quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O Calendário da Pirelli e a Nostalgia de Fim de Ano

Décadas de 1970 e 1980.
O carburador do Fiat 147 Rally branco (meu primeiro carro) dava problema.
Platinado, velas...
O sujeito ia naquela oficina do bairro resolver a questão.
Na oficina, cheiro de graxa, nas paredes, graxa.
O Voyage (meu segundo carro) furava o pneu. Terceira vez no mês. Vamos lá na borracharia do bairro.
Na borracharia, cheiro de borracha. Nas paredes, graxa.
Nos dois casos, coisas em comum: escurecimento das paredes pelo gás carbônico e um local que era um oásis: pendurado na parede, em destaque, tamanho grande, limpinho, o calendário anual da Pirelli, com suas beldades devidamente despidas em fotos artísticas registradas pelos mais feras de cada época.
O tempo passou, os automóveis agora frequentam as assépticas oficinas das concessionárias e os pneus quase não furam mais.
Oficinas de bairro e borracharias sobrevivem graças aos carros mais antigos, mesmo assim tornam-se cada vez mais raras.
E, entrando na onda do politicamente correto, não exibem mais os calendários Pirelli, que agora também se comportou, ficou chic e é coisa de gente fina.
Chegamos em 2015 e um dos lançamentos mais comemorados deste ano que se encerra foi o livro "Pirelli - The Calendar: 50 Years And More" da respeitada editora de arte alemã Taschen (edição de luxo a R$ 3.000,00!).
O extenso volume traz todas as 50 edições do famoso calendário mais cenas de bastidores das fotos, bem como imagens não publicadas por serem muito "picantes" para a época.
Quem diria, o calendário Pirelli foi parar na Taschen! 
Legal essa virada artística, releitura estética.
Mas, não sei bem porque, me deu saudades daqueles tempos do calendário na parede da oficina onde eu ia com meu Voyage 1982, verde claro.
Nostalgia de fim de ano.
Feliz Ano Novo!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Vida exposta ao mundo: banalização da violência contra mulher

Da mesma forma que falei no outro blog - o do Felipe Muniz - no fim do ano e durante o verão, costumamos diminuir a nossa atuação nestes espaços virtuais.
É o mesmo este ano, só que, na prática, já estamos em compasso bem lento há vários meses.
A falta de posts diários tem a ver com o momento, que nos tem exigido muita dedicação tanto no trabalho quanto nos demais momentos pessoais.
Fica assim sem muito significado dizer que vamos dar uma diminuída no ritmo nesses meses quentes de férias, pois o ritmo já anda bem lento.
O que podemos dizer é que esperamos que em 2016 possamos retomar com intensidade as nossas impressões, uma vez que assuntos para  isso não faltam.
E, para encerrar, comecei a fazer um comentário sobre o mais recente viral da Internet. Procurando por mais subsídios que consolidassem a minha opinião sobre o fato, me deparei com uma artigo da Nathalí Macedo, de quem já publiquei alguma coisa aqui (confesso que não me lembro o tema).
A abordagem dela era tão semelhante à minha que resolvi desistir da minha empreitada e reproduzir na íntegra o que ela escreveu.
Minha primeira impressão quando assisti o viral foi de incredulidade.
Como as redes sociais tornaram-se armadilhas para seus próprios protagonistas (nós)?
Não cabe julgar a vida privada de ninguém, mas nada justifica a exposição da violência moral e física sofrida e exposta para o mundo por aquela mulher.



O que podemos aprender sobre traição e violência com o caso de Fabíola?
Por Nathalí Macedo no Diário do Centro do Mundo
"O caso da mineira que traiu o marido com seu melhor amigo deveria ser só mais um adultério a ser tratado entre quatro paredes, no mais íntimo da vida conjugal do casal, mas acabou viralizando na internet quando o marido traído filmou a cena e espalhou o vídeo nas redes sociais.

Na filmagem, ele – que flagrou a esposa saindo do motel com seu melhor amigo – agride a esposa enquanto um outro amigo filma a cena e incita a briga.

O que choca na situação não é a desnecessária publicidade de uma questão íntima: isso transformou-se em uma praxe mais natural do que deveria na internet. As pessoas deturpam a finalidade das redes sociais quando expõem-se desnecessariamente nas mais esdrúxulas situações.

O que me deixou realmente estupefata na mais nova bizarrice das redes sociais é a naturalidade com que um homem, em pleno século XXI – quando as discussões sobre violência contra a mulher estão a todo o vapor – publiciza uma agressão física na rede sem nenhum tipo de represália.

O enfoque da viralização do vídeo não é a agressão pública – física e verbal – sofrida pela mulher, exposta e agredida em plena rede – mas a condenação moral pela traição – que, embora reprovável, não diz respeito a ninguém mais além dos envolvidos. A agressão, ao contrário, é recebida como natural, uma reação justa e proporcional ao adultério.

As pessoas estão tão preocupadas em julgar a vida íntima alheia que não se dão conta do quão absurdo é agredir uma mulher e levar isso a público sem medo das consequências.

Acaso um homem fosse flagrado saindo de um motel com a melhor amiga de sua esposa, este seria apenas mais um dia comum na internet. A indignação, caso houvesse, certamente se concentraria na amiga que “deu em cima de um homem comprometido”, ou na esposa omissa que foi traída porque “não dá conta de segurar um homem” – jamais na figura do pobre homem adúltero. Afinal, a carne é fraca e os ‘instintos masculinos’ justificam a traição.

Mas quando uma mulher é flagrada traindo seu marido, a moralidade seletiva impera de tal forma que até mesmo a violência física escancarada nas redes sociais é ignorada diante do ‘absurdo’ do adultério.

As pessoas respeitam a vida íntima do outro quando ouvem um vizinho agredindo sua esposa (não vou chamar a polícia, eles que se resolvam!), quando assistem a um relacionamento abusivo (só ela pode se livrar do marido opressor!) – mas quando presenciam o ‘erro’ de uma mulher, esquecem-se da sagrada intimidade conjugal e julgam-na nas redes sociais.

Este é o retrato da hipocrisia moderna: a vida sexual do outro indigna, a violência não. O que esperamos de uma sociedade tão moralista é que empenhe toda esta retidão para meter a colher nos relacionamentos agressivos e opressores, mas a moralidade do patriarcado só se aplica à mulher.

Não estamos aqui para determinar se  traição é ou não reprovável – por mais natural que seja escancarar a própria vida na internet, não podemos nos quedar diante desta realidade: a vida sexual do outro não nos diz respeito. A violência, sim."

Sobre o Autor:

Colunista, autora do livro "As Mulheres que Possuo", feminista, poetisa, aspirante a advogada e editora do portal Ingênua. 

Canta blues nas horas vagas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A chuva e as canções

 
A chuva (tão esperada) que vem molhando a Região Sudeste durante toda esta semana, me fez lembrar de algumas canções que a tinham como tema. Quer dizer, que a tem, pois música boa é imortal, mesmo que seja uma simples canção Pop.
Chuva traz um sentimento de nostalgia, sobretudo quando ela é fina e fica durante vários dias respingando em nossas janelas e em nossas lembranças.
Como faz tempo que não posto aqui as séries Flashback e Good Times, seguem algumas para matar a saudade, pois ela (a saudade), não tem idade - como diria um velho bordão da extinta Rádio Mundial (ou será que era a Tamoyo?).
Com isso aproveito e fujo um pouco do desgastante surrealismo político da atualidade.
Essas são apenas algumas das que me lembrei. Fica para outra oportunidade as demais, inclusive as nacionais.













segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O Botafogo e a Maitê Proença Nua


Para quem não é ligado em futebol, informo que o Botafogo foi rebaixado ano passado para a segunda divisão.
Situação difícil para um clube grande.
Uma torcedora famosa do time alvi-negro disse que se o mesmo conseguisse retornar à primeira divisão em 2016 ela iria tirar a roupa em público!
Pois não é que o Botafogo não só conseguiu um bom resultado em 2015 como foi o campeão da segundona!
Daí começaram as cobranças para que a distinta e bela moça (já "cinquentona"!), cumprisse a promessa feita.
Quem acompanha essas coisas de futebol e de mulheres bonitas já sabe de quem estou falando: da atriz, escritora e apresentadora Maitê Proença.
E ela cumpriu a promessa ontem! Live! Bem, quase toda. Mas valeu!
Depois ela perguntou nas redes sociais se nós tínhamos gostado. Gostamos sim Maitê!
Nasci tricolor mas, neste caso específico, sou botafoguense desde sempre!

P.S.: O vídeo foi gravado da TV e colocado no You Tube. Para uma reprodução de melhor qualidade confiram em: "Extraordinários".

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O Ano do Gato: A história de uma inesquecível canção

Temos um grupo (pequeno) de amigos no WatsApp ligados em música.
Esta semana eu lancei uma ideia: cada um indicaria um disco para que ouvíssemos durante a semana (são todos colecionadores inveterados).
Um deles indicou um CD que eu adoro, e escuto há mais de 30 anos: "Year of the Cat", do escocês Al Stewart, que grava desde 1967.
Este álbum foi lançado em 1976, no Brasil em 1977, e converteu-se no maior sucesso comercial do cantor, sendo considerado por muitos um dos grandes clássicos dos anos 70 (por mim inclusive).
Além das ótimas composições o disco contou com uma engenharia sonora impecável. E não poderia ser diferente pois quem produziu foi nada menos que Alan Parsons, o mesmo jovem que havia atuado no magnífico "The Dark Side of The Moon" do Pink Floyd e criaria naquele mesmo ano o também impecável "Alan Parsons Project" que lançou discos memoráveis. Alan também toca alguns instrumentos no disco.

De todas as ótimas canções a que obteve maior prestígio internacional foi a faixa título, que é lembrada até hoje nas estações de Flashback.

É uma belíssima música, enigmática e eu sempre quis saber o significado dela.
Confesso que meu domínio do idioma inglês é sofrível mas sabia que havia referência a um filme.
No entanto, atualmente com as facilidades da Internet, e com um pouco de paciência, é possível conseguir informações de quase tudo e a partir daí tirar as conclusões.
Resolvi então reservar alguns minutos para tentar montar o quebra-cabeça de "Year of the Cat".

Logo de início fica óbvio que o título refere-se à astrologia chinesa. Mas no entanto, dependendo da pesquisa que fizer, você conclui que não existe o gato no horóscopo chinês. Tem uma lenda sobre isso: o gato se atrasou na festa do Buda e ficou de fora, mas parece que depois foi feito um acordo e ele divide o mesmo ano com o coelho em intervalos de 12 anos.
No entanto, no horóscopo vietnamita - muito semelhante ao chinês - não existe o coelho e sim apenas o gato.
Al Stewart compôs essa música em 1975, era ano do gato, que tem características de transmitir paz (junto com o coelho...).

A bem da verdade era uma canção que ele havia começado a compor em 1966, depois de assistir a uma apresentação de um comediante em que aconteceu algo que ele não esperava: "Hancock era comediante e apesar de muito famoso estava bastante depressivo e profundamente emergido em seus problemas com o álcool o que claro refletia nos seus shows que acabavam por ser um completo desastre, Stewart conta em uma entrevista que certa vez Hancock parou no palco e disse ao público: “Não quero estar aqui, estou totalmente decepcionado com a minha vida. Sou um completo perdedor, isto é estúpido. Eu não sei por que eu apenas não acabo com isso tudo aqui mesmo".
As pessoas que assistiam a seu show naquele dia riram de seus desabafos como se tudo aquilo fosse apenas parte do espetáculo ou de um novo personagem criado naquele mesmo momento.
Stewart então escreveu a letra da música “Foot of the stage”, após presenciar esse “grito de socorro” em forma de desabafo vindo de Hancock. A letra da música continha uma frase muito significativa em honra ao comediante inglês: “Your tears fall down like rain at the foot of the stage” ou algo como “As tuas lágrimas caem como chuva ao pé do palco”. Tempos depois Hancock se matou com uma overdose de drogas e Stewart decidiu por não publicar sua música em respeito ao comediante
" (em Histórias de Una Cancion).

A música ficou engavetada por quase dez anos e, no início da produção do disco, ele mostrou para o Alan Parsons que achou a melodia ótima e recomendou que ele refizesse a letra.
Foi então que ele tomou como base cenas do clássico (e imperdível) filme "Casablanca" (aquele de "As Time Goes By", de 1942; a história se passa naquela cidade do Marrocos, na época sob o controle da França, 2ª Guerra Mundial) e imaginou uma história de um turista que se envolve romanticamente (e eroticamente, trata-se de uma noite de paixão extrema) com uma local (provavelmente uma hippie: "perfume de incenso e patchouli") e acaba perdendo o ônibus da excursão no dia seguinte. O que acaba sendo uma solução da dúvida naquele momento: "Você sabe que um dia terá de deixá-la / Mas por agora você vai ficar."

Isso tudo acontecendo naquele mesmo ano de 1975, o Ano do Gato. A canção foi gravada em 1976, no Abbey Road Studio, o lendário estúdio dos Beatles.
Bem, esse é um resumo da história da canção mas, como a poesia, são apenas sinalizações. O significado pode ser modificado de acordo com a experiência de cada um.
O importante é que a música é mesmo linda, uma das melhores dos anos 70, daquelas clássicas eternas de qualquer geração.
A bem da verdade o disco todo é ótimo e conta histórias do mesmo tipo, onde tem de se pesquisar para entender o significado. Os arranjos, orquestrações e a banda que acompanha todo o álbum são dignos de uma audição mais apurada.
A capa é do famoso estúdio Hipgnosis e mostra uma ilustração onde uma mulher obcecada por gatos se veste para um baile a fantasia (ela aparece através do espelho). Os itens do seu armário espalhados se referem todos aos felinos.
Quem sabe sua obsessão se refira na verdade ao Ano do Gato...



"Alastair Ian Stewart nasceu no dia 5 de setembro de 1945, em Glasgow, Escócia, e vem gravando desde 1967. Suas músicas têm melodias muito cativantes, muitos temas históricos e políticos e muitas letras inteligentes, que parecem pintar quadros em sua mente. Ele já foi descrito como o escrivão-mor da música inglesa."

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Kraftwerk: música eletrônica, andróides e sentimentos

Já faz tempo que não abordamos aqui literatura, música, filmes e artes de forma geral. Curioso, porque o objetivo maior deste espaço, quando de sua criação, era registrar impressões sobretudo relativas ao tema artes áudio-visuais.
Talvez o momento venha sendo mais propício a reflexões diversas acerca de detalhes cotidianos e existenciais.
Bem, resolvemos hoje retornar às origens.
Acabo de ler o livro "Kraftwerk Publikation" (Editora Seoman, 351 páginas), que traz a biografia do seminal grupo alemão: "Uma história sociocultural dos precussores da música eletrônica para as massas".
Desde meados dos anos 1970 acompanho a trajetória deste único, peculiar, estranho e magnífico grupo.
A banda é fora dos padrões porque se assemelha mais a uma equipe de cientistas em seus laboratórios tecnológicos do que uma banda musical.
E é mais ou menos isso mesmo.
Na época não existiam as facilidades dos Hardwares e Softwares de hoje e eles próprios (engenheiros eletrônicos) davam seu jeito de conseguir as sonoridades que queriam, inventando aparelhos, montando fitas, fazendo colagens, etc.
Não é para menos que são considerados os pais de quase todos os estilos que se referenciam na eletrônica, das diversas vertentes da Dance Music até a New Age e a Ambient Music. O livro mostra a quantidade de artistas ingleses, americanos, franceses, italianos, japoneses, etc. que ao longo das últimas décadas tem o Kraftwerk como entidade acima do bem e do mal.
Também a sua postura de radical distanciamento da imprensa, da fama e da colaboração com outros artistas, se autoreferenciando e se isolando do mundo exterior, colaboraram para a criação e manutenção de uma mitologia que os seguirá para sempre.
Suas apresentações robóticas (literalmente, pois em algumas haviam robôs-réplicas dos componentes no palco), sem movimentação, sem interação com a platéia era (e ainda é) outra característica exclusiva, que refletia o modo de ser da banda, totalmente em consonância com sua música (quer dizer, mais ou menos, aquelas batidas quase que obrigam a pessoa a sair pulando).
No livro, o inglês David Buckley, tenta de todas as formas desvendar a música e o mito, mergulhando em histórias nunca contadas e conversando com pessoas ligadas ao grupo (ele não conseguiu em nenhum momento falar com Ralph Hütter e Florian Schneider, os criadores e mentores do Kraftwerk).
Do grupo, o componente que mais passou informações para ele foi Wolfgang Flür. O quarto elemento, Karl Bartos, não deu tantas informações mas fez a apresentação do livro, que traz muitas fotos das diferentes épocas: de 1970 a 2012.
Para os quem não conhecem, os principais álbuns (podem ser ouvidos via You Tube) do grupo são: "Autobanh" de 1974 (uma viagem "ambiental" pelas auto-estradas alemãs), "Radio-Activity" de 1975 (experimentos hipnóticos diversos), "Trans-Europe Expess" de 1977 (também "viajante" e cheio de melodias inesquecíveis), "The Man-Machine" de 1978 (uma dançante apologia espacial ao "homem-máquina") e "Computer World" de 1981 (mais uma obra-prima que influenciou tudo que viria a ser feito nos anos 1980 e 1990).
Eu gosto de Kraftwerk mas não é uma música que qualquer pessoa admira. Está longe dos padrões Pop-Rock vigentes ontem e hoje.
É uma música mais próxima dos minimalistas e é provavelmente um tipo de som que gênios do passado estariam fazendo hoje. Mesmo assim suas melodias simples ao extremo conseguem capturar uma legião de fãs, mesmo os não iniciados aos mistérios desses robôs germânicos.
Recomendo o livro e os discos citados. Mesmo que for só por curiosidades do tipo: até que ponto as emoções são primordiais e se é possível ficar à margem delas, como androides sem sentimentos?
Um ponto primordial para entender a existência do fenômeno Kratfwerk: só existiram por causa da história da Alemanha no pós-guerra. Leiam o livro e entenderão.





sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Morando em si mesmo (ou em um bar à beira-mar)

Comecei este fim de semana (sim, o fim de semana começa na sexta, é claro!) lendo a seguinte frase poética de Mario Quintana: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas." Foi citado pelo escritor - ligado em meditações diversas - Pedro Tornagui, acompanhado desta foto aqui ao lado, de uma casinha perdida em uma agradável floresta.
Verdade que tá cada vez mais difícil "morar em si mesmo", com licença poética ou não.
Aliás o feriadão é um convite à tese contrária: pegar avenidas e estradas engarrafadas em direção à praias e, eventualmente, serra. Uma perda de tempo que sou adepto.
Mas a sexta apresenta-se nublada e eventualmente chuvosa.
Talvez o feriadão permaneça com muitas nuvens e a tradição do dia de finados chuvoso se cumpra, o que hoje já seria uma exceção: tradições (mística) e meteorologia (ciência) não tem se combinado ultimamente.
Mas, na maioria das vezes - desconfio - por falha na ciência, que não entende o comportamento do tempo na era do aquecimento global. Provocado, quem sabe, pela "ciência" humana.
Valha-nos então o caminho xamânico ou de qualquer filosofia ou religião. O transcendental fica sendo a nossa esperança de salvação ainda aqui na terra e não apenas do lado de lá.
Se chover mesmo, talvez fique em casa. Quem sabe possa então ter uma sobra de tempo para pensar no citado verso do Mario Quintana.
Afinal, viver para o que está no exterior é hoje o padrão. Não nos resta muita opção com tantas obrigações, pressões e necessidade insana de informação e de grana para pagar o status quo.
Correndo contra o tempo, não sinto o tempo passar nem me sinto presente no instante presente. E a vida passa e eu não vejo. Perdi o bonde. Ou o trem.
E quando tenho tempo livre, preciso desestressar - destemperado que estou - seja na serra, seja no mar, seja no bar.
Mas e se eu ficar mesmo no lar e não viajar? Ganho então tempo para ler, conversar com a família e mergulhar nos "meus discos e livros e nada mais", mesmo que não seja uma casa no campo.
E, se cair uma chuvinha, ver as gotas batendo na palmeira que fica em frente à janela de minha sala.
Mas "morarei em mim mesmo"? Não. Não tenham essa ilusão. Nenhum de nós (não trata-se aqui de citação ao antigo grupo gaúcho de pop-rock). Talvez monges budistas.
Do lado de cá, do Ocidente, continuamos abastecendo o carro, reformando a cozinha, comprando uma camisa nova no shopping, incitando ou tentando fugir do ódio nas redes sociais, reclamando do sinal fraco no smartphone e respondendo as mensagens instantâneas em nossas dezenas de grupos do WhatsApp. E trabalhando. Muito.
Como então se voltar para esse estranho ser que somos nós mesmos?
Talvez tenhamos que retornar no tempo ("De Volta para o Passado"), dos nossos pais e avós.
Desligar o celular e, na segunda-feira, dia 2, ir ao cemitério e lá fazer uma meditação.
Enquanto ainda estamos por aqui.
E esperar que nossos filhos e netos se lembrem de nós no futuro.
Se é que isso tem alguma importância agora.
Mas escreveria isso tudo se o tempo não estivesse nublado?
E se estivesse aquele sol de rachar, pedindo um deslocamento para o meu balneário preferido, cheio de bares (e chopps) de frente para o mar?
Neste caso provavelmente tentaria no máximo uma filosofia de boteco... no próprio!
E deixaria pensamentos grandiosos sobre o que temos feito de nossa vida para um próximo período frio e chuvoso. Como os grandes filósofos do norte europeu. Neste caso todos os caminhos levariam à Munique, Berlim ou Düsseldorf. Mas nunca a Ipanema, Búzios, Rio das Ostras, Grussaí ou Guarapari.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A dura decisão da Playboy americana e as impressões que isso me causou

Ando meio desanimado para escrever as minhas crônicas semanais aqui no Impressões e no Blog de Luiz Felipe Muniz.
Leve depressão? Não. Falta de tempo. Na verdade deve ser é falta de criatividade. Ou incapacidade mesmo.
Então tá. Sobre que tentarei escrever?
Enquanto penso dou uma olhada no Face. E em alguns sites.
Como sempre, ouvindo uma música ao fundo. Na madrugada, no CD player, não rolava um Blues, mas o som Smotth Jazz do Matt Marshak, CD "Lifestile". Vejam (ou já vão ouvindo) ele lá no final deste texto.
O título do disco acende a primeira luz do que poderia ser um tema.
A segunda luz veio de um post feito pelo amigo Betinho, sempre alegre, gaiato e crítico, sobre tempos passados versus tempos presentes: "Sabe porque eu sou feliz? Porque curti, mesmo novinho, o final da década de 60 do século passado. E eu curti pra 'caráleo' a geração da década de 70. E curti pra cacete a geração da década de 80. E curti pra caramba a geração da década de 90. Aí veio o ano 2000 e fudeu tudo. Tudo politicamente correto. Chato pra cacete. Mas to vivendo feliz... Até que essa chatice acabe...".
Huummm... Acho que isso não é apenas filosofia de boteco não. O amigo anda com razão.
Continuo minha navegação e me deparo com uma notícia bombástica: A Playboy americana não vai mais publicar foto de mulher pelada (ok, nuas, despidas...)!
Como assim?
Preciso de um tempo para tentar entender esta pauta bomba.
E aí já conectei a notícia com o post do Betinho: a Playboy estaria tentando ser "politicamente correta" ao eliminar as beldades nuas de suas páginas?
A bem da verdade este é - historicamente - um tema polêmico, uma vez que feministas sempre acharam essa questão de posar nua como sendo um insulto à mulher, um resultado da sociedade "machista-patriarcal" que transforma mulheres em objetos.
Nunca concordei com isso. Só concordo que não se deve existir uma ditadura de um padrão de beleza. No mais, posa quem quer, compra a revista quem quiser. E é sim uma homenagem às mulheres e à sensualidade.
A suposta rendição da Playboy seria portanto uma vitória do que chamávamos (nos bons tempos) de pura caretice (destes maus tempos citado pelo Betinho).
Ao longo de décadas (ok, principalmente na adolescência e pós), acompanhei com afinco as selecionadas da Playboy brasileira. E misturava meus ideais políticos com a sensualidade emanada daquelas imagens via Che Guevara: "Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás".
Mais recentemente mantivemos nos dois blogs a seção "Musa da Semana", onde a homenageada não se destacava pela utilização de muitos panos. Sempre foi a seção mais aclamada.
Mas... e agora, com essa guinada "politicamente correta" da lendária Playboy, nossa principal referência?
Admirar a beleza feminina, maior criação Divina, é quase um "Lifestile". Estaremos condenados ao patrulhamento de forças reacionárias?
No entanto, ao que parece, não é bem o caso. Tem mais a ver com a diminuição do faturamento da revista porque ninguém tava comprando para ver mulher pelada: tem mulher pelada à rodo na Internet. Daí faz-se necessário uma adaptação na linha editorial para que ela não quebre de vez. Ou não amoleça definitivamente.
Mas um assunto antológico desse precisa de maior tempo de análise e maturação (ou 'maduração', segundo alguns interioranos e experts em trocadilhos infames).
Para quem não tinha assunto no início, agora considero o que escrevi até aqui como insuficiente ao tema.
Saio então à procura de alguém que tenha - este sim - escrito uma crônica definitiva. Demorei a encontrar, mas achei. Tinha que ser ele mesmo, o incomparável Xico Sá. Com seu humor, ironia e estilo, fez um texto primoroso sobre a decisão da Playboy.
Sem pedir permissão a ele reproduzo a seguir, com o link do El Pais, onde foi originalmente publicada.
Como o artigo não tinha imagens, coloquei algumas históricas capas da Playboy escolhidas à dedo, à mão, à língua, etc. para que fique mais ilustrado e ainda mais agradável de ler. Brincadeira. São musas citadas no próprio artigo.
No mais, que a Playboy brasileira não tome a mesma decisão. Ou então que se cumpra o que prega o Xico Sá! 
Post Scriptum:
- Atenção possíveis navegantes dos anos 2000 (aí Betinho!): grande parte do que escrevi acima e do que o Xico escreve abaixo, são formas de expressar com humor e ironia um fato. Brincadeiras sem atingir ninguém. Não me venham portanto com reprimendas politicamente corretas.
Uma vez, neste blog mesmo (procurem!), publiquei um texto picante de uma escritora; o post foi alvo de muitas críticas, algumas - curiosamente - impublicáveis. :)
- No início do texto, o nosso amigo faz uma bela homenagem ao querido Miele, como se estivesse conversando com ele, que sempre foi um grande admirador bem humorado da beleza feminina. 

Pornocracia: faça você mesmo a capa da revista
Ou como o amadorismo do sexo na Internet faz corar de vergonha e prejuízo os profissionais do mercado

Quando o sexo não é mais tabu: o ‘reset’ da revista ‘Playboy’
 "É, mr. Miele, chegou um futuro mais estranho que a ficção científica. Um tempo em que se consome café sem cafeína, cerveja sem álcool, bolo sem açúcar, moela gourmet, feijoada completa light e Playboy sem mulher pelada. Até a couve, pasme, fugiu de alguns pratos típicos e virou suco detox... E a gente ainda não viu nada.

Repare que mesmo o final de relacionamento, amigo, não tem mais lágrimas, se acaba namoro até por uma lacônica mensagem de texto ou por um emoticon sem graça, uma carinha de bunda ruborizada usando os óculos escuros da covardia amorosa. Acontece, rola sim, mas antes que confundam este libelo em defesa da vida intensa com supostas ideias mofadas, vamos focar, meu velho Miele, apenas no caso da revista e da ideia atualíssima de erotismo.

Espere aí, obediente leitor(a), não mande nudes agora, reflita com a colega Milagros Pérez Oliva, que escreveu sobre o assunto neste El País: “Em tempos de Internet, o sexo já não é mais tabu. O erotismo, expresso em forma de nu feminino mais ou menos artístico, está em baixa, varrido por uma pornografia descaradamente explícita que está ao alcance de qualquer um”.

Pode ser. Não vejo, todavia, esse cenário como negativo ou nada apocalíptico. O nu agora é infinitamente mais democrático. A pornocracia, pelo menos nos campos virtuais, vingou de vez. Toda nudez será publicada e amostrada, tio Nelson. Não mais propriedade exclusiva da estrela na capa da revista. É, de certa forma, a vingança do amadorismo e a quebra do padrão da gostosa-celebridade.
Palavra de um amante radical de Playboy que viu suas próprias mãos ficarem peludas, qual o truque de espelhos da Monga, nestes 40 anos da edição brasileira. Agora mesmo folheio na memória as Moniques, Lumas, Isadoras, Ísis, Veras, Bárbaras, Closes, Maitês, Brondis, Julianas, Sônias, Sabrinas, Tiazinhas, Feiticeiras, Cléos, Negrinis, Xuxas, Ohanas, Brunets, Galisteus...

Vista a roupa, meu bem
Ousada a decisão da matriz norte-americana de fazer uma espécie de strip-tease ao contrário nas suas páginas. As mulheres aparecerão vestidas. Em meio a tanta fartura de erotismo e pornografia no cabaré da Internet, pode ser revolucionário –a Playboy gringa sempre foi muito tesuda também de conteúdo. A versão tupiniquim, que também enfrenta crise de disfunção eréctil-econômica, ainda não decidiu se tomará o mesmo destino gutenberguiano. Que nunca broche de vez.

Agora sim, pode soltar a primeira peça de roupa, leitor(a). Tenha cuidado, porém, para não vazar na rede a nudez. Sem julgamento moral, por favor, afinal de contas, a pornografia é o erotismo dos outros -quando se passa na nossa casa, chamamos de erotismo; na casa do vizinho, julgamos pornografia pura. Não é questão de estética ou gosto. É, para variar, a patrulha moral do bairro chamado mundo. Viver é uma ideia provinciana, esteja você em Nova York ou em Cajazeiras, Paraíba.

Viva a imaginação
A Playboy, nas suas versões multinacionais, poderia incentivar, na contramão da ansiedade pelo sexo explícito e imediato, o exercício da imaginação que estamos perdendo. Principalmente os homens. De todas as faixas etárias.

Creio, na minha teoria de Sigmund Freud de boteco, que a facilidade do acervo erótico diminuiu a nossa capacidade de criar historinhas, inclusive nas sessões masturbatórias.

Estamos perdendo o fio do enredo nesses momentos profanos e sagrados. A morte da punheta de autor ou autoral, como diria, em um delírio típico dele, o genialíssimo messiê Lacan.

Último pedido
Digamos que a Playboy brasileira, amigo(a), decidisse seguir a matriz. Pura viagem, nada baseada em fatos reais, caríssimo Sérgio Xavier, competente diretor de redação aqui nos trópicos. Divaguemos mais ainda: quem você escolheria, leitor, como a mulher dos sonhos -vale qualquer uma mesmo!- para ser a capa derradeira? Favor evitar repeteco. Vamos sonhar um sonho inédito e alto, como estivéssemos nos tempos dos cachês milionários. Quem?

A Vanessa Giácomo, a Tóia da novela “A regra do jogo”? A Bruna Linzmeyer, Nelita Stewart no mesmo folhetim televisivo? Quem sabe uma criatura da novela “Os dez mandamentos” –você sabia que a Bíblia é considerada um dos livros mais eróticos da humanidade? Por que não uma anônima rainha dos nudes de redes sociais? A sua própria garota, quem dera, como na profética música “Revista Proibida” de Odair José?

A utópica Fernanda Lima totalmente “Amor & Sexo”? A lolita de “Verdades Secretas”? Uma intelectual como apostou o último calendário Pirelli? Seja quem for a escolhida, o fotógrafo sou eu quem indico: J. R. Duran, óbvio, este sabe da arte de mirar uma fêmea.

Não se limite ao possível. Pode dizer de boca cheia Camila Pitanga, mesmo que ela esteja longe de topar a missão. A Tainá Müller? Sim, vale sonhar sempre. Taís Araújo? A Trip deu primeiro, gozaria, na buena onda, o diretor Paulo Lima, revigorando um slogan clássico da sua revista.

Faça sua aposta, agora curta os nudes amadores à vontade e bom final de semana."


Xico Sá:
Jornalista.
Comentarista do programa “Papo de Segunda” (GNT)
Autor de “Os machões dançaram – crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões” (editora Record), entre outros livros.



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O sonho que tive e seu possível significado (sem recorrer a Freud)

Um ônibus no sonho?
Tenho sonhado ultimamente.
Pode não significar nada que mereça um registro aqui e vocês - meus 17 leitores - estarão certos. Mesmo assim me arrisco a escrever sobre isso. Ainda que com a possibilidade dos 17 se reduzirem a 7.
Dizem que sonhamos sempre. O cérebro não para. Mas na maioria das vezes não nos lembramos. Ocorre que ultimamente tenho me lembrado. Pelo menos em flashes. Não sei se tem ocorrido com vocês isso também.
Na última noite sonhei que estava em uma excursão. De ônibus. Na verdade íamos a um casamento. Em Brasília. Nos arredores de Brasília. Meio distante do centro.
As casas eram de classe média, muito espaçadas uma das outras e eram longe de tudo. Pensei que não deve ser legal morar tão distante de um centro urbano.
Aí me questionei: o que pensa um morador de Nova Yorque sobre quem mora em uma distante cidade de porte médio no Brasil? Ou o que pensa um morador de Ipanema sobre um morador do Irajá? Ou, ao contrário, o que acha quem fugiu dos centros urbanos e está lá longe, na roça, na natureza?
Nem pensam né?!
Não me lembro quem estava na excursão. Nem porque a cidade era Brasília. Nem de quem era o casamento.
Aí tentei montar o quebra-cabeças, já acordado, pois perdi o sono lá pelas 4 da madruga.
Vi noticiários de Brasília antes de dormir. Aliás qualquer noticiário parece só falar o tempo todo da cidade. Da cidade não. Do Congresso e do Planalto. Haja saco.
Também antes de dormir soube que meu irmão parte hoje em um ônibus fretado pelo grupo de amigos motociclistas para o Salão Internacional de Motocicletas em São Paulo (Salão Duas Rodas 2015).
Fora o fato de fazer uma mini-viagem de ônibus fretado todos os dias, pois trabalho em uma cidade vizinha.
Sobre casamentos, devo ter visto ou ouvido alguma coisa a respeito no mesmo período. Aí se juntou tudo.
O fato é que me dei conta de que há séculos não faço uma excursão com amigos. Isso foi relativamente comum na época de jovem estudante, lá em um distante subúrbio carioca.
Depois teve uma, para João Pessoa, já nos tempos do coral da Escola Técnica.
Desconfio que exista apenas um significado para este sonho: talvez eu esteja querendo voltar àqueles tempos mais simples, calmos e gostosos. Unir duas coisas boas: viajar e estar ao mesmo tempo com amigos, sem maiores compromissos.
Hoje à noite meu irmão vai "reativar" essa experiência ao entrar no ônibus e rever a galera das motos. Talvez essas coisas simples é que sejam o melhor da vida.
Quanto ao sonho, me esqueci do resto. Vamos aguardar a próxima madrugada. Tomara que não seja um pesadelo. E chega de Brasília!

Em tempo: Sigmund Freud publicou em 1900 um livro chamado "A Interpretação dos Sonhos". Passados 115 anos, ainda não existe uma conclusão precisa sobre o tema. Faça você também sua própria interpretação. Isso se lembrar de algum. E quanto mais "viajante", melhor!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

La Barca e a história do sexo na praia (reminiscências de um cubano)


Ler sempre esteve entre meus hábitos cotidianos, desde que me entendo por gente. E ouvir e colecionar músicas.
Nunca fui de escrever (bem), muito menos de criar músicas, mas me insiro quase que automaticamente em uma boa história ou numa linda canção de outros.
Alguns autores conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo, escrevem como se fosse música, fazem música como se contassem uma história (mesmo que não tenham letras).
Recentemente descobri um escritor cubano que, com suas reminiscências e análises do cotidiano masculino, conta coisas simples que me soam como pequenas canções. O nome dele é Fabio Hernandez, que publica no site Diário do Centro do Mundo.
Reproduzo a seguir uma de suas histórias. E, como ele escreve por música - e nesse caso cita uma - resolvi reproduzir a canção mencionada ao final, o belo bolero "La Barca".


O melhor sexo de minha vida.
Por Fabio Hernandez

"Juanita estava de amarelo naquela noite quente e estrelada de Cuba. Um vestidinho leve, barato, que parecia um manto de rainha naquele corpo majestosamente moreno de seios miúdos jamais reprimidos por sutiãs.

Juanita achava que se depilar era coisa de mulher burguesa, mas quase não se notavam seus pelos pelo efeito do sol, e também por serem poucos e discretos.

Eu gostava quando ela erguia os braços para fazer coisas como arrumar os cabelos num rabo de cavalo. Vislumbrava por instantes fugidios aqueles quase invisíveis pelos rebeldes sob seus braços fortes de mulher cubana, acostumada desde cedo a trabalhos manuais que mulheres de outras partes costumam delegar a empregadas.

Andávamos pelas areias mornas da praia. Ou melhor, vagabundeávamos. Falávamos sobre tudo e falávamos sobre nada, e nisso gastávamos horas.

Éramos nosso assunto predileto, como costuma ocorrer com amantes em seus primeiros tempos.

Já estava prestes a amanhecer quando nos sentamos na areia para descansar. Ficamos por alguns momentos calados, olhos para o mar verde-azulado e ouvidos concentrados no canto das gaivotas.

Havana dormia, menos nós.

E então Juanita, com aqueles olhos esverdeados que contrastavam tão lindamente com sua pele morena e salgada pelo mar, me endereçou um convite sem palavras, silencioso como os grãos mornos da areia que nos acolhiam para um momento de descanso.

Era como se ela dissesse: “Vem, Fabio. Toma posse do que já é e sempre será teu, agora e pela eternidade.”

No próximo instante, eu já estava dentro de Juanita.

Ela entendeu o significado do olhar que enderecei para a praia deserta.

“Fabio”, ela disse. Não, ela gemeu. Ela gemia palavras, em vez de dizê-las, quando metíamos. “Se aparecer alguém, não para.”

Não era uma recomendação. Era uma ordem, e a última coisa que eu faria naquelas circunstâncias era desobedecer Juanita.

Refreei o impulso de esguichar minha semente nela enquanto não a vi gozar daquele jeito que era só dela, um sorriso de Mona Lisa nos lábios, os olhos fechados e apertados, o ar de infinita satisfação que só uma mulher em pleno orgasmo é capaz de ter.

Ela fez então o que sempre fazia nessas ocasiões. Passou os dedos em sua virilha molhada de minha semente. Levou os dedos primeiro à ponta do nariz arrebitado e depois à boca.

“Adoro seu cheiro de homem, e o seu gosto de macho”, murmurou.

Antes que amanhecesse, e que pessoas aparecessem na praia, tivemos tempo ainda para nos banharmos no mar morno, sob uma lua cheia que iluminava como nunca a beleza morena de Juanita.

Pouco depois, Juanita partiu de Cuba, levada pela possibilidade de enriquecer em Miami.

Durante algum tempo trocamos cartas, mas elas foram se espaçando, e diminuindo na extensão, até desaparecerem.

Ainda agora, quando ouço La Barca, é nela que penso, não com dor, não com amargura, mas com gratidão.

Hoy mi playa se viste de amargura,

Porque tu barca tiene que partir

A cruzar otros mares de locura

(Cuida que no naufrague en tu vivir)

Cuando la luz del sol se esté apagando

Y te sientas cansada de vagar,

Piensa que yo por ti estaré esperando

Hasta que tú decidas regresar.

Tantos anos depois, e tantas mulheres depois, lembro com detalhes este que foi o melhor sexo de minha vida, e tolamente agradeço ao Deus no qual não acredito por um dia ter colocado Juanita no meu caminho."

domingo, 13 de setembro de 2015

Musa da Semana (especial): Gisele Bündchen

Ao longo de muitos anos lá no Blog do Luiz Felipe Muniz, tínhamos todas as sextas-feiras a requisitada seção "Musa da Semana".
No momento suspendemos esta rotina mas a série não foi encerrada. Eventualmente reaparece, sem uma sequencia, desde que o tempo nos permita e haja algo realmente especial.
Bem, nesse último item, sempre tem alguma coisa especial, convenhamos.
E o que motivou este foi o lançamento anunciado pela Taschen, maior editora de livros de arte do mundo, sediada na Alemanha. Na Bienal que está sendo realizada no Rio a Taschen trouxe uma amostra da edição que vai ser lançada mês que vem: um retrospecto fotográfico da nossa querida Gisele Bündchen, a top das tops nos últimos 20 anos.
No livro haverá imagens inéditas e outras já famosas.
O objetivo é comemorar as duas décadas da carreira da brasileira mais famosa da atualidade com mais de 300 fotografias registradas por respeitados fotógrafos ligados à moda, como Irving Penn, Mario Testino, David Sims, Paolo Roversi, Peter Lindbergh, Mert & Marcus entre outros.
No total, mais de 500 páginas de Gisele!
O problema: a edição de luxo em inglês é limitadíssima. Apenas 2.500 cópias. E o preço, salgado, possivelmente algo em torno de R$ 2.300,00. Então já viu que não vamos comprar, né?!
O jeito é fazer a nossa própria homenagem aqui, selecionando algumas fotos que provavelmente estarão nas páginas do livro - para poucos - da Taschen.

P.S.: Não entrarei aqui em detalhes sobre a fase atual da vida particular dela. Os sites de fofocas já dão conta disso.

E viva Gisele!















quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Improvisando Soluções (ou: como o Jazz - e a música - pode ajudar sua vida)

Da série do blog "The Book Is On The Table"
Tenho lido menos livros do que gostaria. E visto poucos filmes em relação ao meu interesse. E tem muitos CDs e LPs nas estantes pedindo para serem ouvidos com calma. E o motivo é o mesmo de sempre: o tempo consumido com deslocamentos, trabalho e obrigações diversas me impedem de realizar o desejado. Poderia incluir ainda viagens (neste caso soma-se a questão financeira, nem sempre favorável), atividades físicas, encontro com amigos, etc. Mas não estou reclamando. Só registrando um fato que, desconfio, está afetando muita gente atualmente.

No entanto o post é para comentar brevemente um livro. Condições adversas na saúde (forte estiramento muscular ainda em recuperação) me afastaram por algum tempo do trabalho e, no repouso, andei atualizando algumas leituras. Pelo menos isso, né?!
Pesquisando em uma dessas livrarias virtuais me interessei pela obra "Improvisando Soluções" (2006) e encomendei, mais até pelo seu autor, de quem já tenho os livros "Rock: do Sonho ao Pesadelo" (editado em 1984), "O que é Jazz" e "Rock, da Utopia à Incerteza" (também dos anos 80). Livros que se referem à música sempre despertam meu interesse.

O nome dele é Roberto Muggiati, um curitibano que ganhou o mundo fazendo jornalismo musical (eventualmente político) e escreveu dezenas de livros. O que me chamou atenção nesta obra é que ele se propunha a unir dois temas bem diferentes: histórias interessantes da vida dos grandes nomes do Jazz e, ao utilizar esta "ferramenta", mostrar o Jazz "como exemplo para alcançar o sucesso". Auto-ajuda? Mais ou menos. Dicas e comentários para o leitor prestar atenção nos exemplos de vida. Sucesso neste caso não definido como o tripé clássico da nossa sociedade, medido do ponto de vista materialista: fama, dinheiro e poder. Sucesso no sentido de "satisfação espiritual, qualidade de vida, amor a si mesmo e aos outros, respeito à natureza e o prazer de fazer aquilo de que se gosta". Nesta linha, ao apresentar fatos específicos das biografias jazzísticas, aproveita e levanta temas como "abraçando o acaso", "usando a imaginação", "superando adversidades", "agilizando a mente", "rompendo barreiras", etc.
Uma boa dica

Para isso se utiliza de diversos conceitos apresentados ao longo da obra, como do "eu mínimo", formulado pelo psicólogo Christopher Lasch no livro "The Minimal Self": "Numa época carregada de problemas, a vida cotidiana passa a ser um exercício de sobrevivência. Vive-se um dia de cada vez. Raramente se olha para trás, por medo de sucumbir a uma debilitante nostalgia; e quando se olha para frente, é para ver como se proteger contra os desastres que nos aguardam. Em tais condições, a individualidade transforma-se numa espécie de bem de luxo, deslocada numa era de iminente austeridade. A individualidade pressupõe uma história pessoal, amigos, família, uma sensação de se estar situado. Ameaçado, o eu se contrai num núcleo defensivo, em guarda diante da adversidade. O equilíbrio emocional exige um eu mínimo, não o eu soberano do passado."

Curiosamente, Muggiati faz algumas confissões, como quando conta em detalhes, uma vez em Paris, quando pensou em suicídio. É no capítulo cujo título é revelador "O Jazz salvou a minha vida": Quando troquei Curitiba por Paris, minha cabeça estava cheia daquele amor romântico-existencialista dos filmes em preto-e-branco da nouvelle vague. Envolvi-me com uma baiana desarraigada, alguns anos mais velha que eu, que tinha um caso complicado com um francês muito rico e me usou como peça no tabuleiro amoroso para provocar ciúmes no amante. Atirar-me nas águas frias do Sena foi o plano final que se formou na minha cabeça; depois de dois dias bebendo vinho barato e remoendo a perda da minha baiana, tomei a direção do rio. Ao sair do hotel, parei de repente. Ouvi um som que se projetava da janela fracamente iluminada de um prédio na vizinhança. 
Paris à noite e o Rio Sena 
Lento e suave, um saxofone tenor tocava "Round About Midnight", de Thelonious Monk, a mais bonita melodia do jazz. Fiquei petrificado na rua de paralelepípedos, escutando aquele saxofone solitário que se insinuava no silêncio da noite parisiense. Aos poucos, com a música se perdendo à distância, tomei o rumo oposto e caminhei para as luzes do boulevard Saint-Germain, onde fui repensar a minha vida sentado num restaurante de calçada diante de uma travessa de ostras frescas e de uma taça de vinho branco gelado. O francês é sábio: não há chagrin d’amour que resista ao instinto do bon goûter. O projeto de suicídio foi adiado — com relativo sucesso — até hoje, 46 anos depois. A propósito, o anjo salvador foi o saxofonista Barney Wilen, que morava por ali e havia tocado até com Miles Davis.

"Improvisando Soluções" tem 300 páginas e está em catálogo pela Best Seller, do Grupo Editoral Record. Preço: R$ 30,00.
O autor na década de 80
Sobre o autor: Roberto Muggiati nasceu em Curitiba e é jornalista desde 1954. Trabalhou na BBC de Londres nos anos 1960 e foi editor de MANCHETE, FATOS&FOTOS e VEJA. Publicou diversos livros, entre eles e MAO E A CHINA, ROCK: O GRITO E O MITO e A CONTORCIONISTA MONGOL. Saxofonista bissexto, aprendeu com o jazz que não existe beleza maior do que o "som da surpresa" e que a vida não passa de uma grande improvisação.

Sobre o livro: Modelo de improvisação por excelência, o jazz legou ao mundo um número extraordinário de talentosos artistas. Em IMPROVISANDO SOLUÇÕES, Roberto Muggiati comenta como tudo começou e apresenta pequenas biografias das estrelas jazzísticas, recheadas de curiosos e impressionantes exemplos de como as soluções podem ser encontradas. Nesta obra, você descobrirá o que Louis Armstrong, Billie Holiday, Hermeto Pascoal, Sonny Rollins, João Gilberto, entre outros, têm a ensinar sobre superação.



No entanto, para quem acha que Jazz é coisa do passado, que tal saber que ele está mais vivo do que nunca, com festivais em todas as partes do mundo e lançamentos de coisas novas, como este da Ambient Jazz Esemble, ótimo CD com sonoridade moderna, editado em 2015?!



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Chillout, Downtempo, Ambient, Lounge: novas formas de fusão musical para novos tempos


Como fazer uma música que seja calma e relaxante, que nos ajude como fundo musical nesses tempos corridos, mas que não seja necessariamente 'sonolenta'? E que possa ser usada até mesmo para dançar e, se o ouvinte assim o quiser, também para 'desestressar'? Ou para ouvir enquanto lê um bom livro ou navegar na Internet? Ou apenas para deitar no sofá e deixar rolar?

A reposta está no uso da eletrônica, na escolha do ritmo correto, na busca de 'batidas' ora ancestrais, ora baseadas em folk music e em ideias desenvolvidas fora do eixo anglo-americano, como Bossa-Nova, por exemplo. Mas o Jazz e o Pop e suas diversas correntes normalmente não estão descartadas.

O resultado conseguido por produtores e músicos deram em gêneros musicais batizados com diversas denominações, como Chill-Out, Downtempo, Ambient Techno, Dub, Lounge, Jazzy, Nu-Soul, Trip-Hop, etc. Esses rótulos guardam diferenças entre si, muitas vez não muito perceptíveis.

Normalmente são utilizados instrumentos acústicos junto com os eletrônicos, ou as vezes são músicas produzidas diretamente no computador com a ajuda de ferramentas musicais diversas. Podem ser somente instrumentais ou ter uma cantora como convidada.

Selecionei quatro músicas de grupos-músicos-produtores diferentes bem atuais (desta vez nada dos anos 1970, ok?!) para ilustração do que descrevo aqui: o alemão Jens Buchert, o italiano Il Santo, o franco-alemão Club des Belugas e o germânico-americano David Douglas.

Com tanta coisa negativa rolando por todos os lados, vale a pena abrir espaço na agenda para uns sons leves e sensuais para levantar um pouco o astral (epa! Atualizei os estilos e as músicas, mas parece que a linguagem não: "astral" é coisa da década do Movimento Hippie!).

Enjoy.








sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Abbey Roça

Devido a motivos de "força maior", tive que me deslocar esta semana até uma área periférica da cidade. Um local distante uns 40 km da área central.
Fazia muito tempo que não ia para aquelas bandas.
Ao longo da RJ-216 conhecida também, em tempos mais antigos, como Estrada do Açúcar, se enfileiram diversos Distritos, que nada mais são do que bairros desconectados da continuidade da área urbana.
Pensei que, depois de tanto tempo, aquelas antigas vilas estivessem minguado, muitas talvez fossem hoje "fantasmas" de um rico passado de usinas de açúcar que não existem mais.
Me surpreendi. Continuam não sendo metrópoles, afinal essa não é mesmo sua vocação. Mas, de forma tranquila, a vida pulsa à beira da rodovia e nas estreitas ruas transversais que costumam avançar por algumas dezenas de metros e morrer subitamente em frente à um pasto, canavial, beira de rio ou matagal.
Como não estou podendo dirigir - uma distensão em músculos da perna vai me deixar 'de molho' por um bom tempo - minha esposa foi dirigindo, o que me proporcionou a oportunidade de ficar olhando as paisagens interioranas.
No carro uma suave música instrumental, smooth jazz, servia de trilha sonora para o que eu observava: pequenas casas coloridas, espaços abertos sem casas, trechos com eucaliptos, com pastos, lacunas abertas no tempo e no espaço. Em muitos momentos, nenhuma viva alma, nenhum animal, apenas a estrada serpenteando por entre o verde.
Apesar de estarmos no inverno, o dia estava outonal. Embora a distância não fosse tão grande, tivemos momentos de tempo nublado, sol e chuva simultaneamente, com direito à arco-iris fazendo uma espécie de ponte aérea acima de nós.
A temperatura amena, luminosidade ideal e pouco tráfego na estrada complementavam o conjunto de fatores que transformaram aquela obrigação em momentos agradáveis.
No retorno, pela mesma rodovia, por volta da 11 horas da manhã, paramos em um pequeno vilarejo, tradicional da região por ter ali a Igreja do santo padroeiro de toda aquela extensa área que é extremamente religiosa.
Mesmo sendo uma terça-feira de manhã, a pequena e simpática igreja estava com suas portas abertas. Acho que ela fica aberta a semana toda. Entramos para meditar um pouco. Fazer orações de agradecimento e de pedidos que são extensos, uma vez que nos lembramos dos nossos conhecidos. Na verdade parece que o mundo todo precisa de orações.
Simples, bonita e agradável, no interior havia apenas um jovem rezando. Segurava o chapéu nas mãos e estava de pé em frente às imagens de Jesus Cristo, Nossa Senhora e Santo Amaro.
Na saída nos cumprimentou com simplicidade.
Em uma sala anexa duas senhoras conversavam baixo. Deviam ser as responsáveis pela manutenção do templo.
Depois das orações retornamos ao carro. Não sem antes dar uma olhada no que víamos ao redor. Em frente, uma praça bem cuidada, com bancos de madeira e arbustos podados para fazer sombra.
Ninguém ali. Tranquilidade total. Nuvens no céu.
Ao lado da igreja um daqueles antigos coretos. Próximo ao coreto um fusca.
Deu vontade de ficar ali por um bom tempo, naquela pracinha interiorana.
Mas a dor na perna me obrigava a retornar para casa.
Quem conseguiu chegar até aqui deve estar se perguntando qual o objetivo de um texto que não diz nada, a não ser algumas observações simples, sobre uma manhã sem maiores emoções.
É que provavelmente não consegui passar o que estava sentindo: a necessidade de menos correria e pressões cotidianas e mais tranquilidade e contato com o natural, com o silêncio, com o espiritual.
Percebi isso na calçada da igreja, em frente à pracinha deserta.
Nada contras as urbanidades, mas elas, exclusivamente, não tem mais preenchido os anseios da maioria das pessoas. A bem da verdade elas não tem nem tempo de pensar nisso, ocupadas com o trânsito, o transporte, as exigências do trabalho, o estresse financeiro e as mensagens no celular.
De repente o dia já se foi. E a semana. E o mês. E o ano.
As pessoas precisam daquela igrejinha, dos arbustos da praça, daqueles espaços vazios à beira da estrada, de perceber o arco-iris no céu.
Entramos no carro e pegamos a rodovia. Logo havia uma curva no vilarejo e nela um quebra-molas e após o quebra-molas uma faixa de pedestres. Ninguém atravessava aquela faixa, mas minha esposa deu uma freada. Não entendi muito bem até que vi, acreditem, uma galinha carijó atravessando calmamente em cima da faixa. Sorri e pensei: se houvessem mais três eu saltaria do carro e bateria uma foto com o celular para fazer uma paródia da famosa capa do disco dos Beatles, "Abbey Road", onde os quatro atravessam a avenida.
Ainda pensando nisso, chegamos em casa e eu abri o Facebook algumas horas depois e não acreditei na coincidência: uma amiga havia postado na rede social uma imagem como eu havia imaginado! A diferença é que chamaram "Beatles Sertanejo". Eu nominaria "Abbey Roça". :)
"Abbey Roça"
Trilha sonora na estrada: Matt Marshak, CD "Lifestile" (ok, poderia ser Beatles também ou qualquer 'Rock Rural').