terça-feira, 20 de setembro de 2016

John Coltrane: um amor supremo e a chegada da primavera

Quando vou fazer alguma tarefa ou ler um bom livro costumo colocar um fundo musical.

Na verdade acho que é o contrário: trabalho ou leio enquanto fico atento ao que talvez seja o principal - a música.
No caso das leituras consigo achar facilmente a trilha-sonora adequada.
Obviamente também quando estou escrevendo, de acordo com o tema.
Até quando dirijo, manter o foco na estrada não é problema quando o fundo musical é correto.

Hoje ouvi Miles Davis ("Kind of Blue") e John Coltrane ("A Love Supreme").

Não é uma música que - a meu ver - funciona bem durante o dia. Jazz é música noturna. A não ser que seja um dia chuvoso ou pelo menos nublado e frio. Para mim Jazz não combina com sol forte.

Uma estratégia para nossos dias tropicais é optar pelo estilo Smoth Jazz, que tem uma leveza rítmica e melódica mais solar, inclusive com fortes conexões com a música brasileira, Bossa-Nova entre elas. Mas esse gênero merece uma dissertação à parte.

Na hora em que ouvi os citados discos, estava lendo “Todos os Contos”, coletânea completa das histórias curtas de Clarice Lispector. Um vento quase frio soprava e as nuvens cobriam a luz do sol, com breves períodos de chuva fina. Sinais de um Inverno que se despede: começa depois de amanhã, quinta-feira, dia 22, a Primavera. Ela se anuncia através das flores que começam a se mostrar. Assim, as histórias únicas de Clarice e as músicas se conectavam com o momento presente.

Sobre um dos discos citados, vale a pena reforçar a importância de Coltrane, um gênio do mesmo calibre de Miles, só que com uma produção menor. Ele foi o primeiro (talvez o único naquele período, depois vieram outros via “Spiritual Jazz”) que buscou, dentro do Jazz, oferecer ao ouvinte uma experiência espiritual, fruto de suas próprias sensações acerca da presença de Deus em tudo.

À frente de seu tempo, uniu visões místicas do ocidente e do oriente.

Ouvir determinadas criações de John Coltrane - no momento certo - pode mesmo inspirar instantes de meditação, paz e plenitude. Mas tem de estar conectado, o que é difícil com tantas tarefas nos esperando hoje em dia. E não precisa necessariamente gostar do Jazz clássico, embora em um primeiro momento possa parecer uma música “difícil”. Há de se superar isso e entrar no universo do mito do Sax.

Sobre ele, o músico e estudioso alemão Peter Michael Hamel – em "O Autoconhecimento Através da Música", citando Joachim Berent de "A Música e a Meditação" - escreveu: "Coltrane tocava seu sax-soprano com a sonoridade oriental da shenai ou da sukra. Esta maneira de tocar somente se impôs mundialmente ao se introduzir um elemento ideológico, a inclinação de Coltrane para a religiosidade asiática. Ele conscientizou grande parte do ambiente jazzístico americano sobre a realidade da meditação, e sob sua influência muitos dos músicos que tocavam com ele começaram também a meditar."

É bom frisar que estamos falando da primeira metade dos anos 60.

Coltrane, na obra-prima "A Love Supreme", fez sua oração: "Louvado seja o nome do Senhor. Ondas de pensamento, ondas de calor, todas as vibrações levam a Deus... Deus respira integralmente através de nós tão ternamente que mal o sentimos... Ele é nosso todo... Eu te agradeço, Deus."

Ao som de Coltrane (música "Psalm") e de sua mensagem através de suas criações, desejo uma ótima Primavera a todos.

Wikipedia:
"A Love Supreme" - Esse disco, considerado sua magnum opus, é um ode à sua fé no amor e em Deus (não necessariamente o Deus cristão - na capa do disco "Meditations" ele diz "Eu acredito em todas as religiões").
Este interesse espiritual iria caracterizar muito a forma de tocar e compor de Coltrane a partir de então, como pode ser visto em álbuns como "Ascension", "Om" e "Meditations".
O quarto movimento de A Love Supreme , "Psalm", é, de fato, um arranjo baseado em um poema feito para Deus por Coltrane e impresso no álbum. Coltrane toca quase exatamente cada nota para cada sílaba do poema, baseando suas frases nas palavras.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Ao Cair da Noite


Essa frase que uso como título é uma referência a uma sensação sentida a cada fim do dia: o anoitecer me perturba.
Na verdade há um exagero literário aqui. Não me incomodo diariamente às 18 horas. Até porque é um momento sagrado na liturgia católica que eu aprendi a observar: Ave Maria! Até nem deveria, pois minha formação inicialmente batista e depois espírita kardecista me deixariam à vontade para não dar relevância a isso. O que pelo menos dá uma pista da minha volatilidade religiosa. Mas isso é outro assunto.
Seria o anoitecer uma metáfora dos fins dos tempos ou, pelo menos, a recordação da finitude de todas as coisas? Ao término da claridade me sentiria como que lembrado de que meu tempo urge? Seria esse o motivo dessa leve perturbação?
Nem tão dramático assim, afinal é na noite que os grandes mistérios e segredos se fazem acontecer.
Transgressões, quebra de regras, beleza da lua refletida no mar, brilho das estrelas, luzes indiretas que passam através das casas envidraçadas, gatos que passeiam por entre escadas, músicas ouvidas à meia luz, peles sedosas, de jazz... O que seria dos poetas sem a noite, que chega de mansinho e toma conta primeiro da alma e depois do corpo, como se fossem entidades separadas que finalmente se unem ao fim de cada dia? E lhes dá todos esses temas para que sua poesia venha à luz (ou à penumbra)?
Devaneios à parte, ao me sentar na pequena escrivaninha do meu quarto para escrever algo que eu não sabia o que era, olhei pela janela procurando algo indefinido, possivelmente uma inspiração que não viria. A luminosidade natural já estava em seus últimos momentos e uma leve melancolia talvez tenha meio que tentado se infiltrar por entre as dobras das emoções.
Talvez algum pequeno poema que eu tenha lido e não me lembre sugerisse essa conexão. Mas não me deixo abater pois a noite chega depois de um dos momentos mais lindo do dia, o por do sol.
E a noite precede uma das melhores sensações que temos: o recomeço da vida a cada novo amanhecer.
Entre o entardecer e o nascer do sol ela acontece e, se tentássemos recapitular a vida, é provável que as mais marcantes emoções tenham ocorrido sem a forte claridade do astro maior dos trópicos.
Talvez próximo das 18 horas, talvez por volta da meia-noite.

domingo, 4 de setembro de 2016

Quando Entra Setembro

Poderia começar essa pseudo-crônica com uma frase poética do tipo "um dourado luar sobre aquela noite tropical". Mas não estou conseguindo obter a sutileza que versos e sensações exigem.
O fato é que setembro chegou e eu tenho a impressão que existe algo fora de ordem. Não, nem tanto.
Não seria a primeira vez. Na verdade o normal é um certo desconforto com a proximidade do fim de mais um ciclo anual.
Por outro lado, qual a importância de estar "de acordo com a ordem estabelecida"?
A primavera vai chegar e com ela a sinalização de que o verão não está distante. Mas agora brilha o sol de agradável luz pálida e o panorama noturno é embalado por amena temperatura que nos convida a parar para olhar o céu.
A vida acontece entre os verões. No verão hiberna-se - próximo ao mar, se possível ou na serra - neste quente estado litorâneo.
E muita coisa aconteceu neste entre-janeiros.
Pela janela da alma vejo com lentes de vidro que eventualmente podem distorcer a realidade.
Mas minhas emoções se reportam a acontecimentos marcantes que não foram criados pelos óculos de aro azul. Acho.
Não confie em ninguém com mais de 30 anos, dizia a velha canção contracultural. Já o escritor Rui Castro alertava para não acreditar em quem pensa em escrever uma autobiografia com menos de 50. Questiono se vale a pena ler um texto que pretende fazer um balanço de 2016 em setembro. Ou é falta de assunto ou é ansiedade pelo que já aconteceu, independente do que ainda vai acontecer.
De qualquer forma, o poeta já falou que essa forma de medir e picotar o tempo é coisa que inventaram para que pudéssemos ter um recomeço a cada 365 dias.
Se falta de assunto não me é preocupante - me entregam temas a cada esquina e meus pensamentos borbulham a cada emoção pressentida - resta então a necessidade de tentar analisar os fatos ocorridos no período ou, pelo menos, registrá-los.
O que, se parece ser fácil, é na verdade um desafio, pois ninguém quer saber do óbvio já traçado exaustivamente pela mídia.
Resta-me a estratégia de focar em assuntos bem particulares: fica mais fácil descrever impressões do que é do meu interior. E aguça a curiosidade dos possíveis leitores. Saber sobre o que pensa cada um das suas próprias experiências e fatos relevantes.
Mas, ai de mim. Teria eu a mínima capacidade de explicitar conclusões racionais e emocionais, ser entendido plenamente e me submeter a possíveis julgamentos? Não tanto dos fatos, mas das minhas impressões sobre eles?
E seriam mais relevantes do que as possíveis impressões que cada um tem dos fatos de sua própria vida?
Há biografias de vidas - ou fases de vida - que merecem ser contadas. Há outras sem nenhum grau de interesse mas que, dependendo da forma como são vistas e contadas, adquirem o ar de algo grandioso.
Se confundem aqui forma e conteúdo.
E fico eu aqui enrolando e não fazendo nenhuma retrospectiva de 2016. Muito menos minhas impressões. E não conto nada de nada. E irrito os poucos que conseguiram chegar até aqui. Bem, pelo menos é setembro e, apesar do título do post, eu não vou citar "Sol de Primavera" - a mais repetida trilha sonora do mês.
Acho que vou esperar dezembro para ver o que mais vai acontecer. Aí eu conto. Vai valer a pena aguardar.
Mentira: é só para deixar meus 17 leitores curiosos. A vida de vocês é mais interessante, creiam. Nossa vida é sempre mais importante. Mas a curiosidade sobre a vida dos outros é sempre maior... É aquela história da grama do vizinho ser sempre mais verde.
Melhor mesmo é ficar com o setembro do Earth, Wind & Fire, pelo menos por enquanto,