quinta-feira, 30 de abril de 2015

"Chão de Giz", o significado: meros devaneios tolos a me torturar

Vocês conhecem o primeiro disco (oficial) do Zé Ramalho?

É um dos que mais gosto da MPB, tanto que tenho ele nos três formatos: LP (vinil), CD e mp3.

Escuto desde que foi lançado em 1978 e nunca enjoei de ouvir.

Com excelentes arranjos, ótimas melodias e músicos incríveis (tem até a participação do lendário tecladista franco-suíço-apátrida Patrick Moraz, ex-Yes, que naqueles tempos estava casado com uma brasileira e não saía do Rio), é um álbum clássico.

Para quem não se lembra é o que traz as músicas "Avohai", "Vila do Sossego", "Dança das Borboletas" e "Chão de Giz", entre outras.

É dominado por músicas que tem letras que ninguém sabe muito bem o que significam. Extremamente enigmáticas. Herméticas. E ótimas! Não me perguntem porque acho isso. Também não saberia explicar.

Esses enigmas talvez sejam um dos principais charmes das canções do cantor e compositor paraibano.

A bem da verdade, ele mesmo já respondeu que é difícil explicar cada item de cada um daqueles versos. Há muito tempo teria afirmado que as compôs, em sua maioria, sob o efeito de substâncias químicas não ortodoxas, digamos assim. Vocês me entendem...

No entanto, recentemente me deparei com uma explicação que, segundo o site, teria sido dada pelo próprio Zé Ramalho acerca da clássica "Chão de Giz".

Não era bem a minha própria tentativa de entendimenteo, mas eu não sabia do caso de amor proibido narrado pelo protagonista.

Se for verdade mesmo (e acho que é) consegue-se achar um sentido para cada verso. E é mesmo interessante.

Desfeito o enigma de quase 40 anos! Pelo menos nessa canção. Faltam agora as outras.

O significado de Chão de Giz
"Muita gente sabe que "Chão de Giz" é uma das principais canções de Zé Ramalho. Muita gente admira a canção e sempre a canta quando a ouve no rádio ou no barzinho, mas poucas pessoas entendem ou sabem o significado da letra tão complexa. Chão de Giz é realmente espetacular, mas principalmente por contar uma história verídica que aconteceu com Zé Ramalho na sua juventude.

Ainda jovem, o compositor teve um caso duradouro com uma mulher bem mais velha que ele, casada com uma pessoa bem influente da sociedade de João Pessoa, na Paraíba, onde ele morava. Ambos se conheceram no carnaval. Zé Ramalho ficou perdidamente apaixonado por esta mulher, que jamais abandonaria um casamento para ficar com um "garoto pé-rapado", que ela apenas "usava".

Assim, o caso que tomava proporções enormes foi terminado. Zé Ramalho ficou arrasado por meses, mudou de casa, pois morava perto da mulher e, nesse meio tempo, compôs Chão de Giz.

Sabendo deste pequeno resumo da história, fica mais fácil interpretar cada verso da canção.

"Eu desço desta solidão e espalho coisas sobre um chão de giz" (Um de seus hábitos, no sofrimento, era espalhar pelo chão todas as coisas que lembravam o caso dos dois. O chão de giz indica como o relacionamento era fugaz).

"Há meros devaneios tolos, a me torturar" (Devaneios e lembranças da mulher torturando ele).

"Fotografias recortadas de jornais de folhas, amiúde" ( Outro hábito de Zé Ramalho era recortar e admirar TODAS as fotos dela que saiam nos jornais – lembrem-se, ela era da alta sociedade, sempre estava nas colunas sociais).

"Eu vou te jogar num pano de guardar confetes" ( Pano de guardar confetes são balaios ou sacos típicos das costureiras do Nordeste, nos quais elas jogam restos de pano, papel, etc. Aqui, Zé diz que vai jogar as fotos dela nesse tipo de saco e, assim, esquecer as fotos para sempre).

"Disparo balas de canhão, é inútil, pois existe um grão-vizir" ( Ele tenta ficar com elas de todas as formas, mas é inútil, pois ela é casada com um homem muito rico).

"Há tantas violetas velhas sem um colibri" ( Aqui ele utiliza uma metáfora. Há tantas violetas velhas (Como ela, bela, mas velha) sem um colibri (um jovem que a admire), dessa forma ele tenta novamente convencê-la apelando para a sorte dela – mesmo sendo velha (violeta velha), ela pode, se quiser, ter um colibri (jovem).

"Queria usar, quem sabe, uma camisa de força ou de vênus" (Este verso mostra a dualidade do sentimento de Zé Ramalho. Ao mesmo tempo que quer usar uma camisa de força para se afastar dela, ele também quer usar uma camisa de vênus para transar com ela).

"Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro" ( Novamente ele invoca a fugacidade do amor dela por ele, que o queria apenas para "gozar o tempo de um cigarro". Percebe-se o tempo todo que ele sente por ela um profundo amor e tesão, enquanto é correspondido apenas com o tesão, com o gozo que dura o tempo de se fumar um cigarro).

"Nem vou lhe beijar, gastando assim o meu batom" (Para quê beijá-la, se ela quer apenas sexo?).

"Agora pego um caminhão, na lona vou a nocaute outra vez…" ( Novamente ele resolve ir embora, após constatar que é impossível tentar. Entretanto, apaixonado como está, vai novamente à lona – expressão que significa ir a nocaute no boxe, mas também significa a lona do caminhão, com o qual ele foi embora – ele teve que sair de casa para se livrar desse amor doentio!).

"Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar" (Amor inesquecível, que acorrenta)

"Meus vinte anos de ‘boy’ – that’s over, baby! Freud explica" (Ele era bem mais novo que ela. Ele era um boy, ela era uma dama da sociedade. Freud explica um amor desse (Complexo de Édipo, talvez?)).

"Não vou me sujar fumando apenas um cigarro" (Ele não se sujar transando mais uma vez com ela, pois agora tem consciência de que nunca passará disso).

"Quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval" ( Eles se conheceram em um carnaval. Voltando a falar das fotos dela, que iria jogar em um pano de guardar confetes, ele consolida o fim, dizendo que já passou seu carnaval (fantasia), passou o momento).

"E isso explica porque o sexo é assunto popular" (Aqui ele faz um arremate do que parece ter sido apenas o que restou do amor dele por ela (ou dela por ele): sexo. Por isso o sexo é tão popular, pois apenas ele é valorizado).

"No mais, estou indo embora" (Assim encerra-se a canção. É a despedida de Zé Ramalho, mostrando que a fuga é o melhor caminho e uma decisão madura).

Toda essa explicação foi dada pelo próprio Zé Ramalho."

Fonte: Análise sobre música brasileira



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Convergência ao nosso "interior"

Sabe aquelas coisas que você nunca leu mas acha que alguém já escreveu? Pois eu estou me lembrando de um texto (ou poesia) que tenho certeza li em algum lugar. Mas não tenho certeza.
Ajudas para reavivar esta memória cambaleante são bem vindas.
Seria mais ou menos assim:
"No inverno sinto saudades do verão, no verão do inverno.
Muito sol e a chuva me faz falta. Mas se chove muito, por onde andará o nosso querido sol?
No litoral sinto falta da serra. Na serra, do mar."
E por aí vai... Devo ter criado isso agora mas com certeza já li algo semelhante.
É sobre isso ou aquilo. Sobre opções. Sobre saudades. Sobre tempo.
O meu quintal não é muito grande. Durante longo período tive vegetação nele. Há alguns anos decidi retirar tudo e colocar um desses pisos decorados. Sobreviveu apenas uma palmeira de estimação. Única lembrança dos tempos verdes de meu pequeno quintal. Não tinha tempo de cuidar das plantas.
Continuo um sujeito urbano. De apartamentos, ruas asfaltadas, cinemas, bares, automóveis. E mar no verão, desde que com uma infra-estrutura de respeito. Ou seja: praia urbana.
Mas ultimamente tenho sentido falta de chão sem asfalto. Barro. De verde. Árvores com sombras. Riachos. Pássaros cantando de manhã. Silêncio de interior.
Não tenho nem nunca tive fazenda, sítio ou algo semelhante. Nunca me animei. Uma piada de alguns experientes sempre me desanimou: "você tem dois momentos de alegria com relação a um sítio: quando compra e quando consegue vender". Pois é.
Mas tenho visto alguns documentários e reportagens que mostram muita gente fazendo o caminho inverso e de forma definitiva ao que sempre vimos por aqui: abandonam uma confortável vida urbana e vão embora para lugares onde predomina o verde, sem o revestimento asfáltico da vida.
Querem se livrar não somente da paisagem árida dos edifícios mas também do interminável estresse provocado pela interminável lista de "coisas a fazer" ou informações a obter.
Foto de Luiz Fernando Almeida
Chegamos a tal ponto que quando não temos nada a fazer (se é que isso acontece em algum momento), ficamos meio que perdidos. Em solidão. Estamos perdendo a capacidade de ficarmos em companhia de nós mesmos.
Vai daí que a presença da natureza pode fazer toda a diferença.
Tem uma história que sempre me lembro (parcialmente, é verdade), a de um guerrilheiro perseguido pelo regime militar. Estava jurado de morte. Os companheiros precisavam tirá-lo do país mas naquele momento estava difícil. O levaram então para uma montanha. No meio da mata tinha apenas uma pequena casa, sem nenhum conforto maior. Precisava ficar ali, talvez durante meses, até as coisas se acalmarem.
Ocorre que o militante era uma dessas pessoas que só vivia a "mil por hora" (exigência da situação) e ficou quase louco ao ver tanta calma, com verde pra todo lado. Isso no começo. Como não tinha opção (a outra era o risco de ser assassinado), foi ficando, ficando e uma espécie de milagre aconteceu.
Quando os companheiros foram buscá-lo para levá-lo em segurança para fora do país, quem disse que ele quis? Alguns meses sozinho o foram transformando, acalmando, colocando-o em comunhão com a natureza, como se de volta ao útero materno. Reencontrando-se consigo mesmo.
Não queria saber mais de fugir, de ir para a cidade nem mesmo de guerrilha. Só queria ficar quieto, ali naquela casinha na mata que tinha um córrego ao lado. E ali ficou.
Não me perguntem quem era o guerrilheiro porque nem sei se essa história está correta ou completa, mas sei que ocorreu algo assim.
E serve para demonstrar essa impressão.
Acho difícil vir a ter o sítio (aquela piada ainda ressoa em minha mente) mas necessito de tempo para, quem sabe, pelo menos refazer aquele meu jardim. Vou ter que quebrar piso é verdade, mas é o preço. 
Enquanto concluo essas linhas, de cara para a tela do computador, ouço uma música que me remete a uma certa tranquilidade rural. Desliguei o ar, liguei o ventilador. Lá fora está sol. Não fui para a praia no "mega-feriado", talvez piscina. Ou talvez veja alguns episódios daquela série.
Da minha janela vejo algumas poucas árvores e o asfalto de minha rua começa a se aquecer.
Não sei não.
Saudade do contrário de tudo isso.
Talvez esteja querendo aquela casinha na montanha do guerrilheiro, com uma chuva fina caindo. Só levaria alguns discos (se é que lá teria energia elétrica), livros e a família. Mas duvido que os filhos iriam querer ir. Para eles, sem Banda Larga não há forma de vida que sobreviva.

Na parte musical do post:
- Grupo 14 Bis: "Um Passeio Pelo Interior".
- Uma da canções que Eddie Vedder (Pearl Jam) compôs para o filme "Na Natureza Selvagem".

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Sobre Abril, Outono, Poesia, Música, a Vida e o Tempo

Mário Quintana em um ambiente que tem muito de sua simplicidade poética
Hoje é primeiro de abril.
Comenta-se naquela brincadeira que é o "dia da mentira". Deve ser tradição do Brasil interiorano, cada vez mais distante de nós, com as cidades crescendo sempre.
Embora o outono comece no final de março, sempre penso nessa estação a partir deste mês de abril.
Em abril os dias costumam ser mais claros, sem o ofuscamento do verão, as temperaturas mais amenas (bem, pelo menos era assim desde a minha infância, mas agora as coisas estão se modificando muito rapidamente) e o céu adquire um visual mais interessante, com as nuvens de chuva esparsas dividindo sua presença com o azul do céu que sempre se mostra em diversos pontos, ao longo do horizonte.

É verdade que o dia amanheceu chuvoso em boa parte do sudeste, mas uma chuva mais para outono mesmo do que para verão.
Vinícius & Toquinho cantaram este mês na música "As Flores de Abril". 

Mas eu sou suspetíssimo para falar bem de abril porque sou de Áries
Tambem por isso - a passagem do tempo - me lembrei dessa poesia do sábio Mário Quintana (na foto acima, em um ambiente que tem muito a ver com a poesia dele).
A bem da verdade esta não é uma poesia original completa do Quintana. Sabem como são essas coisas na Internet. Pinçaram trechos e adiconaram outros. Mas ficou boa. Nem reproduzo toda. Apenas parcialmente. 
Verdade também que não costumo postar poesia aqui no Blog.
Confesso que me liguei um pouco em poesia apenas na minha juventude, quando li os básicos brasileiros: Drumond, Vinícius, Bandeira e, eventualmente, o português Fernando Pessoa. Acabei me interessando mais pela prosa, mas acho que perdi muito coisa boa nesse tempo todo.
Acho que poesia é mais ou menos como o Jazz e a Música Clássica.

Para gostar, a mente tem de ter um tipo de conexão especial com esse tipo de arte.
Em outras palavras, não é para qualquer um. O que em si não desmerece quem gosta ou quem não gosta de poesia (ou de Jazz ou de Música Clássica). São apenas características pessoais e a questão de ter tido oportunidade de um contato maior ao longo da vida.
Mas acho que já estou me alongando demais neste post.

Assim, segue a (pseudo) poesia do Quintana sobre a vida e o tempo. E a música de Vinícius & Toquinho.
Espero que gostem.
Bom mês de abril a todos!

Paisagem Outonal

A Vida e O Tempo
(trechos de Mário Quintana + autores desconhecidos)
"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas(...)
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará. "