporcionadas pelos mesmos, o hábito previne até o Mal de Alzheimer.
Neste verão - que para mim vai se estender até o início de abril - tive como meta ler cinco livros na minha "estação de veraneio", com algumas restrições, como não levar publicações para as areias da praia (cumpri até agora, mas tenho dúvidas se foi uma boa ideia).
Um costume que adquiri foi o de ler sempre com um fundo musical: escolho antes os CDs, de acordo com o livro. Mergulho na leitura mas os agradáveis e suaves sons sempre presentes enriquecem o momento.
De forma não programada acabei optando por livros de não-ficção e a maioria relacionados à música, o que não chega ser uma surpresa. Ficaram então de fora livros do Arthur C. Clarke, que trouxe mas não coloquei a mão. Ou os olhos. E um outro documento que precisa de mais dedicação em sua leitura: "Os Bispos Católicos e a Ditadura Militar Brasileira: A Visão da Espionagem" do historiador Paulo César Gomes.
Das leituras realizadas me surpreendi com "50 fatos que mudaram a história do Rock" (edição ilustrada) de Paolo Hewitt. Não que concorde com ele nos itens selecionados, mas realmente alguns detalhes trágicos que descreve eu não sabia, como o assassinato do soul man Sam Cooke e os fatos que que levaram ao "massacre da atriz Sharon Tate" (então esposa do cineasta Roman Polanski) em 1969 e da relação disso com o seminal grupo de surf-music The Beach Boys. O massacre comandando pela "seita" de Charles Manson (até hoje preso) não foi bem por questões pseudo-religiosas: Manson tinha interesse em se tornar um superastro da música, daí... Leiam o livro pois é uma longa história.
Outro interessante que fez parte do verão foi "Blues" do francês Gérard Herzhafat. Nele um mergulho não só na música, mas no mundo difícil dos negros americanos no início do século XX, que geraram essa música-lamento bem como tudo que veio depois, influenciado pelo Blues: do Rock ao Pop, passando pelo Jazz.
O terceiro livro tem o mesmo nome do segundo, mas trata-se de reprodução de histórias em quadrinhos - criadas também dos anos 1970 - pelo genial (e marginalizado) Robert Crumb, onde ele conta a história de bluesmen dos anos 20 e 30, com uma forte carga dramática e social. Não era para ser diferente.
Restam dois que pretendo "devorar" até o final do mês, começando hoje.
O primeiro é "Os Guinle - A História de uma Dinastia", do historiador Clóvis Bulcão, um profundo mergulho nas raízes e desenvolvimento dessa família aristocrática carioca. Mais conhecida pela associação com o lendário hotel Copacabana Palace e com as conquistas amorosas de famosas atrizes de Hollywood feitas pelo playboy Jorginho Guinle, a família não é apenas isso. Segundo o autor, o glamouroso estilo de vida ofuscou o empreendedorismo visionário dos patriarcas e de seus sete filhos.
Por último, um livro de 2002 que só agora adquiri - em sua 9ª edição, de 2015.
Voltando aos temas musicais, trata-se do surpreendente "Eu Não Sou Cachorro, Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar", do jornalista e historiador Paulo César Araújo (o mesmo da biografia proibida de Roberto Carlos). Com certeza este livro vai merecer uma resenha à parte. Além de contar a história da música brega do período 1968 - 1978 o autor prova que "um importante capítulo da história do Brasil e da música popular vem sendo muito mal contada".
Independente do sucesso da polêmica empreitada, com certeza vou gostar do que for contado pois - vai aqui uma confissão -  além de Jazz, Blues, Rock e MPB mais "intelectual" (e nas diversas vertentes desses estilos), fui fã de nomes como Fernando Mendes, José Augusto, Odair José, Paulo Sérgio, etc. Isso enquanto lia os livros de bolso do Estefania. Mas não contem pra ninguém, ok?!

Trilha sonora enquanto escrevia estas mal traçadas linhas: Não foi ...aquela menina em sua "Cadeira de Rodas" de Fernando Mendes, mas o CD "Spark Of Life" do Marcin Wasilewski Trio w/ Joakim Milder, da ótima gravadora alemã ECM Recods,