sábado, 30 de julho de 2016

As Impressões de Clarice

Mudei de "condição profissional" e lentamente começo a perceber que posso levar a vida mais lentamente.
Ainda não sei as implicações disso, mais desconfio que não serão negativas não.
Ok, sei que tenho mil coisas para resolver, que estavam aguardando tempo livre, mas a diferença é que agora posso fazer de acordo com minha vontade. Ou quase. Mas ainda vou escrever sobre isso.
Livrar-se do corre-corre diário, das pressões cotidianas é um dos sonhos de consumo da maioria das pessoas. Ilusão achar que isso é possível, de forma completa. Mas buscar aliviar as tensões deve ser uma meta. Desde que não traga... ansiedade!
Com esse tempinho extra na agenda, entre outras coisas, dá para se dedicar mais a boas leituras.
Pesquisando uns livros da Clarice Lispector para comprar descobri que ela morreu um dia antes de completar 57 anos (seu aniversário é 10 de dezembro). Este ano eu cheguei nesse número e percebi como a querida escritora se foi tão cedo. Ainda bem que ela teve tempo de nos presentear com suas impressões sobre a vida, que ficarão eternizadas em nossos corações e mentes.
Dizem que a arte nos salva. A arte de observar e narrar de Clarice foi uma tábua em que ela se agarrou em momentos difíceis de sua vida e nos servem também de reflexão sobre os nossos momentos e nosso próprio existir.
Ter tempo de pensar nisso é um trunfo, mas há de se ter cuidado, pois estamos desacostumados com essa prática, convenhamos.
Nesses momentos contar com gente como Clarice Lispector para ajudar é inestimável.
Essa ucraniana de alma brasileira é uma das principais escritoras de origem judaica do século XX. Não teve vida tranquila, sobretudo depois que se separou do marido diplomata pela necessidade de parar de rodar o mundo e se dedicar aos filhos que precisavam de cuidados especiais.
Se instalou no Leme, que passou a ser o seu lar até o fim da vida (este ano foi inaugurada uma estátua na praia, em frente ao edifício que morava) - cujo término se deveu a um câncer no ovário - em 1977. Lembrando que ela já havia estado bem perto da morte em 1966 quando, ao dormir com o cigarro acesso, provocou um incêndio que a deixou em coma por três dias e quase teve a mão direita amputada.
O seu dom de captar e passar emoções, através de suas observações do cotidiano, criando histórias de pessoas comuns, foi reforçado pela experiência de suas próprias crises existenciais.
Assim, aos 57 anos anos - que a Clarice não chegou a completar - me vejo selecionando algumas de suas frases, retiradas de seus escritos. 
Divido algumas, que acabei de ler agora, com os amigos leitores deste cantinho. 
Nada demais (o que faço, não as impressões de Clarice). Quem sabe algumas dessas observações nos servirão de aconchego em dias reflexivos de inverno, enquanto aguardamos a primavera...
E, desta forma, lá se foi o mês de julho de 2016. Diferente de julho de 1977 (o último dela) ou de tantos outros. Sempre tem alguma coisa especial que acontece. É só observar os pequenos milagres do cotidiano. Como ela fazia. Aguardemos agosto. Não há de ser de desgosto.

As impressões de Clarice:
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."
"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
"Eu sou uma eterna apaixonada por palavras, música e pessoas inteiras. Não me importa seu sobrenome, onde você nasceu, quanto carrega no bolso. Pessoas vazias são chatas e me dão sono."
"Toda mulher leva um sorriso no rosto e mil segredos no coração."
"Às vezes eu tenho vontade ser menos intensa, só pra poder entender como o resto do mundo aguenta essas coisas que me devoram permanentemente e de uma forma tão absurda..."
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca."
"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."

sábado, 16 de julho de 2016

As últimas viagens dos meus ídolos do Rock

Acho que os amigos, sabendo da minha conexão integral com todo tipo de música (bem, nem todos os tipos), vivem me mandando links de assuntos ligados ao tema.
Agora me chega um que diz que "ficar arrepiado ouvindo música significa ter um cérebro especial". Ôpa! Isso pode ser bom ou ruim. O texto é amplo e mostra pesquisas envolvendo eletroencefalogramas em estudantes que ficam arrepiados com algumas músicas e com outros que nunca ficam. Segundo a mesma, "foi possível notar a excitação (sexual e emocional; nota minha: oba!) que os voluntários sentiam ao ouvir os melhores trechos de cada música. Os batimentos cardíacos aceleraram em todos os participantes, porém, aqueles que se arrepiaram tiveram emoções mais intensas".
Seria a comprovação de que uma boa trilha sonora nos acompanhando pode trazer, além de boas recordações, bons momentos no presente. Sempre.
E conclui a pesquisa dizendo que a reação química que o ser humano tem ao ouvir uma música emocionante é parecida com o que sentimos em outras tarefas essenciais, como comer ou fazer sexo. Por isso, o arrepio musical é chamado pelos neurocientistas de "orgasmo na pele". Huumm... Então tem isso também...
Mas foi acidental essa introdução, uma vez que eu ia falar mesmo de música mas não essa abordagem. Bem, de alguma forma sempre tem alguma conexão. Verifiquemos.
Meu assunto é que percebi que meus jovens ídolos do Rock lá dos anos 1970 andam dizendo que estão entrando agora em sua última tour mundial. Quer dizer, nem sempre falam isso, mas nota-se. Assim como eu, aqueles jovens não são mais tão jovens. Tá chegando a hora de se aposentar. Pelo menos da vida on the road.
É bom dizer que não eram só ídolos musicais. Aos 15, 16 anos eu admirava seus cabelos, suas pulseiras, sua postura e seu sucesso com as meninas.
Mas agora o tempo cobra sua fatura.
Por exemplo, o grupo inglês Whitesnake, liderado pelo outrora bonitão David Coverdale (ex-Deep Purple) se apresenta dia 02 de outubro no Metropolitan no Rio. Nome do show "Greatest Hits Tour". Não soa como um resumo final da carreira? O grande Coverdale completa 65 anos em setembro.
Outra querida banda, a alemã Scorpions, se apresenta no Rio no dia 10 de setembro (Pôxa! Mesma data do Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras!). Nome da tour: "50th Anniversary World Tour". O que acham disso? O vocalista Klaus Meine está com 68 anos.
Vi essas duas bandas no primeiro Rock in Rio. Em 1985. Há mais de 30 anos!
Mas tem muito mais: em dezembro vem o Black Sabath em sua última tour mundial (assumida). O incrível sobrevivente Ozzy Osbourne também já completou 68 anos. Esse também vi no Rock in Rio 1.
Enfim, diversos dos meus ídolos daqueles bons tempos e que nunca deixei de acompanhar estão sinalizando o fim das apresentações neste e nos próximos anos.
Alguns chegam a dizer que encerraram as atividades mesmo no estúdio. O Pink Floyd, por exemplo, embora David Gilmour continue fazendo suas corridas diárias nos arredores de Londres.
O tempo chegou para eles, o que nesse caso (e em todos os casos) não é mau negócio, pois não sucumbiram aos anos de drogas e álcool, embora possam estar pagando o preço agora. De qualquer forma, a outra opção não era a melhor.
Na minha juventude ia a muitos shows, depois parei por diversos motivos. Acho que tá na hora de aproveitar essas últimas oportunidades. Deles e minha.
Sem dramas.
Mas o fato é que, se o Paul McCartney (que eu nunca vi), por exemplo, vier ao Brasil em 2017 como já foi anunciado, é bom que eu faça um esforço para finalmente ver um dos Beatles ao vivo. Vivo. Desconfio que ele não vai vir outra vez não. 
Por um tempo achei que esses feras fossem congelar no tempo. Ficar eternamente jovens, bonitos, sem perder o pique insano, sem perder a técnica musical, nem terem as vozes modificadas pelos anos.
Provavelmente o que eu queria era acreditar que eu - que os acompanhava tão de perto - também não iria sofrer nenhum efeito dos anos. Melhor dizendo, das décadas.
Ok, eu ainda estou bem, 10 ou 15 anos mais jovem que muitos e eles não estão tão mal, mas o fato é que a realidade bateu no peito, como um impacto de um veloz solo de guitarra. 
Com a última tour desses caras eles estão avisando: "não somos eternos, cara"!
Ok amigos, agora eu sei. 
Valeu por mais essa lição de vida, através de suas músicas. Já aprendi que o tempo passa (e rápido) pra mim também.
Mas com certeza sempre me arrepiarei ao ouvir determinadas músicas. Assim, garanto que, mesmo se chegar aos 100 anos, nunca perderei o citado e inusitado "orgasmo de pele". Pelo menos esse. Espero que vocês também!



sábado, 9 de julho de 2016

No balanço do tempo e das experiências: do velho livro à velocidade do amor

Li alguns livros de auto-ajuda lá pelos idos dos anos 1990. Não leio mais.
Me lembrei disso porque soube que que uma das primeiras obras a focar neste tema está completando 70 anos em 2016. E já passou dos 30 milhões de exemplares vendidos!
Trata-se de "Como Fazer Amigos & Influenciar Pessoas" do americano Dale Carnegie.
Eu não li, mas é de se perguntar como um livro escrito em 1936, antes da Segunda Guerra Mundial, pode continuar despertando interesse.
A primeira conclusão que podemos tirar é de que as pessoas continuam com os mesmos problemas de relacionamento e auto-conhecimento.
Mas, mesmo sem ler o livro - e apesar de seu contínuo sucesso - duvido que ele permaneça atual.
É claro que alguns mandamentos são perenes e devem estar ali descritos, tipo "sorria sempre", "seja gentil", etc. E aí podemos afirmar que mesmo coisas óbvias precisam ser repetidas para que nos lembremos do básico para uma vida melhor.
No entanto, convenhamos, nem sempre é possível usar de gentileza em todas as situações e, se você sair sorrindo pra todo desconhecido que passar na sua frente, arrisca-se a ser taxado de maluco ou, no caso das mulheres, correr o risco de um louco ficar esperando na esquina mais próxima.
Ainda sobre a obra, o título deve se referir ao fato de que, na época e nos EUA, "fazer amigos" era tarefa árdua. Nem sonhavam com Redes Sociais.
Além disso, o termo "influenciar pessoas" soa no mínimo politicamente incorreto, embora na política é o que continuam tentando fazer o tempo todo.
Dando um salto de 70 anos no tempo caímos em uma época veloz, de muita informação mas pouca percepção. Não há espaço para reflexão mais ampla nesta era de obrigações, deslocamentos, muito tempo dedicado ao trabalho, etc.
Como questionar a vida ou as nossas atitudes e reações com tão pouco livre para isso? E quem quer saber das opções que a vida nos oferece? Apenas vivemos.
Raul Seixas ironicamente disse em uma de suas músicas que duas coisas o preocupavam: a verdade do universo e a prestação que vai vencer. Desconfio que atualmente só nos preocupamos com a prestação.
Salva-nos (também ironicamente) as Redes Sociais, onde emitimos opiniões e nos "encontramos" com amigos. Bem, nem todos são amigos. Ninguém nessa altura do campeonato tem condições de ter "um milhão de amigos" como diria o Roberto Carlos.
Pois vejam só, no Facebook e no WhatSapp uma das coisas legais que vejo são citações de escritores e poetas que podem ser considerados recados de auto-ajuda ou, no mínimo, dicas para reflexão.
No entanto me lembrei que eu lia aqueles livros naqueles tempos e o maior problema era fixar o que tinha lido e aplicar no dia a dia. Mas eram livros inteiros.
O paralelo com o momento atual é que são tantas informações que lemos aquela breve citação, curtimos e passamos para o próximo post.
Não ficou nada registrado em nossa mente da Clarice Lispector, do Mario Quintana, da Adélia Prado, do Drummond, da Martha Medeiros ou até (ok, ok) do Dale Carnegie.
E olha que são recados curtos se comparados com livros. Fácil de ler, complicado para refletir e questionar nossas próprias atitudes. Permanecemos então com um padrão que perpetua-se ao longo da vida: as nossas naturais mudanças são na verdade mudanças "cosmésticas", assim como nosso corpo muda com o tempo, independente de nossa vontade.
O que gera outro questionamento: mudar o que e pra que? Melhor não pensar nisso e seguir a vida certo? Não sei não. O fim da estrada está logo ali depois daquela curva e otimizar a curta existência deveria ser meta de todos.
Tentar aproveitar mais a vida, os momentos e as novas boas experiências que se apresentam.
Mas, volto a dizer, quem tem tempo para isso?
Não sou lá muito adepto do Paulo Coelho mas tem um livro dele que tem um título (e um tema) muito interessante. Chama-se "Onze Minutos". Sabem do que trata esse título? Segundo pesquisas mundiais é o tempo médio que se gasta para ter uma relação sexual. Mais corretamente "fazer amor". Em alguns países isso não passa de seis minutos! Tempo de um intervalo comercial. Preliminares? O que é isso?
Não estou dizendo que este é o mais importante tema do mundo mas, por outro lado, não deveria ser tão pouco importante. Uso o assunto apenas como ilustração (sem fotos explícitas, fiquem tranquilos) de como estamos caminhando para o automático, para não experimentação, para a falta de preocupação com o que é o existir e suas sensações e emoções. Com o outro. Sabores, perfumes, sons, pensamentos, abraços, diferenças.
Corremos e lutamos para chegar. Chegamos, E agora? Onde estão mesmo os outros que foram em outras direções?
Mas, não sei não. Essas minhas impressões despertadas pelo livro que completa 70 anos e que não li e nem vou ler parecem soar um tanto quanto fora de sincronia com o tempo presente. Como se fosse uma frase da querida Clarice Lispector.
Enfim, sigamos em frente. Se refletindo, experimentando ou simplesmente "seguindo em frente", é uma abordagem de cada um.
Todo o assunto que tento humildemente abordar aqui nessas impressões, me faz recordar uma ou mais músicas. A citação do livro do Paulo Coelho me lembrou do título de uma música da adorável pianista Susanne Ciani; "The Velocity of Love". Desconfio que ela quis ser irônica com esse termo, pois a linda canção é bem lenta... Como deve ser a tranquilidade do amor. Aliás não deixem de assistir ao vídeo dessa linda música, que insiro abaixo. Apesar do touro assustador da introdução, o filme é muito bonito.



Suzanne Ciani